Resumo dos jornais de segunda (23/11/20) | Claudio Tognolli

Resumo dos jornais de segunda (23/11/20)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: Estudantes negros são só 10% na rede privada de SP

CORREIO BRAZILIENSE: Fraudes bilionárias no setor de combustíveis

O ESTADO DE S.PAULO: Puxada por demanda e câmbio renda no campo cresce 37%

O GLOBO: Inadimplência de empresas cai pela metade

Valor Econômico: Empresas tentam reerguer planos de saúde individuais

Resumo das manchetes – A manchete da Folha é fruto de um levantamento do jornal com base no Censo Escolar de 2019 que demonstra que apenas um em cada dez alunos de escolas privadas na cidade de São Paulo é negro. A manchete do Correio denuncia que, por ano, o mercado perde R$ 23 bilhões com golpes que vão de bombas adulteradas a misturas fora do padrão, causando prejuízos ao consumidor e aos cofres públicos. A manchete do Estadão revela que renda no campo teve um crescimento de 37% e deve gerar a safra de colher R$ 342 bilhões com Paraná, Goiás e Mato Grosso liderando o ranking. O Globo também dedica sua manchete a economia e mostra, que as medidas do governo durante a pandemia, com fácil acesso ao crédito, fizeram a inadimplência cair pela metade. Isso, no entanto, pode não durar, já que há sinais cada vez mais fortes de que o país estaria prestes a enfrentar uma segunda onda de Covid-19. A manchete do Valor versa sobre o soerguimento dos planos de saúde individuais carentes na cidade de São Paulo, que representa o maior mercado de convênio médico do país.

Destaques de segunda

Combate à pandemia em 2º plano na eleição? – Na reta final das eleições municipais e em meio à pandemia, está claro para políticos e analistas: avaliar o desempenho dos prefeitos no combate à covid-19 não parece ter sido prioridade para os eleitores na hora do voto. Nas cinco capitais com maior índice de mortes a cada 100 mil habitantes, todos os candidatos da situação foram para o segundo turno. A análise, de acordo com membros de diferentes lados do espectro político, é: na escolha do candidato, fez menos diferença quem foi mais ou menos rígido com medidas de isolamento do que se esperava. As cinco capitais são: Rio, Belém, Recife, Fortaleza e Porto Velho. O levantamento foi feito pelo Inteligov, startup de monitoramento dos Poderes Executivo e Legislativo. Envolvidos em campanhas acreditam que, se a eleição tivesse ocorrido em momento crítico da pandemia, ela poderia ter influenciado nos resultados. Os números começaram a melhorar quando a campanha teve início. No caso de Rio e Porto Velho, os prefeitos candidatos à reeleição, Marcelo Crivella (Republicanos) e Hildon Chaves (PSDB), garantiram vaga no segundo turno a despeito de maus resultados das duas capitais na pandemia.

Bolsonaro cometeu série de infrações de trânsito em Macapá – Especialistas consultados pelo Painel viram um combinado de infrações cometido pela comitiva de Jair Bolsonaro em sua passagem por Macapá. No sábado (21), 19º dia de apagão no Amapá, o presidente trafegou com o corpo pendurado para fora do carro, com um segurança protegendo suas costas. Além das transgressões e de possível crime de direção perigosa, os especialistas lamentaram o mau exemplo. A Prefeitura de Macapá não respondeu se multará algum dos envolvidos. Carregar uma pessoa do lado de fora do carro é infração grave, assim como trafegar sem cinto de segurança. A direção perigosa diz respeito a conduzir colocando a segurança dos outros em risco. É no mínimo infração gravíssima e, em situações extremas, pode gerar detenção. A ação de Bolsonaro pode se encaixar em todos esses casos, dizem os especialistas.

Sucupira – Do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) sobre visita de Jair Bolsonaro ao Amapá quase 20 dias depois do início do apagão: “Veio apertar botão que não trouxe energia. Odorico Paraguaçu teria inveja desse dia”.

