Resumo jornais de domingo (04/04/2021) | Claudio Tognolli

Resumo de domingo (04/04/2021)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: Investimento privado cai radicalmente em dez anos

CORREIO BRAZILIENSE: País precisa de 32,8 mil médicos apenas em UTIs

O ESTADO DE S.PAULO: Impasse no Orçamento agrava incerteza fiscal, afirma Campos Neto

O GLOBO: Médicos vão à exaustão, e colapso hospitalar se agrava

Resumo de manchetes

A Folha revela em sua manchete que o investimento de companhias listadas na Bolsa brasileira caiu drasticamente na última década, segundo levantamento da Economatica, empresa provedora de dados financeiros. Estudo que analisou 221 companhias de capital aberto nos últimos dez anos mostra que o desembolso, considerando a inflação, caiu de R$ 338 bilhões, em 2011, para R$ 272 bilhões em 2019, antes de a pandemia provocar um mergulho mais profundo ainda, levando o investimento a R$ 153 bilhões no ano passado. O que mais preocupa nem é a cifra em si, mas o efeito dessa redução e o que ele sinaliza. Quando a cifra que uma empresa emprega em modernização ou expansão cai muito, admite-se que ela tem capacidade ociosa, não vê interesse na ampliação do seu parque industrial ou não tem capacidade de investimento. “Investimento visa uma expansão com a previsão de determinado cenário. Quando todo mundo reduz esse tipo de investimento é sintoma de que algo está errado na macroeconomia, e não simplesmente no ciclo da empresa”, diz Joelson Sampaio, professor da FGV EESP (Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo). As manchetes do Correio e O Globo revelam que um fator estrutural contribui para a situação crítica no atendimento aos pacientes de covid-19 no Brasil: a carência de profissionais especializados em unidades de terapia intensiva. Atualmente, a rede hospitalar conta com 7,2 mil médicos intensivistas. Mas segundo cálculos da Associação Brasileira de Medicina Intensiva, seriam necessários mais 32,8 mil para atender à atual demanda. O Estadão dedica sua manchete a entrevista exclusiva, do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, à repórter especial Adriana Fernandes. Entre outras coisas, ele diz que o impasse no andamento do Orçamento no Congresso pode aumentar o risco fiscal e atrapalhar a condução da política de juros no País. Governo e parlamentares tentam negociar uma saída para a crise. “Se o Orçamento passar a percepção de que ele é inexequível, é um fator que vai preocupar o BC”, diz Campos Neto. O presidente do BC defende o liberalismo como “a solução para o País” e diz que nunca houve um convite para substituir o ministro Paulo Guedes (Economia), uma especulação que circula no mercado de tempos em tempos. Campos Neto admite que as duas questões nacionais com capacidade de atrapalhar seu sono atualmente são a vacinação contra a covid-19 no Brasil, que vai ditar o ritmo de abertura da economia, e o risco de descontrole das contas públicas.

Notícia do dia: O Congresso Nacional e a área econômica do governo chegaram a um entendimento sobre o Orçamento de 2021, segundo a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda. Ela disse ao GLOBO que o “acordo político foi fechado”, embora o valor exato que será cortado para ajustar as contas ainda não esteja definido. Apesar da fala da ministra, integrantes da equipe econômica ainda dizem que há incertezas. A avaliação é que há um entendimento sobre manter a proposta orçamentária dentro das regras fiscais, mas ainda não está definido como chegar a esse resultado. Ao longo deste sábado, houve conversas entre integrantes da equipe econômica, Flávia Arruda, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o relator do Orçamento, Márcio Bittar (MDB-AC). Segundo pessoas que acompanharam a negociação, o Congresso concordou em cortar ao menos R$ 13 bilhões em emendas. Na equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, o diagnóstico ainda é o de que é preciso corrigir o Orçamento por meio de vetos que garantam que a projeção de despesas obrigatórias seja considerada realista pelos órgãos de controle. Segundo uma fonte do time, essa proposta prevê que, após o veto, parte das emendas — aproximadamente R$ 15 bilhões — seja devolvida ao Congresso por meio de um projeto de lei. Essa opção, na avaliação da área jurídica do ministério, seria a melhor do ponto de vista legal. Parlamentares, no entanto, preferem o caminho inverso: ceder em parte das emendas e sancionar o Orçamento sem vetos, apenas com correção por meio de projetos de lei. Diante da indefinição, a expectativa é que as conversas ainda precisem evoluir ao longo dos próximos dias, disse um interlocutor que acompanha as negociações.

Notícias de 1ª página

Elite precisa fazer mea-culpa por ter apoiado Bolsonaro – Um dos grandes nomes do mercado financeiro, Ricardo Lacerda, sócio-fundador do BR Partners Banco de Investimento, diz que a elite empresarial brasileira precisa fazer um mea-culpa sobre o apoio que deu a Bolsonaro. “Na ânsia de evitar o PT, muita gente séria acabou votando em Bolsonaro ainda no primeiro turno. Está aí a origem do desastre que vivemos”, afirma. Para o banqueiro, o mercado sempre faz análise superficial. “Comprou o discurso liberal do Bolsonaro, ainda que seu comportamento em três décadas de Congresso tenha sido exatamente o oposto”, diz. O impeachment não deve ser visto como remédio, na opinião de Lacerda, até para a população ter consciência do custo de uma escolha errada. Para 2022, ele considera baixa a probabilidade de uma terceira via emplacar. Precisaria haver uma grande união de partidos, afirma o banqueiro, que é filiado ao Novo. Um segundo turno entre Lula e Bolsonaro seria péssimo, diz ele, mas, se acontecer, será preciso analisar o compromisso de cada um com o centro. “Dilma e Bolsonaro se recusaram a estender a mão para seus oponentes, mesmo depois de eleitos”, afirma. Lacerda acha que Lula é uma opção ruim, ligada ao passado, mas fez um ótimo primeiro mandato. “Se voltar o Lula de 2002, cercado de pessoas competentes, mantendo as alas ideológicas e fisiológicas do PT mais afastadas, abraçando uma agenda de equilíbrio fiscal, podemos ter um cenário benigno”, diz o banqueiro.

