Resumo dos jornais de domingo (22/11/20) | Claudio Tognolli

Resumo dos jornais de domingo (22/11/20)

Editado por Chico Bruno

Manchetes

FOLHA DE S.PAULO: São negros dois em cada três policiais assassinados no país

CORREIO BRAZILIENSE: Família de João Alberto pede justiça

O ESTADO DE S.PAULO: Saúde pode ter que jogar no lixo 6,8 milhões de testes de covid

O GLOBO: A década perdida do Rio – Alemão retrata fracasso social e na segurança

Resumo das manchetes – A manchete da Folha revela dados do Anuário 2020 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que mostram que a maioria (65,1%) dos 172 policiais assassinados no Brasil em 2019, de folga ou em serviço, eram negros. A manchete do Correio transmite o pedido de justiça feito pela família de João Alberto durante o seu velório. O Estadão traz uma manchete que revela que mais de 6,8 milhões de testes RT-PCR, comprados pelo Ministério da Saúde para diagnóstico do coronavírus, podem ser descartados antes de chegar à rede pública. Eles perdem a validade entre dezembro e janeiro e permanecem estocados em um galpão na Grande São Paulo. O volume é maior do que os 5 milhões de exames feitos na pandemia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A responsabilidade pelo prejuízo vira jogo de empurra entre o Ministério da Saúde, de um lado, e Estados e municípios, do outro. A manchete do Globo relembra que em novembro de 2010, o Complexo do Alemão foi retomado pelo poder público, mas, dez anos passados, e tudo voltou a que era antes da ocupação.

Destaques de domingo

STF libera dados – O ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou o compartilhamento de dados de uma busca e apreensão, realizada contra um site bolsonarista no inquérito dos atos antidemocráticos, com a investigação sobre esquema de disparos de WhatsApp na campanha de 2018, caso revelado pela Folha. O pedido ao ministro foi feito por uma delegada da Polícia Federal, responsável pela busca, sob o argumento de que elementos encontrados podem interessar à apuração relacionada à eleição presidencial. Os empresários Ernani Neto e Thais Chaves, donos de páginas bolsonaristas como a Folha Política, foram os alvos da busca, agora compartilhada. A delegada do inquérito de atos antidemocráticos é Denisse Ribeiro. Neto e Thais chegaram a ter suas contas excluídas pelo Facebook por violação de regras em 2018, quando já coordenavam uma rede a favor do então candidato Jair Bolsonaro. Eles também são investigados por fake news. A investigação sobre os disparos da eleição de 2018 foi aberta pela PF em outubro daquele ano, após reportagem da Folha revelar que apoiadores de Bolsonaro estavam comprando pacotes de mensagens contra o PT no WhatsApp, sem declarar os valores à Justiça Eleitoral. Essa é a primeira vez que informações de inquéritos do STF são compartilhadas com algum caso de apuração dos disparos. No TSE há duas ações com esse tema. Ambas aguardam para receber material das investigações que estão com Moraes.

Bolsonaro anda de porta aberta e corpo para fora do carro e ouve xingamentos – Em sua visita a Macapá neste sábado (21), Jair Bolsonaro desfilou pelas ruas da cidade com a porta do carro aberta e com o corpo para fora. Enquanto a comitiva passava, o presidente ouviu xingamentos. O Amapá chegou ao 19º dia de apagão. Bolsonaro declarou na capital que os afetados no estado serão compensados na conta de luz. Em sua manobra no carro, o presidente estava com um segurança, que ficou atrás dele, com o pé na porta, protegendo suas costas. Segundo o artigo 235 do Código de Trânsito Brasileiro, “conduzir pessoas, animais ou carga nas partes externas do veículo” é infração grave, passível de multa e retenção do veículo. Mais cedo, Bolsonaro publicou em suas redes sociais um vídeo em que é recebido animadamente por apoiadores no aeroporto da cidade. No entanto, esse outro registro mostra o presidente sendo chamado de “miliciano” e recebendo xingamentos de baixo calão. Os motoristas de carros que seguem a comitiva também são ofendidos, classificados como “gado”.

O presidente Jair Bolsonaro contestou neste sábado (21) durante a cúpula do G20 o debate sobre racismo no país dizendo que há quem queira alimentar o conflito e o ódio entre a população. “O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado”, afirmou no evento virtual, que tem a Arábia Saudita como anfitriã. “Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo, há quem queira destrui-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder.” Ele disse que há interesses para se criar tensões no país e que um povo dividido fica enfraquecido. “Um povo vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável.” “Enxergo todos com as mesmas cores, verde e amarelo. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. O que existem são homens bons e homens maus, e são as nossas escolhas e valores que determinarão qual dos dois nós seremos”, afirmou. O presidente disse ainda que há “tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história” e que “aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história”.

Daltônico – No encontro presidido pela Arábia Saudita, Bolsonaro manteve o tom de declarações dadas na sexta-feira à noite, quando postou uma série de mensagens no Twitter nas quais negou a existência de racismo, ignorou a morte de João Alberto e o Dia da Consciência Negra, e disse ser “daltônico”, por não ver diferenças na cor de pele dos brasileiros. “Não nos deixemos ser manipulados por grupos políticos. Como homem e como presidente, sou daltônico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus. São nossas escolhas e valores que fazem a diferença”, escreveu. Nas postagens, o presidente ainda completou que lugar de quem prega discórdia “é no lixo” e que o país possui problemas mais complexos do que a questão racial. “Temos, sim, os nossos problemas, problemas esses muito mais complexos e que vão além de questões raciais. O grande mal do país continua sendo a corrupção moral, política e econômica. Os que negam este fato ajudam a perpetuá-lo”, postou.

Paira uma dúvida: e se o presidente não se filiar? – A criação do Aliança pelo Brasil não é a única dúvida que persiste sobre o partido. A entrada automática do presidente Jair Bolsonaro é outro enigma. Isso porque ele disse que não pode investir 100% na criação da sigla e admitiu que mantém conversas com outras legendas –– inclusive, um retorno ao PSL não está afastado, assim como a adesão a alguma agremiação que companha o Centrão. Isso não parece abalar o vice-presidente do Aliança, Luís Felipe Belmonte. Sobre a eventual desistência de Bolsonaro em se juntar à sigla, considera que “a escolha será dele”. Mas, ao contrário do pai, o filho 03 do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), defende que o Aliança fique pronto o quanto antes. No último dia 17, após os resultados do primeiro turno, ele usou as redes sociais para fazer um desabafo e disse que o resultado da eleição municipal não foi o que a direita esperava. “Formar o Aliança, ou ter um partido verdadeiramente conservador, torna-se a cada dia mais fundamental, seja para o embate nas Casas legislativas, seja para a eleição. Os diferentes grupos e pessoas de direita poderiam estar em maior contato, melhor comunicação e amadurecer para não se enxergarem como adversários nas eleições”, defendeu.

Bolsonaro errou nesta eleição, mas sonhamos com ele no PP em 2022 – Presidente do Progressistas, partido que teve um dos melhores resultados nas eleições municipais de 2020, o senador Ciro Nogueira (PI), um dos líderes do chamado centrão, avalia que o pleito significou “a volta da boa política” e que o eleitor preferiu candidatos com experiência prévia em gestão. A sigla elegeu 682 prefeitos contra 498 na passada. Para o parlamentar, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), cujo governo o PP apoia, errou ao declarar apoios no primeiro turno porque, no fim, acabou com a pecha de derrotado. Apesar de a maior parte dos candidatos apoiados pelo mandatário terem tido resultado ruim, Nogueira não vê a eleição municipal como uma prévia de 2022, diz que apoiará Bolsonaro na próxima disputa presidencial e que seria um “sonho” tê-lo filiado ao partido.