Derrota de Trump e fracasso eleitoral recomendam moderação – Integrantes do Palácio do Planalto e do núcleo militar do governo avaliam que a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos e o resultado das eleições serviram como recados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e indicam que ele terá de fazer adaptações para triunfar nas urnas em 2022. O principal aprendizado, avaliam fardados, é que a população passou a rejeitar extremos, e discursos inflamados em relação à pandemia podem levar a queda de popularidade. A análise de aliados de Bolsonaro é que a postura de Trump durante a crise sanitária foi decisiva para sua derrota. Por isso, Bolsonaro deveria abandonar ou ao menos moderar discursos como o de que o Brasil precisa deixar de ser “um país de maricas”, sob pena de perder apoios até mesmo dentro das Forças Armadas. No lugar de fazer acenos à base mais ideológica de seus eleitores, o principal objetivo do presidente deve ser, pregam auxiliares próximos, trabalhar para aprovar medidas no Congresso que movimentem a economia e façam o Brasil reagir à crise causada pela pandemia. A chave para a reeleição, afirmam assessores presidenciais e políticos experientes no Congresso, estará na economia.

Bolsonaro completa 15 dias sem reconhecer vitória de Biden – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) completa neste domingo (22) 15 dias sem reconhecer a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. O chefe do Executivo brasileiro é aliado de Donald Trump, atual chefe da Casa Branca e derrotado no pleito deste ano, e ainda não procurou o vencedor da disputa nem comentou a vitória do partido democrata.

Bolsonaro e Mourão reproduzem discurso racial da ditadura militar – O assassinato de João Alberto Freitas, um homem negro de 40 anos, por seguranças do Carrefour em Porto Alegre levou a mobilizações antirracistas pelo país e fez lembrar o caso George Floyd, nos EUA. Ao comentar a morte no supermercado, o vice-presidente da República Hamilton Mourão disse que não existe racismo no Brasil, e o presidente Jair Bolsonaro declarou haver “tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”. Os dois reproduzem um discurso vastamente usado no período da ditadura militar, segundo a professora de sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense) Flavia Rios, que pregava a existência de uma democracia racial. “Para o país [a ideia] era importante não só para a acomodação dos conflitos internos, mas, também para fazer essa divulgação de democracia racial para o mundo, por interesses econômicos”, diz Rios sobre o período da ditadura, de 1964 a 1985. Rios, que organizou com a também pesquisadora e professora Márcia Lima (USP), o recém-lançado “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano” (ed. Zahar), livro de Lélia Gonzalez, falou com a Folha a respeito do mito da democracia racial, da resistência negra na ditadura e das influências que ajudaram a moldar as organizações negras brasileiras.

Saúde deve assinar carta de intenção sobre cinco vacinas, mas compra não é garantida – O Ministério da Saúde informou neste domingo, 22, que deve assinar “cartas de intenção não-vinculantes” para a compra de vacinas de cinco desenvolvedores: Pfizer, Janssen, Bharat Biotech, Fundo Russo de Investimento Direto (responsável pela Sputinik V) e Moderna. O documento, porém, não formaliza a compra dos produtos. A Saúde afirma que ainda aguarda o fim dos estudos de fase 3, além do registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a precificação e a incorporação do produto ao SUS.

Parlamentares cobram ministério sobre estoque de exames de covid – Parlamentares reagiram neste domingo, 22, à informação revelada pelo Estadão de que a validade de 6,86 milhões de testes RT-PCR para detectar coronavírus comprados pelo Ministério da Saúde expira entre dezembro deste ano e janeiro de 2021. A comissão da Câmara dos Deputados que acompanha a resposta à pandemia irá realizar na quarta-feira, 25, audiência pública com técnicos da pasta, além de representantes de Estados e municípios sobre o caso. Há ainda movimento no Congresso Nacional para convocar o ministro Eduardo Pazuello a dar explicações. Como mostrou a reportagem, o governo tenta prorrogar o prazo de vencimento dos produtos para evitar que sejam descartados já a partir do mês que vem. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) terá de autorizar uma eventual renovação da validade dos exames. Segundo fontes do órgão, o ministério precisa provar que o teste segue eficaz e seguro após o prazo de validade, de oito meses. O produto, que deve ser armazenado a -20 graus, está em depósito do ministério em Guarulhos (SP).

Falta diversidade no surfe – A proximidade com um paredão de água de 22, 4 metros de altura é um pesadelo para 99% das pessoas, mas não para Maya Gabeira. A brasileira de 33 anos de idade bateu, em fevereiro deste ano, o recorde da maior onda surfada por alguém em 2020. “A pessoa que fala que não tem medo é louca. Tento extrair coisas positivas do medo, como um instinto certeiro”, conta à repórter Marcela Paes, por telefone. Vivendo atualmente na praia de Nazaré (Portugal) – um dos locais mais privilegiados do mundo para o surfe de ondas gigantes – a carioca enxerga na conquista mais que uma realização pessoal. Maya crê que o feito pode incentivar mulheres no meio do esporte, que ainda considera muito masculino mesmo com os recentes ganhos em igualdade e reconhecimento. “O surfe é claramente um esporte com falta de diversidade”, diz ela, que é filha do jornalista Fernando Gabeira.

