Resumo dos jornais de terça (31/03/20) | Claudio Tognolli

Resumo dos jornais de terça (31/03/20)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: Em apoio a Mandetta, Moro e Guedes se opõem a Bolsonaro

Os ministros Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia) uniram-se nos bastidores em apoio ao colega Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e na defesa da manutenção das medidas de distanciamento social e quarentena da população no combate à pandemia do coronavírus. Com o apoio de setores militares, o trio formou uma espécie de bloco antagônico ao comportamento do presidente Jair Bolsonaro, contrário ao confinamento das pessoas e ao fechamento do comércio. Com isso, o isolamento político do chefe da República aumenta diante do aval que Mandetta já tem da cúpula do Legislativo e do Judiciário —ontem, o presidente do STF, Dias Toffoli, destacou a necessidade do isolamento social. A avaliação feita por Moro a aliados é a de que o presidente está descontrolado, deixando aflorar sentimentos de raiva de supostos inimigos. Já Guedes, manifestou seu apoio ao colega da Saúde para políticos no fim de semana.

CORREIO BRAZILIENSE: Avanço do coronavírus no DF preocupa ministro

Com fluxo de pessoas de todo o país e do exterior, Brasília tem alta vulnerabilidade à Covid-19, alertou o chefe da pasta da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Segundo ele, o coeficiente de infecção no DF está quatro vezes acima da média do Brasil. “É uma cidade que tem essa ida e volta de todo o país. Tem que ter muita atenção”, ressaltou Mandetta. O ministro elogiou o trabalho do GDF contra o vírus e lembrou que Ibaneis Rocha (MDB) foi um dos primeiros governadores a tomarem medidas contundentes contra a epidemia. Ontem, ao CB.Poder, o secretário adjunto de assistência da Saúde do DF, Ricardo Tavares, detalhou novas ações, como o drive-thru para exames.

O ESTADO DE S.PAULO: Internação por síndrome respiratória cresce 445% no País

O número de internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em meados de março no País já era cinco vezes maior do que no mesmo período de 2019. Ontem, o Ministério da Saúde informou que na semana entre 15 e 21 houve 5.787 internações de pacientes com SRAG, 355 delas já confirmadas como covid-19. A alta é de 445% em relação ao registrado no mesmo período em 2019 (1061 casos). Desde a semana da primeira notificação de covid-19 no Brasil, em 25 de fevereiro, mais 14 mil pessoas foram internadas no País com SRAG. Estado mais afetado pela covid-19, com 1.517 casos e 113 mortes, SP tem 12 mil testes aguardando análise no Instituto Adolfo Lutz. Sem capacidade para fornecer rapidamente o resultado, o laboratório tem levado até 15 dias para emitir os laudos. Além da covid-19, epidemiologistas afirmam que o País terá de enfrentar, simultaneamente, epidemias de influenza e dengue nos próximos meses.

Valor Econômico: Entidades do varejo acusam bancos de aumentar juro

Associações que representam grandes varejistas, shopping centers e lojistas encaminharam cartas ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para protestar contra os bancos, que, segundo as entidades, elevaram de forma “expressiva” as taxas de juros. Em média, reclamam, os juros tiveram alta de 50%, chegando a 70% em alguns casos. O aumento se deu em meio à paralisação quase completa do comércio, desde o dia 20, em decorrência do isolamento social provocado pela pandemia de coronavírus, e da promessa dos bancos de suspender a cobrança de dívidas por dois meses. A Abrasce, associação dos shoppings, que reúne 400 filiados, é uma das entidades que assinam as cartas, ao lado do IDV (principal instituto do varejo), CNDL (dirigentes lojistas), CACB (confederação das associações comerciais) e ABF (segmento de franquias).

O GLOBO: Planalto tenta tutelar Mandetta, que reafirma apoio ao isolamento

Um dia depois do presidente Jair Bolsonaro fazer um tour por Brasília, contrariando recomendações das autoridades de Saúde, o governo determinou um novo formato para a entrevista coletiva de divulgação de dados e balanço da crise do coronavírus. Agora, ela acontece no Palácio do Planalto e com vários ministros, além do titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Apesar da tentativa de tutelá-lo, Mandetta voltou a defender o isolamento das pessoas que podem ficar em casa e as medidas de restrição à circulação adotadas por governos estaduais. Depois disse ao GLOBO que não recomenda que atitudes como a do presidente no fim de semana sejam repetidas. Ele não pôde comentar o assunto na entrevista coletiva, encerrada pelo ministro Braga Netto, da Casa Civil, justamente quando um repórter perguntou como Mandetta havia avaliado o tour. Braga Netto disse que demitir o ministro da Saúde “está fora de cogitação, no momento”. Mandetta afirmou que, enquanto estiver no cargo, trabalhará com “ciência, técnica e planejamento”. Isolado após a mudança de tom de Donald Trump, Bolsonaro voltou a defender na TV “afrouxamento” de restrições.

