Resumo dos jornais de domingo (24/01/21) | Claudio Tognolli

Resumo dos jornais de domingo (24/01/21)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: Maioria vê pandemia fora de controle; cresce apoio à vacina

CORREIO BRAZILIENSE: PGR pede ao Supremo inquérito contra Pazuello

O ESTADO DE S.PAULO: Estados e municípios burlam a lei e dão reajuste a servidores

O GLOBO: Para cientistas, pobres devem ter prioridade na vacinação

Resumo de manchetes

A manchete da Folha revela que 62% dos pesquisados pelo Datafolha consideram que a pandemia está fora de controle. A parcela de brasileiros que pretendem se vacinar cresceu seis pontos percentuais. Agora são 79% contra 73% em dezembro de 2020. Já, a rejeição às vacinas caiu, saindo de 22% para 17%. O Correio informa em sua manchete que o procurador-geral da República, Augusto Aras, acatou pedido de parlamentares e solicitou ao Supremo Tribunal Federal que abra uma investigação para apurar a atuação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no colapso dos hospitais de Manaus. Segundo denúncias, Pazuello foi avisado com antecedência sobre os riscos de calamidade, mas, em vez de agir para conter o pior, recomendou o tratamento precoce da covid-19 com medicamentos sem comprovação científica, como a cloroquina. O Estadão em sua manchete denuncia que estados e municípios, apesar da proibição prevista na Lei Complementar 173, estão dando reajustes aos servidores. Governadores e prefeitos usam brechas na lei para conceder os aumentos salariais. O Globo revela em manchete que amplas pesquisas sobre a Covid-19 no Brasil comprovam que a pandemia reproduz a desigualdade social do país e mais letal entre os brasileiros mais pobres, majoritariamente negros. Por isso, cientistas estão defendendo que renda e raça sejam critérios para determinar prioridade na fila de vacinação estabelecida pelo Ministério da Saúde. Segundo levantamento de pesquisadores da UFRJ, 79% dos negros internados em UTIs em decorrência da coronavírus morreram, contra 56% de brancos.

Notícia do dia – O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu que o Supremo Tribunal Federal (STF) abra inquérito para apurar a conduta do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, diante do colapso da saúde em Manaus. Na semana passada, a cidade registrou escassez de oxigênio, com pessoas morrendo asfixiadas, e, atualmente, enfrenta dificuldades para alocar pacientes em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). No pedido enviado ao Supremo, Aras quer que o ministro Pazuello seja ouvido e que os autos sejam encaminhados à Polícia Federal, que deve investigar o caso. A decisão do procurador atende denúncia enviada à Procuradoria-Geral da República por partidos políticos. As siglas acusam o ministro da Saúde e seus auxiliares de se omitirem frente à crise na capital amazonense.

Notícias de primeira página

Efeitos graves são relatados por adeptos de ‘kid Covid’ – Quando Edson José da Rocha, 51, recebeu o diagnóstico de Covid-19, veio junto a indicação do chamado “tratamento precoce”, com drogas como azitromicina e ivermectina. Quando foi internado com a doença, foi a vez da cloroquina e, logo em seguida, passou a sentir uma sensação estranha no peito. Logo depois vieram a piora e, menos de um mês após a entrada no hospital, a morte. Quem conta a história de Edson é sua irmã, Ivone Meneguella, médica intensivista de hospitais em Campinas (SP). Segundo ela, uma arritmia cardíaca e a piora do quadro clínico ficaram claras após o terceiro comprimido de cloroquina que o irmão tomou, apesar do apelo que ela tinha feito aos seus médicos de não dar a droga por causa do histórico de arritmias na família. Após o início da medicação, Edson também desenvolveu grande cansaço, dores na barriga, diarreia e desidratação. “Eu sinto o meu coração bater na boca”, dizia Edson, segundo conta Ivone. O policial penal morreu em 26 de agosto do ano passado. Os medicamentos do “tratamento precoce” da Covid-19 estimulado pelo Ministério da Saúde e pelo presidente Jair Bolsonaro podem causar arritmia cardíaca, sangramentos e inflamação no fígado, segundo especialistas. O caso de Edson não foi o único que Ivone acompanhou. Trabalhando no enfrentamento à Covid-19, a intensivista conta que já viu um caso de encefalite (com presença de confusão mental) e outro de hepatite medicamentosa por causa do uso de ivermectina. Ainda que reações graves a remédios como a cloroquina, ivermectina e azitromicina sejam raras, o médico Christian Morinaga, gerente-médico do pronto-atendimento do Hospital Sírio-Libanês, afirma que desde março de 2020 houve aumento no número de pacientes que procuraram o hospital com sintomas leves e graves após tomarem medicamentos sem orientação médica. A principal causa para a automedicação é o medo da Covid-19. “Chegamos a atender pacientes com arritmia e sangramento, provavelmente causado pelo uso de medicamento sem prescrição médica”, afirma o médico. Raquel Stucchi, pesquisadora da Unicamp e membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), também afirma estar ouvindo relatos sobre hepatites medicamentosas relacionadas ao “tratamento precoce”. Em nota conjunta, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (AMB) afirmam que as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no “tratamento precoce” para a Covid-19 até o presente momento.