Lei de Acesso não ‘pega’ nas prefeituras – A Lei de Acesso à Informação (LAI) completou nove anos em novembro, mas ainda “não pegou” na maioria das prefeituras paulistas. O Estadão fez pedidos – ou tentou fazer – em todas as 645 cidades de São Paulo, tanto pelo Sistema de Informação ao Cidadão (SIC), como por e-mail. Apenas 204 prefeituras (32%) responderam, total ou parcialmente, às perguntas feitas sobre a rede municipal de educação. Nas demais 441 (68%), os pedidos foram ignorados ou houve falhas de sistema, inviabilizando a consulta. A LAI surgiu como medida de transparência, para garantir o direito constitucional de acesso à informação de interesse público a qualquer pessoa. É uma forma de os cidadãos requisitarem, por exemplo, dados oficiais para poderem cobrar os gestores locais. Mas quem tenta conseguir informações básicas nos sites das prefeituras paulistas esbarra em uma série de dificuldades. A mais frequente é não achar onde fazer o pedido: foi o que aconteceu em 82 cidades de São Paulo. Mesmo quando há o ícone característico do SIC – a letra i em verde dentro de um balão de diálogo amarelo – não é certeza de que a busca por dados será atendida. Em 56 prefeituras, problemas técnicos nos sistemas de consulta impediram o acesso ao processo.

‘Frente deve comportar a centro-esquerda’ – O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), defendeu, em entrevista ao Estadão, a formação de uma frente em 2022 que inclua a centro-esquerda e, também nomes como o do ex-ministro Sérgio Moro, em oposição a “extremistas”. “Os extremistas querem impor situações ao País, tanto na extrema esquerda, quanto na extrema direita”, afirmou. Doria disse ainda que o movimento “não precisa ser liderado pelo PSDB” e que não será candidato à reeleição. “A eleição de Jair Bolsonaro foi um grande erro para o Brasil. Eu não mantenho meu compromisso diante de um equívoco tão grande. O Bolsonaro prometeu um país liberal, economia globalizada, combate à corrupção. E não fez.” Depois de se eleger à Prefeitura, em 2016, e ao governo do Estado, em 2018, com um discurso marcado pelo antipetismo, o governador João Doria (PSDB) se reposicionou e, agora, tem pregado um diálogo “contra os extremos”, por meio de uma frente que inclua a centro-esquerda. Potencial candidato ao Palácio do Planalto em 2022, Doria é, atualmente, desafeto político do presidente Jair Bolsonaro. “O comportamento das pessoas muda ao longo do tempo. Não há comportamento estanque, paralisado”, disse o governador em entrevista ao Estadão, na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes. Apesar do embate com o presidente, Doria afirma que ainda não é o momento de fazer oposição ao governo federal.

Resgate de um tesouro afro – A transferência de 523 peças de religiões de matriz africana para o Museu da República, no Rio, no fim de setembro, reacendeu o debate sobre a descriminalização e a repatriação da memória negra do Brasil. Imagens, instrumentos e indumentárias foram retirados dos donos sem autorização até décadas atrás, de modo coercitivo, e grande parte continua longe de suas origens. O acervo estava em caixas, em condições precárias e em meio a itens de investigações policiais. O caso mais recente é fruto de décadas de reivindicação, que ganhou força nos últimos anos com o nome de Liberte Nosso Sagrado. A coleção reúne os 126 itens restantes (parte foi perdida em um incêndio) do originalmente chamado acervo de Magia Negra, primeiro bem inscrito no livro de tombo arqueológico, etnográfico e paisagístico do Iphan, em 1938, que depois recebeu outros itens. Em comum, todos foram confiscados pela polícia de 1889 a 1945, quando a prática de candomblé e umbanda era crime. Uma das mais importantes lideranças no candomblé carioca, a ialorixá Mãe Meninazinha d’oxum, de 83 anos, costumava ouvir da avó (também mãe de santo) a necessidade de reaver as peças sequestradas por agentes públicos e, depois, armazenadas no Museu da Polícia. Pegaram o que era nosso sagrado e levaram para a polícia, como prova de um crime que não cometemos. Era chamado de crime porque era religião de negro”, lamenta.

