Saiba tudo sobre o Guardião, o software da PF que grampeou todos os corruptos – Claudio Tognolli

POR CLAUDIO JULIO TOGNOLLI, para a Rolling Stone

Ele é um divã freudiano: sabe de tudo o que é inconfessável publicamente. Revela aos juízes frases capazes de amolecer correntes, de comover a opinião pública e botar engravatados de sorriso ortopédico atrás das grades. O Sistema Guardião, a estrela pop por detrás das operações da Polícia Federal, parece Deus em sua ubiqüidade divina: está em todo o lugar, ouve a todos, mas ninguém o vê. Em 2007, a Polícia Federal promoveu 188 operações de combate à corrupção e ao crime organizado, com a prisão de 2.876 pessoas, 316 delas servidores públicos e 13 policiais federais. Foi um aumento de 7,5% no total de presos na comparação com 2006. O Big Brother Guardião é a vedete de mais de 90% de todo esse trabalho. As cenas que se seguem foram anotadas por quase 20 anos de cobertura de grampos.

Cena 1

O grampeado dá um grampo
Meu contato com o mundo dos grampos, até que chegasse o Guardião, data de pelo menos 25 anos. A primeira cena que brota na memória ocorre em janeiro de 2004. Uma ex-aluna de jornalismo, cujo pai foi preso na primeira grande operação da PF, a Anaconda, deflagrada em outubro de 2003, leva este repórter à carceragem da PF, no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo. Na sétima visita, uma cerração causticava os horizontes sobrepostos que se viam pelos vidros da carceragem: lá estava o repórter, sozinho, numa cozinha, com a TV ligada no programa do Faustão. A meu lado, ninguém menos que João Carlos da Rocha Mattos, juiz federal preso e condenado sob acusação de chefiar uma quadrilha que supostamente venderia sentenças judiciais. Rocha Mattos tem mechas dantonianas e enfunadas, parece um roqueiro desabitado de acordes. Nossa conversa começa, bizarramente, com este repórter agradecendo ao juiz preso. “Devo ao senhor o fato de eu ter virado correspondente. Você sabe que em 1990 a Folha de S. Paulo me mandou morar em Miami para descobrir a sua casa em Kissimmee, a 8 km de Orlando.” De fato: João Carlos aceitara uma denúncia do ex-presidente Fernando Collor de Mello contra a Folha de S. Paulo. Eu estava sendo processado por João Carlos: tudo porque havia publicado, na mesma Folha, reportagem em que definia como “curioso” o fato de ele ter absolvido acusados de fraudes no INSS. O advérbio de modo “curiosamente” me levou a ser denunciado pela procuradora da República Alice Kanaan, que aliás hoje divide o prédio em que trabalha com as procuradoras que levaram Rocha Mattos à cadeia. Em 10 de maio de 1991, a procuradora Alice Kanaan me denuncia, alegando que Rocha Mattos era “funcionário público federal atingido em sua honra” por mim. A Folha de S. Paulo julgou que o repórter, por toda essa situação, estaria espumoso de ódio, com a alma desmedrada. E foi assim que, numa tarde de inverno, tarde com céu de negror, o diretor de redação Otavio Frias Filho me chama em sua sala. Tranca a porta. Liga a televisão num volume dos diabos. Justifica-se que “podemos estar sendo grampeados” e dá o comando: eu estava embarcando para Miami em um mês e pouco. Oficialmente, eu seria correspondente. Extra-oficialmente, iria cumprir aquilo batizado de “Operação Mickey Mouse”, que consistia em descobrir a casa de Rocha Mattos da Flórida. E tentar provar que ela era incompatível com seus rendimentos. A reportagem, em co-autoria com João Batista Natali, foi publicada em 1993. Serviu como peça principal para que o juiz sofresse seu primeiro afastamento, há 15 anos. Ele acabou reconduzido ao cargo. E foi preso pela Anaconda, em 2003, que fez amplo uso do Guardião.

“Não acha que é uma piada você estar aqui, agora, me contando isso?”, ria-se Rocha Mattos nesse sétimo encontro. Que foi quando obtive o que buscava: as fitas com as gravações do Caso Celso Daniel. Rocha Mattos me deu o que parecia ser um CD de Diz-zy Gillespie. Dentro estavam as 42 gravações feitas pela Polícia Federal durante o seqüestro do ex-prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel, encontrado morto a 20 de janeiro de 2002. “A operação Anaconda foi feita para pegar essas fitas comigo. São fitas ilegais, não foram feitas com o mesmo Guardião. Faça bom proveito.” O que parecia ser um prêmio Nobel resultou inútil. Um mês escutando as fitas, que trazem vozes de “n” caciques do PT, e nada de útil há nos grampos do caso Celso Daniel.

Cena 2
Os emputecidos
Depois da Operação Anaconda, começo a ser procurado por um grupo de ex-policiais, advogados, políticos, todos querendo saber o que era afinal esse Guardião. Trata-se afinal de um sistema de software e hardware fabricado pela Dígitro, de Santa Catarina. Ele é capaz de gravar simultaneamente centenas de ligações. Segundo a empresa, “o sistema é desenvolvido de acordo com as necessidades do cliente e o preço varia”. Diz-se que seu custo gira em torno de R$ 500 mil, além dos gastos com a manutenção – o Ministério Público de Mato Grosso comprou um por R$ 413 mil em dezembro de 2006.

“Por motivos de segurança e impedimentos contratuais”, a Dígitro não informa quantos aparelhos do Guardião existem em operação no Brasil. Além da Polícia Federal e da Civil, sabe-se que a Procuradoria-Geral da República também tem seu Guardião. O ex-procurador-geral da República Cláudio Fontelles admitiu que comprou o sistema. Em Mato Grosso, o Ministério Público já usou o Guardião em pelo menos duas operações. O estado de Alagoas também anunciou a compra.

Em 2007, fui ouvir o senador Romeu Tuma (DEM-SP) sobre o que ele achava do Guardião. Ele me disse que o uso do Guardião estava avacalhado. “Quando digo que está tudo avacalhado, me refiro ao Guardião nas mãos dos MPs e até nas mãos da iniciativa privada. Aí, a situação fica difícil. É por isso que o Guardião precisa de um controle efetivo.” Fui ouvir o depoimento de um policial carioca que acabou sendo preso pela PF há dois anos. “O Guardião não é nada. Vai vir algo pior: um sistema que vem de Israel e muito mais poderoso que o Guardião. O que acontece hoje é o seguinte: quando uma pessoa liga para quem está monitorado, mesmo que a pessoa monitorada não atenda, ele começa a gravar a ligação de quem ligou e não tem ordem judicial para isso.”
Um agente federal do Espírito Santo me deu outro relato. “O custo é R$ 10 mil mensais por grupo de dez canais, para dez telefones, fora o custo de implantação de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. Uma fortuna incalculável! A equipe do Departamento de Inteligência Policial (DIP) de Brasília ganha estadia, carro e uma verba secreta (VS) de quase R$ 15 mil mensais para atuar no grampo. Apenas em São Paulo tem capacidade para grampear 9 mil telefones simultaneamente.”

Pelo menos 24 pessoas, entre agentes da Polícia Federal e colaboradores eventuais, viajaram país afora para participar de treinamentos e cursos de atualização do Guardião. A Polícia Federal possui mais 28 aparelhos semelhantes ao Guardião. Já as polícias civis estaduais em todo o país têm outros 60.

Cena 3
Os Grampeados
Já virou moda entre repórteres que cobrem Polícia Federal a troca de exemplares de grampos feitos com o Guardião. Todos esses grampos vêm com o selo “Segredo de Justiça”. Mas há uma saída: um voto do ministro Celso de Mello, do STF, sustenta que segredo de justiça é voltado às autoridades detentoras dele. E, como jornalistas não são obviamente autoridades, ficaria ao bel prazer dos repórteres a decisão sobre se devem ou não publicar esses grampos legais. Um amigo precisava de certos trechos da Operação Anaconda. Dei-lhe um conjunto de CDs e recebi outros tantos. Ele me repassou os grampos feitos contra um empreiteiro paraibano, radicado na Bahia, que foi o responsável pela prisão de 48 pessoas no ano passado. Era Zuleido Veras, dono da construtora Gautama, com contratos de R$ 800 milhões, foi o pivô da operação Navalha. Ele teve sua prisão decretada, acusado de comandar um monstruoso sistema de corrupção, que funcionaria assim: 33% de um contrato deveria pagar os custos da obra, 33% gerariam o lucro e 33% seriam usados em propinas. “Deus do céu, você viu como o Zuleido aparece nas fitas cobrando propinas de uma maneira tão clara, mas sendo tão amoroso, profundo e delicado com seu filho?”, perguntou o amigo repórter. O Guardião tem dessas coisas: acusados vendidos como monstros de sete cabeças na mídia aparecem, no grande divã que é o Guardião, como homens de vozes maviosas e códigos de comportamento dignos de príncipes. Nem chistes escapam ao Guardião: um homem teve sua voz de gago detectada numa gravação, em que estava metido num esquema, oferecendo em alto e bom som R$ 1 milhão a uma autoridade. “Tah tah tah tah tah fé fé fé fé fechado em 1 mi mi milhão?”, pergunta o gago na gravação. Uma juíza mostra essa fita ao gago, numa sessão. E pergunta. “O senhor reconhece essa voz como sua?”. Ele responde “Na na na na não, não so so sou eu na na não. É um só só só sósia!”. O fato é verdadeiro e ocorreu em São Paulo.

De fato, o que ocorre no país é uma situação do mais franco bulício de arapongas ensandecidas: a CPI dos grampos, que atravessou o Brasil neste primeiro semestre, revelou que, no ano de 2006, 409 mil interceptações telefônicas foram feitas no país, com ordem da Justiça, pelas operadoras Oi, TIM, Brasil Telecom, Telefônica, Vivo e Claro. As empresas confirmaram um crescimento de 10% no número de pedidos entre 2006 e 2007. O secretário-geral da Telefônica, Gustavo Fleichman, por exemplo, revelou que a empresa detectou 26 escutas clandestinas em 2007.

Justamente o que mais preocupa as pessoas é se as linhas grampeadas pelo Guardião não podem ser desviadas para outros interesses. As especulações começaram quando, sobretudo a partir de 2007, ministros da mais alta corte do país começaram a divulgar que tinham sido grampeados. Em depoimento aos deputados da CPI das Escutas, o representante de Relações Institucionais da Oi Fixo (antiga Telemar), Arthur Madureira de Pinho, confirmou que o ministro do STF, Marco Aurélio, foi grampea-do quando visitou o Rio de Janeiro. Cinco ministros (Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Sepúlveda Pertence – aposentado -, Celso de Mello e Cezar Peluso) admitiram publicamente a suspeita. E mais: a suspeita do autor do grampo ilegal recaiu sobre a Polícia Federal.

Cena 4
Mão na roda
Vejamos mais números dados à CPI: a Telefônica fez 2.632 interceptações por ordem judicial, num sistema em que a comunicação com a Polícia não é feita por cabos, mas por um sistema eletrônico, com a ajuda de um software.

Já segundo o gerente de Relacionamento e Apoio aos Órgãos Públicos da TIM, Delmar Nicoletti, a empresa executou no ano passado 235 mil interceptações telefônicas por ordem judicial. Ele disse que a TIM usa o mesmo sistema da Claro, o Vigia.

O diretor de Patrimônio e Segurança da Oi, Paulo Edson Pioner, disse que a empresa fez 20 mil interceptações. Segundo Pioner, a Oi checa os dados da ordem de execução, entrando em contato diretamente com o juiz para confirmar o nome e o número da pessoa.

A diretora jurídica da Claro, Tula Peters, disse que a companhia executou 33 mil quebras de sigilo em 2007. Segundo ela, a equipe do setor trabalha em uma sala exclusiva, num esquema de segurança que inclui câmeras de vigilância.

O gerente de Segurança da Vivo, Diogo Rio Neves, informou que a empresa fez, em 2007, 72.677 interceptações. Segundo ele, a Vivo não aceita ordens por e-mail, pois não há como verificar a autenticidade.

Para o presidente da CPI, o deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), com esses números, “fica a impressão de que primeiro a Polícia manda grampear o telefone, para depois começar as investigações”. Já o relator da CPI, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), considera que um país com tantas ligações interceptadas não consegue garantir o direito à privacidade.

Apesar de tudo isso, acha-se que o uso do Guardião pode estar chegando ao fim. Quatro fontes na Polícia Federal afirmam que o sistema será substituído, em breve, por um outro muito mais sofisticado desenvolvido em Israel. A Polícia Federal não confirma a informação, mas na planilha de gastos de maio de 2006 da PF há quatro viagens da cúpula da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) para Israel, todas passando pela Bélgica.