Destaques do dia

E agora, José? – A insatisfação dentro do governo Jair Bolsonaro com Luiz Henrique Mandetta (Saúde) transbordou os limites do Palácio do Planalto. Na equipe econômica, liderada por Paulo Guedes, as aparições frequentes do encarregado da Saúde viraram motivo de queixas. O protagonismo do ministro com o coronavírus já havia despertado ciúmes do presidente e de assessores diretos, o que motivou a mudança de rotina de entrevista à imprensa com mais quatro da Esplanada nesta segunda (30). O discurso que circula na equipe econômica é que, enquanto os outros estão trabalhando, o ministro da Saúde está na TV. Mandetta, porém, tem liderado a crise e sido ponto de apoio para governadores e prefeitos, apesar de ter se curvado, em alguns momentos, à pressão do presidente Jair Bolsonaro. Guedes, por outro lado, é o mais cobrado. Parte do empresariado e do mundo político se frustrou nesta segunda (30) por não ouvir nenhuma medida efetiva dele para o enfrentamento da crise do coronavírus. Com a decisão do Supremo no fim de semana, que autoriza o governo a gastar sem o limite da lei fiscal, a expectativa era de que o ministro já tivesse algo em mãos e apresentaria imediatamente, o que não ocorreu. A amarra fiscal era o principal escudo de Guedes para evitar um eventual processo de impeachment. O ministro da Economia vem dizendo que, embora no Rio, participou ativamente dos anúncios da semana passada.

Nós contra eles – A insatisfação com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, faz parte de um acirramento de atritos internos. O presidente Jair Bolsonaro passou a avaliar ministros, segundo assessores, com base em apenas um critério: quem o defende e quem não. Colocado no lado dos que não endossaram o presidente, o ministro Sergio Moro (Justiça) usou o Twitter nesta segunda (30) para compartilhar e elogiar um artigo do ministro do STF Luiz Fux no jornal O Globo. No texto, o magistrado enaltece o trabalho de Mandetta na Saúde e diz que se “exige do homem médio ouvir e respeitar a Ciência”. Na postagem, Moro classificou o artigo como excelente e ainda recomendou aos seguidores: “prudência no momento é fundamental”.

Governo faz mudanças para atenuar visibilidade de Mandetta – O governo Jair Bolsonaro reduziu nesta segunda-feira (30) a visibilidade do ministro Luiz Henrique Mandetta na divulgação de dados do coronavírus no país, em meio às divergências do discurso do titular da Saúde com a conduta do presidente. O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, que ganhou protagonismo na apresentação à imprensa, afirmou que não há, no momento, a intenção de demitir Mandetta. “[Quero] deixar claro para vocês: não existe essa ideia de demissão do ministro Mandetta. Isso está fora da cogitação no momento”, disse Braga Netto, militar que é próximo de Bolsonaro. O titular da Saúde reagiu com ironia. “Vamos lá, em política, quando a gente fala ‘não existe’, a pessoa já fala ‘existe’.” No domingo (29), Bolsonaro afrontou as orientações de isolamento, defendidas por Mandetta, e fez um giro pelo comércio de Brasília. Nesta segunda, ele levou ao Palácio do Planalto a apresentação diária do Ministério da Saúde, que costumava ser longa, técnica e apenas com a cúpula da pasta. Desta vez, a entrevista coletiva reuniu, além de Mandetta e Braga Netto, outros ministros. Apesar do anúncio do governo de que seriam aceitas oito perguntas, a entrevista foi interrompida depois da quarta, justamente após questionamento sobre as andanças de Bolsonaro no Distrito Federal no dia anterior, contrariando as orientações do ministro da Saúde. Braga Netto negou que as mudanças no formato da apresentação dos dados tivessem como pano de fundo problemas políticos. As falas de Mandetta foram repletas de recados a Bolsonaro, antes da interrupção da entrevista. Ele disse, por mais de uma vez, que continuará tendo uma atuação técnica no comando do enfrentamento da crise do coronavírus, que já matou 159 pessoas no Brasil. Mandetta também pediu desculpas pelas críticas que fez à imprensa no sábado (28) e elogiou a TV Globo, constante alvo de ataques do presidente da República.

Golpe de 64 é ‘marco para a democracia brasileira’ – Em ordem do dia alusiva aniversário do golpe que instaurou a ditadura militar há 56 anos, o Ministério da Defesa afirma que “o movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira”. “Mais pelo que ele evitou”, completa o ministro da pasta, general da reserva Fernando Azevedo, que assina a ordem sobre o 31 de março com os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira. O tom de defesa da ditadura é mais incisivo do que em documento análogo divulgado no ano passado, o primeiro do gênero no governo de Jair Bolsonaro, um capitão reformado do Exército conhecido pela apologia à que faz ao regime dos generais. Como em 2019, o texto afirma que 1964 pertence à história e que o momento dos militares é outro. “As Forças Armadas acompanharam as mudanças” e “estão submetidas ao regramento democrático com o propósito de manter a paz e a estabilidade”.