Esquerda faz atos pelo impeachment em várias capitais – Manifestantes pediram neste sábado (23) o impeachment do presidente Jair Bolsonaro em carreatas em capitais pelo país. O ato foi impulsionado por partidos de esquerda. Com a presença de representantes da oposição ao governo, como PT e PC do B, a carreata em Brasília ocupou uma área superior a 10 quilômetros da capital federal, inclusive faixas da Esplanada dos Ministérios. Também houve protesto em favor do impeachment de Bolsonaro em outras cidades pelo país, como Rio de Janeiro e Recife. Em Belo Horizonte, a carreata teve concentração no entorno do Estádio Mineirão. Em Salvador, a carreta ocorreu pela manhã com ponto de saída do Vale da Canela. Os organizadores estimam a participação de 500 carros. Em São Paulo a carreata foi da zona sul ao centro da cidade. O tempo não ajudou. Chovia e parava durante todo o dia e houve problemas com carros de som. Mas, com atraso, o comboio saiu. Por falta de coordenação, carros seguiram em várias direções. A organização conta os carros a centenas. Nas redes sociais, filhos de Bolsonaro ironizaram a mobilização deste fim de semana. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) relacionou ao ex-ministro petista José Dirceu a iniciativa do MBL de convocar o ato. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) publicou uma foto do protesto e disse que “deu ruim”.

Bolsonaro evita Fórum Econômico Mundial de novo – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não deve participar pelo segundo ano seguido do Fórum Econômico Mundial. O evento anual reúne alguns dos principais líderes internacionais, além de grandes empresários e entidades. Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, haverá um encontro virtual do fórum a partir deste domingo (24). As sessões se estenderão até sexta-feira (29). A Covid-19 já fez com que a reunião presencial deste ano fosse transferida de Davos, na Suíça, para Singapura, com data prevista para maio. Bolsonaro compareceu a Davos em 2019, menos de um mês depois de assumir a Presidência da República. Na ocasião, ele fez um discurso de apenas oito minutos, acrescido de uma rápida sessão de perguntas do presidente do fórum, Klaus Schwab. Foi a estreia do mandatário na arena internacional e ele defendeu que o Brasil liderasse pelo exemplo. “Hoje em dia um precisa do outro. O Brasil precisa de vocês, e vocês com certeza precisam do nosso querido Brasil”, afirmou. A plateia no local reagiu sem entusiasmo diante da curta duração e o conteúdo das falas de Bolsonaro, consideradas pouco objetivas. A passagem do presidente brasileiro pelos corredores de Davos naquele ano ganhou destaque no documentário “O Fórum”. Dirigido pelo alemão Marcus Vetter, o filme mostrou um Bolsonaro que estava um tanto sem jeito em um salão repleto de políticos de alto escalão, além de empresários e chefes de organizações civis. O documentário também revela uma constrangedora interação de Bolsonaro com Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e hoje um influente ativista ambiental.