A informação da assessoria de imprensa da Senasp é a de que as viagens foram motivadas pelos jogos Pan-americanos. Segundo a assessoria, a cúpula da Senasp esteve na Bélgica e em Israel para conhecer tecnologias e instrumentos da área de inteligência para ajudar na elaboração do plano de segurança para o Pan.

Cena 5
“O Guardião não tem emoticons”
Meu próximo passo foi encontrar com um dos agentes federais mais inteligentes que conheci. Quer conversar off the records, e vai logo avisando que não vai me entregar gravações feitas pelo Guardião. “A Polícia Federal precisa se aprimorar no serviço de decupar as gravações, de passá-las para o papel. Às vezes, o agente faz isso na pressa, e acaba retirando uma frase de contexto. Quantas vezes você já disse, na sua vida, ao telefone, brincando, algo como: ‘Eu vou matar esse filho da puta!’? Várias vezes. Pois bem: a degravação, a decupagem das fitas não tem emoticons, se você fala de brincadeira que vai matar alguém, aquilo pode ser transcrito como uma ameaça de fato.” Pergunto a ele qual foi o caso mais interessante que viu o Guardião detectar para a PF. Ele não pensa duas vezes. “Foi o caso do Helinho Laniado.”

Hélio Renato Laniado é conhecido como doleiro das estrelas. Em outubro de 2007, a Justiça do Paraná determinou sua soltura. Considerado foragido a partir de abril de 2005, Laniado foi preso no exterior, quatro meses depois, com o apoio de serviços policiais internacionais e monitoramento da Polícia Federal. Foram acionadas as representações da Interpol em Israel, Holanda, Portugal e também na República Tcheca. Laniado foi extraditado para o Brasil em agosto de 2007. Em uma de suas contas, foram bloqueados pelos EUA mais de US$ 3,5 milhões. Ele utilizaria empresas em paraísos fiscais no Caribe e no Uruguai para a transação financeira – sistema semelhante ao que o publicitário Duda Mendonça confessou ter recorrido para receber dinheiro do PT. Laniado diz que jamais operou como “doleiro”, mas como consultor de investimentos no exterior, movimentando dinheiro já internacionalizado – ou seja, não operava a remessa de recursos para o exterior.

O que torna o caso Laniado o mais curioso do Guardião é sua biografia.Namorou Daniella Cicarelli, Carolina Ferraz. Com essa vida florada, Hélio Laniado apaixonou-se pela ex-modelo Mariana Weickert. “Ela telefonou para ele em Praga, na República Tcheca, e em Tel Aviv, em Israel, várias vezes. Foi graças a todas aquelas declarações de amor, conversinhas de casal apaixonado, que conseguimos, via Guardião, localizá-lo lá e mandar a Interpol cumprir seu mandado internacional de prisão. Esse com certeza é o caso mais romântico e de maior eficiência internacional do Guardião”, diz o agente. A verdade é que as gravações revelaram que Laniado estava em Israel. As autoridades do país preferiram não prendê-lo para a deportação, já que ele é judeu de origem egípcia. Esperou-se então que ele embarcasse para a Europa. Na escala em Praga, ele foi retirado do avião.

Vários advogados brasileiros acham que o Guardião serve para que promotores e procuradores usem as gravações de maneira a forçar a barra. E chamam isso de “delação premidada a la carte”. A lei 8.072 de 1990 é uma das várias leis que prevêem o dispositivo da delação premiada. Em seu artigo 8º, parágrafo único, prevê que “o participante e o associado que denunciar à autoridade o bando ou quadrilha, possibilitando o seu desmantelamento, terá pena reduzida de um a dois terços”. Com isso, garantem alguns advogados, as gravações poderiam estar sendo usadas para forçar pessoas a acusarem outras, para se safar.

O único profissional que encontrei para confirmar isso foi o criminalista de Curitiba Elias Mattar. “Um cliente meu, inocentado e reconduzido ao cargo que tinha na Receita Federal, era acusado de um caso que envolvia exportação fraudulenta. Na Polícia Federal, na cela, ele era procurado, sobretudo por agentes e delegados, que o pressionavam psicologicamente, perguntando: ‘Diga quem está por trás de tudo, diga!’ Ele não tinha a quem delatar, mas o pressionaram tanto que escrevi ao ministro da Justiça. Até que um dia meu cliente me disse na cela: ‘Diga para eles pararem de me pressionar porque não tenho a quem delatar, mas se eles continuarem, podem trazer uma lista de nomes que assino embaixo, porque não agüento mais essa tortura na cela da PF’.”

Cena 6
Freud explica
Sigmund Freud diz em sua obra Totem e Tabu que, em polinésio, a palavra “taboo” significa “aquilo que não pode ser tocado, misterioso”. Se assim for, o maior tabu do Brasil é o Guardião. Nota oficial da PF, lida à reportagem, sustenta que, apesar de o atual diretor da corporação, delegado Luis Fernando Correa, ter sido um dos mentores da implantação do sistema entre os federais – mais: diz o site do Ministério da Justiça que “ele liderou a equipe de federais que desenvolveu o sistema de gerenciamento de monitoramento policial, denominado Sistema Guardião” – , ali, curiosamente, não se fala sobre o tema. “O Guardião é feito por uma empresa privada. É antiético falar nele, não damos entrevistas nem dados sobre ele. Aconselhamos aos repórteres que busquem a Dígitro. Esse é o procedimento padrão para todas as mídias sobre este tema”, declarou o agente Alexani, da Comunicação Social da PF em Brasília.

Com sede em Santa Catarina e escritórios em São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Recife e Fortaleza, entre outros, a empresa que o inventou, a Dígitro, após uma semana de negociações com a reportagem, remeteu as únicas linhas oficiais sobre o misterioso Guardião. Sustentam que ele é “um moderno sistema de interceptação de sinais para apoio às atividades de investigação, análise e geração de provas. Sua inquestionável eficiência e superioridade vem sendo, dia-a-dia, comprovada pelo ganho consistente de qualidade da investigação policial no Brasil”.

Explicam que “para que o sistema funcione é necessário inserir dados exatos e exclusivos de ordens judiciais autorizando as interceptações. Caso contrário, o Guardião acusa inconsistência de requisitos e se recusa a operar. Além disso, o Guardião só pode operar com o apoio oficial das operadoras, que são concessionárias oficiais do serviço público.”

Cena 7
A velha Guarda
Nos anos 70, quando comecei a cobrir Polícia Federal, sabíamos que as técnicas de grampo eram limitadíssimas. Agentes federais faziam-se, pelo atalho da fantasia, de funcionários das companhias telefônicas para promover suas ações intempestivas. Os grampos eram feitos assim: você diminuía a velocidade do gravador de fitas K-7, mexendo no relê, e assim uma fita de 90 minutos poderia triplicar sua duração. As fitas eram instaladas, com os gravadores, nas caixas dos postes. O agente ia lá e colhia tudo. Quando os grampos eram políticos, sabía-mos que a tarefa não passava pelos agentes. Tínhamos pes-soas egressas do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) que ainda dispunham de aparelhos oficialmente fora de cena. O SNI tinha, desde 1971, a Escola Nacional de Informações, a ESNI, em que funcionava um laboratório de lingüistas. Ali foi instalada uma rede de computadores cuja árvore era um modelo IBM-360/115 trazido ao Brasil ilegalmente. Em torno dele se montou, também, toda a infra-estrutura de inteligência da Prólogo, que chegou a ter 350 funcionários. Era ela que fazia os equipamentos de escuta com os quais se grampea-vam, nessa ordem, comunistas e políticos corruptos, ou os a serem chantageados.

No caso do narcotráfico, o Guardião da época eram os gansos, ou informantes policiais, ou ainda os X-9. Os agentes, em São Paulo em particular, deixaram de fazer o papel de funcionários da telefonia. Tudo porque uma estrela-solitária começou a brilhar em São Paulo: o Dr. Netto. Ele se chamava Laurival de Moura Vieira Aquilino. Ganhava da Drug Enforcement Administration, a agência antidrogas dos EUA, US$ 5 mil pra cada quilo de cocaína que denunciasse. O acordo com os gringos foi fácil de ser feito. Nos anos 80, Dr. Netto foi preso em Miami, na Flórida, acusado de comandar uma rede de narcotráfico. Fez acordo com a DEA: virou agente dedo-duro. Infiltrava-se nos cartéis, comprava a cocaína, ligava para os federais do Brasil, e desaparecia. Era por isso que a cada manchete de apreensão de cocaína os jornais traziam uma linha referindo “um dos membros da quadrilha escapou ao cerco dos federais”. Era Dr. Netto. Ele foi o “Guardião da PF” por anos e anos. Mas esse guardião era dono de uma enlouquecida crônica de vida. Em 1983 pelo menos cinco mansões de São Paulo foram assaltadas, incluindo a casa do então vereador Brasil Vita e a casa da apresentadora Hebe Camargo.Dr. Netto foi acusado como mentor intelectual das ações. Netto foi assassinado em janeiro de 1990, no estacionamento do edifício Central Park, na rua Estela, no Paraíso, zona sul de São Paulo. Uma morena de cabelos longos até a bunda desceu de um Escort conversível vermelho. Netto estava no estacionamento, ao subsolo. Ela o chamou pelo nome e disparou. Morria ali o Guardião da PF paulista nos anos 80. Relatei a vida de Dr. Netto em meu primeiro livro, O Século do Crime, feito com José Arbex Jr., em 1996. Há pouco tempo soube que, quando a PF fazia suas grandes apreensões, o delegado José Augusto Bellini botava gansos de madeira ao lado das mercadorias apreendidas. Era uma homenagem aos gansos da PF, como Dr. Netto. Há sete anos, numa campanha ao governo de São Paulo, soube que políticos estavam comprando meu livro a toneladas. Queriam retirar dele a história do “Guardião dos anos 80”, o Dr Netto: tudo porque a atual esposa de um dos políticos mais respeitados do Brasil foi casada com Dr. Netto – mas quando viu que ele era um sacripanta do crime, desfez o casamento diretamente no Vaticano. Não relato essa história aqui com nomes porque separações judiciais correm em segredo de Justiça nas varas de família e sucessões. Exercite sua imaginação.

Estive na cadeia, por muitas vezes também, com esse que foi um dos heróis dos anos 70 e 80 da PF, o delegado José Augusto Bellini. Fiquei seu amigo quando ele saiu numa manchete da Folha de S. Paulo, em 1988, em que era chamado de “O Eliott Ness brasileiro”, tamanhas e tantas as toneladas de cocaína que apreendeu. Bellini foi preso na operação Anaconda e passou três anos atrás das grades. Ouvi todos os grampos que o Guardião fez contra Bellini: jamais me convenci de que ele tenha vendido alguma sentença judicial. Bellini, pela estrela que foi, sempre posou de o rei da cocada preta: arrotava peru, falava ao telefone coisas que jamais fez. Isso lhe custou caro. O Guardião não o poupou. Muita gente não gosta de Bellini. Como os Titãs, a banda, alguns dos quais ele acusou, nos anos 90, de estarem metidos com heroína. Será coincidência que o nome do protagonista dos romances policiais de um dos Titãs seja justamente Bellini? A última cena que guardo do Dr. Bellini é este repórter pedindo para que ele mostrasse suas centenas de tatuagens, na carceragem da PF. Ele tira a camisa. Pede para que eu mostre as minhas. Nesse momento, o juiz Rocha Mattos se aproxima e dispara: “Acho que vocês dois bebem no mesmo bar”.

Francisco Carlos Garisto foi o melhor agente que o delegado Bellini teve. Virou o Lula da PF, pois instalou o primeiro sindicato dos tiras federais e por duas vezes parou a PF em greves salariais. Garisto já foi segurança pessoal de três presidentes norte-americanos, do papa João Paulo Segundo, de Lady Di e do Príncipe Charles. Infiltrou-se como ninguém no Cartel de Medellín. É o maior herói da corporação. Fui atrás de Garisto para saber do Guardião. “Acho o Guardião formidável, porque ele não permite mais aquelas escutas clandestinas, ele é um sistema que sem dúvida melhora em muito a democracia. Na minha época você levava semanas para gravar as pessoas. Mas eu temo que muito Guardião dê nos policiais aquilo que se chama nos EUA de ‘Bunda Canadense’, que é a mania de o policial ficar sentado só fazendo escutas e não investigando nada. Esse termo ‘Bunda Canadense’, ou ‘Bunda Quadrada’, eu aprendi no curso que fiz no FBI, na academia de Quantco. O Guardião é genial, mas deixa o tira de bunda quadrada.”

A maior estrela feminina do Ministério Público Federal, e uma das responsáveis pela operação Anaconda, a procuradora Janice Ascari, é toda elogios para o Guardião. “De um modo geral, os sistemas de interceptação telefônica e telemática (Guardião e outros) dão agilidade à colheita de dados e agregam qualidade à investigação criminal. Com a globalização e a informatização que une o mundo num clique, as técnicas de investigação têm de acompanhar esse ritmo também.”

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