General Villas Bôas defende Bolsonaro – No momento em que se acirram as tensões entre governo federal e estados devido à condução da crise do coronavírus, o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas saiu em defesa do presidente Jair Bolsonaro e alertou contra “ações extremadas”. O general da reserva, que é assessor do Gabinete de Segurança Institucional, disse em sua conta no Twitter que o país passa por um momento “muito grave”. “Ações extremadas podem acarretar consequências imprevisíveis”, disse, lembrando a greve dos caminhoneiros que parou o país em 2018. Emulando o discurso bolsonarista, afirmou que a crise pode acabar afetando os mais desassistidos e trabalhadores informais. “Pode-se discordar do presidente, mas sua postura revela coragem e perseverança nas próprias convicções”, escreveu, um dia depois de Bolsonaro ser criticado por fazer uma visita a comerciantes em áreas pobres do entorno de Brasília.

Facebook e Instagram também apagam post de Bolsonaro – Após o Twitter, o Facebook também decidiu, nesta segunda-feira (30), apagar publicação do presidente Jair Bolsonaro de suas plataformas, por entender que ela cria “desinformação” que pode “causar danos reais às pessoas”. A postagem é de um dos vídeos do passeio que o presidente fez no Distrito Federal neste domingo (29), criando aglomeração e contrariando seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que recomendou que as pessoas ficassem em casa como medida de enfrentamento ao novo coronavírus. O vídeo também foi apagado do Instagram, rede social que pertence ao Facebook. “Removemos conteúdo no Facebook e Instagram que viole nossos Padrões da Comunidade, que não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas”, diz a empresa em nota. Neste domingo, duas postagens feitas por Jair Bolsonaro foram apagadas do Twitter. A empresa considerou que as postagens violavam as regras de uso ao potencialmente colocar as pessoas em maior risco de transmitir o novo coronavírus. Foi a primeira vez que a rede social apagou postagens do presidente do Brasil. A companhia também apagou um post do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro. A publicação de Maduro indicava uma receita caseira de uma bebida que poderia ser útil para curar a doença. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não quis comentar nesta segunda-feira (30) o fato de o Twitter ter apagado um dia antes duas postagens dele. Questionado quando deixava o Palácio da Alvorada, pela manhã, alegou que, como se trata de uma empresa privada, não comentaria. “Não vou discutir, é uma empresa particular”, afirmou o presidente.

Ciro, Haddad, Boulos e Dino pedem renúncia de Bolsonaro em manifesto – Os principais líderes de diversos partidos de oposição se uniram de forma inédita para lançar um documento acusando Jair Bolsonaro de ser “um presidente da República irresponsável”, que agrava a crise do coronavírus pois “comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos”. “Deveria renunciar” diz o texto, assinado pelos pelos ex-presidenciáveis Fernando Haddad (PT-SP), Ciro Gomes (PDT-CE) e Guilherme Boulos (PSOL-SP) e pela candidata a vice de Haddad, Manuela Davila (PCdoB). O documento é endossado ainda pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), pelo ex-governador do Paraná, Roberto Requião (MDB-PR), pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e pelos presidentes do PT, Gleisi Hoffmann, do PSB, Carlos Siqueira, do PDT, Carlos Lupi, do PCB, Edmilson Costa, Juliano Medeiros, do PSOL, Luciana Santos, do PCdoB. O texto afirma que “Jair Bolsonaro é o maior obstáculo à tomada de decisões urgentes para reduzir a evolução do contágio, salvar vidas e garantir a renda das famílias, o emprego e as empresas. Atenta contra a saúde pública, desconsiderando determinações técnicas e as experiências de outros países”. E pede que o presidente da República seja contido: “Basta! Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país. Ele precisa ser urgentemente contido e responder pelos crimes que está cometendo contra nosso povo”.

Deputada bolsonarista diz que governo tem aprendido – Aliada do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), 39, afirma que o governo federal ainda está aprendendo a se mover na crise do coronavírus e busca o equilíbrio entre o que deve fechar ou funcionar. Em entrevista à Folha, a deputada diz que Bolsonaro tem problema de comunicação, mas não de responsabilidade, e aperta a tecla SAP para explicar o que ele quis dizer ao falar em gripezinha e isolamento vertical. “Se ele falar alguma coisa que gere dissonância ou ruído, esse talvez seja o único problema do presidente e o resto está funcionando”, afirma. Para Zambelli, Bolsonaro não está confrontando seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao desobedecer orientação de isolamento dada no sábado (28) e sair às ruas no domingo (29). “Há uma distribuição de papéis”, diz —o ministro se preocupa com o vírus, e Bolsonaro, com a economia. Ela defende o fechamento de escolas e igrejas, e condena as carreatas que pedem reabertura de estabelecimentos. Também critica o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), por fazer política no momento de crise e diz que a esquerda quer o caos.

Investigação de Lulinha vai para vara de juiz anti-Lava Jato – A investigação da Lava Jato sobre os negócios de um dos filhos do ex-presidente Lula com a Oi será encaminhada para uma Vara Federal em São Paulo cujo juiz titular tem se manifestado de maneira crítica à operação e já disse não haver “prova irrefutável” contra o ex-presidente no processo do tríplex. A 69ª fase da Lava Jato, batizada de “Mapa da Mina”, foi remetida do Paraná para São Paulo por ordem do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), que considerou em julgamento no último dia 11 que não havia vínculos suficientes da apuração com a Petrobras, critério que fixa os casos em Curitiba. O principal alvo dessa etapa da Lava Jato era Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente e sócio da Gamecorp, empresa que recebeu R$ 83 milhões da Oi de 2004 a 2016.

