Studart reconta Guerrilha do Araguaia e lança site sobre o tema: saiba o que ninguém jamais soube | Claudio Tognolli

O historiador e jornalista Hugo Studart está lançando um livro em que reescreve que  a resistência armada à ditadura militar: “Borboletas e lobisomens” (editora Francisco Alves, 660 pgs. R$ 79) traz revelações armagedônicas, que devem desagradar tanto aos militares quanto aos que louvam patrioticamente o esforço os integrantes da guerrilha do Araguaia – movimento armado que tentou promover uma revolução comunista no Brasil, entre 1967 e 1974, na fronteira entre os estados do Pará, Maranhão e Goiás, mas acabou sendo dizimado pelos militares.

Resultado de nove anos de pesquisa e do acesso a documentos secretos das Forças Armadas, o livro afirma, entre outras coisas, que:

  • Sete guerrilheiros dados como mortos na verdade negociaram sua liberdade com militares e sobreviveram, com identidades falsas;
  • uma guerrilheira se envolveu amorosamente com o sargento do Exército que a interrogou;
  • outra guerrilheira foi forçada a abortar pelos comandantes da guerrilha.

As revelações sobre os militares não são menos incômodas, incluindo episódios de barbárie, como o do guerrilheiro que teve o pescoço serrado enquanto ainda agonizava e o da guerrilheira que foi enterrada viva, sem falar na tortura e nas execuções sumárias de 22 prisioneiros.

Studart, um veterano de 40 anos de jornalismo nas costas, remeteu a este site o capítulo que considera o mais bombástico da obra. Ele também lançou um site sobre a pesquisa: www.guerrilhadoaraguaia.com.br

Leia o capítulo:

AO ENCONTRO DO PORVIR

A

Vida ou o Mundo como valor supremo? Para os guerrilheiros “eleitos”, os mais “preparados e corajosos” apontados por Osvaldão, a opção era pelo Mundo, segundo a definição de Hannah Arendt. Assim, aglutinaram-se em torno daquele gigante da resistência para lutarem até o fim. Pelo menos teriam uma morte épica.

Quanto aos “não eleitos” dividiram-se em dois grupos, cerca de quinze pessoas em cada um. Ninguém falava abertamente em fuga, apesar de Osvaldão os ter liberado, sem risco de justiçamento. Mas também não havia mais qualquer objetivo estratégico. Desde a decapitação de Ari, os guerrilheiros não protagonizaram mais qualquer ação organizada – nem de ataque, nem de defesa. Chovia muito. Eles já não tinham onde dormir. Nem o que comer.

Entre dezembro de 1973 e janeiro de 1974, nada menos que dezoito guerrilheiros seriam abatidos ou presos pelo Exército, de acordo com o documento secreto “Relação de subversivos que participaram da Guerrilha do Araguaia”, da Agência Central do SNI, de 14 de março de 1986, arquivado no órgão, sob o protocolo ACE 54730/86.

Esclareço mais uma vez que se trata do único documento oficial, timbrado, carimbado e assinado, que até a presente data veio à tona, com a relação completa dos militantes do PC do B que aderiram à Guerrilha do Araguaia, tanto os mortos e desaparecidos quanto os sobreviventes. Também apresenta a data das mortes ou prisões de cada um. Por fim, informa os números dos documentos arquivados no SNI que serviram de fontes originais da compilação. No meio dos guerrilheiros, encontram-se camponeses que aderiram à luta armada e que acabaram mortos ou presos na repressão ao episódio. Enfim, o documento oficial sobre o Araguaia mais relevante até a presente data.

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Uma semana depois de Ari, morreria Chicão. Nascido Adriano Fonseca Filho, era estudante de Filosofia da UFRJ. Trabalhava na burocracia de um tribunal, mas dedicava a maior parte de seu tempo a escrever peças teatrais. Era também ator. Nasceu em uma família presbiteriana em Ponte Nova, Minas Gerais. Aos dezessete, foi para o Rio, estudar. Morava com amigos intelectuais em uma “república” em Ipanema. Depois foi para o Leblon.

Chegou ao Araguaia com 25 anos. Renasceu como o Chicão entre os companheiros. Para os camponeses, contudo, aquele candidato a filósofo, dramaturgo e ator de queixo grande era o Queixada. Tombou a 3 de dezembro de 1973, aos 28 anos, surpreendido por uma equipe militar enquanto caçava jabutis. A patrulha, chefiada por um sargento de Manaus que usava o codinome de Dr. Silva[1], era guiada pelo mateiro Raimundo Severino, o Raimundinho da Pedrina.

Foi Raimundo quem teria acertado o tiro, de espingarda de caça, no peito de Chicão, segundo seu depoimento à pesquisa. Foi Dr. Silva quem teria lhe dado à ordem de tirar a cabeça do guerrilheiro com seu facão, de acordo com o relato oral do ex-guia. Seu corpo restou insepulto. Quanto à cabeça, foi cortada a golpes de facão e levada para a Base de São Raimundo.

A equipe entregou-a ao chefe de Operações do Sul, major Nilton de Albuquerque Cerqueira, codinome Faixa Branca. Dois anos antes, Cerqueira havia cumprido a missão de matar o capitão Carlos Lamarca, que desertara do Exército para fundar a VPR. Por isso gozava de grande prestígio junto aos generais comandantes e, principalmente, forte voz de comando na tropa. Assim que o Dr. Faixa Branca olhou a cabeça de Chicão, perguntou pelo corpo. Responderam-lhe que ficara na mata, insepulto. Furioso, mandou que a equipe retornasse ao local a fim de enterrá-lo.

“Ele não é um cachorro para ser comido pelos urubus.”

Esse episódio foi testemunhado pelo camponês Raimundo Severino, que estava na equipe que retornou à área para enterrar o guerrilheiro. Registro que Raimundo informou em 2011 ao GTT, coordenado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, estar disposto a tentar encontrar o local onde Adriano Fonseca foi abatido e enterrado. Assim, poder-se-ia “garimpar” a área na tentativa de encontrar os restos mortais do guerrilheiro. Ou, ainda, na pior das hipóteses, oferecer à família de Adriano a possibilidade de erguer uma sepultura simbólica. Contudo, até outubro de 2016, a expedição de busca não havia sido agendada.

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O próximo seria Zé Ferreira, nascido Antônio Guilherme Ribeiro Ribas, militante do movimento estudantil secundarista em São Paulo até cair na clandestinidade. Foi abatido 19 de dezembro, aos 27 anos por soldados do Exército em uma localidade chamada Formiga, ao sul de São Geraldo, PA. Ele e o guerrilheiro Daniel (Daniel Ribeiro Callado) aproximaram-se da casa de uma família de camponeses para pedir comida. Daniel conhecia a família.

Os militares teriam chegado logo depois e avistaram dois pratos sujos. Estranharam e decidiram aguardar em tocaia. No final da tarde, os guerrilheiros voltariam para o jantar. Zé Ferreira levou um tiro no peito. Seu corpo foi enterrado próximo à residência, a cinco palmos do chão – e lá provavelmente encontra-se até o tempo presente, aguardando ser resgatado e entregue à família.

Durante a pesquisa de campo no Araguaia, conheci o casal Juarez Custódio da Silva e Maria Idalice Dourada da Silva, dona Licinha. Na época da guerrilha, os dois eram adolescentes e moravam com suas respectivas famílias em posses de terras vizinhas. Zé Ferreira foi abatido na casa da família de Idalice. Mas foi o vizinho, pai de Juarez, quem cavou a sepultura em uma área com muitas pedras e cascalho, sob o testemunho do próprio Juarez. Ele guarda em suas lembranças que o pai escavou cinco palmos de terra, ou seja, uma sepultura com cerca de 1 metro de profundidade. O militar que supervisionava o trabalho mandou parar de cavar e enterrar; ele pediu para cavar mais dois palmos, como as covas cristãs, sete palmos. Mas o militar recusou-se a esperar.

No tempo presente, a antiga posse de terra está muito diferente de há quarenta anos. Na época, a floresta era densa. Hoje, toda a área foi queimada e desmatada para dar lugar a pasto. Isso dificulta a identificação do local exato da cova. Contudo, o casal Juarez e Licinha apontou duas áreas onde é possível encontrar os restos mortais de Guilherme Ribas – sendo uma delas mais provável. Foram demarcadas com GPS. É preciso, contudo, que as autoridades pertinentes escavem o local.

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Mais três dias e, a 22 de dezembro, chegaria a hora de Jaime. Nascido Jaime Petit da Silva, irmão dos guerrilheiros Lúcio (Beto) e Maria Lúcia Petit da Silva (Maria) era professor de Matemática e Física, além de estudante de Engenharia, até aderir à revolução. Foi encontrado sozinho em uma choupana de palha armada no topo de um morro, o Ponto dos Perdidos, usado pelos guerrilheiros para aguardar o resgate dos companheiros.

Ao avistar os militares, Jaime reagiu atirando. Chefiados por um sargento, os soldados foram subindo a colina e fechando o cerco. Jaime tombou cravejado de balas. Tinha 28 anos. Foi Iomar Galego quem o enterrou, na mesma colina. Antes, cortou sua cabeça. Dessa vez, a lâmina estava afiada.

“Foram só duas passadas de facão: tsk, tsk” – relata Iomar. “Tsk, tsk”, insiste na onomatopeia[2].

Em setembro de 2009, Iomar levou-me ao Ponto dos Perdidos, quando eu participava do Grupo de Trabalho da Presidência da República que buscava os corpos dos desaparecidos do Araguaia. Os geólogos do grupo chegaram a varrer o local apontado com uma máquina de escaneamento de solo, GPR, mas não identificaram indícios de cova rasa. Havia, sim, indícios de arado no solo. Assim, o mais provável é que os restos mortais de Jaime Petit da Silva tenham restado triturados e incorporados ao solo do Ponto dos Perdidos.

O derradeiro combate

No final da tarde do dia 25 de dezembro de 1973, ocorreria o último episódio que, tecnicamente, poderia ser chamado de “combate” – evento este que ficou conhecido pelo nome de Chafurdo de Natal. Chafurdo é a expressão usada na região para designar combate, confronto coletivo. Foram os militares quem deram esse nome ao evento. Assim consolidou-se. Cerca de três semanas após a decapitação de Ari, os guerrilheiros marcaram uma reunião geral perto do Grotão dos Caboclos, entre as localidades de Brejo Grande e Consolação. A reunião ocorreria logo depois do Natal.

Mais uma vez, discutiriam o dilema entre a retirada estratégica ou uma nova tática de resistência. Ou, ainda citando Arendt, a Vida ou o Mundo. Os militares souberam da movimentação por meio de algum informante local. Abel Honorato de Jesus, o Abelinho, velho companheiro de garimpo de Osvaldão, servia como guia do Exército. Teria sido o primeiro a identificar os rastros.

