Veja: Como a conta do combate à crise será paga pelos brasileiros | Claudio Tognolli

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Poucos momentos da história guardam paralelos com a grave crise em que o planeta está mergulhado. Além dos gigantescos problemas de saúde, o confinamento praticamente compulsório provocado pela Covid-19 jogou na lona a economia global. Como se não bastasse, instabilidades sociais se avolumam, gerando ainda mais inquietação em um cenário já incomodamente tenso. Os economistas — e aqui não importa a doutrina que seguem — consentem que o momento exige expansão dos gastos públicos. Isso vem sendo feito pela esmagadora maioria dos países. No Brasil, as despesas criadas para combater o estado de catatonia causado pela crise já somam 320 bilhões de reais. Quando se juntam os adiamentos e isenções de impostos associados a empréstimos viabilizados por ações do Banco Central, o volume de recursos supera 1 trilhão de reais. No entanto, não é quanto o governo gasta ou deixa de gastar que fará um país sair vitorioso. O austríaco Peter Drucker (1909-2005), tido como um dos maiores gurus de negócios do século XX, preconizava que não é a capacidade de solução dos problemas que dá a dimensão dos bons resultados no combate a uma crise, mas sim a exploração de oportunidades que ela oferece. Até agora, o governo brasileiro tem se empenhado apenas em resolver os problemas, sendo que as perspectivas para alcançar benefícios mais duradouros despontam no horizonte.

Entender os mecanismos de financiamento que prometem tirar o Brasil da crise econômica é tarefa de alta complexidade. Para isso é preciso avaliar detalhes dos gastos extraordinários destinados a salvar setores, segurar empregos e garantir uma renda mínima à população. É fato consumado que a carga tributária do país, que alcançou o recorde de 33,17% do PIB em 2019, não comporta o aumento da dívida advinda dessas novas despesas — ainda que sejam temporárias. A dívida superará 90% do produto interno bruto no fim deste ano, segundo cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal. Em um primeiro momento, a maior parte desses recursos virá da venda de títulos públicos a investidores, mas isso precisará ser pago no futuro. Em maior ou menor medida, todos os brasileiros precisarão arcar com um volume maior de impostos para estancar a sangria fiscal provocada pela pandemia.

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Quem perdeu o emprego ou foi obrigado a fechar seu negócio sentiu na pele de forma dramática o que todo o país sentirá nos próximos meses: o Brasil sairá mais pobre e mais endividado do que entrou na pandemia. Isso pode ser exemplificado pelos dispêndios já definidos para mitigar os efeitos do coronavírus sobre a economia. O total de 152,6 bilhões de reais gastos por meio do auxílio emergencial, por exemplo, será repartido por todos os contribuintes. Para evitar que todo o custo da crise sanitária recaia diretamente sobre o Tesouro, parte dos juros pagos pelo Banco Central ao governo financiará os auxílios a estados e municípios, que somam 60 bilhões. O mesmo expediente está sendo adotado para financiar 51,6 bilhões de reais referentes às medidas provisórias criadas para garantir a manutenção do emprego por meio da redução das jornadas de trabalho e dos salários. Por outro lado, o empréstimo de 15,4 bilhões de reais concedido pelo BNDES e por outros bancos para cobrir as perdas de receita das distribuidoras de energia será custeado pelos consumidores de eletricidade no futuro. Empresas de outros setores que acorrem aos cofres públicos em busca de socorro também repassarão a conta a seus clientes. É o caso das companhias aéreas Azul, Gol e Latam, que receberão do BNDES empréstimos de 2,4 bilhões de reais cada uma. Apenas os investimentos em saúde, que somam, 61,2 bilhões de reais, tiveram uma solução mais criativa. Apesar de impostos que incidem sobre as folhas de pagamentos e sobre lucros das empresas terem sido usados para compor as receitas necessárias, parte dos recursos virá dos pagamentos de outorga de novas concessões e das multas aplicadas pela lei anticorrupção.

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