Premiê húngaro usa vírus para ter poder ilimitado – O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, garantiu nesta segunda (30) o direito de governar por decreto, por tempo indeterminado, num movimento que tem sido criticado como atentado à democracia por políticos e entidades de direitos civis. A lei que prorroga o estado de emergência no país para combater a pandemia de coronavírus foi aprovada por 137 votos contra 52 na Assembleia Nacional, na qual o partido do premiê, o nacionalista Fidesz, tem maioria. Eram necessários 133 votos, ou dois terços do total. O texto permite a Orbán suspender sessões parlamentares e eleições e estabelece prisão de oito anos para quem desrespeitar as regras de quarentena, e de cinco anos para quem divulgar informação considerada incorreta pelo governo. Embora não seja específica para jornalistas, a norma é considerada por entidades internacionais uma ameaça à liberdade de imprensa. “Os termos da lei são muito vagos, deixam margem a interpretação, e é aí que está o principal problema”, diz Zsuzsanna Végh, do Conselho Europeu de Relações Exteriores. Segundo a pesquisadora, embora a oposição tivesse pequena margem de influência, com a nova lei o governo “abandonou até mesmo a fachada de democracia”. “Este é o dia em que um país da União Europeia se tornou uma ditadura total”, afirmou Andrew Stroehlein, diretor de comunicação para a Europa da Human Rights Watch.

Quase 7.000 brasileiros ainda aguardam repatriação – Desde que a pandemia de coronavírus levou ao fechamento de fronteiras e ao cancelamento de voos em vários países, cerca de 8.600 brasileiros foram repatriados, segundo o Itamaraty. Mas quase 7.000 ainda não conseguiram voltar —são 6.960, segundo o levantamento do ministério. Na Índia, quase 180 turistas distribuídos em 27 cidades buscam uma chance de voltar em meio a um rígido isolamento decretado pelo governo. Na África do Sul, 400 brasileiros ainda aguardam repatriação, de acordo com dados da embaixada. Em Cuba, um grupo chegou a dormir no aeroporto e agora está retido em um hotel, tendo que pagar preços altos nas diárias, refeições e para uso de internet. Em Portugal, há pessoas que tiveram os voos cancelados até três vezes e que estão pagando tarifas muito acima das usuais para conseguir voltar. No Peru, a maioria dos que estavam em Cusco e Lima foi repatriada em voos comerciais ou da FAB (Força Aérea Brasileira). Mas aqueles que estavam em cidades mais distantes ainda estão sem previsão de volta.

Mundo terá genocídio se pensar na economia em vez de na saúde, diz papa – O papa Francisco disse que o mundo pode passar por um “genocídio viral” caso os governos priorizem a economia, e não a saúde, durante a pandemia de coronavírus. A afirmação faz parte de uma carta enviada pelo pontífice a uma entidade cristã argentina e que foi divulgada nesta segunda (30) pelo Vaticano. No documento, Francisco afirma que muitos países “tomaram medidas exemplares, com prioridades bem claras para defender a população”. “E isso é importante porque todos sabemos que defender as pessoas pressupõe um descalabro econômico. Seria triste se alguém fizesse o contrário, o que levaria à morte de muita gente, algo como um genocídio viral”, diz o texto. Apesar disso, o papa também pediu aos países que se preparem para enfrentar os problemas sociais causados pelo impacto econômico da pandemia. A carta de Francisco, assim, vai de encontro às declarações do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido), que em seus discursos tem dado ênfase aos problemas econômicos causados pelo combate à pandemia e minimizado as questões de saúde provocadas pelo coronavírus.

104 profissionais do Sírio-Libanês afastados por coronavírus – Desde fevereiro, quando foi registrado o primeiro caso de Covid-19 no país, a doença já provocou o afastamento de 104 profissionais do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O primeiro caso da infecção pelo novo coronavírus Sars-CoV-2 foi confirmado em 26 de fevereiro. Tratava-se de um homem de 61 anos que tinha viajado para a Itália e foi tratado no hospital Albert Einstein. Não há informações sobre quantos profissionais estão afastados do trabalho no momento no Sírio-Libanês e quais funções as pessoas que foram afastadas exercem. No domingo, o Painel revelou que ao menos 90 profissionais haviam sido afastados e que os testes para coronavírus são feitos com frequência no hospital para segurança de funcionários e pacientes. Procurado, o Hospital Sírio-Libanês afirmou que não iria se pronunciar sobre o assunto neste momento.

Einstein afastou 348 profissionais e tem 15 internados por coronavírus – Desde fevereiro, quando foi registrado o primeiro caso de Covid-19 no país, a doença já provocou o afastamento de 348 profissionais do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Desses, 15 estão internados. Entre os 15 mil colaboradores do Einstein, 169 dos que foram infectados são profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. “Já retornaram ao trabalho 36 desses profissionais”, diz, em nota, o hospital.