Enviaram uma patrulha da Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro, que estava sob o comando de dois oficiais, codinomes Dr. Pereira e Dr. Brito. Em minhas pesquisas, identifiquei que Dr. Brito é o então major Celso Seixas Marques Ferreira, que na ocasião servia na Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro. Atuava em contato direto com os guias. O rádio informou à Base de Bacaba, que mandou cercar a região com mais seis equipes: Alfa 1 e Alfa 2, Delta 1 e Delta 2; Índio 1 e Índio 2, segundo as lembranças de Abelinho. Às 17h30, a equipe do Dr. Brito encontrou guerrilheiros no Grotão dos Caboclos. Eram oito soldados e cerca de quinze guerrilheiros.

Dois camponeses serviam de guias. Um deles, Jacó Gaioso Soares da Silva; o outro, Matias[3]. De acordo com as lembranças de Jacó, quando a patrulha se aproximou do acampamento, os guerrilheiros estavam despreocupados. A tal ponto que Pedro Gil, ao escutar o barulho dos soldados, teria pensado que eram outros guerrilheiros chegando para a reunião.

“Ah, vocês já vem aí?” – teria dito Pedro, segundo as lembranças de Jacó. Ao ver que eram militares, Pedro abriu fogo de metralhadora.

“Ele matragou uns sessenta tiros. Quando Pedro Gil foi puxar o pente para outra carga, o Matias acertou no peito dele um tiro de 12” – relata ainda Jacó, tecendo referência à espingarda calibre 12, muito usada na época para caça de animais.

Pedro Gil, nascido Gilberto Olímpio Maria, tinha então 31 anos. Comandante do Destacamento C e integrante da seleta Comissão Militar, era um dos raros guerrilheiros a ter feito treinamento em guerra de guerrilhas na Academia Militar de Pequim, China.

Naquele chafurdo, também morreram Velho Mário, aos sessenta anos; Dr. Paulo, aos 42 anos, que também era membro da Comissão Militar e estivera na Academia de Pequim. Por fim, também tombou o jovem Luiz, aos 26 anos. Nascido Guilherme Gomes Lund, era estudante de Arquitetura da UFRJ e praticante de natação e hipismo até ir para o Araguaia.

Abates em série

A partir desse episódio, a guerrilha ficou sem comando central. Observando o outrora a partir do agora, como ensina Benjamin, é possível chegar à conclusão de que Osvaldo e Dina estavam à testa do movimento, que havia liderança, que apontavam juntos o rumo da resistência, ainda que não houvesse comando central formal. Contudo, para os próprios guerrilheiros, isolados na floresta, com um sistema de comunicação rudimentar, o Chafurdo de Natal representava que a guerrilha ficara acéfala.

E naquele teatro de operações, “assim é, se lhe parece”, ensina Pirandello[4]. Restava aos remanescentes à rotina de pular de esconderijo em esconderijo. Aos poucos, um a um foi sendo apanhado. Ou se entregando.

Antes de o ano-novo chegar, os militares pegariam mais quatro, de acordo com o documento secreto da Agência Central do SNI, ACE 54730/86: Amauri (Paulo Roberto Pereira Marques); Lauro (Custódio Saraiva Neto); Landim (Orlando Momente) e o camponês Luiz (Luiz Vieira de Almeida), recrutado na área.

Ainda nos primeiros dias de janeiro, logo após saber do Chafurdo de Natal, Joaquim (Ângelo Arroyo), vice-comandante das Forças Guerrilheiras e membro da Executiva Nacional do PC do B, conseguiria deixar o Araguaia. Seu guia na fuga foi Zezinho (Micheas de Almeida). Para os guerrilheiros, a fuga do vice-comandante Joaquim foi considerada uma deserção, uma traição.

Ao longo de janeiro de 1974, mais sete cairiam, ou mortos ou aprisionados. Pela ordem, ainda segundo o documento ACE 54730/86: Zé Ivo (José Lima Piauhy Dourado); o camponês Pedro Carretel (Pedro Pereira de Souza); Nelito (Nelson Lima Piauhy Dourado), que era irmão de Zé Ivo; Rosa (Maria Célia Corrêa); Manoel (Rodolfo Carvalho Troiano); Chica (Suely Yumiko Kanayama); e Simão (Cilon Cunha Brum).

Observo que esse documento do SNI não pode ser tomado como “verdade absoluta”. Depoimentos de camponeses e de militares apontam para datas ou épocas ligeiramente distintas das prisões ou das mortes de alguns guerrilheiros. Um exemplo disso são as circunstâncias da prisão de Cristina (Jana Moroni Barroso) e Nelito. Tanto narrativas de camponeses quanto de militares apontam que teriam sido presos juntos, em meados de fevereiro. Zé Ivo, irmão de Nelito, por sua vez, preso em fins de janeiro, só seria executado cerca de quarenta dias depois. No caso de Chica, depoimentos de camponeses apontam que teria sido presa entre fins de setembro e início de outubro. Contudo, o sentido geral dos acontecimentos é compreender que, após o Chafurdo de Natal, a guerrilha ruiu por completo.

Nos últimos dias de janeiro, teria início a execução de prisioneiros – prática de exceção que prosseguiria até o final da guerrilha.

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As quedas dos guerrilheiros foram praticamente iguais. Apanhados sozinhos tentando escapar da região, ou no máximo em duplas. Buscavam a Vida como Bem Supremo. Todos famintos, esfarrapados, corpos amarelos, acometidos de malária ou tomados por pústulas da leishmaniose. Aproximavam-se das casas dos camponeses para pedir comida. Quase todos fediam muito, segundo as lembranças dos camponeses. Então eram aprisionados pelos próprios moradores e depois entregues aos militares. Ou abatidos lá mesmo por tropas em tocaia.

Eliminação de dissidentes

Os prisioneiros começariam a ser executados em meados de janeiro de 1974, no ocaso do governo Médici – quando o general Ernesto Geisel já havia sido ungido o futuro presidente da República. Na obra A ditadura escancarada, Elio Gaspari relata que, em 19 de janeiro de 1974, Ernesto Geisel teria tomado conhecimento oficial das práticas de exceção no Araguaia e dado sinal verde para prosseguir. Gaspari chega a transcrever parte do diálogo que Geisel manteve com o tenente-coronel Germano Armani Pedrozo, do Gabinete Militar da Presidência, no qual ele relata que o Exército já teria “liquidado” com “uns 30” guerrilheiros, alguns em ação, outros presos e executados.

Ernesto e Orlando Geisel eram irmãos e sempre se deram bem. Há de se supor que, após essa conversa com Pedrozo, ou mesmo antes dela, os dois irmãos tenham discutido a política de Segurança Nacional e, em particular, a repressão à guerrilha rural. Nesse período, entre fevereiro e março de 1974, os chefes do CIE hesitaram sobre os métodos de repressão no Araguaia. Acreditavam que haveria uma nova diretriz, em especial, que seria revogada a orientação de não fazer prisioneiros. Tanto que, exatamente nesse período, ocorreu uma operação secreta que pouparia a vida de alguns guerrilheiros – assunto tratado adiante, no Capítulo “Sonata para Carmen”.

Dias antes de deixar a Presidência, Médici cogitou seriamente revogar o AI-5. Queria retornar ao regime dos tempos de Castelo Branco, um governo militar forte, mas não uma autocracia. Chegou a discutir esse assunto com os ministros mais próximos, como Leitão de Abreu, chefe do Gabinete Civil, e até mesmo com pessoas de sua confiança, como seu médico pessoal. Médici estava entregando o poder com as organizações da luta armadas completamente dizimadas. Sobrara apenas um rescaldo de resistência em uma região remota do sul do Pará. Contudo, Ernesto Geisel pediu a Médici, com muita ênfase, para que mantivesse o AI-5. Argumentou que seria mais prudente manter os poderes discricionários até terminar por completo o perigo “terrorista”.

Fato é que, assim que Geisel tomou posse como presidente e Sylvio Frota como ministro do Exército, retornariam com toda a força as execuções de prisioneiros no Araguaia. Nas cidades, a repressão também apertaria o torniquete. Ainda em 1974, Ernesto Geisel e Sylvio Frota iniciaram uma caçada implacável à direção do PCB, que era de linha pacífica desde 1956. Foram mortos 12 dirigentes comunistas em um pouco mais de um ano, o primeiro deles David Capistrano da Costa. As execuções só terminariam com as mortes do militante de base Wladimir Hezog, em setembro de 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976. A partir desse ponto, Geisel dá início à sua “abertura lenta, segura e gradual”.

Geisel acabaria sendo lembrado pela História como o principal artífice da distensão política e da redemocratização. Seu período de dois anos como ditador sanguinário só seria relembrado em maio de 2018, quando o historiador  Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, tornou público o memorando da Central de Inteligência Americana (CIA), elaborado a partir de informações de um agente no Brasil. Segundo o documento, em 1º de abril de 1974, 15 dias depois de assumir a Presidência, o presidente Geisel teria dito ao general João Figueiredo, novo ministro-chefe do SNI e seu futuro sucessor, que “a política (de eliminação de dissidentes) deveria continuar, mas que deveriam tomar cuidado para certificarem que somente os subversivos perigosos fossem executados”, aponta o relatório. O relatório, datado de 11 de abril de 1974, está assinado pelo então diretor da CIA, William Colby, e é dirigido ao secretário de Estado Henry Kissinger.

Desespero pela Vida

No livro-poema A balada do cárcere, de Bruno Tolentino, um dos mais belos da língua portuguesa, o autor lembra que “há situações extremas, como a do encarceramento ou a iminência da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de poesia, ou de desespero”[5].

Entre dezembro de 1973 e julho de 1974, de 25 a trinta guerrilheiros caíram prisioneiros dos militares. Alguns deles também tentariam buscar a Vida como Bem Supremo. Ou por falta de convicção na missão messiânica – uso o termo de acordo com a acepção benjaminiana – ou pelo fato de guerrilheiros terem sidos tomados pelo desespero.

Tomemos, a título de exemplo, o caso do guerrilheiro Josias (Tobias Pereira Júnior), estudante de Medicina na UFF antes de aderir à luta armada. Ele não estava naquele grupo dos oito “eleitos” de Osvaldão, aqueles “mais corajosos e preparados”. Eram meados de dezembro de 1973 quando Josias restou sozinho na floresta. Apartara-se de seu grupamento a fim de tentar escapar da guerrilha. Chegou à casa de José de Souza Gomes, o Zezão, capataz da fazenda então chamada Rainha do Araguaia, hoje Matrinxã. Estava armado com uma carabina e com um revólver. Zezão expõe suas lembranças, em dois depoimentos à pesquisa.

“Quem é o responsável aqui?” – teria dito Josias, apontando a arma para o camponês.

“Sou eu” – respondeu Zezão.

“Você vai me levar ou mandar levar lá na beira do Araguaia e me atravessar para o outro lado para eu ir embora.”

“Calma que tá terminando de fazer o almoço.”

“Tem dias que não como” – respondeu Josias.

A palavra “almoço” teria acalmado de imediato o guerrilheiro, de acordo com as reminiscências do capataz. Josias teria abaixado a arma, mas se mantido alerta. Minutos depois, o cozinheiro, apelido Cartucho, gritou lá de dentro que a comida ficara pronta. Rápido, Josias apanhou um prato, pegou uma concha e, enquanto a levava para dentro da panela, soltou a arma por um instante. O camponês Wagner o segurou. Não reagiu, já estava muito fraco. Zezão o amarrou e mandou avisar os militares na Base da Consolação. Uma hora depois, o capitão Curió chegaria de helicóptero[6]. Josias xingou muito os militares.