Em meio a restrições, Kassio, do STF, libera missas e cultos – O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques decidiu pela liberação da realização de cultos, missas e demais celebrações religiosas no país, em meio a medidas restritivas para a Covid-19. A decisão foi publicada neste sábado (3), depois que a (Anajure) Associação Nacional de Juristas Evangélicos entrou com uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental na Corte). A decisão impede estados, Distrito Federal e municípios de editar ou de exigir o cumprimento de decretos ou atos administrativos locais que proíbam completamente a realização de celebrações religiosas presenciais, por motivos ligados à prevenção da Covid-19. Porém, estabelece que sejam aplicados nestes eventos os protocolos sanitários de prevenção relativos à limitação de presença (no máximo, 25% da capacidade). Além disso, exige medidas como distanciamento social (com ocupação de forma espaçada entre os assentos e modo alternado entre as fileiras de cadeiras ou bancos) e observância de que o espaço seja arejado (com janelas e portas abertas, sempre que possível). Acrescenta a obrigatoriedade quanto ao uso de máscaras, disponibilização de álcool em gel nas entradas dos templos, aferição de temperatura, fixadas estas como balizas mínimas, recomendando-se também outras medidas profiláticas editadas pelo Ministério da Saúde; “sem prejuízo da possível e gradativa mitigação das restrições pelo Poder Executivo, conforme haja evolução positiva no tratamento e combate à pandemia”.

Não acredito em cassação, diz deputada Flordelis – “Nos momentos mais difíceis, eu gosto muito de cantar”, diz Flordelis dos Santos de Souza, 60. E suas canções servem de trilha para esta fase da vida. Agora, poderiam ser versos como “o luto acabou/o sonho não morreu”, de “O Sonho Não Morreu”. Deputada federal, cantora gospel, pastora e, desde 2020, ré na Justiça do Rio de Janeiro, sob suspeita de mandar matar o marido, Flordelis (PSD-RJ) sonha com a reeleição. “Quem me colocou na política foi Deus, e eu não vou desistir por que hoje eu tô passando por um período difícil”, diz a candidata à Câmara mais votada pelos fluminenses em 2018.

Autor de ataque a jornal era contra medidas restritivas, diz polícia – O ataque à sede do jornal Folha da Região em Olímpia (SP), onde funciona também o portal IFolha e uma rádio comunitária, foi cometido por um bombeiro municipal que não aceitava as medidas de restrição à Covid-19 defendidas pelo jornalista proprietário dos veículos, disse nesta quinta-feira (1º) a Polícia Civil da cidade. O bombeiro Cláudio José Azevedo de Assis, 55, se apresentou na quarta-feira (31), confessou o crime e responde em liberdade. O crime foi cometido no último dia 17, quando o imóvel que abriga o jornal, o portal e a rádio, além da residência do editor no andar superior, foi alvo de um ataque que provocou um incêndio. O jornalista José Antônio Arantes, 62, sua mulher e uma neta acordaram às 4h30 com as chamas e a fumaça provocadas pelo ataque. O combustível usado no incêndio foi jogado na porta do jornal e um balde com o restante do líquido foi abandonado no local. Segundo o delegado Marcelo Pupo de Paula, Assis não concordava com a linha editorial do jornal. Com a pandemia, o veículo tem feito duras críticas a negacionistas e defende o isolamento social como medida de contenção da Covid-19. O jornal semanal é o mais antigo e tradicional de Olímpia, com mais de 40 anos de existência, e é o único que circula em versão impressa no município, que fica na região de São José do Rio Preto.