Um jogo para isolar o Centrão – Nos bastidores da política em Brasília não se fala em outra coisa que não seja a disputa pela presidência da Câmara, que já contaminou todo o processo político daqui até fevereiro, com uma pausa para o Natal e o Ano Novo. Desde que o bloco liderado por Arthur Lira (PP-AL) reivindicou a Comissão Mista de Orçamento para a deputada Flávia Arruda (PL-DF), começou a se formar no DEM, no MDB e em outras legendas fora do Centrão um movimento para tentar isolar essa turma mais próxima de Jair Bolsonaro. E, agora, com o fim das eleições municipais no próximo domingo, essa movimentação será cada vez mais intensa. A ideia é montar uma chapa completa para concorrer à presidência da Câmara, pesquisando desde já as preferências de cada legenda para os cargos da Mesa Diretora e também as comissões técnicas, algo que Lira não tem como oferecer para não correr o risco de perder o apoio do governo. Nos governos petistas, ninguém conseguiu o feito de isolar o Centrão –– ao contrário, o Centrão é que isolava os outros. Agora, porém, que o grupo não está mais tão unido, a chance surgiu. Se o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), conseguir pôr o Centrão contra a parede, Lira terá problemas para levar adiante seu plano de conquistar a presidência da Casa. Para o governo, o pior dos mundos.

Dez anos depois, ocupação do Alemão deixou elefantes brancos e frustração – O sol está quase a pino e seis meninos brincam subindo as escadas, chutando uma bola e escalando o poste de luz. Negros, descalços e sem camisa, eles correm por um território que é deles sem se intimidarem com o grande edifício azul e preto rodeado de viaturas logo atrás. Do vidro que reveste o prédio circular, só sobraram alguns cacos. Estruturas de ferro se retorcem por cima das paredes encardidas, e lá dentro ainda é possível ver as placas de chumbo sobrepostas numa inútil tentativa de proteção contra os tiros. É o alto do Morro das Palmeiras, onde foi instalada uma das quatro UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Complexo do Alemão. Dez anos após a operação que prometeu pacificar o conjunto de favelas do Rio de Janeiro, a construção é um dos muitos símbolos de uma política que ruiu. Depois de tantos ataques, os policiais não ficam mais ali. Transferiram a base para dentro da estação do teleférico ao lado, que também não funciona mais. Daquele domingo de novembro de 2010, os moradores dizem ter restado apenas elefantes brancos e frustração. “Acenderam a vela da esperança e depois jogaram um balde de água fria em cima”, diz Elisabete Aparecida, 62, conhecida como Tia Bete. Ela é fundadora do centro cultural Oca dos Curumins, que há 43 anos desenvolve atividades que vão do xadrez ao inglês na comunidade. A vela da esperança estava nos vários serviços e oportunidades que começaram a chegar depois que a operação cinematográfica com mais de 2.500 policiais e militares ingressou no morro com tanques, caveirões e helicópteros e hasteou a bandeira do Brasil no topo, numa imagem que correria o mundo.

Não à vacina obrigatória – Durante a reunião do G20, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender que o cidadão não seja obrigado a se vacinar contra a covid-19. O argumento é de que, caso a imunização seja imposta à pessoa, seria um ataque à liberdade individual. “Defendemos a liberdade de cada indivíduo para decidir se deve ou não tomar a vacina. A pandemia não pode servir de justificativa para ataques às liberdades individuais”, disse. Segundo Bolsonaro, o Brasil se soma aos esforços internacionais para a busca de vacinas eficazes e seguras contra o novo coronavírus, assim como adota o tratamento precoce no combate à doença. O presidente acrescentou que o país está superando a doença e o que chamou de “desinformação”. “Juntos, estamos superando uma das mais graves crises sanitárias da história recente. Estamos vencendo as incertezas, as dificuldades logísticas e, inclusive, a desinformação”, assegurou.

Articulação – A recondução de Márcia Abrahão à reitoria da Universidade de Brasília (UnB) pelo presidente Jair Bolsonaro foi, também, resultado de articulação política. Márcia conseguiu apoio com quase todos os parlamentares locais. A bancada do DF no Congresso, por exemplo, assinou uma carta pedindo a Bolsonaro que ela continuasse no cargo. Deu certo, mas existia o medo de que o presidente escolhesse alguém não referendado pela comunidade.

Testes RT-PCR vão para o lixo – Mais de 6,8 milhões de testes RT-PCR, comprados pelo Ministério da Saúde para diagnóstico do coronavírus, podem ser descartados antes de chegar à rede pública. Eles perdem a validade entre dezembro e janeiro e permanecem estocados em um galpão na Grande São Paulo. O volume é maior do que os 5 milhões de exames feitos na pandemia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O governo federal alega que sua responsabilidade se resume a comprar os exames. Estados e municípios, que devem solicitar o material, dizem que receberam kits incompletos e apontam falta de capacidade para processar as amostras. A quantidade que será descartada até janeiro custou R$ 290 milhões. A distribuição foi desigual entre os Estados. O Amazonas, que viveu uma tragédia no início da pandemia, recebeu o equivalente a 1% dos testes disponíveis. O Ministério da Saúde já gastou R$ 764,5 milhões com os kits e prometeu fazer 24,2 milhões de exames pela rede pública até dezembro.

Planos de Covas e Boulos superam gastos atuais – Os planos de governo dos candidatos que disputam o segundo turno em São Paulo têm custos superiores aos investimentos realizados pela Prefeitura nos últimos quatro anos. Guilherme Boulos (PSOL) prevê gastar cerca de 137% a mais e Bruno Covas (PSDB), o atual prefeito, estima ampliar em 50% o total de recursos destinados a novas obras ou políticas públicas. De 2017 até agora, a Prefeitura aplicou R$ 12,2 bilhões em melhorias diversas na cidade, cerca de 40% a menos que a administração anterior, de Fernando Haddad (PT). Em ambas as listas constam gastos altos com ações para zerar a fila das creches, promover melhorias na mobilidade urbana, dotar as salas de aula da rede municipal com internet e ainda urbanizar favelas e construir moradias populares. Apesar de se apresentarem como opções totalmente distintas ao eleitorado, Covas e Boulos convergem em muitas propostas. A avaliação dos planos, no entanto, mostra que Boulos tem promessas mais dispendiosas. Para custear a meta de oferecer tarifa zero para desempregados e estudantes no transporte, por exemplo, o candidato prevê gastar R$ 4 bilhões ao longo do mandato, a mesma quantia prevista para uma de suas prioridades: a construção de moradias populares. Segundo ele, serão 100 mil. O tucano planeja investimentos mais volumosos em inovações na educação, como a compra de 465 mil tablets para estudantes, avaliada em R$ 821 milhões, e a construção de 90 km de corredores de ônibus – Boulos fala em 120 km. Na média, o custo de cada km de corredor é de R$ 48 milhões, segundo cálculos feitos por especialistas da Rede Nossa São Paulo. Os valores foram obtidos pela reportagem com as campanhas dos candidatos e depois checados com os preços praticados no mercado ou mesmo previstos no plano de metas da atual gestão. Há divergências.

MP acusa Flávio de omitir investimentos em ações da Receita – Durante a análise da evolução patrimonial do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na investigação sobre as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio, o Ministério Público fluminense descobriu que o filho do presidente Jair Bolsonaro omitiu da Receita, no período entre 2007 e 2009, investimentos no mercado de ações que totalizam R$ 90 mil. Segundo os investigadores, as operações foram reveladas pelo próprio senador, ao entrar com ação judicial reparatória, depois de perder todo o capital investido. “De acordo com a sentença proferida pela 36.ª Vara Cível do Foro Central da Comarca de São Paulo, o parlamentar declarou ter investido R$ 90.000,00 na bolsa de valores ao longo de 2007 e 2008 e ter perdido todo o investimento, gerando uma dívida de R$ 15.500,00 com a corretora que, segundo alegado pelo próprio autor, teria sido quitada em dinheiro vivo, o que resultou em gastos de pelo menos R$ 105.500,00 no período.” A indicação consta na denúncia que imputa ao senador e outros 16 denunciados – entre eles o ex-assessor Fabrício Queiroz e a mulher de Flávio, Fernanda Bolsonaro – crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. A peça de 290 páginas com os detalhes da investigação sobre a quadrilha que o filho do presidente é acusado de liderar está no Tribunal de Justiça do Rio. Os R$ 90 mil omitidos por Flávio chamaram a atenção dos investigadores durante a análise dos registros de transações imobiliárias, fiscais e bancárias do senador entre 2007 e 2009. Flávio era solteiro e tinha como única fonte de renda o salário de deputado. Segundo o MP, ele ainda “fazia pouquíssimo uso de serviços bancários como cartões de crédito e débito, revelando predileção pelo uso de dinheiro em espécie”. Após a denúncia, os advogados Rodrigo Roca, Luciana Pires e Juliana Bierrenbach, que defendem o senador Flávio Bolsonaro, divulgaram nota classificando as acusações como “crônica macabra e mal engendrada” e afirmando que “todos os defeitos de forma e de fundo” da denúncia serão pontuados na formalização da defesa.

Boulos ‘recicla’ slogan malufista contra Covas – A campanha de Guilherme Boulos (PSOL) a prefeito está reciclando estratégia utilizada por Paulo Maluf em 1992: “não tenho nada contra o Suplicy, eu só não quero mais é o PT mandando aqui”, dizia o jingle malufista naquela eleição municipal. Agora, a nova versão é: “não tenho nada contra o Bruno Covas, o que eu reclamo é do trabalho dele”. Ou seja, finge que bate na “pessoa jurídica” para acertar na “física”, conforme explicação de um tucano. A ironia do destino é que Suplicy era o candidato da então prefeita Luiza Erundina, a vice de Boulos. A campanha de Covas (PSDB) reaproveitou slogan do segundo turno da eleição de 1998: “Quem compara vota Covas”. Na ocasião, Mario Covas, avô do candidato a prefeito, derrotou Maluf numa disputa memorável pelo governo.

Recife – Analistas e políticos se esforçam para entender a virada de Marília Arraes sobre João Campos. Com performance arrojada, ela se apresenta como “novidade” contra o reinado do PSB, partido que dá as cartas em Pernambuco há décadas. João Campos, de seu lado, insistirá em lembrar que Marília é PT: quer despertar o “antipetismo” desses eleitores. Experiente analista de pesquisas e de cenários arrisca: a “questão pessoal” favorece Marília até aqui, afinal, quase sempre eleição é sobre “pessoas”, e ela tem apresentado “performance” melhor do que a do primo, além de estar surfando na “onda feminina”. O antipetismo, segundo aliados de Campos, é a esperança dele para virar votos de eleitores que no primeiro turno votaram em Mendonça Filho (DEM) e em Delegada Patrícia (Podemos) e que agora estão com Marília Arraes. O PSB ainda tem muitas chances de vitória em Recife, mas já começa a sentir uma certa “fadiga de material”: está no comando do governo de Pernambuco desde 2007 e no da prefeitura desde 2013.

Ataques às urnas restritos ao bolsonarismo – A divulgação de mensagens falsas sobre fraude nas urnas eletrônicas, que marcou o debate virtual sobre as eleições municipais do último domingo, ficou restrita à base de bolsonaristas, especialmente a chamada ala ideológica. Um levantamento feito a pedido do GLOBO pela consultoria Archimedes, especializada no monitoramento das redes, identificou 152 mil menções sobre o assunto no Twitter entre domingo de escolha e a última quinta-feira. No total, 65% das publicações partiram de perfis alinhados ao bolsonarismo.

Os dados sugerem que influenciadores da base do presidente Jair Bolsonaro provocaram mensagens com referências a fraudes no processo eleitoral brasileiro e em defesa do voto impresso. Os blogueiros bolsonaristas Oswaldo Eustáquio e Bernardo Kuster se destacaram na troca de publicações, além dos deputados federais Daniel Silveira (PSL-RJ), Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kics (PSL-DF). Dois dias após a eleição, Eustáquio foi preso por violar as medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele, que é alvo da investigação de atos antidemocráticos, agora está em prisão domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica. Pedro Bruzzi, de Arquimedes, vê paralelo com o discurso de fraude eleitoral espalhado por apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, derrotado na última eleição presidencial. Argumenta que o debate tem servido para manter a base de apoio de Bolsonaro ativa nas redes. — O assunto se restringiu aos perfis mais fiéis ao bolsonarismo, não encontrando impacto além deles. É importante manter a base coesa e criar uma justificativa para o resultado ruim do último domingo. No entanto, eles falam por si mesmos. Outro ponto importante é que, pelo menos nesse caso, parece que a oposição não caiu na armadilha e não deu tanta atenção, deixando a pauta ainda mais isolada”, diz Bruzzi.

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