“Filhos da puta, vocês são covardes.”

O guerrilheiro entrou no helicóptero de cabeça baixa, de acordo com as lembranças de Zezão. Foi levado para a Base de Xambioá. Para ele, a partir daquele instante – como ficaria claro com a reconstrução dos eventos – findara o sonho de construir um país igualitário. Capitulara. Sua única esperança era sobreviver.

E, como os escravos tão menosprezados por Platão porque se submetiam “ao domínio do amo por desejar permanecer vivo a qualquer preço”, como lembra Arendt, Josias contou o que os militares dele queriam saber. E levou-os aonde eles gostariam de ir. A 22 de dezembro de 1973, o guerrilheiro chegaria ao Ponto dos Perdidos à testa de uma equipe do Exército. Josias avistou o camarada Jaime, sozinho, dentro de um abrigo de palha e pau a pique.

“Se entrega, Jaime, que a luta está perdida” – gritou Josias[7].

Jaime reagiu atirando, como já narrado, e terminou decapitado. Quanto a Josias, passaria três meses na Base de Xambioá. Em seu caso, era uma espécie de prisão domiciliar. Podia andar pela base, mas não deixá-la, sob pena de execução sumária. Como estudante de Medicina, usufruía da regalia de fazer o rancho com os oficiais.

Nesse tempo, relatou o que sabia da guerrilha, apontou mapas, levou os militares a diferentes pontos na floresta. Mas somente Jaime teria sido abatido por conta de seus apontamentos. Josias conversava muito. Tanto com os militares quanto com os camponeses que serviam de guias do Exército. A eles, relatou vários episódios da guerrilha, como o enterro de Ari e a morte do camarada Mundico.

Buscava muito justificar sua mudança de lado, tentar explicar que não seria um “traidor da guerrilha”, mas sim uma vítima. Pois, segundo ele, quando estudante de Medicina em Niterói, fora recrutado pelo partido para “fazer um trabalho de assistência social no interior”, e não para participar de uma luta armada. Quatro diferentes fontes de informação apresentam um guerrilheiro que se diz arrependido, que se diz traído (e não traidor) e que garante que não fora convocado a uma revolução, mas apenas a prestar serviços filantrópicos no interior[8].

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O mesmo Zezão que prendeu Josias também pegaria Simão. Nascera Cilon Cunha Brum, em São Sepé, Rio Grande do Sul, numa família de pequenos agricultores. Era estudante de Economia da PUC-SP quando foi recrutado pelo PC do B. Chegou ao Araguaia com 24 anos.

Era meados de fevereiro de 1974 quando o capataz foi avisado por um adolescente, Diquinho, filho do camponês Agenor de Miranda, que havia um “terrorista” armado em sua casa[9]. Zezão colocou o adolescente no carro e dirigiu-se ao local indicado. Segundo sua narrativa, entrou com arma na mão, apontando para Simão.

“Você vai entregar as armas ou não?”

Entregou a carabina e o revólver calibre 38. Estava “amarelo, arrasado, triste”, de acordo com a descrição do capataz. Era alto e magro. Usava uma calça de tergal azul-marinho, muito folgada, amarrada na cintura por um cordão. Não ofereceu resistência. Sentou-se ao lado de Zezão no Jipe. Quando passaram em frente a um pasto cheio de gado, Simão chorou.

“Lembrei-me da minha terra…”

“Quase não o levei de pena”, relata Zezão. “Mas se não levasse, eu iria para o pau.”

Chegaram à Base de Bacaba por volta das 17h30. Simão “fedia muito”, segundo o capataz. Um soldado o levou para o banheiro; sairia de lá de banho tomado e com outra roupa. O médico da base, codinome Dr. Walter, examinou o guerrilheiro. Mandou lhe dar vitaminas, de acordo com as lembranças de Zezão. Simão ficaria de duas a três semanas preso na Bacaba.

Nesse período, conversaria sobre suas esperanças com alguns moradores da região, entre eles, o camponês Antônio Menezes. Falava em voltar a estudar, que sentia muitas saudades dos sobrinhos, queria voltar para casa. “Tenho fé que vou voltar a ver minha família”, disse, de acordo com Menezes. Aparentava uma imensa tristeza no olhar. Dizia que se sentia enganado pelo partido, que abandonara os guerrilheiros. Enfim, segundo essas reminiscências expostas em narrativas, Simão queria viver.

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Outros três guerrilheiros também fizeram de tudo para salvar suas vidas. Edinho (Hélio Luiz Navarro de Magalhães), Duda (Luiz Renê Silveira e Silva) e Piauí (Antônio de Pádua Costa), membros do Destacamento A da guerrilha. Foram aprisionados praticamente juntos, negociaram acordos de delação premiada e trocaram de identidade, em um programa de proteção às testemunhas e aos infiltrados nas organizações da luta armada. São eles os chamados “mortos-vivos”. A questão dos mortos-vivos talvez seja a maior polêmica que restou do Araguaia a ser descortinada. Será tratada em detalhes no próximo capítulo desta obra, “Sonata para Carmen”.

O abate do gigante

Quando fevereiro de 1974 chegou, o movimento se resumia a uma dúzia de guerrilheiros, talvez quinze ou dezesseis, se somados os camponeses que estavam na luta armada. Osvaldão seria abatido em meados do mês. Documentos militares apontam para datas distintas. Relatório do Ministério do Exército, de 1993, informa que sua morte teria sido a 7 de fevereiro de 1974. Relatório da Marinha, também de 1993, indica 2 de janeiro de 1974. Contudo, narrativas orais de moradores da região convergem para uma data próxima ao dia 15 de fevereiro 1974.

Havia ordens expressas de Brasília para que Osvaldo fosse apanhado vivo. O plano do CIE era levá-lo a julgamento público pela Justiça Militar a fim de provar que fizeram curso de guerrilhas na China e, portanto, que seria um traidor da pátria. Em outras palavras, a ideia era usar Osvaldo como peça da propaganda política para mostrar à opinião pública que havia “terroristas” a serviço de uma nação estrangeira.

Osvaldo vinha sendo meticulosamente procurado na Serra dos Martírios e em toda região que se espraiava ao sopé da serra. Estava à testa de seu pequeno grupo de sonhadores, comendo mel numa capoeira perto da localidade da Palestina, quando seus rastros foram avistados por uma patrulha do Exército.

Um detalhe prosaico ajudou os militares. Avistaram pegadas enormes. Osvaldão calçava 48. As pegadas também eram de solado de pneu – o estilo que os hippies costumavam usar nas cidades. Oito meses antes, Osvaldão havia feito uma sandália com um pneu velho que ganhara de um militar infiltrado entre os moradores locais, o sargento Joaquim Arthur Lopes, codinome Ivan. O pneu tinha sulcos singulares. A ideia era, no futuro, conseguir identificá-lo pelos sulcos.

A equipe que localizou os rastros, composta por cinco militares e chefiada por um sargento da Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro, estava sendo guiado pelo camponês Arlindo Vieira, o Arlindo Piauí. Ele ganhara fama entre os militares de ser o mateiro mais eficiente da região, melhor, inclusive, que seu cunhado Iomar Galego. Sua casa também servia de ponto de apoio para o pouso de helicópteros que levavam prisioneiros para execução. Por isso Arlindo havia sido publicamente jurado de morte por Osvaldão. Foi o mateiro quem pediu para servir de guia naquela caçada. Disse aos militares que precisava pegar Osvaldão antes que ele o pegasse.

O grupo caminhou dois dias atrás do rastro. Em determinada hora notaram movimentos no capinzal e pararam. Osvaldão teve azar. Caminhou em direção à patrulha e entrou na clareira com o peito de frente para a espingarda A-12 do mateiro. Arlindo se mostrava apavorado, tremia de medo. Osvaldão foi abatido de braços abertos, enquanto afastava o capim. Urrou de dor. Há versões populares de que teria uivado. Um militar ainda disparou outro tiro de pistola 45 na cabeça do guerrilheiro já caído no chão.

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Todas as narrativas orais da região apontam para Arlindo “Piauí” Vieira como autor do tiro que matou Osvaldão. Trata-se, para o imaginário dos camponeses do tempo de outrora, da maior façanha que um deles poderia fazer, ou seja, matar o mito Osvaldão, o lobisomem invencível[10]. Observo que, dentro do contexto histórico, trata-se de um detalhe que só tem alguma importância para os moradores da região, posto que foi um deles (e não um militar) quem conseguiu abater um gigante, reproduzindo assim, guardadas as proporções, o mito do Davi contra o Golias. O feito entrou para as narrativas populares, incluindo detalhes como a bala que Arlindo usou seria de prata, enfeitiçada, pois só assim ele conseguiria matar o lobisomem.

Observo, contudo, que o autor dos disparos não agiu por conta própria; ele estava a serviço do Estado, guiando uma patrulha do Exército. Logo, foi o Estado constituído quem caçou e matou o guerrilheiro, usando um camponês como instrumento para apertar o gatilho. Arlindo Piauí era casado com Antônia “Galega” Ribeiro da Silva, irmã dos guias Iomar e Pedro Galego. As duas famílias eram da confiança absoluta dos militares. Entre nove ou dez mortes e execuções tiveram algum tipo de participação do clã dos Piauí-Galego.

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Como Osvaldo sangrara muito, decidiram amarrar seu corpo ao estribo do helicóptero que foi buscar a equipe militar. Foi mal amarrado. Ao decolar, o corpo soltou do estribo e Osvaldo acabou pendurado pelos pés, de cabeça para baixo. No caminho até a Base de Xambioá, o helicóptero passou pelos lugarejos onde Osvaldo era mais conhecido, como Brejo Grande, Palestina, Santa Cruz e São Geraldo. Assim, o gigante abatido circulou pelas cidades e corrutelas da região, pendurado de cabeça para baixo, como um troféu, um símbolo da vitória[11].

O helicóptero pousou na Base de Xambioá. Osvaldo foi enterrado ao lado da cerca de arame farpado que separava a base da cidade. Coube ao camponês Josias Gonçalves – o guerrilheiro Jonas, que acompanhava Ari Valadão quando ele foi morto –, então preso na Base de Xambioá, cavar a sepultura onde Osvaldo seria deitado.

Para o imaginário dos moradores da região do Araguaia, a morte de Osvaldão significaria o fim da guerrilha.

Grito de terror

Entre fevereiro e março, mais quatro guerrilheiros desapareceram. Ainda de acordo com documento secreto ACE 54730/86: Cristina (Jana Moroni Barroso); Joca (Líbero Giancarlo Castiglia)[12]; Zé Fogoió (José Huberto Bronca); e Raul (Antônio Theodoro de Castro), pela ordem de apresentação no documento.

Raul, por exemplo, foi preso enquanto tentava escapar da região. Havia escapado de algumas encruzilhadas do Destino, como aquela tocaia na Grota do Cristal na qual morreu Ari; ou ainda o Chafurdo de Natal, na qual tombaram quatro camaradas. Desta vez, Raul estava completamente só.