Expatriados virtuais – Empresas estrangeiras buscam no Brasil profissionais para trabalhar de casa, a distância. É entre 10h e 14h no horário de Brasília – quando é fim do dia na Europa e manhã na costa oeste dos Estados Unidos – que o programador Renan Bandeira consegue encontrar, simultaneamente, o maior número de colegas de trabalho online. Apesar de morar em Fortaleza (CE), Bandeira trabalha para uma empresa americana que tem 80 funcionários (outros três brasileiros) espalhados pelo globo. O caso mostra como a expansão do home office – forçada pela pandemia da covid-19 – trouxe grandes transformações ao mundo corporativo e abriu as fronteiras para o mercado de trabalho. Nos últimos meses, empresas de várias partes do mundo decidiram buscar no Brasil talentos para compor seus times. Ao contrário do movimento percebido antes da pandemia, agora os chamados “expatriados virtuais” não precisam nem de passaporte para trabalhar fora do País e, em alguns casos, nem de inglês fluente. De casa, fazem o trabalho e prestam contas aos superiores no exterior. Bandeira faz parte de um grupo no WhatsApp de profissionais de TI em Fortaleza que trabalham remotamente. São 70 pessoas no grupo, cerca de 90% contratados por empresas de fora. Grande parte deles ainda quer ir para o exterior para morar e trabalhar, diz ele. “O mercado de TI se assemelha muito ao do futebol. Os jogadores querem ir para fora. Eu não descarto ir. Mas, hoje, financeiramente, é muito melhor morar aqui e trabalhar para fora. E, aí, você também tem a possibilidade de ficar perto da família.” O movimento teve início antes da pandemia, mas foi acelerado pelo isolamento social, que provocou um êxodo urbano importante, diz o diretor de recrutamento da Robert Half, Lucas Nogueira. Além disso, a desvalorização do real frente ao dólar fortaleceu a tendência. Com a moeda nacional mais fraca, a mão de obra brasileira virou solução barata para companhias estrangeiras. Ficou vantajoso para ambos os lados – a empresa gasta menos e o trabalhador ganha mais em relação ao mercado interno. Em alguns casos, o salário pago por companhias estrangeiras chega a ser mais que o dobro da remuneração brasileira. Segundo Luciano Montezzo, da 99hunters, uma posição que paga R$ 8 mil no Brasil pode chegar a R$ 20 mil no exterior. No caso do engenheiro de software Lucas Vasconcelos, de 25 anos, o aumento do salário comparado ao mercado doméstico foi de 200%. Desde o fim de 2020, quando saiu de uma empresa no Brasil, ele presta serviço para uma startup nos Estados Unidos. “Meu amigo sempre me chamava para trabalhar fora, mas achava que não estava preparado. Com a pandemia, tomei coragem, mandei meu currículo e fui chamado.”

Bolsonaristas atuam para desestabilizar PMs nas redes – Quando a Polícia Militar de São Paulo anunciou que a vacinação para seus integrantes ia começar no dia 12 de abril, no mesmo dia todos os posts publicados pela corporação em uma rede social foram atacados por bolsonaristas, que afirmaram: “Vocês são covardes! Estão batendo em trabalhadores, seus capachos do calcinha apertada”. Outro bolsonarista, crítico à vacina Coronavac, do Instituto Butantan, escreveu: “Fico em dúvida se comemoro. Orações para vocês”. O ataque às polícias nas redes sociais com informações falsas se multiplicaram em 2021, transformando a atuação da extrema-direita no principal fator de instabilidade política para as forças de Segurança. “Já faz algum tempo que estamos sofrendo estes ataques. Alguns perfis lançam vídeos de abusos policiais de outros contextos ou mais antigos e fazem parecer que são atuais e contra a população”, disse o coronel Robson Cabanas Duque diretor da Comunicação da PM. O fenômeno não atinge apenas a polícia paulista e o governador João Doria (PSDB), mas também as polícias de outros Estados, em que os governadores adotaram medidas de restrição à circulação de pessoas para controlar a pandemia de covid-19, como a Bahia e o Rio Grande do Sul. Também são alvo os governadores adversários do presidente Jair Bolsonaro, como os do Piauí e do Maranhão. “Tem digitais bolsonaristas em questões locais. Eles se aproveitam para uso politiqueiro. A raiva dele (Bolsonaro) é não poder demitir ou prender governadores. Então tenta sabotar”, disse o governador Flávio Dino (PCdoB), do Maranhão. De acordo com o coronel Lindomar Castilho, comandante da PM do Piauí, há pessoas que “tentam desinformar e fazer a cabeça dos policiais” sob seu comando. Em São Paulo, a PM tenta identificar o centro difusor dos ataques à corporação que buscam minar a disciplina da tropa. Entre as postagens monitoradas pela polícia está uma do ex-deputado Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro, e outra do blogueiro Allan dos Santos, ligado ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSLSP). “Somos fiéis à Constituição, à lei, não importam quais sejam as orientações políticas dos governos. Somos uma instituição de 189 anos. Se cumprir a lei desagradará a A ou a B, assim será”, afirmou o coronel Cabanas.

Posto de saúde vira UTI de covid – Com UTIs lotadas, unidades básicas recebem pacientes graves mesmo sem equipe especializada e aparelhos adequados de ventilação; assistência precária eleva mortalidade pela covid no País. ‘Pessoas saem por óbito e não porque conseguiram transferência’, diz médica. A sala de medicação deu lugar a cadeiras, onde pacientes da covid-19 aguardam dias “internados”. Na unidade de pronto-atendimento (UPA), há poucos ventiladores mecânicos se um doente precisa de intubação, e a chance de vaga na terapia intensiva é ainda menor. Pelo País, UPAs se transformaram em UTIs precárias porque os hospitais estão lotados. E até o postinho do bairro, espaço para consultas de rotina, virou hospital para atender urgências relacionadas à doença. Retrato do colapso da saúde, a improvisação ajuda a explicar por que o vírus mata tanto no País. “As pessoas saem por óbito e não porque conseguiram transferência”, diz Ana Paula Arias, de 25 anos, médica recém-formada que há poucos meses assumiu plantão em uma UPA em Guarulhos, Grande São Paulo. Sem leitos em hospitais, o município foi um dos que passaram a usar até Unidades Básicas de Saúde (UBSs) para absorver parte da demanda. Lá, dois postos de saúde viraram “puxadinhos” do pronto-atendimento – foi montada tenda ligando a UPA à UBS. Com 94% de lotação na terapia intensiva, a cidade diz que a medida vai durar “o tempo que for necessário”, e fala em “prover outros recursos” à rede.

Ajuda dos EUA – Após semanas de pressão empresarial, econômica e política por sua saída e de escapar da recente reforma ministerial do presidente Jair Bolsonaro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se movimenta para tentar mostrar que se relaciona bem com europeus e americanos e que tem planos para combater o desmatamento da Amazônia – missão que volta para suas mãos este mês, quando acaba a ação militar na floresta. Em entrevista exclusiva ao Estadão no dia 2, Salles questionou a apreensão de madeira recorde feita pelo superintendente da Polícia Federal do Amazonas, Alexandre Saraiva, já cotado para assumir seu cargo, e insistiu no discurso de que o País tem de ser pago por reduções passadas de emissões de gases estufa. Mas, pela primeira vez, apresentou uma meta de diminuir o desmate, não sem cobrar algo em troca. Salles disse que reduz a devastação da Amazônia em até 40% em um ano – se tiver US$ 1 bilhão de países estrangeiros. As taxas de desmate nos dois primeiros anos em que esteve no cargo são as maiores desde 2008. A do ano passado foi 47% maior que a de 2018. O plano será apresentado aos Estados Unidos no encontro que o presidente Joe Biden vai realizar com 40 líderes internacionais para debater a pauta climática. Sem recursos externos, disse que vai fazer o possível, mas sem fixar meta.

“Brasil está a caminho do precipício” – A confusão em torno do Orçamento de 2021, que abre uma infinidade de crimes de responsabilidade fiscal, é apenas a ponta do iceberg para os problemas fiscais do país, que estão cada vez mais graves e fazem o dólar subir e os juros futuros dispararem. O alerta é do economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e CEO e sócio da gestora de recursos Mauá Capital. Para ele, mantido o quadro atual, o país vai trilhar, rapidamente, o mesmo caminho da Grécia, que foi obrigada a adotar medidas duríssimas, como cortes de salários e de aposentadorias em mais de 30%. No entender dele, não é mais possível o Estado custar 40% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto, na média dos países emergentes, essa relação varia entre 15% e 20%. Esse inchaço, inclusive, é um dos motivos para o baixo crescimento econômico do país. “O Brasil não cresce há 15 anos. Isso é um crime. O país está, de tal maneira, sufocado. Nesse mesmo período, o mundo cresceu entre 3,5% e 4% ao ano. O Brasil ficou absolutamente para trás, o que só contribuiu para aumentar a pobreza e as desigualdades sociais”, lamenta. Na avaliação de Figueiredo, os gastos com a pandemia do novo coronavírus foram necessários, tanto que quase todos os países fizeram pacotes fiscais, e muitos até maiores do que o brasileiro. Contudo, é preciso enfrentar a realidade e as consequências do aumento elevado do endividamento público, que já está em 90% do PIB. Por isso, não é possível mais aventuras no Orçamento. “Nesse processo, todo mundo ficou mais pobre. O brasileiro ficou, em média, de 20% a 25% mais pobre. Todos, inclusive, a arrecadação pública, perderam”, afirma. Com a antecipação dos debates eleitorais e independentemente de quem vencer para a Presidência da República em 2022, essa agenda será inevitável e vai exigir as verdadeiras prioridades do Orçamento, com um real ajuste fiscal. “Um país que gasta o que arrecada em todas as esferas públicas, 40% do PIB, não é possível que não consiga fazer um esforço que nunca fez, corte de 10% a 15% das despesas”, diz. Figueiredo reconhece que, apesar de o presidente Jair Bolsonaro ter prometido essa agenda, houve muita decepção e muitas “bolas nas costas” de integrantes do governo no ministro da Economia, Paulo Guedes. Não por acaso, o sócio da Mauá confessa que não pretende votar no chefe do Executivo nas próximas eleições. Contudo, diz que não se arrepende por ter votado contra o PT. “Eu estou muito decepcionado. Mas, infelizmente, não estamos falando do melhor candidato na ocasião. Estamos falando do menos pior”, frisa. Ele diz ainda que, apesar da polarização criada com a volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao cenário político, ainda é possível construir uma alternativa de centro para 2022.

Militares podem atuar na vacinação – Em uma semana com intensa crise entre o Palácio do Planalto e militares, após o presidente Jair Bolsonaro demitir o general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa, e os três comandantes das Forças Armadas, o mandatário aproveitou o sábado para passear com o novo chefe da pasta, general Braga Netto. Eles foram a uma entidade beneficente que distribui sopa a pessoas carentes na região administrativa de Itapoã, no Distrito Federal. De lá, o presidente fez uma transmissão ao vivo na qual afirmou que as Forças Armadas “estão à disposição para começar a vacinar”, para colaborar com a vacinação. “Praticamente todos os quartéis do Brasil têm essa condição. Da Marinha, do Exército e da Aeronáutica”, disse. No Ministério da Defesa já existe uma ampla operação dos militares para logística e apoio na vacinação durante a pandemia. As Forças Armadas auxiliam no transporte de pacientes, medicamentos, insumos, vacinas, segurança da mercadoria e, caso solicitado pelo Ministério da Saúde, ajudam na vacinação. Em geral, essa cooperação ocorre em regiões distantes e de difícil acesso, como aldeias indígenas na Amazônia, e não nas capitais e grandes centros. Com o agravamento da pandemia, o governo está inclinado a pedir um reforço na ajuda militar. Ontem, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse ter conversado com Braga Netto e Bolsonaro. “Por determinação do nosso presidente, que está pessoalmente empenhado em aumentar a cobertura vacinal do país, nós teremos o apoio das Forças Armadas, seja na logística de distribuição de vacinas, seja por meio do corpo técnico da Saúde, ajudando estados e municípios a vacinarem a população brasileira de uma maneira muito efetiva”, afirmou. O próprio ministro, entretanto, destacou que o problema no país não é capacidade de vacinação, mas falta de imunizante. “Uma das coisas que o nosso sistema de saúde faz muito bem é vacinar. Nós temos mais de 37 mil salas de vacinação em todo o país e temos uma capacidade de vacinação ainda ociosa por uma série de motivos, mas, sobretudo, por falta de vacina”, explicou.

Bolsonaristas da PM afrontam governadores – Líderes policiais alinhados ao discurso do presidente Jair Bolsonaro foram confrontados com medidas anti-Covid-19 determinadas por governadores que se opõem ao governo federal. A tentativa de incitar setores policiais contra o Executivo estadual, no contexto dos protestos após a morte na Bahia do soldado Wesley Santos no último domingo, também aparece em estados como Ceará, Paraíba, Pernambuco e Espírito Santo. Segundo analistas e até membros da bancada bala, há uma tentativa de “politizar” as queixas históricas da Polícia Militar, relacionadas a questões salariais e de estrutura de trabalho, a fim de preservar o apoio ao presidente. O discurso encontra mais ressonância em patentes mais baixas e ainda resiste à insatisfação com o CEP emergencial, que prevê o congelamento salarial. Na Bahia, o deputado estadual Capitão Alden (PSL) liderou uma manifestação policial na quarta-feira que, embora tenha negado o “partidarismo político”, convocou os oficiais a “lutar contra governos que tentam impor medidas inconstitucionais”. O discurso é um ataque a ações como bloqueio, toque de recolher e fechamento do comércio, poderes conferidos a governadores e prefeitos na pandemia, de acordo com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Outro deputado baiano, o soldado Prisco (PSC), expulso do primeiro-ministro por participar de motins, tentou associar os decretos do governador Rui Costa (PT) à morte do soldado Wesley — antes de atirar em agentes do BOPE e ser neutralizado, o policial gritou para não “parar o trabalhador”. O discurso foi amplificado. Mesmo sem provas, a presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, BIA Kicis (PSL-DF), relacionou a morte do primeiro-ministro à resistência a “ordens ilegais”. Criticada nas redes e por colegas, ela deletou a publicação. Em nota, Rui Costa lamentou as “mentiras e ameaças” contra ele e outros governadores. Nós e o MP acompanhamos as investigações que apuram as circunstâncias da aparente epidemia psicótica da PM e a resposta do Bope. Além de Alden e Prisco, que concorreram como apoiadores de Bolsonaro na última eleição, outros líderes alinhados ao presidente usaram o episódio para chicotear os governadores de seus estados. No Espírito Santo, o deputado capitão Assumção (Patriota), que liderou a paralisação da PM em 2017, afirmou que o governador Renato Casagrande (PSB) também estava tentando “jogar a polícia contra o trabalhador” com medidas restritivas. O deputado paraibano Cabo Gilberto Silva (PSL) acusou os governadores de tentarem “rasgar a Constituição”. – O que aconteceu na Bahia não é um caso isolado. Os governadores, especialmente no Nordeste, querem usar o presidente, disse ele.

Destaques

Avesso às redes, Kallil lidera popularidade digital – Importantes no tabuleiro político nacional, os prefeitos das capitais brasileiras têm tido desempenhos divergentes quando o assunto é impacto digital, passados três meses após a posse. E o resultado nada tem a ver com o tamanho da cidade que governam e com o tempo em que atuam na política. Levantamento da consultoria Quaest revela que é o prefeito de Belo Horizonte, sexta maior capital do país em número de habitantes, que lidera o ranking de mandatários municipais. Ex-dirigente do mundo do futebol e no segundo mandato da carreira política, Alexandre Kalil (PSD) tem quase o dobro de popularidade nas redes que o o segundo colocado, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), que voltou a ocupar a prefeitura carioca depois de já ter assumido dois mandatos na cidade. O índice calculado pela Quaest varia de 0 a 100 e considera dimensões como presença nas diferentes plataformas digitais, número de seguidores e compartilhamento de postagens. Considerando os 26 prefeitos das capitais, Kalil soma 81,29 pontos, enquanto Paes atinge 42,47. Já o tucano Bruno Covas (PSDB), que comanda a maior cidade do país, aparece apenas na sexta posição, atrás de prefeitos de cidades menores como São Luís e Florianópolis. Assim como o presidente Jair Bolsonaro, Kalil tem adotado principalmente o Twitter, onde tem 1,2 milhão de seguidores, como ferramenta de comunicação. A situação da pandemia, com anúncios relacionados a vacinas e medidas de restrição de circulação, têm sido os únicos temas de que trata desde janeiro. Na postagem com maior engajamento no período, informou que a capital mineira oferecia vagas de UTI infantis para crianças de Manaus, que enfrentava naquele momento a falta de oxigênio. — O erro é de quem não aborda só a pandemia. Não tem outro assunto no Brasil — diz Kalil, que atribui à “lei da oferta e da procura” sua popularidade digital e garante que escreve sozinho cada linha publicada. — Eu sou direto. Não acho que a rede social é uma brincadeira. Eu não sou arroz de festa na minha rede social, até porque prefeito não tem tempo de ficar tuitando. Apesar de reconhecer que as redes são uma “ferramenta poderosa”, Kalil não costuma acompanhar o que acontece nas plataformas. Ele não segue ninguém no Twitter. O prefeito de 62 anos nunca usou nem mesmo o WhatsApp.

