Resumo dos jornais e revistas de sábado (24/07/2021) | Claudio Tognolli

Resumo de sábado (24/07/2021)

Edição: Chico Bruno

Capas

VEJA – O poder da fé

A separação entre Igreja e Estado é de uma engenhosidade sofisticada por preservar ao mesmo tempo as duas instituições: garante a liberdade religiosa e evita que um credo tenha privilégios públicos. No Brasil, em mais um dos muitos retrocessos promovidos na era Bolsonaro, ocorre agora um perigoso ataque a esse muro civilizatório. Nenhum outro governo misturou tanto religião e Estado quanto o atual. No exemplo mais recente, o vice-presidente Hamilton Mourão gerou desconforto ao tratar, em uma viagem paga pelos cofres públicos brasileiros, de assuntos particulares da Igreja Universal — a crise que tirou da instituição criada pelo bispo Edir Macedo o controle de centenas de templos em Angola.

ISTOÉ – Um general encalacrado demais

Não há personagem que represente melhor a alma do governo Bolsonaro do que o general Eduardo Pazuello. Alçado ao cargo para implementar as diretrizes negacionistas no Ministério da Saúde, em plena pandemia, também serviu como uma cunha para a entrada de militares na administração federal e, no caminho inverso, para a infiltração do bolsonarismo nos quartéis. Fez uma gestão medíocre marcada pela inação na compra de vacinas, carência de insumos básicos como oxigênio e distribuição de remédios sem eficácia contra a Covid. O que o País ainda não sabia, e descobriu escandalizado, é que o militar também transitava entre as tratativas que transformaram a pasta em um balcão de negócios escusos com a pandemia. O papel mais abjeto do general até agora foi revelado por um vídeo gravado por ele mesmo em 11 de março, quando recebeu fora da agenda um grupo de empresários que oferecia 30 milhões de doses da Coronavac por um preço quase três vezes superior ao negociado pelo Instituto Butantan. O interlocutor de Pazuello, chamado de John, agradeceu as “portas abertas” do Ministério e disse que gostaria de negociar mais insumos, além da vacina.

CartaCapital – Capitais em fuga

A devastação da Amazônia, o descaso com a pandemia e as trapalhadas de Bolsonaro e Guedes afastam o capital estrangeiro.

Crusoé – Braga Netto, o golpista de araque

O recado do ministro da Defesa a Arthur Lira, para tentar impor o voto impresso em 2022, foi também artimanha para tentar blindar militares na CPI da Covid. É inadmissível, numa democracia, que um ministro da Defesa se intrometa no processo eleitoral. É mais abominável ainda que essa tentativa ocorra por meio de intimidações e, pior, ameaças golpistas.

Manchetes

O ESTADO DE S.PAULO – PF procura e não acha caso de fraude em urna eletrônica

Em levantamento que envolveu os 25 anos de utilização da urna eletrônica no Brasil, a Polícia Federal não encontrou, até agora, registros sobre fraudes no sistema, constantemente posto sob suspeita pelo presidente Jair Bolsonaro. Há cerca de um mês, o comando da corporação pediu às 27 superintendências que enviassem todas as denúncias de fraudes recebidas ou apuradas desde 1996. Ao pedir as informações, a Corregedoria da PF argumentou que a Câmara dos Deputados havia acabado de instalar a comissão especial do voto impresso e os dados eram necessários. Há uma única investigação registrada, em 2012, mas a PF concluiu que se tratava de tentativa de estelionato, não de fraude que tenha comprometido a eleição. Internamente, na PF, o pedido foi visto como tentativa de obtenção de dados que justificassem as acusações feitas por Bolsonaro.