Deixou a área do Destacamento B, seguiu em direção norte, atravessou a área do Destacamento A, até chegar à rodovia Transamazônica. Prosseguiu rumo norte. Já havia andado cerca de 100 quilômetros na mata, sozinho, quando um morador da região o avistou em uma capoeira. Não sabia quem era, mas achou tudo estranho naquele desconhecido alto, magro e esfarrapado. Chamou a Polícia Militar do Pará. Era sábado de Carnaval, 23 de fevereiro de 1974.

Raul ainda tentou correr. Mas como estava desarmado, acabou se rendendo. Os policiais o levaram para a Base de Bacaba. Estava extremamente amarelo. Fedia muito. Deixaram que tomasse banho. Deram-lhe roupas, mas nenhum medicamento. O médico não o examinou. No dia seguinte seria levado de helicóptero para um centro de inteligência em Marabá, conhecida por Casa Azul, onde se instalou o Estado-Maior das operações no Araguaia.

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Essa edificação, obviamente pintada de azul, entraria como nenhuma outra no imaginário dos militares. Antes do Exército a tomar, a Casa Azul pertencia ao Incra. Ficava numa área isolada, nas imediações de Marabá, à beira do rio Tacaúnas. Lá ninguém entrava, sequer se aproximava, só o pessoal dos serviços de inteligência. Sua existência era escondida até mesmo das tropas regulares. O que acontecia lá dentro era da responsabilidade direta do CIE em Brasília. Nem os comandantes das tropas na área, nem os generais de Belém ou Manaus, tinham poderes para interferir.

A Casa Azul tinha uma grande sala de reuniões e três quartos. Num deles morava o comandante-geral das operações. O outro era de apoio. O terceiro quarto era hermético, sem janelas. Ali ficavam os eventuais prisioneiros, com uma sentinela na porta 24 horas por dia. Era lá que os guerrilheiros eram interrogados[13].

O militar designado para interrogá-lo, um oficial do Exército, lembra-se que o prisioneiro tinha uma cicatriz no peito. Raul explicou que lhe extraíram um pulmão, recorda-se o militar – quando estudante em Fortaleza, Antônio Theodoro sofreu de tuberculose. Foram três dias depondo. Falou de sua militância estudantil e a história de como o PC do B entrou em sua vida. Sobre os demais companheiros, sabia apenas que estavam todos dispersos na mata, buscando fugir. Exatamente como ele. Queixou-se muito da direção do partido, que deixou os guerrilheiros “ao Deus dará” (teria sido esta sua expressão), sem nenhuma infraestrutura, sem condições de combate ou de oferecer resistência.

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Raul seria executado no terceiro dia depois de sua chegada à Casa Azul, provavelmente na Quarta-Feira de Cinzas, 27 de fevereiro de 1974. Aproveitaram para “fazer” – era esse o eufemismo usado pelos militares ao se referirem ao ato de executar prisioneiros – também um guerrilheiro que estava há cerca de três semanas em poder dos militares, Simão[14]. O capataz Zezão lembra-se em detalhes da chegada de Raul e de Simão à sede da Fazenda Rainha do Araguaia.

Desceram de helicóptero, com as mãos amarradas e ligados um ao outro por uma corda de paraquedas. Estavam ladeados por cinco militares, chefiados pelo capitão Curió, garante Zezão. Os dois vestidos iguais, calças azuis da aeronáutica e camisas bege de manga comprida. Raul estava muito magro, cabeludo, barbudo e sujo, em crise de malária. Simão, um pouco mais gordo, limpo e barbeado, “com aparência bem melhor”, relata o capataz. Era hora do almoço. Os militares pediram água. Zezão ofereceu um prato:

“O dotô come da nossa comida?” – indagou, olhando nos olhos de Raul. “Fiquei pensando no conselho da minha mãe: sempre dar comida para quem tem fome” – explica o capataz, no tempo presente.

Raul respondeu que não, “não vou comer”. Curió encerrou a conversa dizendo que comeriam na volta do reconhecimento que fariam no mato. Mas os militares almoçaram. Logo depois saíram a pé, mata adentro, em direção a uma estrada que estava sendo aberta, a OP-3. O camponês Isaías os acompanhou. Fugido de Minas Gerais após matar a família, Isaías encontrara abrigo na fazenda como juquireiro. Andaram cerca de 1h30 pela fazenda. Sentaram para descansar em uma área que ficava perto da gleba de Raimundo Cacaúba – aquele mateiro que estava no grupo que serrou o pescoço de Ari enquanto ele ainda estava vivo. Sentado naquela mata, Curió resolveu provocar Raul:

“Nem adiantou ser valentão, pois vai morrer como cachorro” – teria dito o militar, sacando uma expressão chula utilizada para apontar os traidores que se prestavam ao papel de guia do Exército, “cachorros”.

O capitão então se levantou e deu tiro na cabeça do guerrilheiro. O sangue espirrou na mochila de um dos militares. Depois teria perguntado ao outro:

“Simão, você gosta da floresta?”

“Gosto.”

“Então fica aí.”

Simão teria dado um grito de terror no momento em que constatou que seria executado. Os tiros foram escutados na sede da fazenda. Era por volta de 14h30. Foram ambos, Raul e Simão, deixados insepultos na mata, ao largo da antiga trilha de tropa de burros que ligava a sede da fazenda Rainha do Araguaia à estrada OP-3[15].

Dias depois, Cacaúba avistou os corpos enquanto caçava veados em companhia do camponês Antônio Fogoió. O cheiro era forte, havia muitas moscas, as pacas os devoravam, segundo sua narrativa à pesquisa. Outros camponeses também avistariam os corpos. Zezão mandou enterrá-los por causa do mau cheiro. A trilha era importante para a fazenda, explica em narrativa oral. Precisava estar limpa.

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Em fevereiro de 2011, levado por Raimundo Cacaúba, estive no local onde Simão e Raul foram enterrados. O ex-guia do Exército foi localizado em Serra Pelada pelo casal Merces Castro (irmã de Raul) e Jadiel Camelo, que o convenceu a ajudar os familiares na localização dos corpos. Cacaúba guiou Jadiel e a mim até o local, uma expedição de oito dias. Foram necessários três dias abrindo caminho pela mata espessa apenas para localizar a antiga trilha de burros onde Cacaúba avistou os dois corpos sendo comidos por animais silvestres.

Localizamos a provável área, no topo de um morro, mas não encontramos a antiga touceira de bambu, ao lado da qual Cacaúba viu os corpos. O local foi marcado com GPS. Desde então, aguarda pela iniciativa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência para que profissionais da geologia façam prospecções na tentativa de encontrar os restos mortais dos dois guerrilheiros.

O beijo da morte

Ainda havia um pouco mais de uma dúzia de guerrilheiros vivos. De acordo com a pesquisa, seriam eles quatorze sobreviventes, em ordem alfabética: Áurea (Áurea Eliza Pereira); Beto (Lúcio Petit da Silva); Chica (Suely Yumiko Kanayama); Daniel (Daniel Ribeiro Callado); Dina (Dinalva Conceição Teixeira); Lia (Telma Regina Cordeiro Corrêa); Lourival (Elmo Corrêa); Manoel (José Maurílio Patrício); Maria Diná (Dinaelza Santana Coqueiro); Peri (Pedro Alexandrino de Oliveira Filho); Tuca (Luiza Augusta Garlippe); Valdir (Uirassu Assis Batista); Val (Walquíria Afonso Costa) e Vítor (José Toledo de Oliveira)[16].

Foram caçados implacavelmente por cerca de 250 homens do Exército, guiados por cerca de sessenta camponeses recrutados na área. Um a um, foram sendo abatidos. Ou presos, interrogados e executados.

Áurea foi presa em fins de março, ao lado de um camponês chamado Batista, que aderira à guerrilha. Foram ambos capturados pelo camponês Adalberto Virgulino – em troca de oitocentos cruzeiros e de um maço de cigarros, de acordo com Elio Gaspari, em A ditadura escancarada. Batista foi enviado para Xambioá. Áurea, por sua vez, foi levada para Marabá, em local conhecido por Casa Azul, à beira do rio Itacaúnas, onde os comandantes militares instalaram-se para coordenar toda a repressão à guerrilha. Áurea carregava um bebê, uma menina de três meses. Também estava magra, extremamente debilitada, com malária, a pele tomada por pústulas de leishmaniose, há muitos meses sem menstruar.

Um sargento da equipe de operações especiais Jiboia, codinome Robson, foi encarregado de interrogá-la e, depois, executá-la. Era louro, olhos azuis, barba e cabelos longos, como os de roqueiro. Era assim que andavam os militares da área de informações: disfarçados de universitários rebeldes. Ele já havia executado alguns guerrilheiros; Áurea seria mais uma.

Ela permaneceria entre seis e sete dias na Casa Azul. Foram três dias de interrogatório. Somente conversas amenas, garante o militar em narrativa à pesquisa. “Não havia qualquer necessidade do uso da violência”, explica[17]. Ele relata que tentou reanimá-la, usando uma técnica de interrogatório que busca estabelecer a empatia com a prisioneira. Ele contou sua própria história pessoal. E seus conhecimentos sobre as organizações de esquerda.

Ela contou sua história. No movimento estudantil e sua história no Araguaia. Também relatou alguns episódios específicos da guerrilha. Sobre onde estavam escondidos os camaradas, àquela altura, não havia quase nada a relatar. Já estavam quase todos mortos, e aqueles ainda vivos, perdidos na mata, dispersos uns dos outros, certamente pulando de choupana em choupana em busca de comida, tentando encontrar alguma rota de fuga. Em nenhum momento renegou suas opções ideológicas. Disse ainda que sentia muito ódio de ter sido renegada pelos próprios companheiros – referindo-se ao fato de não ter sido uma das eleitas de Osvaldão.

Então veio a ordem de executar a prisioneira. Havia um buraco, de 3×3 m, com 2,5 m de profundidade, dentro em uma das construções daquela instalação militar. Áurea foi levada para lá em um final de tarde. Desceu a escada de cordas para dentro da cova. Robson tergiversou, pensou em adiar a execução.

“Áurea, você quer tomar cerveja comigo e depois dançar a noite inteira em um desses botecos à beira do Itacaúnas?” – indagou. Só então a guerrilheira chorou:

“Não me dê falsas esperanças, porque depois você não vai poder cumprir” – teria dito a guerrilheira, de acordo com as lembranças do militar.

Ainda assim ele insistiu. Baixou a escada e ela subiu, bem devagar. Então ele perguntou:

“Você quer me dar um beijo?”

“Você faria isso por mim?” – teria respondido a guerrilheira.

Eles então se abraçaram, de acordo com o militar. Um abraço apertado, forte, longo. Ele, aos 25 anos, então lhe beijou a boca. Ela, aos 24, teria correspondido. E assim teriam ficado por muito tempo, se abraçando e se beijando, adiando ao máximo a chegada da hora da morte.

“Quando um homem sabe que é sua última refeição, ou o último beijo, ele fica comovido e aproveita. Mas quando é o último beijo de uma mulher, ela se entrega inteira. Nunca conheci uma mulher com tanto amor quanto a Áurea” – relata o militar.