BID vai investir US$ 1,2 bi no Brasil em segurança pública – O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) vai abrir uma linha de crédito de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,4 bilhões) para financiar programas de Segurança Pública e Cidadania no País. A primeira iniciativa a receber o dinheiro será no Espírito Santo, com o objetivo de adotar um modelo de controle de risco da reincidência criminal, mapeando o perfil de cada detento e, assim, diminuir em mais de 50% a chance de ele voltar a delinquir ao sair da prisão. Segundo Morgan Doyle, representante do BID no Brasil, este é o maior pacote da história do banco para essa área na América Latina em razão das dimensões continentais do Brasil e a importância do tema para o País. “Segurança Pública é um tema central na pauta do desenvolvimento do Brasil. Trata-se de problema complexo, que precisa de abordagem multidisciplinar em prol das melhores práticas e há tecnologia e método para isso.” O primeiro acordo alinhado pelo BID é o Moderniza, do Espírito Santo – a concessão do crédito já está aprovada. A liberação de recursos para outros projetos nos próximos cinco anos dos governos federal, estaduais e municipais não é imediata, pois se trata de uma linha de crédito condicional de investimento (CCLIP, na sigla em inglês). O dinheiro só pode sair para quem tiver condição de obter financiamento externo, como o Espírito Santo, ou por meio de bancos de desenvolvimento.

Ataques de deputados ao TSE serão apurados – A investigação sobre ataques à Justiça Eleitoral no último dia 15 foi transferida para a Procuradoria-geral da República (PGR) porque os supostos crimes não estariam restritos ao campo eleitoral e porque parlamentares bolsonaristas, detentores de foro privilegiado, foram listados como propagadores de campanhas de desinformação. O despacho foi enviado na sexta-feira passada pelo vice-procurador-geral eleitoral, Renato Brill de Góes, ao procurador-geral da República, Augusto Aras. Góes tomou a decisão com base em documentação apresentada pela Safernet Brasil, entidade que colabora com o Ministério Público Federal (MPF) para monitoramento de desinformação nas eleições. Após o vazamento de dados do setor de Recursos Humanos e do ataque que sobrecarregou a consulta a serviços do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), redes bolsonaristas passaram a propagar – sem apresentar evidências – a narrativa de que o resultado das urnas estaria em xeque. O Estadão apurou que quatro deputados são citados no despacho de Góes para justificar a transferência da investigação: Filipe Barros (PSL-PR), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF). Caso sejam processados, a lei exige que a iniciativa parta da PGR, perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Além disso, Góes afirmou que o possível vazamento de informações confidenciais não pode ser apurado na esfera eleitoral porque, em tese, configura crime cibernético contra serviço público federal – passível de apuração na esfera criminal. A Polícia Federal (PF) também tem investigação sobre o ataque hacker contra o TSE.

Kátia Abreu é internada em SP com covid-19 – A senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO) foi internada anteontem, no Hospital Sírio-libanês, em São Paulo, após ser diagnosticada com covid-19. De acordo com a assessoria de imprensa da parlamentar, os exames de imagem detectaram um avanço na inflamação dos pulmões e febre. A senadora informou que passa bem. Kátia Abreu afirmou que estava com o novo coronavírus na terça-feira passada. O diagnóstico deu positivo após quatro testes. Três pessoas da equipe da senadora contraíram a doença. Segundo a assessoria da parlamentar, o quadro é considerado normal para esse estágio da covid-19 e, em razão dos cuidados necessários, foi necessária a internação. Ainda não há previsão de alta.

Pressão contra as urnas eletrônicas – Os questionamentos do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores à lisura do sistema de votação brasileiro geraram preocupações quanto à possibilidade de haver uma judicialização da disputa ao Palácio do Planalto, em 2022. As pressões pela substituição da urna eletrônica pelo voto impresso –– algo já considerado inconstitucional –– têm sido vistas como sinal de que o presidente não aceitará uma eventual derrota nas urnas, daqui a dois anos. Especialistas ouvidos pelo Correio falaram sobre possíveis reflexos na estabilidade democrática e no esforço de recuperação econômica do país. Bolsonaro intensificou a pregação contra o modelo eleitoral depois de ver a maioria de seus candidatos derrotados no primeiro turno das eleições municipais e, também, no momento em que algumas indefinições no governo ameaçam atrapalhar seu projeto eleitoral. Como o atraso na criação de um programa permanente de distribuição de renda para substituir o auxílio emergencial, que termina em dezembro. Este é um dos componentes do pano de fundo das preocupações do presidente com 2022. A concessão do benefício foi decisiva para o aumento dos seus índices de aprovação. Bolsonaro já havia dito, no início do mês, que possui um estudo “bastante avançado” e que vai defender uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) cujo texto prevê a volta do voto impresso para as eleições gerais de 2022 –– segundo o presidente, essa mudança evitaria fraudes eleitorais. A PEC em questão, apresentada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF), teve a admissibilidade aprovada em dezembro do ano passado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e, agora, aguarda formação de uma comissão especial para ser analisada. Ela prevê que “na votação e apuração de eleições, plebiscitos a06-bra-2211e referendos, seja obrigatória a expedição de cédulas físicas, conferíveis pelo eleitor, a serem depositadas em urnas indevassáveis, para fins de auditoria”.

Manifestação pede volta de cédula de papel – Cerca de 50 apoiadores do presidente Jair Bolsonaro realizaram uma manifestação, na tarde de ontem, em frente ao Palácio do Planalto, em favor da volta do voto impresso. Os manifestantes levaram cartazes, uma cabine e um depósito para as cédulas, onde simularam a votação em papel. Algumas faixas também foram colocadas em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a fiscalização do Exército na votação. “Exército fiscalizando as urnas já em 2020”, cobrava um dos dizeres. O ato, organizado por Renan Sena da Silva –– que ficou conhecido por agredir os enfermeiros que faziam uma manifestação silenciosa, em maio, em homenagem aos colegas que morreram vítimas da covid-19 ––, também criticou a votação por meio de urnas eletrônicas e pregou que as eleições municipais fossem anuladas, segundo os manifestantes porque houve fraude. O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se manifestou, semana passada, afirmando que os votos não foram atingidos pelo ataque de hackers no dia em que aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. O filho número 03 do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), tem sido um dos defensores mais ativos da volta do voto impresso. Ainda ontem, pelas redes sociais, ele defendeu que se pressione o Congresso para que seja colocada, como pauta prioritária no Legislativo, a análise do retorno das cédulas eleitorais no país.

Bolsonaro: ataques vêm de países ineficientes – O presidente Jair Bolsonaro defendeu, ontem, a política para o meio ambiente do seu governo, no segundo dia de reunião do G20, grupo formado pelas maiores economias do planeta. Sem citar as queimadas e o desmatamento no Brasil –– pelos quais vem sendo criticado pela comunidade internacional ––, ele garantiu que o país é um dos que mais protegem as áreas verdes e que mantêm o compromisso de preservação da Amazônia, do Pantanal e de todos os demais biomas que existem no território brasileiro. Horas antes da reunião, Bolsonaro publicou um vídeo nas suas redes sociais dando a entender que se sente injustiçado pela comunidade internacional. A imagem, trecho da animação Inércia (2014), utilizado como meme na internet, mostra um gigante de pedra que luta para evitar a destruição de uma cidade por uma grande rocha que rola de uma montanha. Na referência, o presidente seria o gigante, segurando os problemas do país, simbolizados pela pedra. A criatura consegue evitar que a rocha esmague uma vila ao pé do morro, mas derruba uma das construções com o calcanhar. Os moradores da cidade, então, passam a atacá-lo. Indignado, o gigante solta a pedra, que passa por cima das construções da animação. O vídeo é uma analogia às críticas que Bolsonaro vem sofrendo pela sua política ambiental. Tanto é que, durante o discurso no G20, Bolsonaro afirmou que tem sofrido ataques “injustificados” de países “menos competitivos e sustentáveis” na área ambiental. Segundo o presidente, a produção agrícola no Brasil é realizada “utilizando apenas 8% das terras” e com menos de 3% de emissão de carbono. “Mais de 60% do território ainda se encontram preservados com vegetação nativa”, salientou.