FOLHA DE S.PAULO – Consumidor pode pagar mais R$ 3,6 bi para evitar apagão

O consumidor poderá ter uma conta extra de mais R$ 3,6 bilhões na conta de luz para evitar que o país sofra um apagão de energia. Na última quinta (22), o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acendeu um novo alerta com uma nota técnica sobre os desafios frente ao cenário de grave crise hídrica nos reservatórios de hidrelétricas, sinalizando que a capacidade de geração de energia no país poderá ser levada ao seu limite. Se a crise continuar tão grave quanto agora, o ONS prevê que praticamente todos os recursos das hidrelétricas se esgotem até novembro. Para manter os reservatórios e o fornecimento de energia, foram gastos de janeiro a maio R$ 3,632 bilhões, ou cerca de R$ 726,4 milhões mensais, com o acionamento de usinas térmicas mais caras (fora da chamada ordem de mérito de custo) e poluentes. Esse valor é repassado ao consumidor nas bandeiras tarifárias, acionadas quando a produção de energia encarece. “É a crise mais grave em um século”, afirma Reginaldo Medeiros, presidente executivo da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia). “Não há muito mais a ser feito, além de usar todos os recursos disponíveis para evitar um racionamento. Vai sair mais caro, mas ninguém quer ficar sem luz”, diz. O sinal vermelho foi ligado após o ONS elevar a previsão de carga e considerar uma menor e mais “realista” disponibilidade térmica para atender a demanda de energia.

CORREIO BRAZILIENSE – DF bate duplo recorde vacinação contra a covid

Megaestrutura montada para acelerar a vacinação no Distrito Federal alcançou, ontem, o maior número diário de pessoas vacinadas com a primeira dose (62.668) e, também, com a segunda (14.769), desde o início da campanha de imunização, em janeiro deste ano. Houve, ainda, 236 imunizadas com injeção única da Janssen. Hoje e amanhã, a meta é chegar às 100 mil aplicações de primeira dose em adultos com 37 anos ou mais. Mas também haverá vacinação de reforço. Não há exigência de agendamento. Basta levar um documento de identificação com foto. No total, eles serão atendidos em 74 postos, que vão funcionar das 9h às 17h.

O GLOBO – Ministério do Emprego terá o maior orçamento

O desmembramento do Ministério da Economia criará uma nova pasta com o maior orçamento da Esplanada dos Ministérios. Sob o comando de Onyx Lorenzoni, atual chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, o futuro Ministério do Emprego e Previdência herdará o controle das aposentadorias e pensões do INSS, a gestão desses dados por meio do Dataprev, os principais fundos dos trabalhadores (FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador, e FGTS), além da fiscalização trabalhista, entre outras atribuições. Com mais espaço no governo, Onyx poderá acomodar indicações de aliados do governo, especialmente do Centrão. Caberá a Onyx ainda conduzir a política de geração de emprego, crucial para a campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro em 2022, num momento em que o país acumula quase 15 milhões de desempregados.

Notícia do dia: Pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP descobriram que 60% dos pacientes que estiveram internados com Covid-19 até agosto do ano passado apresentam sintomas como falta de ar, fadiga e fraqueza por um longo período após a alta médica. Os efeitos da doença persistem num período de seis a 11 meses após a internação. Os resultados — ainda preliminares e que devem ser publicados em revista científica — são fruto de questionários aos quais 750 pacientes, homens e mulheres, na média dos 65 anos de idade, foram submetidos pela instituição dentro de uma grande pesquisa multidisciplinar. O grupo esteve internado no hospital, na capital paulista, em leitos de UTI ou enfermaria até agosto de 2020. A maioria, porém, precisou de cuidados de terapia intensiva. Um braço inicial desse estudo deve ser finalizado e encaminhado para publicação no próximo mês. O trabalho foi desenhado para avaliar todos os pacientes ao longo de quatro anos em 15 áreas da medicina. Em todos os departamentos científicos analisados — a exemplo de cardiologia, nefrologia e neurologia — há indicativos de que o coronavírus seja responsável por malefícios por períodos superiores ao tempo agudo da doença, durante a internação. — Tínhamos a hipótese (inicial) de que a doença fosse restrita ao sistema respiratório, aos pulmões. Depois, fomos vendo que, com a disseminação do vírus na corrente sanguínea, era possível ter reflexo desde as meninges (na cabeça) até a circulação das pernas — diz o coordenador do trabalho, Carlos Carvalho, diretor da UTI respiratória do Instituto do Coração (InCor), do HC. Carvalho explica que há progressão positiva no quadro de saúde dos pacientes. Mas, apesar da melhora, é possível caracterizar a Covid-19 como uma doença de duração estendida.

Primeiras páginas

CPI quer que STF reveja decisão – A CPI da Covid avalia que a decisão da Bharat Biotech, fabricante indiana da vacina Covaxin, de cancelar o contrato com a Precisa Medicamentos reforça os indícios de irregularidades no contrato do governo federal para comprar o imunizante contra o coronavírus. Diante disso, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que o Supremo Tribunal Federal (STF) tem de reavaliar o habeas corpus concedido a Francisco Emerson Maximiano, dono da Precisa. O Supremo permitiu que o empresário pudesse ficar em silêncio no depoimento à CPI, que deve ocorrer no início de agosto, na volta do recesso parlamentar. “O mais grave é que eles dizem que falsificaram documentos, a própria empresa (Bharat Biotech) está dizendo”, afirmou Aziz ao Estadão. “Espero que agora, depois da acusação de que falsificaram documentos, a gente consiga derrubar no Supremo essa questão de ele poder ficar quieto”, disse o presidente da CPI. “Não dá mais para confiar em nada do que essa empresa (Precisa) fala.”

Coronavac tem alta ação contra morte de idosos – A Coronavac tem alta efetividade contra mortes por covid-19 mesmo entre idosos e em locais em que a variante Gama (P.1) é predominante, indica estudo que analisou dados de pacientes com 70 anos ou mais. Nesse grupo, a proteção do imunizante contra óbitos foi de 71,4%. A pesquisa também sugere que a efetividade da Coronavac pode cair entre os idosos com 80 anos ou mais – esses dados, no entanto, são preliminares. O estudo é do grupo Vebra Covid-19, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros de instituições como Fiocruz, Incor e Instituto Global de Saúde de Barcelona para avaliar a efetividade das vacinas em uso no Brasil. Ele foi publicado na plataforma Medrxiv na quarta e ainda está na fase pré-print – não foi revisado por pares.

Polícia apura denúncia de Joice – A Polícia Legislativa (Depol) abriu uma investigação para apurar o que ocorreu com a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), que relatou ter acordado ensanguentada, domingo passado, em seu apartamento funcional, em Brasília. A parlamentar apresenta ferimentos e fraturas em seu corpo. Ontem, Joice prestou depoimento na Polícia Legislativa, que atua no Congresso Nacional. O Depol é o órgão responsável por cuidar da segurança dos parlamentares. “O Depol está ouvindo pessoas e analisando imagens do circuito fechado de TV do prédio em que a deputada reside”, diz a nota da Câmara. A investigação está sob sigilo. Joice afirmou que aguarda a análise imagens de segurança do prédio. Não há, porém, câmeras na parte interna do edifício e nem nas escadas. As únicas imagens disponíveis devem ser das áreas externas. À Depol, Joice relatou suas suspeitas e disse que há tempos recebe ameaças. “A Depol está vasculhando todas as ameaças”, disse a deputada ao Estadão. A deputada também denunciou ao Ministério Público na noite dessa sexta-feira as agressões sofridas por ela na madrugada do último domingo. A parlamentar prestou depoimento à promotora Gabriela Manssur, que coordena a Ouvidoria da Mulher no Conselho Nacional do Ministério Público.

USP expulsa seis alunos por burlar cota racial – O Conselho de Graduação da Universidade de São Paulo (USP) decidiu anteontem expulsar seis alunos de graduação por fraude em cotas raciais no processo seletivo para a instituição. Desde 2017, a universidade já recebeu 200 denúncias por fraudes em cotas – sete delas resultaram na decisão de expulsão. O Conselho de Graduação é a última instância de análise dos processos de invalidação de matrículas por irregularidades nas cotas. A decisão de expulsão por fraude em cotas ocorre após a USP verificar que os estudantes não tinham direito a ocupar vagas destinadas a pretos, pardos e indígenas (PPI), apesar de terem concorrido nessa modalidade no vestibular. Os alunos que tiveram as matrículas invalidadas estão atualmente matriculados nas Faculdade de Medicina em São Paulo, na Faculdade de Odontologia de Bauru e na Escola de Enfermagem. A universidade não divulgou os nomes dos alunos. Segundo a USP, os seis alunos continuam matriculados, pois ainda podem fazer pedido de reconsideração da decisão. Caso esses pedidos sejam feitos, serão julgados novamente pelo Conselho de Graduação. Se não houver pedido de reconsideração, os alunos são desligados da universidade. É a segunda vez que a USP decide pela expulsão de alunos por fraude em cotas raciais.

Militares em retirada – É uma lástima que o ministério da Defesa tenha se ultrajado como um anexo do autoritarismo delirante do presidente da República. Se os chiliques dos últimos dias produziram algum efeito, foi o de inviabilizar de vez a pretendida subversão estapafúrdia da urna eletrônica. É a certeza de que haverá eleições que apavora o bolsonarismo e toda a linhagem de populistas autoritários em nações democráticas. (Editorial da FSP)

Procuradoria abre inquérito civil sobre propina da vacina – A Procuradoria da República no Distrito Federal abriu inquérito civil sobre o suposto pedido de propina por parte de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde. O inquérito tem como objetivo apurar possíveis atos de improbidade administrativa praticados pelo então diretor e outros agentes públicos e privados, segundo portaria publicada nesta sexta-feira (23). Procurada pela reportagem, a defesa de Dias afirmou que o procedimento será uma oportunidade para seu cliente e demais pessoas mencionadas esclarecerem os fatos.

Empresário ligado a Barros teria afiançado Covaxin – Um empresário próximo ao deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara, é apontado como sócio oculto da empresa que forneceu uma garantia irregular no negócio de compra da vacina indiana Covaxin. Marcos Tolentino da Silva, cujo empreendimento mais conhecido é uma rede de TV sediada em Curitiba, é alvo de uma ação de cobrança na Justiça em São Paulo que pede o pagamento de uma dívida de R$ 832 mil. Uma construtora cobra o valor de Tolentino e de sete empresas que, segundo a ação, teriam o empresário como sócio oculto. Entre essas empresas está a FIB Bank Garantias S.A., empreendimento usado pela intermediadora do negócio da Covaxin —a Precisa Medicamentos— para oferecer uma “carta de fiança” ao Ministério da Saúde. A garantia oferecida no contrato de R$ 1,61 bilhão, dinheiro referente a 20 milhões de doses, é do tipo fidejussória, pessoal, e não está prevista no documento assinado entre Precisa, Bharat Biotech (a fabricante indiana do imunizante) e ministério.

Farmacêutica indiana nega ter assinado cartas apresentadas por ministério – A fabricante da vacina indiana Covaxin, Bharat Biotech, anunciou nesta sexta-feira (23) que rescindiu um acordo que mantinha com a brasileira Precisa Medicamentos para trazer doses do imunizante ao país. Em comunicado, a empresa indiana diz que a rescisão tem “efeito imediato”. Na prática, a medida deve acelerar o cancelamento do contrato que o Ministério da Saúde mantém com a Precisa para obter 20 milhões de doses da vacina. O contrato já havia sido suspenso em junho. Por meio de nota, a empresa nega ainda ter assinado duas cartas que foram enviadas ao Ministério da Saúde e fazem parte do processo de negociação do imunizante. Os documentos estavam entre os materiais enviados pela pasta à CPI. Um deles diz que a Bharat autoriza a Precisa a negociar com o Ministério da Saúde “preços e condições de pagamento, assim como datas de entrega, e todos os detalhes pertinentes à operação”. O outro é uma “declaração de inexistência de fatos impeditivos”, o qual traz o símbolo da Bharat Biotech. Reportagem da CBN já havia apontado problemas nos documentos, como erros no endereço do laboratório em inglês e até mesmo na grafia do nome da empresa.

‘Vivemos a república do ódio’, diz líder da Marcha para Jesus – Em 2018, o apóstolo Estevam Hernandes aconselhou Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, a pregar mais “amor e tolerância”. Três anos, uma vitória bolsonarista e uma pandemia depois, o líder da igreja Renascer em Cristo diz que “estamos vivendo a república do ódio, e aí fica muito complicado falar sobre tolerância”. Como chamar de genocida o presidente do país que acumula 547 mil vítimas da Covid-19. “Sabe, acho sinceramente um absurdo, um absurdo, pegar um homem e falar que ele é genocida dentro de uma pandemia.” Hernandes vai liderar neste sábado (24) a Carreata da Solidariedade, versão sobre rodas do maior evento evangélico da América Latina. Idealizada por ele em 1993, a Marcha para Jesus deve acontecer em novembro, se a crise sanitária arrefecer. Para o apóstolo, que já votou em Lula e hoje marcha com Bolsonaro, dificilmente a esquerda reconquistará a maioria evangélica. Questões como aborto e família “são barreiras efetivas”, diz. Mas ele não crava que em 2022 seguirá o presidente. “Creio que tudo é muito dinâmico.” O conservador Hernandes critica, contudo, a visão de que um crente não possa ser de esquerda. “Se você está na Renascer e é PT, é esquerda, amém”, afirma. “Às vezes as pessoas falam, ‘Deus não é de direita nem de esquerda, Deus é amor’.”

Novo ato contra Bolsonaro testa vigor das ruas – Os protestos com alcance nacional e internacional contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) marcados para este sábado (24) serão uma espécie de teste para a disposição dos manifestantes, após uma sequência de três grandes atos nos últimos 56 dias —o mais recente no dia 3 deste mês. Capitaneadas por movimentos sociais, partidos e centrais sindicais, as mobilizações avançaram para além da esquerda, sobretudo em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. O retorno às ruas, três semanas depois de uma data extra convocada para pegar carona na temperatura das primeiras denúncias de corrupção na compra de vacinas pelo governo federal, ocorre em um momento de ceticismo sobre o impeachment, representado nos atos pela bandeira “fora, Bolsonaro”. Além das reiteradas declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) indicando resistência a dar andamento a um dos mais de cem pedidos de deposição já protocolados, a anunciada nomeação para a Casa Civil do senador Ciro Nogueira (PP-PI), líder do centrão, agrava o quadro. Ao amarrar o apoio do bloco de partidos a seu governo, Bolsonaro age para sepultar também o risco de um eventual processo contra ele ter votos suficientes para passar no Congresso. A soma de fatores ampliou no meio político a descrença sobre a chance de o impeachment prosperar.

Destaques

Ministros preparam debandada eleitoral – Com a chegada de Ciro Nogueira no Planalto, vai se desenhando um cenário em que metade dos atuais ministros pode deixar o governo no ano que vem para se candidatar. A maioria, segundo a Coluna apurou, quer disputar uma vaga no Senado, mas interlocutores dizem que a palavra final é do presidente. Dos 23 ministérios, contando com a recriação do Trabalho, nove titulares, Nogueira entre eles, são dados como certos nas urnas: Anderson Torres, João Roma, Fábio Faria, Gilson Machado, Rogério Marinho, Tereza Cristina, Onyx Lorenzoni e Flávia Arruda. Os outros três que podem se candidatar são Tarcísio Freitas, Marcelo Queiroga e Milton Ribeiro. Lorenzoni sonha com o governo do Rio Grande do Sul. Fábio Faria e Rogério Marinho se decidirão entre Senado e governo do Rio Grande do Norte. Tarcísio foi citado por Bolsonaro para concorrer ao governo de São Paulo. No DF, o entorno de Torres diz que ele não descarta concorrer contra seu ex-chefe, o governador Ibaneis Rocha (MDB). Tudo depende do cenário. Hoje Torres é próximo ao PSL. Tereza Cristina está entre o Senado e o governo do Mato Grosso do Sul, mas seu nome costuma circular para vice de Bolsonaro. Nogueira, senador, é pré-candidato ao governo do Piauí. Por isso, o estresse na Economia quando ele ficou sabendo que a pasta liberou empréstimo de R$ 800 milhões para a gestão do seu adversário Wellington Dias (PT). Segundo interlocutores de Nogueira, ele ficou destemperado: chegou a dizer que estava rompendo com o governo. Na semana seguinte, o senador foi escolhido como novo ministro da Casa Civil. Apesar de entranhados na política, os ministros militares Luiz Eduardo Ramos e Braga Netto não esboçam intenção eleitoral.

‘Quero um partido para chamar de meu’, diz Bolsonaro – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta sexta-feira (23) que está a procura de um partido que possa controlar e afirmou que o PP é uma possibilidade de filiação. A sigla é comandada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), líder do centrão convidado para assumir a Casa Civil, principal ministério do Palácio do Planalto. “Tentei e estou tentando um partido que eu possa chamar de meu e possa, realmente, se for disputar a Presidência, ter o domínio do partido. Está difícil, quase impossível”, afirmou Bolsonaro em uma entrevista à Rádio Grande FM, de Mato Grosso do Sul, transmitida também por uma das redes sociais do presidente. “Então, o PP passa a ser uma possibilidade de filiação nossa.”

Centrão pressiona para recriar Planejamento e controlar Orçamento – Mesmo após serem contemplados com o ministério mais prestigioso da Esplanada, a Casa Civil, partidos que compõem o chamado centrão continuam pressionando o governo para recriar o Ministério do Planejamento, cujas funções estão hoje dentro da Economia e envolvem o controle do Orçamento federal. A aposta nesse grupo de siglas é que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cederá e desmembrará pela segunda vez a pasta de Paulo Guedes. A primeira divisão no superministério ocorrerá na semana que vem, com a publicação de medida provisória que criará o Ministério do Trabalho e da Previdência.

PEC dos Militares será aprovada, diz deputada – As supostas ameaças do ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, à realização das eleições de 2022 fizeram aumentar as chances de aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 21/21, que proíbe os militares da ativa de ocuparem cargos de natureza civil na administração pública, seja da União, dos estados ou dos municípios. A avaliação é da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), autora do texto. Pouco antes do início do recesso parlamentar, a proposta foi encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, após receber 189 assinaturas — acima do mínimo necessário para o início da tramitação, que é 171. Segundo a deputada, representantes de todas as legendas assinaram a PEC. “Sabe quais foram os momentos em que eu consegui mais assinaturas para a PEC? Todas as vezes que Bolsonaro falava um impropério ou quando um militar se posicionava inadequadamente”, disse Perpétua Almeida ao Correio.

Deputado chora por contrato suspenso – Em vídeo publicano nas redes sociais, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) chorou ao comentar o fim do contrato entre a Bhrath Biotech, fabricante indiana da vacina Covaxin, e a Precisa Medicamentos, empresa brasileira que negociava o imunizante com o Ministério da Saúde. O parlamentar comenta o assunto entre lágrimas. “Sou eu que devo ser denunciado por denunciação caluniosa? Contra a saúde pública? Contra o povo brasileiro? Ser humilhado, alvo de chacota?”, cobrou Miranda. Ex-aliado de Jair Bolsonaro, o deputado e seu irmão, que é funcionário do Ministério da Saúde, denunciaram as supostas irregularidades na compra da Covaxin ao presidente da República — que não teria acionado a Polícia Federal para investigar o caso. O parlamentar hoje é alvo de um processo que o investiga por denunciação caluniosa.

MPF abre ação contra Bolsonaro por racismo – O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) ajuizaram uma ação contra Jair Bolsonaro por prática do crime de racismo. A denúncia foi feita com base nas declarações do presidente da República durante conversa com apoiadores, em frente ao Palácio da Alvorada, em 8 de julho, quando ele se referiu ao cabelo crespo de um apoiador negro, o missionário Maicon Sullivan, como “criatório de baratas”. De acordo com o texto, a intenção é que sejam adotadas medidas de “reparação, indenização e de cessação de danos, por danos extrapatrimoniais ou morais coletivos, e ainda, danos sociais”. Bolsonaro, segundo a ação do MPF, tinha pleno conhecimento “de que estava sendo filmado e de que tal vídeo circularia em redes sociais”. A ciência de que o comentário seria reproduzido e de que poderia trazer consequências foi um dos pontos apresentados contra o presidente para caracterizar a conduta.

Missão principal – Ao mesmo tempo em que atuará para preservar os interesses do governo no Congresso, Ciro Nogueira terá a missão de tentar fechar todas as brechas que possam representar fôlego para uma terceira via em 2022. A tentativa de fusão dos partidos, que sofre um mar de resistências, é parte desse processo, a fim de evitar que uma parcela do DEM esteja engajada na busca de uma alternativa à polarização entre Lula e Jair Bolsonaro. A avaliação dos aliados do presidente da República é a de que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, caminhou muito mais do que eles calculavam. Montou candidaturas fortes em Minas Gerais, no Rio de Janeiro tem Eduardo Paes e está prestes a receber o ex-governador Geraldo Alckmin para concorrer ao estado de São Paulo.

Mudança de sala – Os corredores do quarto andar do Palácio do Planalto terão movimentação intensa nos próximos dias. É que os militares da reserva levados para a Casa Civil podem se preparar para deixar os cargos. Ciro Nogueira preencherá a maioria dos postos com assessores de sua confiança. A turma de Luiz Eduardo Ramos, porém, não ficará ao relento: será transferida para a Secretaria Geral da Presidência, na ala Oeste, onde bate o sol da tarde e não tem vista para o Lago Paranoá.

Senador abastece jatinho com verba parlamentar – O senador Ciro Nogueira (PP-PI), convidado por Jair Bolsonaro para assumir a Casa Civil, usa quase todos os recursos disponíveis de seu orçamento parlamentar – destinados a custear as despesas essenciais do mandato – para alimentar um avião particular e percorrer do Brasil, mesmo no período de folga. Somente entre janeiro e julho deste ano, Ciro gastou R$ 263,6 mil com querosene de aviação, 90% das despesas totais de seu orçamento parlamentar no período. No atual mandato, entre janeiro de 2019 e julho de 2021, esses valores ultrapassam R$ 580 mil, aproximadamente a metade do total desembolsado pelo gabinete e financiado pelos cofres públicos. Parte desse valor foi utilizada para movimentar uma aeronave no final de 2020 em Porto Seguro (BA), para quase 1. A 700 quilômetros da capital piauiense, durante o recesso do Congresso. Ao longo deste ano, Nogueira também mudou de rota várias vezes e encaminhou notas ao Senado para o fornecimento de aeronave em cidades como Florianópolis, Recife, Rio, São Paulo, Sorocaba (SP), Palmas e Paço do Lumiar (MA). Em junho, o senador gastou mais de R$ 65 mil com combustível para o avião.

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