Expectativa na PF é de troca no comando da corporação – A troca no comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro, na semana passada, deixou membros da cúpula da Polícia Federal (PF) surpresos. A expectativa é que, com a chegada de Anderson Torres à pasta, haja mudança nos próximos meses na direção da corporação. Atualmente, o diretor-geral da PF é o delegado Rolando Alexandre de Souza. Ele assumiu em maio de 2020 em meio à crise decorrente da exoneração do então diretor Maurício Valeixo. A demissão culminou na saída do então ministro da Justiça Sergio Moro, alegando que a troca na PF seria uma tentativa do presidente Jair Bolsonaro de interferir politicamente na corporação. Nos bastidores, comenta-se que Torres e Rolando se dão bem e estreitaram relacionamento durante a passagem do hoje ministro pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Os dois, porém, não pertencem ao mesmo grupo na PF. Os nomes cotados para assumir o posto são o do delegado Júlio Danilo, que assumiu a secretaria do DF após a saída de Torres; e o do superintendente da PF no Distrito Federal, Márcio Nunes de Oliveira. Uma pessoa próxima a Torres disse ao GLOBO que, agora, o momento é de conhecer a estrutura do ministério e não de anunciar mudanças. O atual diretor-geral da PF é considerado mais próximo ao diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem. O diretor da Abin havia sido escolhido por Bolsonaro para comandar a PF, mas uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a nomeação. O ministro entendeu que a proximidade entre Ramagem e a família Bolsonaro poderia indicar um desvio de função.

Secom na narrativa do ‘defensor raiz’ da vacina – Com auxílio da publicidade oficial e sempre contando com sua controversa rede de apoio digital, Jair Bolsonaro intensificou a narrativa para reagir à pressão pelo descontrole da pandemia no País. Ao fim e ao cabo, o objetivo é empurrar a culpa da tragédia aos Estados, inclusive por erros e lentidão na vacinação, e atacar até a União Europeia, que estaria atrasada na imunização em relação ao Brasil. Na base da construção do personagem “Bolsonaro, defensor raiz da vacina”, está a Secom: “Governo trabalhando, desde o início, na busca por vacinas”. A brusca mudança de postura no discurso do governo federal em relação à vacina contra a covid-19 nos canais institucionais de comunicação ensejou debate sobre a legalidade de se criar uma narrativa e divulgá-la oficialmente. Para estudiosos do tema, quando a Secretaria de Comunicação (Secom) diz que o governo era, desde sempre, pró-vacinas e faz a defesa pessoal de Bolsonaro, está incorrendo em ofensa aos princípios de impessoalidade e de moralidade que norteiam a administração pública. “A mentira, a simulação ou a desinformação por meio de órgãos estatais, quaisquer que sejam eles, pode resultar, em último caso, em crime de responsabilidade”, afirma Saul Tourinho Leal, professor de Direito. Antônio Rodrigo Machado relembra três episódios: 1) o presidente instaurou em 2020 o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação, trazendo insegurança e medo à população; 2) fez campanha explícita contra a vacina do Butantã; e 3) recusou o imunizante da Pfizer. “Quando o presidente usa recursos públicos para a finalidade de proteção pessoal diante de seus atos contrários à sociedade, está fazendo uso de dinheiro do erário em favor pessoal. Portanto, temos uma prática que ofende a moralidade administrativa e a impessoalidade”, afirma Machado, que faz parte do Instituto Brasiliense do Direito Público (IDP). Procurada, a Secom não respondeu aos questionamentos sobre o tema.

Mudança gradual no negacionismo – Gradualmente, o governo Bolsonaro procura deixar o negacionismo de lado para se render à dura realidade. Ante a catástrofe de 3 mil mortes diárias e mais de 330 mil vidas perdidas para o novo coronavírus, o presidente da República sinaliza mudanças de rumo. A primeira alteração mais significativa, obviamente, passou pela demissão de Eduardo Pazuello do Ministério da Saúde e a escolha de um médico, Marcelo Queiroga, para comandar a pasta. Além de promover a troca de ministro em uma área chave no combate à covid-19, o Palácio do Planalto aceitou — com um ano de atraso — a criação de um comitê institucional para o enfrentamento da doença, com notória participação da cúpula do Legislativo. Esses movimentos do Planalto não ocorreram somente em razão do agravamento da pandemia, mas, também, por razões políticas. O recado emitido pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, de que o Congresso Nacional dispõe de remédios amargos para sanar a “espiral de erros” no enfrentamento da pandemia obrigou o Planalto a se aprumar. E isso inclui rever as ações negacionistas do governo — mas não, necessariamente, do presidente Jair Bolsonaro. Ontem, como de hábito, o chefe do Executivo criticou a política de isolamento social adotada por governadores e prefeitos. A postura do presidente contradiz o apelo do ministro da Saúde, mas, por enquanto, essa contradição não causa um problema político no governo.

