Sobre como os EUA estavam corretos sobre a corrupção no Brasil – Claudio Tognolli

Por Claudio Tognolli

Em duas ocasiões recentes, os governos brasileiros achincalharam os EUA. Nas duas oportunidades, membros do corpo diplomático norte-americano haviam atestado, por escrito e verbalmente, que o Brasil era um poço de corrupção, incontornável. Tiveram de pedir desculpas.

Mas estavam certos.

A primeira vez foi em outubro de 1997, bem no ano em que o ex-presidente FHC privarizava a Vale do Rio Doce.

Bill Clinton preparava uma visita ao Brasil em outubro de 1997. O Departamento do Comércio dos EUA elaborou então um relatório, entregue ao grupo de empresários norte-americanos, que acompanharia a visita do presidente Bill Clinton ao Brasil.  O dossiê estabelecia que  havia  “um excelente potencial de negócios no Brasil, mas aqui a corrupção ainda é endêmica na cultura brasileira”.

Causou mal estar geral no governo de FHC.

O então embaixador norte-americano no Brasil, Melvyn Levitsky, teve de  telefonar  ao chanceler brasileiro, Luiz Felipe Lampreia, para desculpar-se pelo relatório em que o Brasil era citado.

Segundo o relatório, o Brasil era então o 15º num ranking de países mais corruptos do mundo, num estudo elaborado pela organização não-governamental alemã Transparency International.

Face o mal estar, o Departamento de Estado norte-americano decidiu substituir a expressão “corrupção endêmica” por apenas “corrupção”.

Mas estavam certos em defini-la como “endêmica”.

Agora vamos a outra situação, mais recente ainda.

Um dos telegramas confidenciais enviados pela embaixada dos Estados Unidos no Brasil para Washington, e divulgados pelo Wikileaks, definia que as instituições brasileiras eram todas afetadas por “corrupção generalizada”.

O documento (leia a íntegra, em inglês), datado de 19 de fevereiro de 2009, foi enviado pelo embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, ao procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder —antes deste visitar o Brasil entre 23 e 26 de fevereiro daquele ano.

Shannon escreveu:

“Apesar de muitos juristas serem de alto nível, o sistema judiciário brasileiro é frequentemente descrito como disfuncional e afetado por jurisdições que se sobrepõe, falta de treinamento, burocracia absurda e acúmulos [de processos] esmagadores. A corrupção persistente e generalizada afeta os três poderes do governo [Executivo, Legislativo e Judiciário]. A aptidão das forças da ordem são afetadas por falta de treinamento, rivalidades burocráticas, corrupção em algumas agências e as forças policiais são muito pequenas para cobrir um país de quase 200 milhões de habitantes”.

Causou mal estar com Lula. Tiveram de se desculpar de novo. Mas estavam certos.

Desde que Kennedy criou em 1961 a Aliança para o Progresso, nossos comunas distorceram tudo. Passaram a dizer que a ajuda econômica dos EUA era na verdade uma forma de ataque consumada no Movimento de 1964. E que aquilo a que Lincoln Gordon (embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966) chamava de  ”Ilhas de Sanidade Administrativa” se referia, em verdade, mais à interferência política do que a ajuda econômica.

Não importa. 50 anos depois não somos nenhuma ilha de sanidade: muito menos administrativa.

Ao resgatar esses  episódios, o blogueiro se lembrou de Alvaro Obregon, que presidiu o México entre 1920 e 1924. Seu bordão de governo era “eu roubo menos”.  E, quando falava isso, exibia o cotoco: havia perdido meio braço num atentado a bomba que sofreu  de seu segurança particular.

Caro Tio Sam: você estava certo: nós não roubamos menos: jamais…

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