Resumo dos jornais de quarta (16/09/20) | Claudio Tognolli

Resumo dos jornais de quarta (16/09/20)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: Bolsonaro desiste do Renda Brasil e faz ameaça à equipe

CORREIO BRAZILIENSE: Bolsonaro ameaça time de Guedes com cartão vermelho

O ESTADO DE S.PAULO: Em frente inédita, ONGS e agro pedem ações para a Amazônia

Valor Econômico: Como a CPMF, Renda Brasil não acabou e vai ‘hibernar’

O GLOBO: Azevêdo desmente Trump sobre guerra comercial

Destaques de hoje

Popularidade em 1º lugar – Jair Bolsonaro disse ontem que desistiu de lançar o programa Renda Brasil, uma reformulação do Bolsa Família. Em vídeo nas redes sociais, o presidente ameaçou com “cartão vermelho” integrantes da equipe econômica. Na gravação, Bolsonaro ressaltou que foi surpreendido por manchetes, entre elas a da Folha, segundo a qual o governo planeja revisar cerca de 2 milhões de benefícios destinados a idosos e pessoas com deficiência. “Eu já disse há poucas semanas que jamais vou tirar dinheiro dos pobres para dar para os paupérrimos. [A] quem porventura vier propor a mim uma medida como essa eu só posso dar um cartão vermelho”, declarou. Classificou ainda de “devaneio” a ideia de congelar aposentadorias. Na segunda-feira (14), o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, defendeu desvinculá-las do salário mínimo. Ontem, Waldery Rodrigues foi ao presidente se explicar. “O cartão vermelho não foi para mim”, afirmou, por sua vez, Paulo Guedes (Economia).

Avermelhou – O presidente da República não gostou de saber, pela imprensa, que a equipe econômica estudava congelar aposentadorias e outros benefícios do INSS, para viabilizar o Renda Brasil, nome do programa com o qual Bolsonaro pretende substituir o Bolsa Família. “Quem porventura vier a propor para mim uma medida como essa, eu só posso dar um cartão vermelho para essa pessoa”, disse, em vídeo publicado em redes sociais. Irritado, decretou que não quer mais ouvir falar de Renda Brasil até 2022. Chamado às pressas para dar explicações, Guedes tratou de defender a própria pele. “O cartão vermelho não foi pra mim”, afirmou. Sobrou para o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, que passou a informação adiante antes de o chefe do Executivo ter conhecimento da proposta.

Aliança inédita – Frente formada por 230 organizações e empresas ligadas ao meio ambiente e ao agronegócio enviou ao governo documento, obtido pelo Estadão, com propostas para deter o desmate da Amazônia. Da pauta constam pedido de retomada e intensificação da fiscalização; suspensão de registros que incidem sobre florestas públicas; destinação de 10 milhões de hectares a proteção e uso sustentável; financiamentos com critérios socioambientais; transparência nas autorizações de supressão da vegetação e suspensão dos processos de regularização fundiária de imóveis com desmatamento até que as áreas estejam recuperadas. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura reúne entidades ambientais como WWF Brasil, WRI Brasil, TNC, Imazon e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Do lado empresarial, estão JBS, Klabin, Marfrig, Amaggi, Basf, Danone, Natura e Unilever.

Renda vai hibernar – O presidente Jair Bolsonaro colocou ontem o Renda Brasil, programa que estava sendo concebido para garantir uma marca social a seu governo, no lugar do Bolsa Família, em estado de “hibernação”. A determinação foi dada após a repercussão negativa provocada pelas notícias de que a equipe econômica estudava a desindexação dos benefícios previdenciários da variação do salário mínimo, como forma de financiar o programa de renda mínima. Bolsonaro convocou o ministro da Economia, Paulo Guedes, para uma reunião e na sequência publicou um vídeo nas redes sociais. De forma enfática, declarou: “Até 2022, o meu governo está proibido de falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final”. O presidente lembrou que já descartara a sugestão de “tirar dinheiro dos pobres para dar aos paupérrimos”, ameaçando dar “cartão vermelho” a quem lhe apresentasse tal medida. Estratégia semelhante foi usada quando surgiram os primeiros movimentos para a criação do Imposto sobre Transações, cuja referência é a antiga CPMF. O então secretário da Receita, Marcos Cintra, defendeu abertamente a criação do novo tributo poucas horas depois de ser aconselhado por Guedes, a pedido do presidente, a não falar mais sobre o assunto. Ambas as medidas dependem de um tempo que será determinado pela política para saírem da “hibernação”. O novo imposto será discutido durante a reforma tributária, enquanto os três “D” – desindexar, desvincular e desobrigar – fazem parte da PEC do Pacto Federativo. A desindexação representaria, quando e se aprovada, a conclusão do Plano Real.

Desmente Trump – O embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), nega que tenha tido qualquer conversa com o presidente americano, Donald Trump, na qual ele o tenha ameaçado. Ele se refere ao que foi publicado no livro “Rage”, de Bob Woodward, lançado na terça-feira, de que Azevêdo teria deixado a OMC porque Trump, num telefonema a ele, teria ameaçado tirar os Estados Unidos da Organização se ele permanecesse. – Essa é uma versão mentirosa. Não houve isso. É Trump sendo Trump, é o relato dele. Essa conversa por telefone nunca aconteceu. Nunca conversei com ele por telefone. Eu não tenho como provar o negativo, mas não há qualquer registro de telefonema de Trump para mim. Segundo Azevêdo, a única conversa que tiveram foi presencial e no dia 22 de janeiro, em Davos: – Uma conversa boa e com várias testemunhas do meu lado e do lado dele. Essa conversa foi tão boa que ele me chamou para uma reunião em Washington. Segundo Azevêdo, nessa conversa, Trump reclamou da OMC e defendeu a reforma da organização. O brasileiro disse que respondeu que essa também era a vontade dele, de reformar a OMC: – Ele me disse: ‘vamos fazer nós dois. Eu e você sentamos para conversar e ver que tipo de reforma a OMC precisa’. Não era ameaça, e eu estava falando há muito tempo sobre reforma. Segundo Azevêdo, ameaças de deixar a OMC Trump vinha fazendo publicamente desde a campanha, não era, portanto, novidade. Mas na conversa presencial que tiveram isso nem foi tratado. Ficaram de se falar em Washington, viagem que nunca aconteceu porque começou o processo de impeachment contra Trump, concentrando todas as atenções dele.

Guedes prioriza nova CPMF – Após a interdição do debate no governo sobre o Renda Brasil, o ministro Paulo Guedes (Economia) reprogramou as prioridades da pasta. Decidiu antecipar o cronograma de reforma tributária do governo, com medidas atreladas à criação de um imposto sobre transações aos moldes da extinta CPMF. A lista de ações deve incluir desoneração ampla da folha de pagamentos para trabalhadores com remuneração de um salário mínimo, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, corte de imposto para produtos da linha branca e ainda um benefício a igrejas. O ministro afirmou a interlocutores que chegou a hora de lançar a proposta, considerada polêmica e que sofre com restrições no governo e no Congresso. Até então, a medida estava em banho-maria sob a avaliação de que poderia tumultuar o andamento de outras propostas no Congresso. Para ele, agora foi aberta uma chance de emplacar o novo tributo.

Entraves para ampliar Bolsa Família – Sem perspectiva de lançamento de um programa social com a digital do atual governo, o Bolsa Família deverá ser reforçado para evitar uma queda brusca na popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) depois do fim do auxílio emergencial. Após o governo desistir do Renda Brasil, que substituiria o Bolsa Família, auxiliares de Bolsonaro querem aumentar a verba disponível para o programa de transferência de renda, ainda que mantendo o nome ligado à marca petista. Apesar do plano, as dificuldades orçamentárias do governo nessa área tendem a continuar: será necessário implementar medidas consideradas impopulares para abrir espaço em caixa e ampliar a cobertura para famílias carentes. O ministro Paulo Guedes (Economia), sem apoio do Palácio do Planalto, vem sendo frito e perdendo força no governo após ver suas ideias serem consideradas politicamente inviáveis.