Hospital das Clínicas já afastou 125 funcionários por coronavírus – O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, maior hospital público do país, já afastou 125 funcionários, entre médicos, enfermeiras, técnicos e fisioterapeutas, por causa do coronavírus. Destes, 108 já testaram positivo para a Covid-19. E 50 ainda aguardam o resultado do exame. Desde 12 de março, o Centro de Atendimento ao Colaborador (CAC) do hospital já examinou 2.549 colaboradores. Destes, 1.244 foram testados —em 1.136 casos os resultados deram negativo. No HCor, 32 médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas foram afastados da rotina hospitalar. “É um momento desafiador para os médicos. Estamos diante do desconhecido. Há tensão e medo e um sentimento de autoproteção”, afirma o infectologista Pedro Mathiasi, do HCor. Ele afirma que os profissionais têm também uma sensação “de impotência” quando recebem a notícia de que um colega foi contaminado. A situação é agravada por muitos permanecerem longe das famílias, para preservá-las do risco. “É um momento de provação para a nossa categoria. Mas vamos sair mais fortes”, afirma ele.

Apoio dos estados – A mudança na comunicação do governo sobre a pandemia do novo coronavírus, com a chegada de coadjuvantes para diminuir o protagonismo de Mandetta, é mais um gesto que explicita a divergência entre o posicionamento médico e as opiniões políticas. O que já vinha sendo notado pela opinião pública, ficou evidente pela primeira vez durante as manifestações pró-bolsonarianas em 15 de março, quando o presidente da República contrariou as recomendações de se manter em isolamento domiciliar e foi às ruas cumprimentar os aliados. Na ocasião, Bolsonaro sofreu duras críticas de um dos principais aliados e responsável pela indicação de Mandetta ao cargo ministerial. Desde então, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), tem se posicionado publicamente contra a postura do chefe do Executivo. “O Mandetta, assim como eu, também é médico e sabe que o coronavírus não se trata de uma ‘gripezinha’. Parabéns pela coragem em defender medidas científicas e isolamento”, postou Caiado nas redes sociais. Na mesma direção tem se pronunciado o prefeito de Salvador e líder nacional do Democratas, ACM Neto. “A postura do presidente é condenável. Lamento que tenha esse tipo de atitude porque quem está vendo o que está acontecendo no mundo sabe que hoje não temos dois caminhos”, disse ontem em coletiva. Ele acrescentou que, para guiar as decisões da cidade, não leva em consideração as ideias de Bolsonaro. “Tenho no ministro Mandetta a referência do posicionamento do governo federal sobre esse tema. Prefiro ficar com o equilíbrio e bom senso do que as atitudes pouco pedagógicas e incompatíveis com a seriedade do momento que o presidente vem tomando”, acrescentou o prefeito de Salvador. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB) também pediu aos cidadãos que ignorem os apelos de Bolsonaro. “Neste caso, não sigam as orientações do presidente da República. Ele não orienta corretamente a população e lamentavelmente não lidera o Brasil no combate ao coronavírus e na preservação da vida. Sob o comando de Mandetta, tenho a convicção de que [o ministério] continuará a produzir informações corretas e orientações adequadas, seguindo protocolo da OMS”, disse.

Toffoli critica “achismo” e defende isolamento – Enquanto o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, divergem sobre a importância do isolamento social como ferramenta de combate ao novo coronavírus, os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, se posicionaram a favor das medidas de confinamento como estratégia de prevenção. Toffoli e Santa Cruz conversaram por meio de uma live em uma rede social. O presidente do STF foi enfático ao defender o seu argumento, pedindo que a população dê atenção às recomendações de autoridades sanitárias, especialmente da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para Toffoli, o momento é de solidariedade. “Não dá para tomar decisões em cima do ‘eu acho’, do que ‘eu penso’, do que ‘eu queira que fosse’, senão, a realidade se volta contra nós”, alertou. “Tudo o que tem ocorrido no mundo leva a crer dessa necessidade do isolamento, realmente, que é para puxar a diminuição de uma curva (de infecções) e poder ter um atendimento de saúde para a população em geral”, frisou o presidente do STF. Felipe Santa Cruz compartilhou da opinião de Toffoli. “Vamos ficar em casa, com serenidade, e tudo isso vai passar”, afirmou o presidente nacional da OAB. Dentre outros assuntos abordados na live, Toffoli e Santa Cruz conversaram sobre a atuação da imprensa neste momento de pandemia. Desde a aparição dos primeiros casos no país, os veículos de comunicação têm sido duramente criticados por Bolsonaro. No último fim de semana, Mandetta também reclamou dos jornais, ao dizer que a imprensa é “tóxica”. Ontem, o ministro se desculpou. Segundo Toffoli, “não existe um estado democrático de direito sem um Judiciário independente, sem uma advocacia que possa ter a liberdade de ter a coragem de dizer o que precisa ser dito, sem ter uma imprensa livre, uma imprensa que também possa dizer e trazer luz aos fatos, e mostrar os fatos”.