Sob Paulo Guedes, Camex vira refém do governo e mantém política protecionista – Motor da abertura prometida pelo ministro Paulo Guedes (Economia), a Camex (Câmara de Comércio Exterior) conduz uma política protecionista. Na América Latina, só a Venezuela supera o Brasil em tarifas médias de importação. O Brasil tem tarifas mais elevadas do que países como China, Cuba, Argentina e Bolívia. De acordo com o Banco Mundial, 12 países são mais fechados do que o Brasil. São eles: Chade, Camarões, Etiópia, Nepal, Bangladesh, Paquistão, Benin, Venezuela, Togo, Senegal, Quênia e Congo. Os dados mais recentes da OMC (Organização Mundial do Comércio) mostram que a média da tarifa de importação do Brasil foi de 10,2%, em 2019, contra 13,2% da Venezuela. O país vizinho liderado pelo ditador Nicolás Maduro é usado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e Guedes como exemplo de tudo o que dá errado. A tarifa média de Cuba, regime comunista, foi de 7,2%, em 2019, e a da China, 3,5%. “Será que alguém vai dizer que os irmãos Castro [Fidel Castro comandou Cuba por décadas e foi sucedido por Raúl], o kirchnerismo [Nestor e Cristina Kirchner, ambos peronistas, presidiram a Argentina] e o bolivarianismo [doutrina política dos presidentes da Venezuela] são regimes ultraliberais e entreguistas, ou que nossas empresas enfrentam agruras maiores que as enfrentadas por empresas argentinas ou bolivarianas?”, questionou Roberto Ellery, economista da UnB (Universidade de Brasília), em artigo publicado recentemente sobre o assunto.

Gilmar suspende julgamento no Rio sobre foro de Flávio Bolsonaro – O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu neste sábado (23) julgamento do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) para decidir a quem compete analisar as acusações contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o filho do presidente Jair Bolsonaro, no esquema das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do estado. O TJ-RJ havia marcado para segunda-feira (25) a sessão que analisaria se o caso fica com um juiz de primeira instância ou sob a responsabilidade do Órgão Especial do tribunal fluminense. Em sua decisão, Gilmar afirmou que o TJ-RJ deve se abster de discutir a controvérsia até que o Supremo julgue uma ação em que a matéria também é analisada.

Centrão já apresenta a fatura ao Planalto – A campanha eleitoral para as Presidências da Câmara e do Senado aproxima-se da reta final, e o presidente Jair Bolsonaro tem mantido diálogos frequentes com congressistas em busca de mais votos para os dois candidatos apoiados por ele: o deputado Arthur Lira (PP-AL) e o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Mesmo tendo dito, meses atrás, que não tentaria interferir nas eleições do Legislativo, o mandatário tem estimulado partidos e frentes parlamentares a seguirem a orientação do governo. Em contrapartida, ele está sendo sondado sobre a possibilidade de oferecer cargos na administração federal e recursos. Os cofres, por sinal, estão escancarados. Em dezembro de 2020, já com o Planalto envolvido nas eleições, o Tesouro liberou R$ 550 milhões em emendas parlamentares. Com isso, o total de emendas pagas passou de R$ 4,2 bilhões, em 2019, para R$ 6,7 bilhões no ano passado. As negociações também envolvem cargos em ministérios e órgãos de segundo e terceiro escalões. Algumas das pastas mais propensas a acomodar as indicações de parlamentares são a do Desenvolvimento Regional, da Economia e da Infraestrutura. Há duas semanas, a exoneração do superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Sergipe, foi um sinal das mudanças que podem ocorrer. Victor Alexandre Sande Santos, que assumiu o posto em julho de 2020 por indicação do deputado Fabio Reis (MDB-SE), foi retirado do cargo — o emedebista deve apoiar Baleia Rossi (MDB-SP) para a disputa da Câmara.

Últimos passos de Maia – À frente da Câmara dos Deputados desde 2016, com três mandatos consecutivos, Rodrigo Maia (DEM-RJ) tenta, agora, eleger seu sucessor, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), na disputa pelo comando da Casa. Faltando uma semana para o fim da sua gestão, o democrata tem apostado todas as suas fichas em rivalizar com o presidente Jair Bolsonaro para manter um elo com as diversas bancadas do Congresso. Nos últimos dias, Maia usou a gestão do Ministério da Saúde em relação aos planos de vacinação contra a covid-19 e a crise em Manaus para potencializar as críticas ao Palácio do Planalto. Ele também se reuniu com representantes da Embaixada da China no Brasil para tratar da entrega de insumos para a produção da CoronaVac pelo instituto Butantan. Segundo aliados, a subida de tom contra o Palácio do Planalto é uma forma de Maia se manter no discurso político. Além disso, ele poderia faturar politicamente com o desgate do governo brasileiro com a China. Recentemente, Maia esteve ao lado do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), responsável pelas negociações da CoronaVac, quando afirmou que a discussão do impeachment de Bolsonaro será “inevitável” no futuro. Contando com os votos da oposição para eleger Baleia Rossi, a aceitabilidade de um processo do tipo é uma demanda recorrente das siglas de esquerda. “Eu acho que esse tema de forma inevitável será discutido pela Casa (Câmara) no futuro”, diz Maia. O democrata, no entanto, ressaltou que tal pedido vai depender do próximo presidente da Câmara. Presente no evento, Rossi evitou falar se pautaria ou não um impeachment de Bolsonaro caso vença a disputa.

Senador prega a pacificação – Senador de primeiro mandato, desde o início de 2019, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), de 44 anos, é um dos candidatos à Presidência da Casa legislativa. Apoiado pelo atual comandante do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP), o parlamentar diz ter aceitado o desafio após ser apontado, por colegas, como nome ideal para suceder o amapaense. Com amplo leque de apoio, que vai do PT ao presidente Jair Bolsonaro, ele crê que pode, por meio do diálogo, impulsionar a construção de políticas de desenvolvimento social e crescimento econômico. “Todos querem geração de emprego, a vacina o mais rapidamente possível e o crescimento da economia com os melhores índices”, afirma, referindo-se à diversidade que marca o cordão em torno do nome dele. Nesta entrevista, o senador comenta as articulações para garantir os 41 dos 81 votos necessários para se eleger e apresenta as metas da gestão, caso seja eleito. Pacheco é adepto do que chama de “mineiridade”. Conciliador, quer pacificar o Senado e unir a Casa em prol de pautas positivas para o país. Embora reconheça o prejuízo causado por manifestações antidemocráticas contra Legislativo e o Judiciário, confia na defesa do regime republicano. “Não se conseguirá agradar a todos, e há bolhas de irracionalidade que não se consegue convencer na base do diálogo e da demonstração daquilo que é o real”, admite. “A representação popular se dá por Câmara e Senado”, destaca. O senador diz que Bolsonaro tem “erros e acertos”, mas prega a soma de esforços pela superação dos problemas impostos, sobretudo, pela pandemia. Quando questionado sobre a postura ante eventual processo de impeachment do presidente, ele adota cautela. “Como senador, e buscando ser presidente do Senado, não me permito falar por hipótese sobre um assunto como esse.”

Fiocruz deve ter insumo de vacina só em 8 de fevereiro – A Fiocruz prevê receber a matéria-prima para a produção da vacina de Oxford no Brasil “por volta do dia 8 de fevereiro”, segundo a presidente da fundação, Nísia Trindade Lima. A previsão inicial era de que os insumos, vindos da China, chegassem ainda este mês. Com isso, a Fiocruz já negocia a importação de um 2º lote do imunizante, enquanto a fabricação nacional não começa. Anteontem, chegaram dois milhões de doses compradas da Índia, já encaminhadas aos Estados. A restrição na quantidade de vacinas desafia a campanha de imunização no Brasil, que pode parar diante da demora na chegada dos insumos. Nísia, no entanto, afirmou que não há atraso no contrato firmado com a AstraZeneca. Também negou que a atuação da equipe diplomática do governo federal tenha prejudicado a entrega. Ao longo da semana, a gestão Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foram alvo de críticas pela dificuldade em negociar com os países asiáticos a liberação dos produtos. No caso da Índia, a busca das vacinas atrasou uma semana. Em relação à China, especialistas afirmam que declarações de Araújo e do presidente – como colocar em dúvida a eficácia da Coronavac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan – causam mal-estar. O governo vem isolando Araújo das negociações com Pequim. A nova compra no exterior, porém, ainda está em negociação. Não há data nem quantidade definidas. Na semana passada, a farmacêutica AstraZeneca, parceira da Universidade de Oxford no desenvolvimento do imunizante, informou à União Europeia que entregaria menos remessas do que o previsto inicialmente, por causa de problemas de produção.

Internet é ficção em 76% das propriedades – O produtor rural Albeni José Meireles, de 49 anos, tomou a decisão de dar seu primeiro passo rumo à automatização da lavoura de 44 hectares, na zona rural de Luziânia, cidade goiana a 57 quilômetros de Brasília, onde seus pais fincaram raízes. Após dois anos fazendo economias e negociando com a empresa local de energia, montou um pivô de irrigação. A tecnologia não existe nas outras pequenas propriedades do entorno. Ele estava convicto de que o pioneirismo se converteria em segurança nas estiagens e ganhos. Sem a infraestrutura pública para ligar o equipamento à rede de energia, o equipamento de 190 metros de comprimento não passa hoje de um prejuízo de R$ 200 mil. Da janela de casa, Meireles contempla o paradoxo do pivô, seco, estacionado sobre o milho que sofre com a falta de chuva. “Abri mão de parte da minha renda para montar e até agora nunca pude usar”, desabafa. “Queria ter mais rentabilidade e um futuro melhor para a minha família.” Incrementar a tecnologia na propriedade não tem sido vantajoso para Meireles. A internet banda larga que contratou logo foi interrompida. Uma lavoura de eucalipto bloqueou o sinal e o provedor abriu mão de providências. A conexão veloz poderia facilitar pesquisas, dar acesso a novos fornecedores e permitir uma formação melhor aos quatro filhos. “A gente precisa ver preços, pesquisar equipamentos. E meus meninos, na pandemia, precisam para estudar”, observa. Os obstáculos, como os enfrentados por Meireles, para um campo mais tecnológico fazem com que apenas 23% dos agricultores tenham acesso à internet em toda a operação agrícola, segundo pesquisa da McKinsey & Company. O número cai para 13% em alguns segmentos, como o de algodão e o de grãos em algumas regiões.

O bom exemplo – As características da produção no Jaíba, município no norte de Minas Gerais, próximo à Bahia, ensinam que pequenos produtores podem ter papel significativo na economia e no desenvolvimento regionais. Os cerca de 100 mil hectares são resultado de um projeto de agricultura irrigada iniciado ainda nos anos 1970 e que definiu as estratégias do que virou a capital mineira do agronegócio, com destaques em produção de banana, limão e manga. Pequenos, médios e grandes produtores se auxiliam, e os menores saem favorecidos com tecnologia, expertise e infraestrutura. “Existe uma estrutura de apoio a eles em termos de orientação tecnológica. Com o passar dos anos, eles vão se tornando autossuficientes e profissionais. Era isso que se queria há mais de 40 anos”, afirma Elias Teixeira Pires, consultor em agronegócio e produtor. Teixeira Pires ressalta, porém, que experiências como a do Jaíba, semelhantes também às das regiões de Petrolina (PE) e de Juazeiro (BA) são exceções. “O Jaíba tem uma organização de pequenos produtores que demonstra claramente o avanço com o uso da tecnologia. Mas isso é pequeno comparado com o Brasil como um todo. É expressivo regionalmente”, comenta. O limão que nasce nas terras do Jaíba, em propriedades pequenas de até 25 hectares, vai parar na Alemanha e na Inglaterra. No mercado interno, os cerca de 26 produtores da Associação União dos Fruticultores do Jaíba e Região conseguem cerca de R$ 10 pela caixa, com 25 kg. Na Europa, R$ 40.

Incerteza do governo bloqueia investimentos e contratações – Entre a importação de insumos essenciais para a produção de vacinas Covid-19 e a aplicação da imunidade ao braço de alguém, há um longo caminho a percorrer por diferentes setores econômicos, desde o agronegócio do algodão e do álcool até os estabelecimentos que podem funcionar como pontos de vacinação, à logística e às incertezas sobre como, quanto e quão rápidas as doses serão distribuídas dificultam o investimento, a contratação e o aumento da produção nas empresas da cadeia de vacinação. Com as máquinas do Instituto Butantan em São Paulo e da Bio Manguinhos/Fiocruz no Rio, aguardando insumos importados da China para produzir, fornecedores e prestadores de serviços estão se preparando para a demanda no escuro. Os fabricantes de seringas, por exemplo, já aumentaram sua produção em 25%, mas no segmento específico desta vacina, eles podem ter que triplicar. A indústria diz que tem capacidade para fazê-lo, mas não sem ofertas e pedidos com prazos razoáveis. Entregas de geladeiras para armazenar doses podem levar até nove meses. Os fornecedores de equipamentos hospitalares também alertam que o governo não pode esperar que toda a demanda seja atendida de uma só vez sem previsão. Há desafios até na distribuição por aviões e caminhões, mesmo com o plano nacional de vacinação estruturado, e empresas privadas que podem ceder áreas para vacinação, como shopping centers e supermercados. Até agora, o país tem seis milhões de doses de Coronavac chinês, produzidas por Butantan.

Centrão cobiça ministérios hoje com militares – Com a proximidade da reforma ministerial, programada para acontecer depois da eleição para as presidências de Câmara e Senado, vem crescendo a pressão do centrão para a mudança naquele que é um dos pilares do governo de Jair Bolsonaro: a presença maciça de militares em postos estratégicos do primeiro escalão. O grupo, cada vez mais próximo ao presidente, defende a nomeação de mais políticos em ministérios e mira, especialmente, duas pastas sediadas no próprio Palácio do Planalto: a Casa Civil, hoje a cargo de Braga Netto, e a Secretaria de Governo, responsável pela articulação política, ocupada por Luiz Eduardo Ramos.

Rodrigo Maia se concentrará na frente anti-Bolsonaro – Presidente da Câmara dos Deputados por três mandatos, Rodrigo Maia (DEMRJ) encerrará um ciclo político em 1º de fevereiro. Em cinco anos, ele capitalizou e construiu um programa parlamentar, o símbolo mais óbvio do qual é a reforma da previdência. Em meio à crise política, bons e maus momentos na relação com o governo oscilaram. Outrora aliado dos governantes de Centrão, ele agora está se afastando deles na tentativa de eleger seu sucessor. A postura ante Jair Bolsonaro é de confronto. O impeachment é cogitado abertamente, desde que haja maior aceitação na sociedade. Durante o mandato de Michel Temer, no entanto, Maia teve papel fundamental na preservação do governo — ele apoiou o arquivamento de duas denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Em março de 2019, quase um mês após o governo Bolsonaro enviar o oposto da reforma da Previdência ao Congresso, Maia foi alvo de bolsonaristas nas redes sociais. No dia 18, após sair de uma conferência da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, foi avisado do dono do perfil que irradiava os ataques: Carlos Bolsonaro. Na época, ele decidiu retaliar pela primeira vez: chamou o governo de “deserto de ideias”.

Outros destaques

Reestruturação na Economia é avaliada – A possibilidade de mudanças no primeiro escalão de governo — a reforma deverá ocorrer depois da eleição para as Mesas Diretoras do Congresso — inclui também a volta de um modelo que vigorava antes da gestão do presidente Jair Bolsonaro: o governo avalia dividir o Ministério da Economia, que hoje concentra atribuições anteriormente espalhadas em outras pastas. Neste contexto, seria recriado o Ministério da Indústria e Comércio, que foi ocupado pelo deputado federal Marcos Pereira (SP), presidente do Republicanos, durante o governo de Michel Temer. Depois de tentar viabilizar, em vão, sua candidatura à presidência da Câmara, Pereira deixou o grupo do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e embarcou na candidatura do preferido de Bolsonaro para o posto, Arthur Lira (PP-AL). No Palácio do Planalto, a indicação de Pereira, em caso de recriação da pasta, é vista com bons olhos. Após a Ford anunciar o fechamento das fábricas no país, o parlamentar disse nas redes sociais que representantes da indústria costumam recorrer a ele, na Câmara, porque “não encontram respaldo no que deveria ser ‘a casa da indústria’ no governo”. Ele nega, no entanto, que tenha a pretensão de voltar ao cargo. — Eu não vou ser ministro. Não é meu projeto nesse momento — disse ao GLOBO. Integrantes do centrão defendem ainda que o desmembramento da Economia inclua a volta do Ministério do Planejamento, esvaziando substancialmente os poderes do ministro Paulo Guedes. O desenho do governo Bolsonaro deu a ele um “superministério”, reunindo Fazenda, Indústria e Comércio, Planejamento e Trabalho. Além de credenciar Guedes como nome forte do governo, a fusão atendeu a uma promessa de campanha de Bolsonaro: a de reduzir o número de ministérios. Aliados do governo já defenderam anteriormente a reestruturação da Economia, mas, na ocasião, a tentativa não foi levada adiante.

Bancada feminina entre Simone e Pacheco – Metade das 12 senadoras do País declararam voto em Simone Tebet (MDB-MS) para a presidência do Senado, de acordo com o placar da disputa publicado pelo Estadão. Os votos vêm de parlamentares de quatro partidos diferentes, da esquerda à direita, como Leila Barros (PSB-DF) e Mara Gabrilli (PSDB-SP), e podem ser essenciais para eleger a primeira mulher como presidente da Casa e, consequentemente, do Congresso Nacional. Além de seu próprio voto, a candidatura de Simone tem o suporte de Eliziane Gama (Cidadania-MA), Rose de Freitas (MDB-ES) e Nilda Gondim (MDB-PB). Com exceção do PSDB, que não se posicionou oficialmente na disputa, os demais apoios são esperados em função dos acordos firmados com os partidos representados pelas senadoras. Principal adversário da emedebista, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) também busca o voto feminino e já soma quatro declarados – contando com a preferência das senadoras do PP, Katia Abreu (TO), Daniella Ribeiro (PB) e Mailza Gomes (PP) –, e de sua correligionária Maria do Carmo (SE). Duas senadoras preferiram não revelar seu voto. São elas: Zenaide Maia (PROS-RN) e Soraya Thronicke (PSL-MS). Apesar da vantagem de Simone entre as mulheres, contando o voto da própria candidata, analistas ouvidos pelo Estadão afirmam que, ao menos até agora, o gênero não faz diferença na hora da urna. “Os compromissos partidários e os interesses dos partidos contam mais que a questão do gênero ou mesmo qualquer outra pauta de identidade”, afirma o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Em uma eleição como esta, estão em jogo acordos para espaço na Mesa Diretora ou para políticas específicas, como a Lava Jato. Isso acaba se impondo a essas questões que, embora importantes, assumem um papel periférico na disputa”, diz o professor.

Impeachment e economia pautam agenda pós-eleição – Os novos presidentes da Câmara e do Senado vão encontrar no início dos mandatos, em fevereiro, matérias de impacto direto na economia e no destino do governo de Jair Bolsonaro. Entre os deputados, a disputa envolvendo Arthur Lira (Progressistas-AL), candidato do Palácio do Planalto, e Baleia Rossi (MDB-SP) definirá a proposta de novo auxílio emergencial, defendida por governistas e opositores, e o avanço ou arquivamento de 56 pedidos ativos de impeachment do presidente da República. As mortes de pacientes da covid-19 no Amazonas e no Pará por falta de oxigênio pôs combustão no debate sobre a possibilidade de um terceiro impeachment (mais informações na pág. A8) no atual período democrático – Fernando Collor e Dilma Rousseff caíram em 1992 e 2016, respectivamente, após enfrentarem processos. O Planalto não quis pagar para ver. Na ofensiva para emplacar Lira no comando da Casa e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado, o governo colocou a articulação política em campo com a oferta de cargos e recursos e tem demitido indicados por quem não demonstra apoio. Numa possível prévia do jogo da cassação, a Câmara começou a discutir uma CPI da Saúde para investigar as falhas de logística na distribuição de testes e vacinas por parte do ministro Eduardo Pazuello. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que evitou abertura de processo contra Bolsonaro nos últimos dois anos, considera “inevitável” instalar a comissão.

Lira cobrará “neutralidade” de ACM Neto – Numa conversa marcada pelo deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), o candidato a presidente da Câmara e líder do PP, Arthur Lira, apelará, amanhã, ao presidente do DEM, ACM Neto, que não ponha seu peso político para levar o partido a formalizar o bloco com o MDB de Baleia Rossi, que tem o apoio do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A avaliação dos apoiadores de Lira é de que o DEM não reuniu a bancada para definir a posição em favor de Baleia: “Não houve um encontro da bancada para definir esse bloco. Foi uma posição pessoal de Rodrigo Maia. Como vai levar o partido a formar um bloco sem reunir a bancada?”, diz Elmar à coluna, apostando que a sua legenda está tão dividida quanto o PSL. “No grito, não vai, só no voto”, comenta. O DEM aliado a Rodrigo Maia trata o apoio de Elmar a Arthur Lira como “chumbo trocado”, uma vez que o líder da maioria, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), apoia Baleia Rossi. Elmar, porém, considera que não é bem assim e quer uma votação na bancada. Será, na visão dele, a hora da verdade. O governo acompanha a distância essa conversa de Arthur Lira com ACM Neto, prevista para amanhã. O presidente Jair Bolsonaro não confia plenamente no presidente do DEM, que tem ligações com Luciano Huck e João Doria.

Às redes e às ruas – Ao mesmo tempo em que joga tudo na candidatura de Arthur Lira, convencido de que é a melhor saída para evitar o processo de impeachment, o governo voltou a convocar a sua tropa nas redes sociais. Desde a semana passada, grupos de WhatsApp e tuiteiros de plantão montaram uma estratégia para tentar fazer prevalecer a ideia de que o Poder Executivo trabalhou, dia e noite, pelas vacinas e que qualquer atraso foi culpa da imprensa. A intenção é mobilizar um número cada vez maior de pessoas a reagirem com manifestações a favor do presidente Jair Bolsonaro. Afinal, reza a tradição, sem movimento de rua, não há clima para impeachment. Quanto às carreatas deste fim de semana, o governo dirá que foram convocadas pelo PT. Aliás, o Planalto não vê a hora de voltar à velha polarização.

Perto de decisão, Huck busca pontes no PSDB – Cresceu nos últimos dias no mundo político a expectativa em torno do futuro de Luciano Huck. Segundo apurou a Coluna, é grande a possibilidade de o apresentador fazer em breve um gesto mais incisivo rumo à pré-candidatura a presidente do País, o que deve implicar no afastamento dele das atividades na TV Globo. Na avaliação de um aliado, Huck precisa dar um passo adiante e sair da mesma posição em que se encontrava no tabuleiro seis meses atrás, quando Jair Bolsonaro ainda surfava no auxílio emergencial e João Doria não tinha em mãos a vacina. A queda de popularidade do presidente e a alta exposição nacional de Doria (PSDB) precipitaram ainda mais o debate eleitoral no centro e na direita. Huck é aguardado no DEM, mas as portas do Cidadania permanecem abertas a ele. O grande desejo hoje do grupo político de Huck é encontrar uma forma de acomodar DEM e PSDB numa mesma candidatura. Por isso, o nome de Eduardo Leite (PSDB-RS) passou a circular nas conversas (teria o apoio reservado de FHC). Huck e o governador tucano do Rio Grande do Sul são amigos. Leite como vice do apresentador pode ser uma alternativa para tentar neutralizar o desejo de João Doria de se lançar à Presidência. Segundo interlocutores do apresentador, o maior desafio (e talvez o mais difícil) de Huck já não é mais da ordem do “querer”: é viabilizar sua candidatura. Ainda sem prazos e acertos, está se mexendo para acomodar personagens sem pulverizar o campo do centro. Huck hoje está se jogando cada vez mais na candidatura: no último dia 15, quando foram registrados panelaços em diversas cidades contra Bolsonaro, fez live batendo panela. Ah, esse grupo político de Huck pela primeira vez começou a achar que Bolsonaro está em sérias dificuldades eleitorais.

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