Em determinado momento, o militar se afastou um pouco e disse à guerrilheira, ao pé do ouvido, algo como “agora você vai ter que descer”. Ela então desceu a escada, resignada, bem devagar. Eis o relato do executor:

Ela ficou me olhando nos olhos, chorando. Eu não aguentei e chorei muito. Caí em prantos. Ela chorava, mas ficou firme, de pé, aguardando sua hora. Tirei a arma e apontei pra cabeça. A gente se olhava o tempo inteiro nos olhos e chorava. Hoje tenho certeza de que me apaixonei por ela e quero acreditar que ela se apaixonou por mim. Minha vontade era fugir com a Áurea, sumir no mundo. Mas estávamos em lados opostos, ela sabia disso.

O militar chorava muito ao narrar este episódio. Num dado momento, me apontou o dedo indicador e disse: “Quando escrever sobre ela, trate-a com todo respeito, pois ela morreu com dignidade e coragem. Foi a mulher mais doce que conheci na vida.”

Áurea foi retirada do buraco por outra equipe e enterrada no novo cemitério de Marabá, cerca de 1 quilômetro distante da Casa Azul.

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E quanto àquela criança que a guerrilheira carregava quando chegou à Casa Azul? No primeiro instante, a criança foi tirada dos braços da guerrilheira. Áurea disse ao militar que a interrogou que não era sua filha. Mesmo porque há muito não menstruava. O militar lembra-se que, segundo Áurea, seria filha do guerrilheiro Raul. Mas ele não se recorda o nome da mãe, nem mesmo se era guerrilheira ou moradora da região.

Em 2010, enquanto procurava informações junto a moradores do Araguaia sobre as circuntâncias da morte de seu irmão Antônio Theodoro de Castro, o Raul, a advogada Merces Castro descobriu que ele havia tido uma filha. Contudo, de acordo com camponeses, a mãe da criança não seria uma guerrilheira, e sim com uma “moça estrangeira”. Merces descobriu ainda que essa jovem teria sido morta no início de 1974 e a criança levada por um sargento do Exército e por um delegado de polícia que moravam em Belém. Então foi atrás.

Descobriu que a menina fora entregue a uma instituição espírita, Lar de Maria, e adotada pela própria coordenadora da casa. Merces encontrou-a com 38 anos. Chama-se Lia – nome escolhido pela irmã mais velha. Por acaso, o mesmo nome da guerrilheira Telma Regina, Lia, que pertencia ao mesmo destacamento de Raul. Contudo, não há registros entre os camponeses de que Raul e Lia tenham tido algum relacionamento amoroso. Fizeram o teste de DNA e o laudo atestou 95% de possibilidade de Lia ser filha de Raul.

Quando à identidade de sua mãe, resta desconhecida. O documento secreto “Relação de subversivos que participaram da Guerrilha do Araguaia”, arquivado no SNI, sob o protocolo ACE 54730/86, que cita que Célia Sanches Cristie foi morta a 8 de fevereiro de 1974. Não há qualquer relação entre este nome e as guerrilheiras. Também é improvável que houvesse uma camponesa com este nome quase “estrangeiro”. Assim, essa é uma possibilidade a ser pesquisada.

Resistência sem fim

Relevante ressaltar que a maior parte dos guerrilheiros, mesmo diante da iminência da morte, não renegou a luta armada. Ao contrário. Aproveitaram seus últimos momentos para reafirmar a convicção que nutriam pela luta por um país igualitário.

Tomemos o caso de Zé Ivo (José Lima Piauhy Dourado). Preso em fins de janeiro, permaneceria por cerca de um mês na Base de São Raimundo, sendo usado como guia dos paraquedistas. Até que um sargento da equipe de inteligência chegou de helicóptero para interrogá-lo. Começou amarrando-o de cabeça para baixo. Pegou um fação e entortou a ponta com um alicate. Lembrou ao guerrilheiro que, ao longo de dois meses, ele não havia guiado os militares a nenhum local de relevância. Disse que chegara a hora de falar onde estavam os demais companheiros.

Zé Ivo disse que não iria falar. O inquisitor então começou perguntando onde nascera e estudara, como entrara para o partido, o cotidiano na selva e outras banalidades do tipo. Mas toda vez que o militar insistia em saber da localização dos demais guerrilheiros, ele simplesmente colocava as mãos em cima da boca, em gesto simbólico de que permaneceria em silêncio. A cada silêncio, o facão rasgava-lhe um trecho do corpo. Não gritou. Não gemeu. Não chorou. Um pouco mais de uma hora depois, o algoz colocou aquele corpo estropiado e desfalecido no helicóptero.

Entregou-o aos comandantes em Marabá. De início jogado em um buraco na Casa Azul – o mesmo buraco onde antes estivera Áurea –, Zé Ivo foi tratado por um médico para, na sequência, voltar aos interrogatórios. Ele encontra-se na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

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Outro caso relevante é o da guerrilheira Maria Diná. Nascida Dinaelza Santana, em Vitória da Conquista, Bahia, era estudante de Geografia da Universidade Católica de Salvador e trabalhava na empresa aérea Sadia, mais tarde rebatizada de Transbrasil[18]. Militava no movimento estudantil secundarista em Jequié. Morou com a família até chegar a hora do vestibular. Casou-se com um vizinho, namorado de adolescência, Vandick Reidner Coqueiro, estudante de Economia em Salvador. Dinaelza adotou o sobrenome Coqueiro. Quando chegaram ao Araguaia, tinham ambos 22 anos. Ela virou a Maria Diná; ele, o João Goiano.

Diná seria aprisionada nos primeiros dias de abril de 1974. Relatório da Marinha aponta sua morte como tendo ocorrido a 8 de abril de 1974. Sua prisão, portanto, teria ocorrido uns três dias antes. A prática dos militares, naquele momento, era a de interrogar o prisioneiro por dois ou três dias e depois executar. As lembranças dos camponeses também apontam para sua prisão e morte nos primeiros dias de abril. Mais uma vez, coube a Zezão, o capataz da fazenda Rainha do Araguaia, a tarefa de apanhá-la. Foi procurado na fazenda por um camponês chamado Oswaldo. Chegou à tardinha, segundo as lembranças do capataz. Estava muito assustado.

“Zezão, lá em casa peguei uma muié. E é muié valente.”

“Mas não pode ser valente, porque você pegou” – ironizou.

“Mas é o cão!”

O camponês relatou que a guerrilheira batera à sua porta pedindo comida. E, enquanto ela comia, ele pulou em cima e a amarrou. Mas ela lutara muito. Zezão levou dois de seus homens para apanhá-la e depois entregá-la aos militares. Um deles, Cícero Venâncio[19]; o outro se chamava Parazinho. Foram a pé. Levaram dois cachorros. No caminho, encontraram a mulher de Oswaldo, com sete crianças, correndo assustada. Disse que estava com “medo da terrorista”.

Maria Diná havia se soltado. Oswaldo amarrara sua mão para frente. Diná colocou a mão no fogão à lenha e queimou a corda. Queimou também mão e punhos. Já era noite quando Zezão chegou à casa de Oswaldo. Levantou a lanterna e viu um rastro. O cachorro Bagunça latiu. Todos correram. Ela estava em cima de uma árvore.

“A mulher era bonita demais! Mas fedia que nem bicho do mato” – rememora Zezão. “Pedi para descer, mas ela começou a xingar.”

“Vocês são uns covardes, são cachorros do Exército” – teria dito a guerrilheira.

Os cachorros mordiam e ela subiu ainda mais na árvore. O capataz mandou um dos filhos do camponês pegar um machado. Zezão cortou a árvore. Maria Diná caiu agarrada à árvore. Esperneava. Se tocasse, ela mordia ou arranhava. Esperneava ainda mais, xingava – de acordo com a narrativa do capataz. Foram precisos três homens para segurá-la e amarrá-la novamente. Chegou de volta à casa do camponês, viu o rádio e quebrou.

“Covardes, filhos da puta” – dizia ela.

Passou a noite sentada, com quatro homens vigiando.

Ela estava com as roupas todas remendadas. Mas não havia rasgão que ela não tivesse costurado, cerzido à mão, observou Zezão. De madrugada, Diná pediu para urinar. O camponês Parazinho foi junto. Ela então o derrubou e começou a lhe dar uma surra, mesmo com a mão amarrada e queimada.

“Corre que a covarda tá me vencendo” – gritou Parazinho, ainda de acordo com o relato de Zezão.

De manhã o helicóptero chegou para pegá-la. Desceu o capitão Sebastião Curió, segundo o relato de Cícero Venâncio. O militar teria dado um forte tapa na cara da guerrilheira. Tão forte que a derrubou no chão, de acordo com Cícero.

“Você só faz assim, filho de uma égua, corno sem vergonha, chifrudo” – reagiu Diná, ainda segundo o relato de Cícero. Outro tapa e ela caiu de novo.

“Essa mulher era muito mais homem do que os homens que conheci” – conclui Zezão no agora, observando suas reminiscências do outrora.

Cícero Venâncio, que era um dos guias de maior confiança dos militares, acompanharia os dias subsequentes de Maria Diná. Primeiro foi levada para a Base de Bacaba, ao norte, perto da Transamazônica. Depois, foi deslocada para a Base de Xambioá.

“Ela ficou três dias no sofrimento” – relata Cícero. “Depois a levaram para a mata, perto do Arlindo.”

Levar para a mata, na linguagem dos ex-guias, é um eufemismo de executar prisioneiros. Quanto ao Arlindo, trata-se do camponês Arlindo “Piauí” Vieira. Em sua casa, um lugar chamado Prazer do Mundo, perto da Base Militar de São Raimundo, helicópteros costumavam descer com prisioneiros – mas só militares embarcavam de volta, de acordo com a narrativa de Antônia Galega, viúva de Arlindo.

Dona Antônia guarda em suas lembranças o dia em que Maria Diná desceu em sua casa, levada por três militares. Na chefia, estaria Curió, de acordo com a camponesa. Saíram para o mato levando a prisioneira. Antônia escutou tiros. Os militares retornaram sem a mulher. Segundo ela, Curió estava furioso, xingava muito a “terrorista”. Nas pesquisas de campo, encontrei um militar que relata o que teria acontecido quando estavam no mato:

Ela era braba pra cacete, aguentou um pau violento, uns cinco ou seis dias de pau. Aí contou a história dela. Então nossa equipe a levou. Na hora, a pistola engasgou. Engasgou e não saiu mais bala nenhuma. Ela me olhava com um ódio danado. Não chorou, só me olhava com ódio, um ódio fantástico, ódio, muito ódio. Foi uma merda. Então eu tive que pegar outra arma. Um companheiro chegou perto e ajudou a fazer o serviço [20].

Diante da tropicália

Em fins de abril, mais três guerrilheiros seriam presos: Beto (Lúcio Petit da Silva), Valdir (Uirassu de Assis Batista) e Antônio Alfaiate (Antônio Ferreira Pinto). Pediram comida na casa de Manoelzinho das Duas e de dona Margarida, antigos aliados da turma do Osvaldão, donos de uma roça de subsistência em uma área entre os destacamentos A e B. O camponês respondeu que estava terminando de fazer farinha e que eles voltassem no dia seguinte pela manhã[21].