Situação diversa – Ao avaliar o discurso de Bolsonaro no G20, Denis Rivas, presidente da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional), disse ser “lastimável porque desconsidera o descontrole sobre as queimadas, o desmatamento na Amazônia, Pantanal e Cerrado”. Ele observa que o mundo espera do presidente um plano confiável de combate ao desmatamento e às queimadas. Já Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), reforça que é importante lembrar que 44% das emissões de gases de efeito estufa estão associadas ao desmatamento de mata nativa. “Se o Brasil quiser contribuir para redução dos gases, tem que combater o desmatamento, principalmente na Amazônia. Não adianta mostrar agricultura brasileira como vitrine”, disse. Carlos Ritl, ambientalista brasileiro, pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade de Potsdam, na Alemanha, sustentou que “o desmatamento na Amazônia é quase o dobro de dois anos atrás e a violência contra povos indígenas explodiu”. Para Marcio Santilli, sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Bolsonaro “usa o estoque gigante de biodiversidade de que o Brasil ainda dispõe para justificar a sua destruição”. O coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) e MapBiomas, Tasso Azevedo, salienta que o Brasil, de fato, emite de 3% a 4% das emissões globais de gases de efeito estufa. No entanto, o país não chega a 3% do PIB Global. Sobre a área de preservação, explica que o Brasil possui 67% do seu território com vegetação nativa, mas isso que não quer dizer que essa vegetação esteja 100% preservada. “Pelo menos um terço da vegetação que existe hoje já foi desmatada pelo menos uma vez, e já foi degradada por fogo ou extração ilegal de madeira”, explicou.

Em panfletos, Crivella liga Paes ao PSOL e ‘kit gay’ – No último domingo da campanha eleitoral antes do segundo turno, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) voltou a apelar ontem à pauta de costumes na tentativa de reverter o cenário negativo apontado pelas pesquisas de intenção de voto. Em agenda na Praça Seca, na Zona Oeste, distribuiu panfletos afirmando que Eduardo Paes (DEM) é defensor da legalização do aborto, da liberação de drogas e do “kit gay” nas escolas municipais, além de associar o ex-prefeito ao PSOL. Paes rebateu as acusações feitas pelo adversário em uma agenda de campanha em SantaCruz, também na Zona Oeste. O ex-prefeito acusou o rival de espalhar mentiras porque está “em desespero”. Ele afirmou ainda que, “é mais fácil” os republicanos, partido de Crivella, integrarem sua base em caso de vitória do que o PSOL. – Crivella tenta colocar na minha conta aliança com partidos de esquerda. Vou dizer uma coisa para vocês, sem querer cantar a vitória antes do tempo: é mais fácil para o partido dele estar na minha base do que o PSOL — disse Paes, referindo-se ao fato de que, quando prefeito, os republicanos votaram várias matérias a favor de seu governo, enquanto o PSOL sempre esteve em oposição. O ex-prefeito também falou sobre o panfleto produzido pela campanha de Crivella: – Ele está tentando estabelecer padrões que nunca defendemos, como o aborto, a legalização de drogas e kit gay. O único kit que distribuímos era um uniforme escolar.

Alemanha reage a acusações de Bolsonaro – Além de rechaçar suspeitas levantadas pelo governo brasileiro sobre suposta compra de madeira ilegal da Amazônia por empresas europeias, o governo alemão defendeu o fechamento do mercado comum europeu à importação de produtos tropicais, relacionados a áreas de desmatamento. A porta-voz do ministério da Agricultura alemão, Britta Frischemeyer, disse ao Valor que os países da UE são obriga dos a cumprir regras específicas para evitar a entrada de madeira ilegal. “Além disso, e de acordo com nosso entendimento, é tarefa das autoridades brasileiras fazer cumprir a legislação nacional.”

‘Problema da madeira ilegal está aqui, não no exterior’ – São os brasileiros que compram madeira ilegal da Amazônia – o mercado interno consome mais de 90% da madeira extraída na região. As vendas à Europa são 10% ou menos do total e a madeira vendida segue acompanhada de nota fiscal com carimbo de autoridades brasileiras – documentação falsa, na maior parte das vezes. Madeireiros abrem caminho para grileiros ligados a grupos tradicionais da região e que bancam o crime. Jair Bolsonaro, ao ameaçar divulgar a lista de países europeus que compram madeira ilegal do Brasil, fez uma confissão pública de que o Brasil vende ilegalidade. O resultado desse imbróglio pode ser o fechamento do mercado europeu a produtos brasileiros. As ponderações são do biólogo e empresário do setor florestal Roberto Waack, especialista no ramo. Entre outras atividades, presidiu o conselho do Forest Stewardship Council (FSC), umas das mais importantes certificadoras globais.

error: