RIO — Após 105 dias do primeiro óbito por coronavírus no Rio, o estado ultrapassou nesta terça-feira (30) a marca de 10 mil vítimas fatais do novo coronavírus. Segundo dados da secretaria estadual de Saúde, em todo o território fluminese 10.080 perderam suas vidas por causa da doença e 112.611 pessoas foram infectadas. Nas últimas 24 horas foram confirmados 232 novos óbitos e 728 casos da Covid-19.

Somente na capital do Rio, segundo dados do Tabnet — sistema do Ministério da Saúde alimentado pela prefeitura do Rio, o coronavírus já fez mais vítimas fatais que o que o pior ano da violência no estado, em 2003, conforme o levantamento feito pelo GLOBO. Nas últimas 24 horas, a capital registrou 291 novos casos e 24 óbitos.

Desde o início da pandemia, a cidade do Rio já acumula 6.550 óbitos e quase 57 mil casos de Covid-19.

As cidades com mais mortes registradas por coronavírus são:

  • Rio de Janeiro – 6.550
  • São Gonçalo – 430
  • Duque de Caxias – 430
  • Nova Iguaçu – 342
  • São João de Meriti – 215

Os municípios com mais casos de Covid-19 são:

  • Rio de Janeiro – 56.936
  • Niterói – 6.377
  • São Gonçalo – 4.103
  • Nova Iguaçu – 3.266
  • Duque de Caxias – 3.110

Como a Covid-19 mudou o Rio

No dia 5 de março, entrava no radar do Estado do Rio a primeira confirmação oficial do novo coronavírus em território fluminense. Noventa dias depois — ou 60,9 mil diagnósticos positivos e 6,3 mil vítimas depois — o novo cenário no Rio é de transformações no cotidiano, adaptação a uma forma diferente de ver a vida, e mudanças também na economia e nas interações sociais devido à pandemia. Faz parte do panorama também o governador e outras autoridades sendo alvos de investigações especialmente por desvios na área de Saúde.

Com a revelação do primeiro caso no estado, o Rio descobriu também outra face do problema: o preconceito que muitas destas pessoas viriam a sofrer à sua volta. Após concluir quarentena de 15 dias, a funcionária pública de 28 anos, já recuperada, foi a um restaurante com drive-thru com o marido para comprar um sanduíche. Quando retornou, levou um susto ao ver as redes sociais. Uma pessoa gravou um áudio com um “alerta” de que ela, já curada da Covid-19, estava nas ruas da cidade, o que teve grande repercussão.

A questão social também foi evidenciada no Rio já na primeira morte registrada no estado. A primeira história a ser contada foi a de uma idosa, moradora da pequena cidade de Miguel Pereira, mas que trabalhava como doméstica numa casa no Leblon, na Zona Sul do Rio. Lá, contraiu o novo coronavírus da patroa, que havia voltado de viagem da Europa, e não resistiu aos sintomas. Sua família também foi vítima de preconceito no município em que morava. Um dos irmãos, que morava com ela, precisou romper o isolamento para tentar comprar comida porque o mercado mais próximo à casa dele se recusou a entregar os alimentos que ele encomendou por telefone. Na ocasião, foi preciso que a Secretaria de Saúde do município intervisse.

O começo do isolamento social e o ‘novo normal’

Doze dias após o primeiro caso confirmado no estado, o governador Wilson Witzel decretou as primeiras medidas de isolamento social. Naquele momento, o Rio ainda não tinha nenhum óbito confirmado pela Covid-19 e contabilizava apenas 33 casos. Foram suspensas as aulas e eventos com aglomerações, como shows, e tomadas medidas para cercar a Região Metropolitana, a fim de evitar a propagação do vírus para as cidades do interior.

Apesar das medidas de isolamento social, os casos e mortes de Covid explodiram no Rio. Sem testes nem leitos para todos, o sistema de saúde pública entrou em colapso. Por alguns dias, o estado chegou a ter mais de mil pessoas à espera de um leito de UTI ou de enfermaria. Sem vagas, as UPAs e emergências viraram os CTIs para quem precisava. Mas, por serem unidades de portas abertas, pacientes eram atendidos em poltronas e médicos começavam a lidar com a difícil “Escolha de Sófia” por um respirado — quando profissionais precisam escolher quem receberá tratamento.

Em junho, porém, tanto o governo estadual como o da capital começaram a colocar em prática um plano de flexibilização do isolamento. Algumas das medidas anunciadas, principalmente a antecipação de fases pelo município do Rio foram criticadas por especialistas.

Hospitais de campanha — atrasados — e respiradores viraram caso de polícia

O Palácio Laranjeiras, residência do governador, foi alvo de uma grande operação da Polícia Federal e até o celular de Wilson Witzel foi apreendido. Há atualmente dois inquéritos relacionados a fraudes e desvios de dinheiro durante a epidemia do novo coronavírus, em que uma das peças chaves é o ex-subsecretário de Saúde Gabriell Neves, preso. Dos 66 contratos firmados por Neves para enfrentar a Covid-19, 45 foram cancelados por irregularidades.

Por causa das suspeitas de irregularidades, além de ser investigado pelo Ministério Público Federal, Witzel também responde a um processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio.