Solidariedade europeia em tempos de covid-19 | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

Devido à pandemia de coronavírus, a maior parte das fronteiras internas da Europa foi fechada, 25 anos após elas terem sido abertas como parte do Espaço Schengen. Mesmo assim, algumas das regiões mais afetadas do continente enviaram pacientes para hospitais na Alemanha e outros vizinhos europeus, após receberem ofertas de ajuda.

A Luftwaffe (Força Aérea alemã) anunciou neste sábado (28/03) que começou a transportar pacientes graves de coronavírus da Itália para a Alemanha. A corporação disse que aviões do tipo MedEvac Airbus, especialmente projetados para transporte médico, estavam sendo usados e que oficiais médicos militares estavam ajudando na locomoção.

Na manhã deste sábado, a Luftwaffe embarcou seis pacientes com covid-19 em Bérgamo, no norte da Itália, onde os serviços de saúde estão sobrecarregados. Os pacientes serão levados para o aeroporto de Colônia e transportados para diferentes hospitais para tratamento, informou a Força Aérea alemã.

A ministra da Defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, chamou o transporte de pacientes de “um importante sinal de solidariedade”. “A Europa deve permanecer unida”, acrescentou em comunicado no Twitter.

Os hospitais e as clínicas alemãs já haviam começado a receber pacientes da Itália, o país mais atingido, bem como do leste da França, onde o surto de coronavírus foi particularmente virulento. A região francesa da Alsácia, perto da fronteira com a Alemanha, está entre as mais atingidas do país.

Além do transporte aéreo de pacientes para clínicas na Alemanha e na Suíça, eles também estão sendo enviados para tratamento em outros lugares da França em trens TGV de alta velocidade especialmente adaptados. Os trens partiram na sexta-feira. A região sofre com a escassez de leitos de terapia intensiva e aparelhos de respiração artificial.

“Na minha região, a situação é realmente crítica”, explica Brigitte Klinkert, chefe de governo do Departamento do Alto Reno, na França. Suas instalações médicas em Mulhouse e Colmar chegaram ao limite de suas capacidades. “Estamos montando cada vez mais leitos de terapia intensiva, mas simplesmente não é suficiente.”

Mais de 350 pessoas morreram na região em decorrência da doença apenas nas últimas três semanas, e Klinkert admite que mais pessoas podem ter morrido em casa e ainda não foram contabilizadas na lista, que abrange mortes em hospitais e casas de saúde.

Klinkert emitiu um pedido de ajuda no final da semana passada, recebendo rapidamente respostas positivas de políticos locais na Alemanha e na Suíça. “Para ser sincera, quando enviei esses e-mails, fiquei pensando: ‘Receberei uma resposta?’ Foi uma surpresa extremamente agradável quando as ofertas chegaram”, admite a francesa.

“É claro que trabalhamos muito próximos e somos grandes amigos com muitas conexões, mas essa foi uma demonstração incrível de cooperação transfronteiriça ‒ de solidariedade europeia. Em tempos mais normais, nossas regiões estão completamente interconectadas. É realmente emocionante ver essa cadeia de solidariedade com a Alemanha, a Suíça e o resto da França.”

Pacientes da Alsácia estão recebendo tratamento numa série de clínicas nos três estados alemães mais próximos da região. Até agora, contudo, a vontade de ajudar superou a capacidade de transporte médico. Atualmente, esses transportes transfronteiriços só são possíveis usando helicópteros; o Departamento do Alto Reno tem três deles funcionando no limite de sua capacidade.

Saxônia apoia Lombardia

Uma jovem deputada federal da União Democrata Cristã (CDU), partido de Angela Merkel, liderou a pressão para que o estado da Saxônia, no leste da Alemanha, recebesse oito pacientes italianos da região da Lombardia. Marian Wendt, de 34 anos, faz parte da comissão parlamentar de cooperação teuto-italiana em Berlim.

“Recentemente, mantive contato regular com a Embaixada da Alemanha em Roma e a Embaixada da Itália em Berlim, porque tínhamos uma série de desafios a resolver: máscaras não podiam ser transportadas através da fronteira, roupas de proteção foram retidas no Aeroporto de Frankfurt”, conta Wendt. “Durante essas trocas, elaboramos o plano de tratamento de pacientes da Lombardia na Alemanha.”

A deputada diz que, embora os políticos na Saxônia tenham debatido longamente os prós e os contras e reconhecido os desafios logísticos e políticos, eles rapidamente concordaram que deveriam tentar ajudar.

A Saxônia é uma das regiões menos afetadas da Alemanha, no entanto, o aumento dos casos de coronavírus vem se acelerando nos últimos dias. Mas Wendt está confiante de que os médicos locais, que se mostraram “imediatamente dispostos a ajudar” quando questionados sobre a possibilidade de transferências médicas da Itália, não correm o risco de ficar sobrecarregados.

“Eu nunca teria começado uma iniciativa como essa se tivesse ouvido preocupações desse tipo de nossos médicos na Saxônia”, afirma Wendt. “Nossas clínicas estão bem equipadas e dispõem de um grande número de leitos de terapia intensiva desocupados e com respiradores, graças às medidas de emergência já implementadas.”

Wendt também mencionou a assistência que a Saxônia recebeu de países vizinhos durante as grandes inundações de 2002 e 2013, dizendo que estava contente em poder oferecer algo de volta aos vizinhos europeus necessitados.

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