Populismo atrapalha ações, alerta ministro – O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelou ao Correio, ontem, que temia a possível eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Ele falou sobre o assunto depois de perguntado sobre o crescente volume de ações judiciais apresentadas contra o chefe do governo, que tem estimulado o descumprimento das recomendações das autoridades de saúde em meio à pandemia do novo coronavírus. O magistrado lembrou que, em 2017, durante palestra na Universidade de Coimbra, em Portugal, manifestou preocupação e temor com a ascensão política, em diferentes países, de populistas de extrema-direita, como Bolsonaro. “Falei sobre a Hungria, os Estados Unidos com Donald Trump, e disse que temia pelo Brasil, com a possível eleição de Jair Bolsonaro, um político que passou a vida inteira atacando as minorias e pregando um combate intenso contra a corrupção. Premonição? Não, só experiência de vida”, afirmou Marco Aurélio. Perguntado, ele não quis falar sobre as possíveis consequências jurídicas do posicionamento do capitão reformado na atual crise de saúde. “Eu fico triste ao ver o que o presidente da República está fazendo”, limitou-se a dizer o ministro.

Senado aprova renda mínima – O projeto de renda mínima foi aprovado ontem, por unanimidade, pelo Senado. Em sessão deliberativa remota, os senadores endossaram a decisão da Câmara dos Deputados, e mandaram direto para sanção presidencial o Projeto de Lei 1.066/20, que estabelece o pagamento de um auxílio emergencial no valor de R$ 600 a pessoas de baixa renda por conta da pandemia do coronavírus. Para o relator, senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o PL é apenas um primeiro passo para garantir assistência a quem não tem proteção social. “É primordial aumentar a rede de proteção. Sabemos que podemos fazer mais. Parte importante dessa discussão passa pelos mais abastados ajudarem os mais necessitados”, ressaltou. Ele acrescentou que quem está no Cadastro Único poderá ter acesso; quem não está pode se autodeclarar por plataforma digital. “Tem muito trabalho para ser feito agora, para garantir a logística a fim de o dinheiro chegar na ponta. Nosso papel é cobrar para que isso não demore”, ressaltou.

14 milhões de famílias a mais no Bolsa Família – O programa Bolsa Família será disponibilizado para mais de 14 milhões de famílias a partir de abril. Foi o que anunciou, ontem, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni. “Por ordem do presidente Jair Bolsonaro foi feita transferência de recursos para permitir a inserção, neste mês de março, com o pagamento em abril, de 1,2 milhão de novas famílias no programa, elevando a cobertura para 14.290 milhões de famílias. Do ponto de vista das taxas de cobertura, com esse novo anúncio, a taxa de cobertura do Nordeste chega a 111,90%”, disse. O ministro garantiu que, nos próximos quatro meses, nenhum beneficiário será excluído do programa, visto o avanço do novo coronavírus. “Segundo a lei, o pagamento será pelos bancos federais: Banco do Brasil, Caixa, Banco da Amazônia e Banco do Nordeste. Estamos trabalhando com as melhores redes: Caixa-Lotéricas, Banco do Brasil-Correios. Será a maior rede possível para o dinheiro chegar com agilidade para o cidadão”, frisou.

Carta de senadores defende isolamento – Os senadores aprovaram, ontem, um manifesto em defesa do isolamento social como estratégia para conter a disseminação do novo coronavírus, diferentemente do posicionamento do presidente Jair Bolsonaro, que tem minimizado a necessidade de recolhimento. Os líderes de todas as bancadas do Senado assinaram o documento, que se baseia nas experiências de países que enfrentam, por enquanto, mais casos concretos. Segundo os senadores, a experiência observada nesses locais “deixa claro que, diante da inexistência de vacina ou de tratamento médico plenamente comprovado, a medida mais eficaz de minimização dos efeitos da pandemia é o isolamento social”, como recomenda a Organização Mundial da Saúde. Se o isolamento for mantido, o sistema de saúde terá mais condições de “atender ao maior número possível de enfermos, salvando assim milhões de vidas”, consideram os parlamentares. “Ao Estado cabe apoiar as pessoas vulneráveis, os empreendedores e segmentos sociais que serão atingidos economicamente pelos efeitos do isolamento”, concluem, na carta divulgada após reunião de líderes, ontem.

Uma junção para conter os danos de imagem – Ao levar as coletivas do Ministério da Saúde para o Planalto, como parte do gabinete de crise, Jair Bolsonaro adota uma estratégia para evitar a leitura de que a equipe do ministro Luiz Henrique Mandetta é algo estanque, descolado do governo. Aliás, foi aconselhado a adotar esse modelo para tentar amenizar o impacto negativo não só do passeio de domingo, mas também das declarações da manhã, em que novamente defendeu que todos voltem ao trabalho, num momento em que até Donald Trump se rende à necessidade de isolamento. Veremos até quando isso vai durar. O presidente quer os louros do trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde, mas quer distância do ônus econômico das suas recomendações, de distanciamento social. Aliados têm dito que Bolsonaro não se convenceu da gravidade da crise. Primeiro, houve a defesa de uma campanha institucional para que o Brasil voltasse ao trabalho. Não deu certo. Depois, o rascunho de um decreto para determinar o retorno imediato às atividades em todo o país. Não funcionou. A contar pela disposição dele, algo mais virá. O Brasil vive a cada dia a sua aflição.