Foi só os guerrilheiros saírem que o Manoelzinho jogou uma cadeira em cima do telhado, com as pernas viradas para cima. Era um sinal para avisar aos militares que havia “terrorista” por perto. Naquele período da repressão, um helicóptero circulava pela região atrás de sinais como esse. Outro sinal era jogar um pano branco no terreiro.

Os guerrilheiros voltaram à choça do casal no dia seguinte, conforme o apontado. Os soldados já os aguardavam escondidos. Beto e Antônio foram rendidos na hora. Valdir conseguiu escapar. Chegou a disparar um único tiro. Valdir só seria preso na manhã do dia seguinte. Estava com uma espingarda de papo amarelo. Vazia. Descobriu-se então que havia disparado a última bala que lhe restava.

Os três foram levados de helicóptero para a Base de Bacaba. Valdir e Antônio foram interrogados ali mesmo e, dois ou três dias depois, executados em uma área conhecida por Clareira do Cabo Rosa, um dos campos de execução mais utilizados pelo Exército. Havia um odor muito forte de carne em decomposição, provavelmente algum outro guerrilheiro executado. Valdir e Antônio também foram deixados insepultos.

Beto, por sua vez, um engenheiro de 31 anos, primogênito dos irmãos Jaime e Maria e com liderança junto aos estudantes paulistas, foi levado para interrogatório em Marabá. Começou, como os demais prisioneiros, relatando sua história – no movimento estudantil, no PC do B e na guerrilha.

Então Beto começou a fazer críticas à direção do partido e, sobretudo, às estragégias e às táticas militares e à logística da guerrilha. Eram tão profundas e consistentes suas análises que dois oficiais chegaram de Brasília para interrogá-lo, ambos com patente de tenente-coronel. Um deles, de volta ao CIE em Brasília, chegou a organizar um manual antiguerrilha a partir das análises de Beto.

Mas ele não teria colaborado com os militares. Dizia ter a mais absoluta certeza de que a revolução triunfaria, que era apenas uma questão de tempo. Até que um dia apareceu uma pequena equipe de três agentes do CIE com a missão de levá-lo para a execução. Estavam vestidos à paisana, barbudos e cabeludos – como era comum entre os agentes dos centros de informações militares. Beto sabia que chegara sua hora, que seria executado. Mas ao ver seus algozes, ironizou:

“Quer dizer que é com essa tropicália que vocês querem derrotar nossa revolução?”

Naquela virada dos anos 1960-70, além da ditadura no poder, a esquerda engajada vivia às turras com a juventude rebelde e colorida representada pelos hippies, a turma do “paz e amor”. Para aqueles militantes da luta armada, que arriscavam suas vidas pela revolução, eles eram, na melhor das hipóteses, tratados por “alienados” e “desbundados”.

No Brasil, eram representados, sobretudo, pela turma de cantores egressos da Bahia que fundaram o chamado “Movimento Tropicalista”. Assim, quando o guerrilheiro Beto avistou os agentes do CIE cabeludos, barbudos e com roupas coloridas, tal qual Caetano e os Novos Baianos[22], restou-lhe diminuí-los pela ironia.

Mais orgulho que medo

Em maio de 1974, restavam poucos guerrilheiros vivos. Dina (Dinalva) era uma delas. Ela então escreveu uma carta à direção do partido em São Paulo, aos cuidados do dirigente Ângelo Arroyo, que até janeiro era chamado de comandante Joaquim, pois ocupava o posto de vice-comandante-geral das Forças Guerrilheiras. Joaquim deixara a área logo após o Chafurdo de Natal. A carta seria apreendida pelos militares mais de dois anos depois, em dezembro de 1976, durante a “Chacina da Lapa”. Um trecho da correspondência é citado em um documento do DOI-Codi de São Paulo, que recebeu o carimbo de “secreto”. Os nomes de Dinalva e de Arroyo estão registrados em caixa-alta. Era o método dos analistas de informações de destacar os “subversivos” nos documentos. Reproduzo:

Segundo carta de DINALVA CONCEIÇÃO DE OLIVEIRA, datada de 14 de maio de 1974, endereçada a ÂNGELO ARROYO, ela o chama de desertor e esclarece que estão reduzidos a onze (11) guerrilheiros, tolhidos de todas as restrições, sem qualquer apoio da população; em outro trecho da carta ela diz: sentimos que a morte se aproxima, assim a carta encerra com a frase: “de algum lugar do Araguaia.

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Dina seria presa em junho, em companhia de Tuca (Luiza Augusta Garlippe). Dina, aos 29 anos; Tuca, 33 anos. Tentavam escapar pelo rio Araguaia. Roupas destroçadas, magras, famintas, desnutridas, há quase um ano sem comer sal ou açúcar. Os corpos tomados por pústulas de leishmaniose. Por conta da tensão, fazia seis meses que Dina não menstruava. Pediram a um camponês que lhes comprasse roupas novas. Só assim poderiam viajar. Entregaram-lhe o último dinheiro que lhes restava. Ele levou os militares até elas. As duas passaram três semanas em poder do Exército.

“Vocês podem me torturar o quanto quiserem, mas não vou contar nada” – teria dito Dina, assim que se viu diante das equipes da inteligência militar.

Como Áurea, Dina não teria sofrido maus tratos físicos; já não tinha nada a contar[23]. Da mesma forma que circularam com o corpo do lobisomem Osvaldo amarrado a um helicóptero, os militares chamavam uma dezena de camponeses para avistarem, aprisionado, o outro mito guerrilheiro. Alguns puderam até trocar rápidas palavras com ela, entre eles, José Maria Alves da Silva, o Zé Catingueiro, ex-colaborador da guerrilha e depois guia do Exército.

Dina conversou com vários militares. Em fins de junho, talvez início de julho de 1974, uma equipe de militares aparecera para executá-la. Era chefiado pelo sargento do Exército Joaquim Arthur Lopes de Souza, codinome Ivan[24].

“Vocês vão me matar agora?”, teria indagado Dina assim que pisou em solo.

“Não, mais na frente um pouco; agora só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, teria respondido Ivan.

O grupo caminhou por cerca de duzentos metros mata adentro, Dina com as mãos amarradas nas costas. Ela e Ivan caminharam lado a lado. Teriam mantido uma conversa cordial, testemunhada pelos dois militares que vinham logo atrás. De acordo com a reconstituição dos militares, a comandante se queixou de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto ar404mado com os militares, “avançar, avançar sempre mais”, como na “Canção do Guerrilheiro”. Acreditava, com profunda convicção, que ainda tinha condições de desencadear a revolução socialista e vencer a ditadura militar. Desde que os guerrilheiros tivessem apoio externo do partido, explicou. Enfim, até em seu último instante de vida, Dina nutria esperanças de que sua tão sonhada revolução viria a triunfar. O grupo parou em uma clareira.

“Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira.

“Vai, agora você vai ter que ir”, respondeu Ivan.

“Eu quero morrer de frente”, pediu.

“Então vira pra cá.”

Ela virou e encarou o executor nos olhos. Transmitia mais orgulho do que medo – relataria mais tarde o militar aos colegas de farda. Ele se aproximou da guerrilheira, parou a dois metros de distância e lhe estourou o peito com um tiro de pistola calibre 45. O tiro pegou um pouco acima do coração. O impacto jogou Dina para trás. Levou um segundo tiro na cabeça.

Seu corpo foi inicialmente enterrado ali mesmo, no local da execução. Em 1975, teria sido exumado e levado para a cremação na Serra das Andorinhas. O sargento Ivan, por sua vez, relataria aos colegas de farda que por muito tempo ficou com o olhar de Dina na cabeça; que ela era a pessoa mais digna e valente que já conhecera; sua heroína; e que se orgulhava muito de ter tido a honra de abatê-la.

No caso de Tuca, os militares avaliaram que poderiam deixá-la sobreviver, dentro da Operação Mortos-Vivos. Levaram-na para Brasília, onde recebeu nova identidade e, daí, para uma nova vida no local que ela escolheu.

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A 3 de agosto, foi a vez de Peri. Nascido Pedro Alexandrino de Oliveira, era bancário e estudante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) quando aderiu à guerrilha. Era companheiro da guerrilheira Tuca.

Elio Gaspari relata que estaria sozinho na mata quando foi encontrado por uma patrulha militar. Uma bala teria atingido seu crânio. Levava uma garrafa com sal, uma garrucha e um caderno de notas no qual louvava os jabutis e maldizia os mateiros. Seu corpo foi transportado de helicóptero para a Base de Xambioá. “Deixado no chão da base, foi chutado pela tropa até que um oficial da FAB interveio, exigindo que respeitassem o inimigo morto”, descreve Elio Gaspari, em A Ditadura escancarada. Não há mais qualquer testemunho, de militar ou de morador da região, sobre a morte de Peri. Tinha 27 anos.

A “Canção do Guerrilheiro”

Cada um daqueles guerrilheiros, quase todos jovens tomados de sonhos e de esperança quando chegaram à floresta, esteve diante do terrível dilema pessoal entre a Vida ou o Mundo. E, à medida dos acontecimentos, a concretude dos fatos e atos fizera ruir as convicções de alguns daqueles jovens – como no caso de Josias, Duda ou Piauí. Contudo, não há muitas teorias históricas, políticas, econômicas ou sociais capazes de fornecer explicações plausíveis para o fenômeno ocorrido nas matas do Araguaia.

Impulsionados pelo imaginário de um tempo, a esmagadora maioria daqueles homens e mulheres manteve-se até o fim firme em seus sonhos. Não havia intempérie, fome ou doença capaz de atingi-los. E mesmo naquele fatídico encontro com a morte iminente, muitos deles professaram a seus algozes uma fé profunda e inabalável no sonho pelo qual foram lutar. Há histórias comoventes em seus desfechos.

Construídas muito antes, assim que entraram naquela mata selvagem, com seus sonhos alimentados por seus próprios desejos. Claro, cada qual teria a sua convicção; todavia, a raiz era a mesma: fazer uma revolução, segundo o imaginário social daquele tempo, os anos 1960 e 1970 no Brasil. Não importaria, inicialmente, as condicionais e as condicionantes. O importante era seguir rumo ao desconhecido mundo real, movidos pela esperança, prontos para subir pela primeira vez no palco do mundo, como diria Marx.

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Certo dia apareceu uma canção em algum lugar das selvas amazônicas. Trata-se da “Canção do Guerrilheiro”. O autor – ou autores – não restou registrado nas memórias dos camponeses sobreviventes. Nenhum dos guerrilheiros que retornaram vivos às cidades conhece essa canção. Eles foram todos presos entre abril e maio de 1972, o que leva a concluir que o hino foi composto após esse período, provavelmente em junho de 1972[25].