O orçamento e a geração covid-19 – O impasse em torno do Orçamento no Congresso constitui o problema mais imediato para a equipe de Paulo Guedes. Nesse imbróglio, causa espanto a dificuldade de se encontrar soluções para cumprir dois princípios. A primeira regra é financeira: não pode haver mais despesas do que receitas em um Orçamento sustentável. No caso da peça aprovada pelo Congresso, trata-se de um equívoco monumental, pois estimativas indicam a necessidade de um corte de R$ 32 bilhões na previsão de gastos, de modo a evitar a burla das regras fiscais. E, neste momento, vem o segundo princípio, que está sob ameaça. O Congresso teve participação ativa na aprovação de medidas importantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos. No entanto, há movimentos dentro e fora do Legislativo para subverter as balizas da lei. Ou seja, maneja-se o dinheiro público conforme as conveniências de ocasião, e não a partir da obediência às regras do jogo. A inconformidade do Orçamento de 2021, no momento em que o país precisa de uma atuação vigorosa do governo para alavancar a economia, é mais um capítulo do angustiante drama do Brasil na pandemia. A retomada econômica, tão almejada por toda a sociedade, estará seriamente comprometida com o Executivo incapaz de gerir a si próprio e de cumprir o dever de auxiliar o país a se reerguer. Paralelamente ao nó orçamentário, acumulam-se os problemas econômicos decorrentes do agravamento da pandemia. O desemprego, em razão do forte apelo social, é o mais doloroso. Entre desempregados e trabalhadores que já desistiram de procurar emprego, há uma massa de 32 milhões de brasileiros excluídos da economia. Representam um custo para o país, quando poderiam contribuir para a riqueza nacional.

Um estilista da provocação, na hora do adeus à Corte – Em julho de 2000, enquanto ocupava interinamente a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) no período de recesso, o ministro Marco Aurélio Mello mandou soltar o banqueiro Salvatore Cacciola. Preso sob acusação de fraudes contra o sistema financeiro, o ex-dono do Banco Marka acabou fugindo para a Itália. Apesar dos pedidos de extradição do governo brasileiro, Cacciola passou sete anos foragido na Europa, até retornar ao Brasil em 2008 e ser levado para um presídio em Bangu. “Sustento que o acusado, enquanto a culpa não está formada mediante um título (sentença) do qual não caiba mais recurso, tem o direito natural de realmente fugir”, disse Marco Aurélio à época. O episódio ilustra algumas características marcantes do atual decano do STF: espírito destemido, decisões polêmicas e uma capacidade inesgotável de produzir provocações. O caso Cacciola não foi o único em que Marco Aurélio contrariou os integrantes do Supremo e despertou polêmicas na Justiça. Em 2004, autorizou a interrupção de gravidez em casos de feto sem cérebro. Doze anos depois, em outra decisão individual, afastou o senador Renan Calheiros (MDB-AL) da presidência do Senado após o emedebista ter sido colocado no banco dos réus. No ano seguinte, mandou soltar o goleiro Bruno Fernandes, acusado de matar a modelo Eliza Samudio. E não ficou por aí. Na véspera do recesso, em dezembro de 2018, mais uma decisão bombástica: em um gesto de protesto com a demora do plenário do STF em decidir sobre a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, o ministro suspendeu por conta própria a execução antecipada de pena. Em outubro do ano passado, mandou soltar André do Rap, considerado um dos nomes mais importantes no comando do tráfico de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. Todas as decisões, inclusive as que beneficiaram Cacciola e André do Rap, acabaram derrubadas pelos colegas. “Nunca coloquei a cabeça no travesseiro para me arrepender de um voto ou decisão proferida. Devo ter errado porque sou ser humano, mas errei segundo o meu convencimento”, disse ao Estadão. “Nunca joguei para a plateia. Sempre atuei segundo o meu convencimento a partir de ciência e consciência.”

‘Presidente nunca convidou a bancada da bala para um café’ – Líder da bancada da bala no Congresso, o deputado Capitão Augusto (PL-SP) é crítico do presidente Jair Bolsonaro pelo tratamento dado às forças de Segurança Pública. “A gente esperava um governo que fosse reparar o que perdemos”, disse o parlamentar ao Estadão. “A desvalorização dos profissionais da área de segurança acabou piorando.” “Criou-se uma expectativa muito grande, pois finalmente conseguimos eleger um presidente oriundo da bancada da segurança. Tínhamos certeza de que seríamos tratados de uma forma como a gente achou que merecia. No entanto, essa expectativa acabou se tornando uma frustração, porque nós perdemos mais em dois anos do que nos dez últimos anos. Perdemos na reforma da Previdência, na PEC emergencial, na fusão dos ministérios da Segurança Pública e da Justiça. Perdemos até na vacinação, pois colocaram até os presos na frente da gente”.

Washington Post vê risco de golpe – Em editorial publicado na edição de ontem, o jornal The Washington Post afirmou que o presidente Jair Bolsonaro parece estar preparando terreno para um golpe político. Ao analisar a demissão da cúpula militar no Brasil, o jornal afirmou que os governos dos Estados Unidos e de países latino-americanos devem deixar claro para Bolsonaro que uma ruptura do regime democrático será “intolerável”.

Mortes por Covid-19 aumentaram mais que cinco vezes na Petrobras – O Ministério de Minas e Energia e seus 12 órgãos vinculados tiveram explosão de mortes e casos de Covid-19 nos últimos três meses. Até janeiro, a pasta e agências e empresas ligadas registravam 29 mortes. O mês de março terminou com 64 óbitos, segundo boletim interno. A Eletrobras tem o pior cenário, 26 mortes desde o início da pandemia. A Petrobras foi mais impactada com o agravamento da situação: até janeiro, a estatal havia registrado 3 óbitos, agora já são 19 vítimas do vírus. Em nota, a Petrobras afirma que “infelizmente, observa-se o aumento dos casos em todo o Brasil e esse aumento de incidência da Covid-19 no país tem reflexo também entre os colaboradores da Petrobras. Observa-se que a maior parte dos casos tem ocorrido em profissionais que trabalham em home office. Em função do aumento dos casos, a companhia prorrogou o teletrabalho para a área administrativa até junho.” A empresa também lista medidas que tem tomado desde o início da pandemia, como “testagem periódica, com mais de 700 mil testes realizados; redução do efetivo presencial; uso obrigatório de máscaras; reforço na higienização e distanciamento nas unidades operacionais; conscientização sobre cuidados individuais dentro e fora do ambiente de trabalho.”

PGR ainda não respondeu sobre postagens de Bolsonaro contra governadores – Chamada a se manifestar sobre insinuações feitas por Jair Bolsonaro contra governadores, a Procuradoria-Geral da República até agora não respondeu. Os governadores do Maranhão e da Bahia protocolaram uma ação cível no STF (Supremo Tribunal Federal) em que pedem que Bolsonaro remova ou corrija a postagem de 28 de fevereiro em sua conta no Twitter sobre repasses aos estados. O caso está com o ministro Dias Toffoli. Os autos foram enviados à PGR no dia 16 de março. No pedido, os representantes jurídicos dos governadores Flávio Dino (PCdoB) e Rui Costa (PT) classifcam as informações divulgadas pelo presidente como enganosas e fake news. “Deve-se ressaltar que é prática contumaz e reiterada do atual Chefe do Poder Executivo Federal promover a desinformação como meio de manipular a opinião pública”, diz trecho da ação. No entendimento dos governadores, os valores repassados aos estados elencados pelo presidente estão distorcidos e a publicaç ão desse tipo de informação pode gerar “interpretações equivocadas” e fomentar “a instabilidade política, social e institucional”. A postagem de Bolsonaro resultou em atrito entre os governadores e o governo federal. A publicação dos valores, que englobam não só àqueles relacionados ao combate à pandemia, entenderam os governadores, teria sido uma forma do presidente repassar a eles a culpa pelos erros e omissões do executivo federal.

Psicanalistas veem cálculo político e gestão do ódio em atitudes de Bolsonaro – Manipulação de afetos, política do negativo e estratégia da cisão são algumas das expressões que psicanalistas ouvidos pela Folha usam para se referir à estratégia do presidente Jair Bolsonaro de manter seu governo e seus apoiadores em confronto permanente. Mesmo com o país imerso em uma crise sanitária que já deixou mais de 320 mil mortos, o presidente e seu entorno persistem em um embate político contínuo com alvos que vão de governadores a cientistas, além de Judiciário e Congresso. A tática contribui para manter mobilizada sua base eleitoral em um momento em que o governo sofre críticas sucessivas pela gestão da pandemia do coronavírus e enfrenta a perspectiva de uma deterioração na economia. A reportagem procurou um grupo de psicanalistas de diferentes abordagens e trajetórias profissionais para questioná-los sobre o comportamento do presidente à frente do cargo. Há um ano, no início da crise sanitária, a Folha já tinha ouvido esses profissionais em reportagem sobre a postura dele à época e sua recusa em admitir a gravidade da crise. Na ocasião, alguns dos traços do comportamento mencionados eram indícios de lógica paranoica e estilo onipotente. Desde então, uma das atitudes mais simbólicas do presidente foi a maneira desrespeitosa com a qual se referiu aos mortos pela Covid-19. Bolsonaro já disse, sobre os óbitos: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, “Não sou coveiro” e “Vão ficar chorando até quando?”. Parte do grupo de especialistas vê nessa insistência um interesse em gerar inquietação na sociedade. O professor Tales Ab’Saber, da Universidade Federal de São Paulo, diz que Bolsonaro busca um afastamento radical de uma parte da sociedade em relação ao restante e mantém suas ações políticas “permanentemente no dissenso”, a ponto de encarar uma crise de saúde pública como uma guerra. Chama esse estilo de “política da impertinência” e diz ver um desrespeito a mínimos contratos sociais. “A lógica de comunicação dele é para manter esse 30% [de apoiadores] e ele tem mantido. A política inteira dele é para isso. Não tem outra.” O escritor e psicanalista Mário Corso discorda quanto a haver uma grande tática política nas atitudes errantes da Presidência e diz que, nessas práticas, não há como “imaginar que está por trás um Maquiavel” —pensador morto em 1527 e fundador da ciência política moderna. Para ele, se houvesse tal genialidade política, o presidente teria ao menos conseguido criar seu novo partido, algo que políticos muito menos expressivos já fizeram. O presidente mantém sua popularidade em patamares razoáveis, diz o psicanalista, por apostar em uma política de viés negativo, que promete uma volta ao passado, “em que o politicamente correto não existia”. “É algo que não precisa criar. É só usar do ressentimento e da impotência, do preconceito. É muito fácil fazer uma política do preconceito. É difícil fazer uma política que inove, não a que puxa para trás.”

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