Ministros por Mandetta – Não são poucos os ministros que têm apelado a Bolsonaro para refluir nas declarações dissonantes com as de Mandetta. O que o ministro da Economia, Paulo Guedes, fala de público, a favor do isolamento, é voz corrente no primeiro escalão do governo.

A terceira onda – As declarações de Bolsonaro só serão tratadas de forma mais contundente no Parlamento, quando o país estiver em condições de voltar à normalidade. Em outras palavras, o Brasil seguirá com crise política em altos e baixos. Ninguém tomará qualquer atitude, até que se resolvam as questões de saúde, e as medidas econômicas tenham alguma resposta a fim de melhorar a vida das pessoas.

Está assim I
Em Londrina (PR), um empresário de 55 anos, que passou a infância e a adolescência em Brasília, começou a sentir dores pelo corpo em 18 de março. Em 20 de março, febre alta e dor de cabeça. Procurou a emergência de um hospital privado três dias depois. Foi mandado de volta para casa, sem teste para coronavírus e qualquer cuidado especial. Preocupado e ainda passando mal, voltou ao hospital dia 25. Aí sim, o tratamento foi diverso. Uma tomografia detectou lesões nos pulmões e, então, foi internado e houve coleta de material para o teste. Ontem, 29 de março, recebeu o resultado: Covid-19. Esse empresário continua internado. Conta ainda que tem um passado atlético em piscina, alimentação saudável, não fuma, não bebe, não tem hipertensão, diabetes, ou qualquer outro fator de risco. Agora, seu quadro clínico começa a melhorar. “O vírus é violento”, avisa.

Continha – Dia desses, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) reclamou de um juiz que suspendeu a carreata do “Brasil não pode parar”, referindo-se a um cidadão contra 57 milhões –– o número de votos que seu pai angariou no segundo turno. O problema é que, desses milhões, há muitos que defendem o confinamento e não votaram a favor de Bolsonaro, e sim contra o PT.

Sem exemplos para citar – O fato de o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (foto), adotar o autoisolamento depois que um de seus assessores testou positivo para o novo coronavírus, foi mais um baque nas atitudes de Bolsonaro, que, com vários colaboradores com resultado positivo, continua nas ruas.

Capital no olho do furacão – Às vésperas de completar 60 anos, Brasília se tornou a cidade mais crítica do país para a disseminação do novo coronavírus. Proporcionalmente à população, o Distrito Federal tem o maior índice de incidências. Enquanto a média do país é de dois casos para 100 mil habitantes, no DF a conta chega a 9,5. Acre e Ceará empatam no segundo lugar do ranking do Ministério da Saúde, com 3,8. São Paulo e Rio de Janeiro têm uma média de, respectivamente, 3,1 e 3,5 casos a cada 100 mil habitantes. E por que a capital do país enfrenta cenário pior? Justamente pelo motivo pelo qual foi criada: receber cidadãos de todos os estados, políticos e suas equipes que circulam pelo país inteiro e ser a sede das embaixadas. Sorte que medidas restritivas foram adotadas pelo governador Ibaneis Rocha logo no início da pandemia.

Coronavírus isola ‘bolha’ bolsonarista – Embora a rede de apoio ao presidente Jair Bolsonaro na internet continue coesa, a circulação de informações sobre como está sendo o combate ao coronavírus no resto do mundo favorece a oposição, na visão de analistas ouvidos pelo Estado. Segundo eles, histórias reais de pessoas que tiveram a doença e o aumento do número de mortos pela covid-19 também devem reduzir a adesão à tese defendida pelo governo, de que a situação não é tão grave quanto parece e que o isolamento social só deve ser aplicado aos idosos. “A crise refletiu sobretudo a incapacidade do presidente de entender a situação ao construir uma narrativa de que isso não seria um problema a se levar em consideração. Mas a informação circula em tempo real e as pessoas puderam ter dimensão do problema e ver como diferentes líderes têm lidado com a situação”, disse o pesquisador da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV, Marco Aurélio Ruediger. Para Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, a escala global da pandemia ajuda a entender o isolamento narrativo dos bolsonaristas. “O aumento do número de pessoas falando sobre o tema, em particular no Twitter, faz com que a popularidade e o controle dessa narrativa feitos por aqueles que militam a favor do governo fiquem muito diminuídos.” Na sexta-feira passada, grupos bolsonaristas passaram a organizar carreatas para pressionar prefeitos e governadores a reabrirem os comércios, mas tiveram pouco retorno.