A letra da canção guarda similiaridades com o estilo dos poemas do guerrilheiro Mundico (Rosalindo Cruz Souza), aos quais tive acesso durante a pesquisa. Mundico pertencia ao Destacamento C das Forças Guerrilheiras. O comandante Mário anota em seu diário que a 27 de junho de 1972 esteve em visita ao Destacamento C, quando conheceu e ensaiou o hino. A letra transborda o imaginário guerrilheiro em sua plenitude; exala, em cada verso, as esperanças e os sonhos daquele punhado de homens e mulheres que estiveram juntos em um grupo revolucionário. Registra Velho Mário no diário a letra completa do hino:

Canção do Guerrilheiro do Araguaia

Nas selvas sem fim da Amazônia
Vive e combate o guerrilheiro sem par
Valente e destemido
Sua bandeira fulgente é lutar

Tudo enfrenta com denodo
Para livrar da exploração
O povo pobre, a Terra amada
E construir nova Nação

Não dá trégua aos soldados
P’ra derrotar os generais
Emboscar, fustigar dia após dia
Atacar, sempre mais, sempre mais!

Sob o manto verde da floresta
Para as massas anseia paz e pão
Bem estar para os trabalhadores
Alegria para os jovens e instrução

Nada teme, jamais se abate
Afronta a bala a servir
Ama a vida, despreza a morte
E vai ao encontro do porvir

Está pronto p’ro combate
Em dia claro ou noite escura
Acabar, esmagar o imperialismo
Derrubar, liquidar a ditadura!

Da liberdade, heroico defensor
Inimigo do regime militar
Quer terra p’ra todo lavrador
Feliz, viver e trabalhar

Lutador audaz do Araguaia
Rebelado no Sul do Pará
Junto ao povo, unido e armado
Na certa um dia vencerá

Sua tarefa gloriosa
Realiza com ardor
Avançar, empunhar todas as armas
Contra o inimigo opressor!

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Se a letra da canção restou registrada no “Diário do Velho Mário”, relevante ressaltar que a melodia perdeu-se numa dessas fissuras da História. Em 13 de setembro de 2009, contudo, houve o resgate também da melodia, que foi registrada em vídeo. Fui um dos protagonistas desse resgate. Participava como representante da UnB do GTT, quando tivemos notícias da existência de um camponês que conviveu com a guerrilha. Chama-se José Wilson Brito, o Wilsinho. Trabalhava como caseiro em um sítio no interior do Amapá. O então comandante da 23ª Brigada de Infantaria na Selva, de Marabá, general Mário Lúcio Araújo, que cumpria a missão de primeiro coordenador do grupo, deu ordens de buscá-lo.

Dois dias depois, Wilsinho estava em Marabá, levado pelo Exército. Por consenso do grupo, eu e a jornalista Myrian Luiz Alves, pesquisadora sobre o Araguaia, fomos designados para ouvi-lo, em depoimento oral. Wilsinho contou que tinha doze anos quando entrou para o grupo guerrilheiro, a convite de Sônia (Lúcia Maria de Souza). Aliás, estava com Sônia quando, em outubro de 1973, ela seria morta pela equipe chefiada pelo major Lício Maciel, tendo como subchefe o capitão Sebastião Curió. Desde a década de 1980, o PC do B vinha denunciando que os militares teriam desaparecido com um adolescente que estava com a guerrilheira Sônia no dia de sua morte. Esse adolescente, enfim, era Wilsinho.

Já com 52 anos quando encontrado, Wilson guardava em suas lembranças episódios relevantes da guerrilha. Durante o depoimento, revelou que sabe de cor e salteado a “Canção do Guerrilheiro”, estrofe por estrofe, verso por verso, cada tom da melodia. Myrian e eu então tomamos emprestado um aparelho de vídeo e gravamos Wilson cantando. No dia seguinte, ele retornaria ao sítio onde mora com a família no interior do Amapá. Quanto ao vídeo com a canção, encontra-se em meu acervo documental, à disposição da instituição que porventura queira ficar com os documentos.

O diário de Lia

Quando o segundo semestre de 1974 chegou, havia muito poucos guerrilheiros remanescentes. Lia era uma delas. Nascida Telma Regina Corrêa, era estudante de Geografia da UFF, em Niterói, quando aderiu à guerrilha. Escapara de todos os cercos; assistira aos camaradas serem abatidos ou apanhados, incluindo o marido, Lourival (Elmo Corrêa) – eram casados desde os tempos de estudantes, no Rio de Janeiro. Mas ela sempre conseguia escapar.

Até que, no início de setembro, foi encontrada por um camponês debaixo de uma grande árvore na região ao sul da cidade de São Geraldo. Em depoimento ao GTT, o sargento Santa Cruz disse que se lembra de que Lia teria sido presa na Semana da Pátria. O soldado Raimundo Pereira de Melo, também em depoimento ao GTT, conta que viu Lia presa, no início de setembro. Quando foi avistada, Lia estava deitada sob uma estopeira. Exausta, depauperada. O camponês não a socorreu; achou mais prudente avisar ao Exército. Lia foi levantada do chão pelos militares. Em suas mãos, um diário.

Seguindo o exemplo do Velho Mário, alguns guerrilheiros possuíam diário. Lia escreveu que estava passando fome e sede, mas que não poderia morrer, pois ainda tinha muita coisa a passar para os outros guerrilheiros para que pudessem continuar a causa. Escreveu que, quando estava na iminência de se entregar à morte, então cantava, a plenos pulmões, a “Canção dos Guerrilheiros”, repetindo sem cessar a estrofe que mais a animava, a lembrar que guerrilheiro:

Nada teme, jamais se abate,
afronta a bala a servir.
Ama a vida, despreza a morte
e vai ao encontro do porvir

Era essa canção que lhe dava ânimo para caminhar. As últimas anotações de Lia registram palavras como “estou nas últimas” e “não aguento mais”. A letra já estava muito fraca, tremida. Depois disso, nada mais escreveu. Lia foi tratada na Base Militar de Xambioá. O suficiente para conseguir falar.

Em minhas pesquisas para o Mestrado, dois militares relataram histórias similares sobre a morte de Lia. Um deles disse que leu muitas vezes o diário da guerrilheira, mas não guardou cópia. Disse que ficou emocionado com a coragem e a força da inimiga. Por isso se recorda bem de alguns trechos do diário. Cheguei a registrar essa história de Lia na obra A lei da selva. Agora a reproduzo, mas em outro contexto – para mostrar a força dos sonhos daqueles jovens guerrilheiros. Registro ainda que, de acordo com essa fonte militar, Lia teria sido encontrada morta, em janeiro de 1974. Nas pesquisas de Doutorado, descobri que, na verdade, foi encontrada agonizante, mas viva, no início de setembro de 1974. E que terminou executada. O soldado Raimundo Pereira de Melo revelou que ajudou a colocar Lia no helicóptero, que a levaria a algum ponto da mata para execução. Como regia a “Canção do Guerrilheiro”, Lia foi “ao encontro do porvir”.

Os últimos guerrilheiros

Depois, entre fins de setembro e início de outubro, foram-se Manoel do B (José Maurílio Patrício) e Chica (Suely Yumiko Kanayama). Chegaram juntos à casa do camponês José Lucas. Famintos, pediram comida. O morador mandou que entrassem. Comeram e dormiram. Como não dava conta de prendê-los sozinho, José Lucas foi chamar um vizinho, Honório. Os guerrilheiros foram rendidos e amarrados. Então José Lucas mandou chamar outro vizinho que tinha um jipe, o compadre Elisafan Rodrigues de Almeida, Sr. Lili, para levar os prisioneiros aos militares[26].

Quando Elisafan chegou, encontrou Manoel já morto, com um tiro na cabeça. O dono da casa explicou que decidira executá-lo como forma de não haver dúvidas sobre quem receberia o prêmio em dinheiro. Eis a lógica do camponês, segundo a narrativa do compadre Elisafan: José Lucas e Honório haviam prendido juntos os dois guerrilheiros. Como eles tinham armas de calibres diferentes, Lucas deu um tiro na cabeça de Manoel para que os militares não tivessem dúvidas de que deveriam pagar a ele o prêmio pelo guerrilheiro homem. E Honório, assim, ficaria com o prêmio pela mulher. Em seu imaginário, homem valia mais do que mulher.

Manoel (morto) e Chica (viva) foram acomodados no jipe de Elisafan e levados até a Base de Bacaba. Contudo, nenhum prêmio foi entregue a José Lucas. O militar que o recebeu alegou que sua presa estava morta, que só pagavam por terrorista vivo.

Documento do SNI aponta a morte de Suely como tendo ocorrido em janeiro de 1974. Relatório da Marinha aponta para setembro de 1974, sem, contudo, informar a data. No caso de Maurílio, relatório da Marinha informa que sua morte teria ocorrido em outubro de 1974. Optei por considerar o Relatório da Marinha em combinação com as narrativas orais dos camponeses.

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Restava apenas Val, nascida Walquíria Afonso Costa. Passara os últimos meses em companhia de Manoel e de Suely. Estava há semanas completamente sozinha quando procurou ajuda na casa de dona Fogoió, mulher do camponês Zequinha Medeiros, moradores perto da localidade de Brejo Grande. Chegou muito magra, morrendo de fome. Quando se deitou em cama seca, Zequinha pulou em cima, amarrou-a e chamou os militares. Foi levada para a Base de Xambioá. O Relatório da CNV aponta que um índio suruí estava junto da equipe de militares que levou Walquíria.

Ela portava um embornal com alguns pedaços de jabuti seco, um facão de mato, um revólver que já não funcionava, além de cinco balas não deflagradas. Entregaram-a, primeiro, aos cuidados de um enfermeiro, o soldado Adailton Vieira Bezerra, sobrinho de Arlindo Piauí. Seu quadro era de muita “instabilidade, debilidade, intoxicada, muito magra, mostrando muitos sinais de cansaço e apresentava ferimentos nas pernas”, segundo registra Adaliton em depoimento à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência. A primeira providência foi lhe dar um banho, “pois estava muito suja de terra e lama”, recorda-se o ex-soldado. Depois, deu-lhe uma injeção de glicose. Ofereceu água; ela aceitou. Ofereceu uma revista; recusou.

Val permaneceu aprisionada em uma cela com janela de grades. Nada revelou aos militares além de sua própria história pessoal – mesmo porque, àquela altura, nada mais de relevante havia para contar. Atanásio Gomes (então com dezessete anos, auxiliava sua mãe a cozinhar para os soldados da base) a avistou três vezes por detrás das grades. Ela estava com olhar muito triste.

“Me ajuda” – pediu a guerrilheira ao adolescente, que por três vezes desviou o olhar, em silêncio.

“Eu não podia ajudar” – explica Atanásio, aos prantos, no tempo presente.

Walquíria foi executada no terceiro dia, provavelmente a 25 de outubro, por um pelotão de fuzilamento organizado em meia-lua. O primeiro tiro pegou no peito. Ela cambaleou. No segundo, caiu de joelhos. No terceiro, restou falecida, segundo o soldado enfermeiro Adailton Bezerra. Teria sido enterrada ali mesmo, ao pé de uma árvore que ficava no meio da Base de Xambioá[27].

Não há consenso sobre a data de sua morte. Nem nos documentos militares remanescentes, nem nas narrativas dos camponeses. As datas variam entre 29 de setembro e 30 de outubro de 1974. Documento da Marinha, de 1993, registra sua morte como tendo ocorrido a 25 de outubro 1974. Para a família, esse detalhe é relevante para os ritos de lembrança. Para o sentido geral da história, contudo, o importante é compreender que Val foi presa e executada entre setembro e outubro de 1974, representando o extermínio completo da guerrilha.

Mineira de Uberaba, professora primária em Belo Horizonte, era estudante de Pedagogia da UFMG quando aderiu à guerrilha. No Araguaia permaneceu risonha e sonhadora. Gostava de atravessar as noites cantando ao pé da fogueira, com uma sanfona no peito e uma arma ao alcance da mão. Tinha 27 anos.

E assim terminou o movimento protagonizado por 79 homens e mulheres que sonhavam um sonho quando as esperanças eram grandes; pois eram jovens e não tinham medo[28].

[1]       O título de “doutor” nos codinomes, em geral, era usado por oficiais superiores para diferenciá-los da tropa. Contudo, há alguns casos de sargentos que também teriam sido chamados de “doutor”. Esse “Dr. Silva” aparece em muitas narrativas de camponeses, quase sempre à frente de tropas na mata, do que se depreende que seria um dos militares mais ativos na caçada aos guerrilheiros. Havia outro Dr. Silva na região, codinome usado pelo major José de Ribamar Silva, membro do CIE, cuja função era ser um dos coordenadores das equipes de inteligência. Sua base de operações era Marabá.

 

[2]       Mas quem estava presente no momento do confronto era seu irmão Pedro Ribeiro da Silva, o Pedro Galego. Iomar chegou logo depois para decapitá-lo e enterrá-lo.

 

[3]       Jacó Gaioso informou, em narrativa à pesquisa, que Matias (cujo nome completo ele não sabe) teria falecido na década de 1990. Busquei sobrenome perguntando a outros moradores da região. Em vão.

 

[4]       Referência à peça de teatro Così è (se vi pare) – em português: Assim é (se lhe parece), do escritor italiano Luigi Pirandello, definida por ele mesmo como uma “farsa filosófica”.

 

[5]       Quando era professor de Literatura na Universidade de Oxford, Inglaterra, Tolentino foi acusado de fornecimento de cocaína a professores e alunos. No julgamento, declarou-se consumidor e culpado de compartilhar a droga. Foi condenado e passou dois anos preso em uma penitenciária de Dartmoor, chamada popularmente de Ilha do Diabo, mesmo nome de uma ilha-prisão na Guiana Francesa. Foi quando então compôs o referido livro-poema. Bruno Tolentino. A balada do cárcere. Rio de Janeiro, TopBooks, 2006, p. 17.

 

[6]       Ressalte-se que, naquela ocasião, o capitão Sebastião Rodrigues de Moura usava o codinome de Dr. Luchini. Depois de promovido a major, passou a fazer uso aberto de seu apelido pessoal, Curió. Em dezembro de 1973, quando desceu de helicóptero na casa de Zezão para apanhar o guerrilheiro Josias, era o Dr. Luchini. Contudo, nas lembranças de Zezão, quem esteve lá foi o major Curió.

 

[7]       De acordo com as narrativas orais dos ex-guias Sinésio Martins Ribeiro, o Sinésio Bringel, e Cícero Pereira Gomes, o Cícero Venâncio, que estavam presentes no episódio. Um índio suruí também servia de guia.

 

[8]       As fontes são: o ex-guia Cícero Venâncio, que teria ficado amigo de Jobias e, com ele, mantido longas conversas; os ex-guias Iomar Galego e Jacó Gaioso, que também conversaram bastante com o guerrilheiro preso; por fim, um militar que também o interrogou.

 

[9]       Na pesquisa, entrevistei Antônio de Miranda Neto, o Antônio do Agenor, irmão de Diquinho.

 

[10]    José Rufino Pinheiro, que também era guia daquela patrulha, detalhou o episódio em depoimento ao Ministério Público Federal, em 5 de julho de 2001, apontando Arlindo como autor do disparo. A revista Época igualmente informa que foi o mateiro Arlindo quem matou Osvaldão; ainda mostra uma cópia colorida da carteira de identidade de Arlindo. In: Leandro Fortes. “Missão Secreta ao Araguaia – Relatório reservado revela que a Aeronáutica esteve em agosto na região e localizou crematório de corpos”. São Paulo: Época, 6 dez. 2004, pp. 44-46.

 

[11]    Jacob Gorender foi o primeiro a registrar o episódio: “Atado a um helicóptero, seu corpo foi exibido aos povoados da região”. In: Jacob Gorender. Combate nas trevas, p. 237.

 

[12]    No referido documento, aparecem os nomes de João Bispo Ferreira Borges, codinome Joca, e de Líbero Giancarlo Castiglia, codinome Joca. Contudo, descobri nas pesquisas que Castiglia usava a identidade falsa de João Bispo Ferreira Borges.

 

[13]    Em A lei da selva, revelo a existência dessa instalação. O trecho acima foi extraído de Studart, pp. 227-228.

 

[14]    O documento ACE 54730/86 cita a morte de Raul e de Simão como tendo ocorrido a 27 de fevereiro de 1974, por coincidência, numa Quarta-Feira de Cinzas. O Relatório da Marinha entregue ao Ministério da Justiça em 1993 aponta que a morte de Simão teria acontecido na mesma data, 27 de fevereiro. Em depoimento à juíza Solange Salgado, da 1ª Vara da Justiça Federal em Brasília, o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, informa que Raul e Simão teriam morrido em janeiro de 1974. Mas essa informação é fundamentada em suas lembranças. A advogada Merces Castro, por sua vez, apurou uma história diferente sobre a prisão e morte de seu irmão Raul, em versão que lhe foi narrada pelo casal de camponeses Manoelzinho das Duas e dona Margarida. De acordo com as lembranças do casal, Raul teria chegado à sua casa na Sexta-Feira Santa – ou seja, a 12 de abril de 1974 – em companhia dos guerrilheiros Beto (Lúcio Petit da Silva), Valdir (Uirassu de Assis Batista) e Antônio Alfaiate (Antônio Ferreira Pinto). O mais provável, contudo, é que a camponesa se tenha enganado. Raul era do Destacamento B. Já Beto, Valdir e Antônio eram do Destacamento A. Esses três, Beto, Valdir e Antônio, foram de fato presos na casa de Manoelzinho das Duas no feriado de Tiradentes, 21 de abril. Quanto a Raul, a maior parte dos indícios aponta para sua prisão e a morte em fins de fevereiro, junto com o guerrilheiro Simão (Cilon Cunha Brum). Por esse conjunto de indícios, optei por narrar o episódio da execução de Raul como tendo ocorrido em 27 de fevereiro de 1974, junto com Simão.

 

[15]    A execução de Raul e Simão, incluindo o diálogo com Curió, foi inicialmente revelada pelo jornalista Policarpo Júnior, um dos redatores-chefes da revista Veja: edição 2119, 1 jul. 2009, pp. 84-85. Para esta pesquisa, consegui localizar um militar que estava naquela equipe. Ele exigiu que sua identidade fosse preservada, o que será respeitado. Observo, desde já, que a história por ele narrada é extremamente parecida com aquela narrada pelo mateiro Isaías a Zezão, como também ao relatado em reportagem da revista Veja. Quanto à biografia autorizada de Curió, Mata, op. cit., optou por omitir as execuções de Raul e Simão, apesar de testemunhas como Zezão e Antônio do Agenor terem sido entrevistadas e citadas em outras passagens.

 

[16]    O levantamento foi feito em combinação de documentos militares, narrativas orais e, ainda, com o compêndio Direito à memória e à verdade. Brasília: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça e Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. Chamo a atenção para o fato de que este levantamento é obra inacabada. Tomemos, a título de exemplo, o caso da guerrilheira Chica (Suely Kanayama). Documento do SNI informa que teria sido morta em janeiro, conforme já narrado. Contudo, narrativas orais de camponeses apontam que teria sido presa e executada em setembro.

 

[17]    Robson prestou cinco narrativas às pesquisas. A primeira delas, em 2004, para o livro A lei da selva. A narrativa sobre a morte de Áurea ocorreu a 22 de julho de 2015, sob a condição do sigilo da fonte. Metodologicamente, lembro mais uma vez, optei por informar as identidades dos oficiais, sobretudo os oficiais superiores, preservando os nomes dos subalternos, caso tenham solicitado o sigilo da fonte previsto no Artigo 5º da Constituição, apresentando-os pelos codinomes que usavam no Araguaia.

 

[18]    Havia sido recém-fundada pelo comandante Omar Fontana, cuja família era dona da indústria de alimentos Sadia. Logo depois mudaria o nome para Transbrasil. Dinaelza trabalhou lá um pouco antes da mudança de nome.

 

[19]    Cícero narrou o mesmo episódio à pesquisa. Contudo, optei pela narrativa de Zezão por ser mais rica, aproveitando a de Cícero nas eventuais ausências.

 

[20]    Narrativa oral de Louro (codinome do militar usado no Araguaia), registrada em Studart. A lei da selva, p. 81

 

[21]    Em narrativa a Merces Castro, irmã do guerrilheiro Raul, Manoelzinho e Margarida informam que esses fatos teriam ocorrido no feriado de Tiradentes, ou seja, 21 de abril de 1974. Também relatam a Merces Castro que seu irmão Raul estaria nesse grupo. Contudo, todos os indícios apontam para a prisão e execução de Raul em fins de fevereiro, conforme já narrado; e a prisão de Beto, Valdir e Antônio em fins de abril.

 

[22]    Referência ao compositor Caetano Veloso e ao conjunto Novos Baianos, que, junto com Gilberto Gil, eram considerados os representantes maiores do movimento tropicalista.

 

[23]    Realizei entrevistas orais com dois oficiais do Exército que estiveram com Dina em Marabá. Ambos garantiram que Dina não teria sido torturada ou sofrido maus tratos. Os mesmos militares admitiram “uso de violência” (eufemismo de tortura) nos interrogatórios de outros guerrilheiros, como Dinaelza Santana Coqueiro, a Maria Diná.

 

[24]    Esse episódio encontra-se relatado no livro A lei da selva, pp. 55-58. Inclusive o diálogo entre Dina e Ivan. Por seu simbolismo, optei por registrá-lo novamente nesta obra.

 

[25]    João Carlos Wisnesky, o Paulo, que ficou na guerrilha até outubro de 1973, não conhece a canção. Nem Micheas de Almeida, o Zezinho, que permaneceu na área até janeiro de 1974. Paulo pertencia ao Destacamento A, ao norte, e Zezinho ficava entre a Comissão Militar, ao centro, e as cidades. São eles os dois únicos sobreviventes que efetivamente participaram da luta armada.

 

[26]    Elisafan Rodrigues de Almeida prestou depoimento ao GTT, gravado em vídeo pela pesquisadora Myrian Luiz Alves.

 

[27]    Há também a possibilidade de que tenha sido enterrada no cemitério de Xambioá. Em 2001, foram retirados do cemitério os restos mortais de uma mulher; Walquíria é uma das possibilidades.

 

[28]    Mais uma vez, tomo emprestados os versos que Alain Boublil e Herbert Kretzmer fizeram para a canção “I dreamed a dream”.

 

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