Foro de Flávio ganha força no STF – O foro especial concedido ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que o próprio TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) reconheceu ser “inédito”, completa 80 dias sem previsão de julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal). Relator do processo, o ministro Gilmar Mendes sinalizou a interlocutores que levará a discussão para a Segunda Turma do Supremo, mas ainda não definiu uma data para a análise do caso. Enquanto isso, a defesa do senador trabalha para convencer integrantes da corte a rever a jurisprudência de restrição do foro, e o presidente Jair Bolsonaro mantém relação próxima e evita brigas com Gilmar. Reservadamente, uma ala do tribunal demonstra simpatia à tese que pode beneficiar Flávio e lembra que o tribunal até já tomou decisão parecida com o pedido do parlamentar.

Ato de Fux desagrada advogados e ministros – O primeiro ato do ministro Luiz Fux como presidente do Conselho Nacional de Justiça gerou reclamações de colegas da corte, de advogados e de entidades ligadas aos direitos humanos, que viram na medida um sinal à Lava Jato. O novo presidente do Supremo recomendou em norma do CNJ que condenados por lavagem de bens e crimes contra a administração pública (corrupção) não devam ser beneficiados com a revisão da prisão por causa da pandemia da Covid-19. A recomendação do conselho, publicada no início da pandemia no Brasil, incentiva magistrados a reverem prisões de pessoas de grupos de risco. Foi com base nela que o então presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), João Otávio de Noronha, decidiu transferir o policial aposentado Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), para prisão domiciliar.

Para Guedes, Bolsonaro prefere inaugurar obras – Embora o pagamento do auxílio emergencial, um ensaio para o Renda Brasil, tenha elevado a popularidade de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes tem dito que a preferência do presidente é inaugurar “obras do Tarcísio” [de Freitas], não pagar benefícios. Políticos preveem que a eleição deste ano fará ressurgir o debate sobre o Renda Brasil, já que será o teste do efeito do benefício no voto.

Doria elogia Moro por ações contra o PCC em SP – Retomando as agendas fora do Palácio dos Bandeirantes após se recuperar do coronavírus, o governador João Doria (PSDB-SP) esteve em São José do Rio Preto nesta terça (15) para inaugurar uma nova unidade da Divisão Especializada de Investigações Criminais. No evento, lembrou de um desafeto de Bolsonaro. Na entrevista local, Doria deu créditos a Sergio Moro pelas iniciativas contra o crime organizado. O tucano frisou que a transferência dos líderes do PCC para fora do Estado começou com o ex-juiz federal à frente do Ministério da Justiça.

Parece, mas não é – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adota uma estratégia de comunicação que preza pela forma, mais do que o conteúdo. “Ele parece estar falando sempre a verdade: Pode até errar, mas [parece que] não está mentindo para você”, avalia o cientista político Felipe Nunes. Professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e CEO da Quaest (consultoria que analisa popularidade de figuras públicas em redes sociais), Nunes entende que o presidente “se vale sempre de certa impulsividade que dá a ele uma chancela de pessoa verdadeira”. O presidente é a personalidade mais popular, segundo o índice de popularidade digital (IPD) monitorado pela Quaest. Para o pesquisador, Bolsonaro consegue se manter em alta lançando polêmicas frequentes na lógica dos “stories”, publicações nas redes sociais que duram 24 horas e depois saem do ar.

Sony vai fechar fábrica em Manaus – A Sony Brasil anunciou na terça-feira (15) que irá fechar em março de 2021 a fábrica de Manaus (AM), e que não vai mais vender TVs, câmeras digitais e produtos de áudio no Brasil em meados de 2021. Segundo nota divulgada pela empresa, as demais operações do grupo, que envolvem games, soluções profissionais, música e cinema, continuam. A Sony Brasil também vai continuar com o suporte ao consumidor e irá manter a garantia dos produtos comercializados. A empresa, que está há 48 anos no Brasil, afirma que a decisão se deve ao “recente ambiente do mercado” e visa fortalecer a estrutura e a sustentabilidade de seus negócios para ter uma resposta mais rápida às mudanças no ambiente externo. A planta, localizada na Zona Franca de Manaus, produzia aparelhos de som, som automotivo, reprodutores DVD e BluRay, TVs, câmeras digitais, filmadoras, sistemas de home theater, o console de Playstation 3 e projetores de vídeo.

Frente anti-Bolsonaro fracassa – As forças de centro-esquerda que fazem oposição a Jair Bolsonaro chegam nesta quarta (16), prazo final para a definição de candidaturas às prefeituras, sem conseguir emplacar a outrora sonhada frente ampla contra o presidente nas capitais. Até agora, apenas em Florianópolis as principais legendas se uniram em torno de um mesmo nome. Na capital de Santa Catarina, PSOL, PDT, PT, PCdoB, PSB e Rede vão lançar o engenheiro Elson Pereira (PSOL-SC) para a disputa. Em Belém haverá aliança, mas com menos partidos: PSOL, PDT e PT se uniram em torno de Edmilson Rodrigues (PSOL), que pode ter o apoio do PCdoB. Nas demais, não houve acordo. A maior expectativa, no começo do ano, girava em torno da possibilidade de PT e PSOL se unirem em São Paulo, com Fernando Haddad (PT-SP), e no Rio, com Marcelo Freixo (PSOL-RJ), aglutinando outras agremiações. Mas o plano inicial fez água. “O fato de as coligações estarem proibidas desestimulou as alianças, também na direita. Como os partidos têm que eleger seus vereadores em chapa própria, cada um quis estabelecer seu tamanho”, diz o governador do Maranhão, Flávio Dino, que tentou articular a união. “A nova lei dificultou”, diz o deputado federal José Guimarães (PT-CE), do grupo de eleições do PT. Dino acredita que os resultados do pleito podem induzir posteriormente fusões de partidos ou até mesmo mudanças que permitam a volta de coligações ou as federações partidárias. A ideia de uma frente de partidos de esquerda que excluísse o PT, por outro lado, também não vingou. A legenda fez aliança com o PCdoB em três cidades, com a Rede em cinco e também com o PSB, em Salvador (BA).

Russomanno tenta reunir voto bolsonarista em SP – Recluso durante o período de pré-campanha na capital, o deputado Celso Russomanno (SP) será confirmado hoje como candidato do Republicanos à Prefeitura de São Paulo. Sua candidatura se consolidou como a principal aposta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na corrida eleitoral deste ano. Nas últimas semanas, o parlamentar – derrotado nas eleições de 2012 e 2016 após liderar pesquisas de intenção de voto – foi incentivado por Bolsonaro a entrar na campanha e recebeu a sinalização de que receberia seu apoio. Ambos chegaram a se reunir em Brasília para tratar do assunto. O principal objetivo dos bolsonaristas é confrontar, na capital paulista, o governador João Doria (PSDB), potencial candidato ao Palácio do Planalto na disputa de 2022 e do mesmo partido do prefeito Bruno Covas, candidato à reeleição. O presidente tem apenas dois “aliados” que o defendem abertamente na eleição em São Paulo – o presidente do PRTB, Levy Fidelix, e o ex-presidente da OAB-SP Marcos da Costa (PTB). Nenhum deles, porém, tem densidade eleitoral. Bolsonaro vinha afirmando que não faria campanha para nenhum candidato no primeiro turno das eleições municipais, mas buscou alternativas pontuais para não ficar isolado. No Rio, base eleitoral da família do presidente, o clã decidiu apoiar o prefeito Marcelo Crivella, do Republicanos, mesmo partido de Russomanno. O deputado fez uma investida por alianças na reta final do prazo para as convenções partidárias – que se encerram hoje. Com respaldo do Planalto, Russomanno buscou o apoio do PSL e convidou a deputada Joice Hasselmann (PSL) para ser vice em sua chapa, o que implicaria a desistência do PSL de uma candidatura própria. Essa articulação passou pela ala “bolsonarista” da cúpula do PSL nacional, que tenta se reaproximar do presidente. A articulação, porém, não prosperou.

Maia restringe auxílio-mudança de deputados – O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), restringiu o pagamento de um benefício que ajuda a engordar o contracheque de deputados. A partir de agora, parlamentares reeleitos ou que já morem no Distrito Federal não poderão mais receber o auxílio-mudança, que equivale a um salário a mais – R$ 33,7 mil – no início e no fim do mandato. Os demais, no entanto, continuarão a receber. O dinheiro “extra” serve para custear despesas referentes à mudança do parlamentar para Brasília. É pago duas vezes: no início e no fim do mandato. O “penduricalho” está previsto em um decreto de 2014 e também existe no Senado. O texto, no entanto, não trata de qualquer restrição para deputados e senadores reeleitos recebem duas vezes – ao deixar o antigo mandato e ao assumir o novo. Com isso, parlamentares que continuavam em Brasília poderiam levar, cada um, R$ 67.526, além do salário. Também não havia restrição a quem já é do Distrito Federal, e não precisa mudar de cidade para exercer o mandato em Brasília. O Estadão mostrou no fim de 2018 que Câmara e Senado gastaram R$ 20 milhões com auxílio-mudança pagos a 298 deputados e senadores reeleitos em outubro daquele ano. Após a reportagem, ao menos quatro parlamentares abriram mão do benefício.

Toffoli arquiva inquéritos de acordo de Cabral – O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), arquivou um total de 12 inquéritos abertos com base na delação premiada do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, fechado com a Polícia Federal. As decisões foram tomadas antes de o ministro deixar o comando do STF, na semana passada. Segundo o Estadão apurou, Toffoli atendeu a pedidos feitos pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. Interlocutores de Toffoli apontaram que o pedido de arquivamento realizado pelo titular da ação penal – o Ministério Público Federal – deve ser acolhido sem discussão de mérito. No início do ano, o relator da Operação Lava Jato no STF, ministro Edson Fachin, validou o acordo de colaboração, que foi homologado pelo Supremo por envolver autoridades com prerrogativa de foro privilegiado, como ministros do Superior Tribunal de Justiça e políticos. Após autorizar a abertura dos inquéritos, Fachin encaminhou a Toffoli os processos para que o então presidente do STF analisasse se seria o caso de redistribuí-los para outro integrante da Corte. Toffoli pediu um parecer de Aras, que opinou então pelo arquivamento das investigações. O acordo de Cabral com a PF foi contestado pela PGR desde o início. Segundo a Procuradoria, Cabral não apresentou fatos novos. Além disso, a cúpula da PGR apontou que o dinheiro que o ex-governador se comprometeu a devolver está bloqueado pela Justiça.

Luz amarela no Congresso – A crise política entre o presidente da República e o ministro da Economia, Paulo Guedes, acendeu a luz amarela das reformas econômicas no Congresso. Primeiro porque o tom reformista da Câmara e do Senado coincide com o da equipe da pasta, que se desgasta com Jair Bolsonaro à medida que a crise provocada pela pandemia de coronavírus se agrava. Depois, porque para certas pautas como a reforma tributária caminharem, é preciso que o chefe do Executivo esteja “engajado”, como definiu o líder do Novo, Paulo Ganime (RJ). Ganime lembra que a pauta liberal foi um dos motivos de Bolsonaro se eleger. “A gente quer muito que o governo mantenha a linha que o elegeu, que é liberal. O governo perdeu nomes importantes, Paulo Uebel e Salim Mattar, e esperamos não perder o Paulo Guedes e o Waldery”, afirma. “Se o presidente não está engajado com as pautas econômicas, de reforma, é difícil acreditar que a equipe econômica vai ter força para implantar”, completa. O 1º vice-líder do Cidadania no Senado, senador Alessandro Vieira (SE) concorda. “Os projetos que dependem da iniciativa do Executivo não avançam enquanto o presidente não definir uma posição política e econômica. Mas, uma revisão do Bolsa Família pode tramitar tranquilamente”, acredita. Líder da minoria no Congresso, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) vê o presidente em uma situação complicada. “A solução dos assessores tira dos aposentados. Bolsonaro sabe que não tem condições políticas de fazer isso. Tem de aumentar o imposto dos bilionários, e isso eles não querem fazer. Quem sofre é o povo”, criticou.

Voto impresso é inconstitucional – O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que o voto impresso da urna eletrônica, nos períodos eleitorais, não encontra respaldo na Constituição. Por maioria, os ministros suspenderam trecho da minirreforma eleitoral de 2015, que permitia a emissão de um extrato com a escolha de uma quantidade definida de eleitores, para fins de verificação sobre a lisura do resultado. A decisão deu-se por meio de sessão virtual da Corte. O Supremo referendou uma liminar, concedida em junho de 2018, contra o voto impresso. O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, entendeu pela impossibilidade de colocar em prática a norma aprovada pelo Congresso. “O comando normativo deve vir acompanhado de normas de organização e procedimento que permitam sua colocação em prática. No caso, o legislador impôs uma modificação substancial na votação — impressão do registro do voto —, a ser implementada de chofre, sem fornecer os meios + normas de organização e procedimento — para execução da medida”, disse o magistrado. A impressão do voto é apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro, que, nas últimas eleições, chegou a acusar o sistema de votação eletrônica de fraudulento — chegou a afirmar que não ganhou no primeiro turno somente por causa das ilegalidades, porém, jamais provou isso. O ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que participou da votação no plenário virtual do Supremo, destacou que até hoje não houve nenhuma comprovação de irregularidade nas eleições brasileiras, e que não se justifica a adoção do voto impresso.

Outro Weintraub vai para o exterior – O assessor especial da Presidência Arthur Weintraub anunciou em vídeo gravado ao lado do presidente Jair Bolsonaro, ontem, que assumirá cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington. A mudança ocorre três meses após seu irmão, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, ter sido indicado pelo governo para um posto na direção no Banco Mundial, também na capital americana. O Palácio do Planalto não oficializou a saída de Arthur e também não foi divulgado o cargo que ocupará na organização. Ele deve ser nomeado secretário de Acesso a Direitos e Equidade, que atua para a promoção de inclusão e equidade nos países da região. Os irmãos se aproximaram de Bolsonaro antes da campanha de 2018. No governo, integraram a ala ideológica, que vem perdendo espaço desde que o presidente, pressionado por pedidos de impeachment, adotou tom menos beligerante. Eram apontados como dois dos principais responsáveis pela radicalização do discurso. Após Arthur dizer que o presidente poderá seguir contando com ele e o irmão, Bolsonaro respondeu: “Quando quiser retornar, as portas estão abertas”.

O medo de Bolsonaro é levar um cartão vermelho com o fim do auxílio – O auxílio emergencial vai acabar, no final do ano, e restará aos brasileiros o antigo Bolsa Família, ou seja, valor menor em relação ao benefício pago hoje. Essa redução aos valores do programa é vista, no Planalto, como um risco à popularidade presidencial e sem a marca do governo de plantão. É isso que tem tirado o sono e o humor de Jair Bolsonaro, porque não há recursos para a criação de um novo programa social, o Renda Brasil, com valor próximo ao auxílio emergencial. A saída para fazer do jeito que o presidente quer significaria extinguir programas ou, pior ainda, aumentar imposto, criar novas contribuições, congelar vencimentos ou coisa que o valha. Até aqui, todas as propostas discutidas foram descartadas porque trariam mais desgaste político. Bolsonaro não quer nada que possa baixar a sua recuperação de popularidade. Porém, alguma briga terá de comprar para conseguir crescer o orçamento para o programa. Em tempo: na avaliação de muitos aliados, o presidente, ao desistir das mudanças, abriu um flanco para a oposição. Afinal, mostra que o governo está abandonando projetos e preocupado apenas em dividendos eleitorais. Não quer brigar com os atuais servidores públicos, não quer terminar com benefícios que atingem alguns grupos. Até as privatizações são vistas com certa desconfiança, tiram espaço do poder público que os militares consideram estratégicos e, de quebra, reduzem os cargos para acomodação da nova base ligada ao presidente. Nesse ritmo, vai passar por este mandato apenas de olho no segundo.

Onda pela renovação ainda em alta, indica pesquisa – A dois meses do primeiro turno das eleições, partidos tentam se balizar em um cenário de incertezas. Pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a escola de formação do RenovaBR, indica um caminho: oito em cada dez brasileiros ainda sentem a necessidade de renovação política no País. Para eles, as mudanças têm de surgir a partir da participação do povo no processo. “Mostra o descontentamento com a política, mas, ao mesmo tempo, aponta para a esperança de que as coisas se resolvam por meio dela”, diz Eduardo Mufarej. Segundo Mufarej, fundador do RenovaBR, a pesquisa indica que “a rejeição não é à democracia em si, mas aos atuais políticos”. A escola do movimento contou 1.820 alunos, de diferentes regiões e colorações políticas, em cursos de preparação para a disputa. “Formar cada vez mais cidadãos preparados para assumir cargos eletivos de forma a entender e representar melhor os eleitores”, diz o empresário sobre os cursos do RenovaBR. A pesquisa foi realizada com 2,5 mil brasileiros em 72 municípios entre os meses de julho e agosto. Segundo a pesquisa, 20% dos entrevistados disseram conhecer o RenovaBR, fundado em 2017. O movimento era conhecido apenas por 0,2% da população em 2018.

Conta outra, PSDB – Tucanos andam dizendo que a candidatura de Celso Russomanno tem por objetivo apenas bater no PSDB de Bruno Covas e de João Doria. Não é verdade. Primeiro porque o candidato do Republicanos aparece bem posicionado em todas as pesquisas. Depois, porque o real objetivo do Republicanos, com apoio do Planalto, é ganhar a Prefeitura e instalar um QG para Jair Bolsonaro e para a direita brasileira na capital e comandar o terceiro maior orçamento do País.

Impeachment de Moisés chega à reta final em SC – O processo de impeachment contra o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), avançou ontem na Assembleia Legislativa, com a aprovação na Comissão Especial do parecer do deputado Luis Fernando Vampiro (MDB) pela perda de mandato dele e da vice-governadora Daniela Reinehr (sem partido). A ação coincidiu com a apresentação pelo Ministério Público Federal de uma denúncia contra o presidente do legislativo catarinense, Júlio Garcia (PSD), um dos alvos da Operação Alcatraz e que herdará o governo do Estado, caso a cassação comandada por ele se consume. Garcia é investigado por lavagem de dinheiro. Moisés é alvo de julgamento de crime de responsabilidade por ter autorizado equiparação salarial de carreira no Ministério Público sem autorização legislativa. O processo contra o governador e a vice será lido hoje, com votação prevista para amanhã em plenário. Para se salvar, Moisés precisa que ao menos 14 dos 40 deputados não votem pelo seu impedimento – podem ser votos contrários, faltas ou abstenções.

Pleno do Supremo pode mudar – Três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvidos pelo GLOBO em caráter reservado afirmaram discordar da decisão do decano da Corte, Celso de Mello, que vetou que o presidente Jair Bolsonaro possa depor por escrito à Polícia Federal (PF) na investigação sobre as acusações do ex-ministro da Justiça Sergio Moro de que Bolsonaro interferiu indevidamente na PF. Um ministro considerou a decisão de Celso de Mello “desnecessária”. Outros dois integrantes, de alas diferentes do tribunal, concordaram. Para eles, o episódio só serviu para colocar mais lenha na fogueira dos atritos entre o Supremo e o Palácio do Planalto. A Advocacia-Geral da União (AGU) ainda não decidiu se vai recorrer ou não da decisão de Celso de Mello. O decano deu à Polícia Federal a prerrogativa de agendar a data e o local do depoimento, o que ainda não ocorreu. Esse grupo de ministros acredita que a maioria do STF concorda com a decisão tomada pelo ministro Luís Roberto Barroso em 2018, quando concedeu ao então presidente Michel Temer o direito de prestar depoimento por escrito no inquérito aberto a partir da delação de executivos da JBS. O Código de Processo Penal prevê a possibilidade de depoimento por escrito aos chefes dos Três Poderes da República que são testemunhas ou vítimas. Barroso aplicou a regra a Temer por analogia, enquanto Celso de Mello entendeu que o fato de ele ser investigado tiraria tal prerrogativa.

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