PSDB adia decisão de engrossar oposição a Bolsonaro – Apesar de o sentimento majoritário entre os tucanos ser de oposição formal e imediata a Jair Bolsonaro, esse movimento só deverá ser oficializado pelo PSDB ao término deste período crítico da crise da covid-19. Conforme a Executiva, por enquanto, prevalece a tese de demonstrar total “independência” e distância crítica em relação ao presidente. Porém, as alas descontentes do partido (e quem conhece bem os tucanos) enxergam erro estratégico: o PSDB perdeu o timing do rompimento e, agora, corre o risco de soar “covarde”, ficando perto ou correndo para longe de Bolsonaro. A tese de uma nota mais branda levou em consideração o risco de o PSDB, que tem Rogério Marinho no governo Bolsonaro, parecer “oportunista” por declarar oposição neste momento de grave crise. Foi o preço a ser pago por ter demorado a tomar uma decisão que já havia se tornado óbvia no fim do ano passado, argumentam os que defendem a oposição total a Bolsonaro. Na reunião da Executiva, Tasso Jereissati e Aloysio Nunes Ferreira defenderam posição pelo rompimento total com o governo. No final das contas, a nota, assinada por Bruno Araújo, finalmente manifestou apoio a prefeitos e governadores do PSDB, que há dez dias apanham dia sim, outro também, do presidente.

Órgão estratégico é ignorado durante crise – O Palácio do Planalto possui um órgão vital em sua estrutura de planejamento, a chamada Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Em um momento de crise aguda como o atual, essa área poderia ser chamada a apoiar a tomada de decisões que possam ter impacto social, ajudando a formular medidas nacionais de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. O Estado apurou que, do dia 14 de fevereiro, quando o órgão foi assumido pelo almirante Flávio Augusto Viana Rocha, até a semana passada, não havia nenhuma demanda formal direcionada à secretaria sobre o enfrentamento do coronavírus. O departamento não havia sido consultado para emitir nenhum parecer sobre a crise, por exemplo. Debaixo do almirante, há 40 pesquisadores, militares e técnicos, sem serem requisitados para qualquer tipo de ação.

Como revelou o Estado na quarta-feira, desde o início da crise, o presidente Jair Bolsonaro deu mais poder ao “gabinete do ódio”, núcleo ideológico comandado por seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), e que atua no Planalto. A indiferença à SAE não é nova. O órgão já vinha sendo ignorado pela Presidência desde o fim do ano passado, quando ainda era comandada pelo general Maynard Marques de Santa Rosa, que pediu demissão em novembro de 2019. O almirante Rocha é o terceiro secretário de assuntos estratégicos no governo Bolsonaro. As mudanças promovidas por Bolsonaro fizeram com que a SAE passasse a responder diretamente a ele. Antes, estava ligada à Secretaria-Geral da Presidência. Até 2018, a secretaria contava com 56 profissionais de alto conhecimento técnico. Hoje são 40 funcionários. Dentro da SAE, o sentimento de alguns servidores é de que o governo “é um gabinete que não está ouvindo ninguém” e que se baseia em intuições e palpites que retira das redes sociais, sem observar a análise de auxiliares e seus relatórios estratégicos.

Em boletim, Eurasia avalia risco de pandemia desestabilizar Bolsonaro – O fundador e presidente da Eurasia Group, Ian Bremmer, cogitou pela primeira vez, ao falar dos impactos da pandemia de coronavírus no mundo emergente, um cenário de impeachment de Jair Bolsonaro no Brasil. Em mensagem semanal aos clientes e contatos da consultoria de risco político, distribuída ontem, Bremmer dedica parte do texto para uma análise dos reflexos da covid-19 sobre as respostas de países em desenvolvimento à emergência sanitária. No caso do Brasil, menciona que Bolsonaro tem feito campanha contra governadores defensores do isolamento social e acusado a mídia de incitar o pânico na sociedade. “Ele diminuiu a importância do vírus, dizendo que as escolas deveriam ser abertas porque crianças não estão em risco e que as pessoas deveriam voltar à sua vida cotidiana”, escreve. Bremmer explica aos seus leitores que, como nos Estados Unidos, o sistema político no Brasil é “fortemente descentralizado”, mas avalia que as declarações do presidente brasileiro minam a eficácia das medidas adotadas por administrações estaduais. Ele, então, alerta: “O avanço da doença, que sobrecarrega o sistema de saúde, recairá solidamente sobre os ombros de Bolsonaro – arriscando o desenrolar de sua aliança reformista no Congresso e potencialmente até levando ao seu próprio impeachment.” Nas redes sociais, Bremmer tem sido crítico do modo como o presidente Bolsonaro está lidando com a crise. No domingo, ele tuitou que nunca viu “um nível de irresponsabilidade” tão grande em líderes democraticamente eleitos e que “Bolsonaro faz [Donald] Trump parecer Churchill” no enfrentamento ao coronavírus, mas não havia usado os próprios relatórios de sua empresa para fazer esse tipo de advertência.

Aras nega omissão e diz que MPF poderá agir – Cobrado por partidos políticos e por seus próprios pares a se posicionar sobre as ações do presidente Jair Bolsonaro, o procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou em entrevista exclusiva ao GLOBO que é “extremamente injusta” a crítica de que tem sido omisso em meio à crise do coronavírus. Indicado por Bolsonaro ao cargo, Aras afirmou que as manifestações do presidente estão resguardadas pela liberdade de expressão e pela imunidade do seu cargo. Mas disse que poderá recorrer à Justiça se o presidente “vier a baixar um decreto contrariando a orientação da horizontalidade”, em referência ao isolamento recomendado pelo Ministério da Saúde

error: