Resumo dos jornais de 3ª feira (14/09/2021) | Claudio Tognolli

Resumo de 3ª (14/09/2021)

Edição: Chico Bruno

Manchetes

Valor Econômico – Mercado para IPOs fica mais seletivo com ruídos políticos

A desvalorização da bolsa brasileira e o enfraquecimento do fluxo de recursos para o mercado de ações colocam em xeque boa parte das ofertas de ações planejadas para os últimos quatro meses do ano. Com o cenário mais volátil, reflexo das recentes turbulências políticas, combinado com o maior risco inflacionário e o aumento de taxa de juros, bancos de investimentos estão revendo suas estimativas para as operações no mercado de capitais até o fim do ano. A estimativa da XP, uma das instituições mais ativas na estruturação de operações nesta temporada, é de que as ofertas iniciais e subsequentes de ações (IPOs e “follow on”, nos termos em inglês) encerrem o ano com cerca de 90 operações, movimentando de R$ 150 bilhões a R$ 170 bilhões. Antes, projetavam-se 100 a 120 ofertas, com até R$ 200 bilhões em transações. Já as empresas de menor porte e que buscam levantar um volume considerado pequeno, de até R$ 400 milhões, devem ter mais dificuldade, na avaliação de Eduardo Mendez, do Morgan Stanley. “Esse nicho ficou mais complicado. É o espectro de maior risco”, diz. Em momentos de muita instabilidade na bolsa, um dos critérios adotados pelos gestores é comprar papéis dos quais possam se desfazer mais rapidamente caso a situação se agrave, e as estreantes ainda são uma incógnita.

CORREIO BRAZILIENSE – “Impeachment, agora, vai bater com eleições e pôr o país em agitação brutal”

Conhecedor do trauma que é enfrentar um pedido de impedimento, o ex-presidente Michel Temer avalia que o instrumento político não seria uma solução para a atual conjuntura. Artífice da “Declaração à Nação”, com a qual Bolsonaro recuou na crise com o STF e fez um aceno à paz na escalada de tensão entre os Poderes, ele está convencido da disposição conciliatória do chefe do Executivo. “Todos devem aproveitar este momento, de certa pacificação, para combater, em definitivo, a pandemia e recuperar a economia”, recomenda. Para ele, eventuais divergências com o governo devem ser resolvidas nas urnas. “Vamos cuidar da pandemia, da economia e deixar o debate eleitoral para o ano que vem”, enfatiza.

O ESTADO DE S. PAULO – Governo suspende ‘tratoraço’ após CGU apontar sobrepreço

O Ministério do Desenvolvimento Regional seguiu orientação da Controladoria-geral da União (CGU) e decidiu suspender ou rever contratos para a compra de máquinas agrícolas pesadas a pedido de deputados e senadores por meio do orçamento secreto. Análise identificou sobrepreço de R$ 142 milhões nos contratos, que somam R$ 3 bilhões. Ao analisar uma amostra de 188 convênios, celebrados com verbas de emenda do relator-geral, a CGU constatou que 115 apresentavam risco de sobrepreço “alto ou extremo”. A pasta também renegociou lotes de uma licitação bilionária para readequação dos valores. A auditoria da CGU foi instaurada após o Estadão revelar que o governo Bolsonaro criou o mecanismo, apelidado de “tratoraço”, para aumentar sua base no Congresso. O Ministério do Desenvolvimento Regional informou que os convênios ficarão suspensos até que os municípios apresentem as correções para o cumprimento das recomendações da CGU.

O GLOBO – Aras pede que STF suspenda MP das fake news

Criticado pela inação de temas de interesse do Planalto, o procurador-geral da República, Augusto Aras, enviou parecer ao STF defendendo a suspensão da medida provisória que dificulta a remoção de conteúdos falsos e discursos de ódio das plataformas. Assinado pelo presidente Jair Bolsonaro na véspera do Sete de Setembro, o texto foi contestado por partidos no Supremo, Aras pediu um amplo debate sobre o tema na própria Corte quanto no Congresso. O Senado ameaça devolver a MP.

FOLHA DE S. PAULO – Investimento em saúde em SP cai 23% na gestão Doria

Os investimentos na área da saúde caíram nos últimos anos no estado de São Paulo durante a gestão do governador João Doria (PSDB). Os investimentos são aquilo que se gasta com obras, compra de equipamentos e outras melhorias que não incluem as despesas fixas —como pagamento de salários e aposentadorias e desembolsos com custeio em geral. A reportagem levantou os dados de investimentos em saúde no estado desde 2011. Entre 2011 e 2018, durante as gestões de Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB), a média anual de investimentos feitos pela Secretaria da Saúde foi de R$ 1,054 bilhão, em valores corrigidos. Nos dois primeiros anos do governo Doria, essa média caiu para R$ 811 milhões —uma quantia 23% menor. Mesmo que a gestão invista todo o valor previsto em 2021 (de R$ 1,175 bilhão), a média de investimentos, ainda assim, ficará abaixo dos anos anteriores. A tendência, porém, é que nem mesmo isso aconteça, uma vez que o governo usou até agora apenas 31% desse valor. A administração argumenta que durante o período da pandemia fez uma série de aumentos de gastos que não são considerados investimentos, como a criação de leitos temporários, mas que vão trazer benefícios de longo prazo para a população. O governo disse ainda que a diminuição dos investimentos em 2019 foi necessária por causa de um ajuste nas contas.

Notícia do dia

‘Fantasmas’ usaram casa do presidente em cadastros – Uma casa do presidente Jair Bolsonaro constou no cadastro da Receita Federal ou da Câmara Municipal do Rio de Janeiro de quatro pessoas suspeitas de serem “funcionárias fantasmas” do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). À época em que morava no local, Bolsonaro estava casado com a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, investigada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro sob suspeita de ser a articuladora de um esquema de “rachadinha” no gabinete do vereador. O endereço cadastrado na Receita e na Câmara é o local para onde são encaminhadas eventuais comunicações fiscais e administrativas dos funcionários de Carlos. A informação sobre o endereço dos supostos “funcionários fantasmas” consta nos autos da investigação do MP-RJ que levou à quebra de sigilo bancário do vereador, da ex-mulher do presidente e de outras 25 pessoas e sete empresas. A suspeita dos promotores é a de que Carlos mantinha em seu gabinete um esquema semelhante ao atribuído ao senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), pelo qual foi denunciado sob acusação de liderar uma organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita. Procurada, a Secretaria de Comunicação da Presidência não respondeu ao contato da reportagem. Carlos afirmou, quando a quebra de sigilo foi divulgada, que a apuração se tratava de “fatos requentados”. A defesa de Ana Cristina não se pronunciou. A antiga casa de Bolsonaro que consta nos endereços dos ex-servidores fica na rua Professor Maurice Assuf, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. O imóvel foi adquirido pelo presidente e Ana Cristina em 2002. Ele se tornou propriedade de Bolsonaro em 2008 após a separação dos dois, e foi vendido no ano seguinte. De acordo com o MP-RJ, esse mesmo endereço consta nos cadastros de Gilmar Marques (ex-cunhado de Ana Cristina), André Luís Procópio (irmão de Ana Cristina), Andrea Siqueira Valle (irmã de Ana Cristina) e Marta da Silva Valle (cunhada de Ana Cristina). Todos estiveram lotados no gabinete em período semelhante ao que Bolsonaro e Ana Cristina viveram na casa.

As notícias de primeira página e os destaques do editor

Governo ignora riscos e amplia a janela da soja – O governo ampliou de 110 para 140 dias a janela para o plantio de soja e permitiu a instalação das lavouras até fevereiro em vários Estados. A medida atende pleito de agricultores ligados à associação dos produtores de Mato Grosso (Aprosoja/MT) que querem produzir a própria semente e precisam fazer a semeadura mais tarde que o habitual, até 31 de dezembro. A mudança, porém, desagradou a pesquisadores, sementeiras, indústria química, órgãos de defesa agropecuária e outras lideranças do setor, porque eleva o risco de proliferação da ferrugem asiática. Em nota enviada ao Valor, a Embrapa posicionou-se contra a medida. Procurado, o Ministério da Agricultura não se manifestou.

Representante dos EUA descarta acordo comercial com o Brasil – O desejo do governo de Jair Bolsonaro por um acordo de livre comércio com os EUA é improvável no atual cenário. O aviso foi dado por um representante do governo de Joe Biden, mencionando o histórico de ações nas áreas ambiental e social de Bolsonaro, em evento virtual sobre as relações bilaterais, na sexta-feira. Entre especialistas, o sentimento é de que o governo Biden “não quer jogo’’ com Bolsonaro. A Casa Branca gostaria de evitar uma expansão da China no Brasil, mas tampouco propõe uma agenda positiva na relação econômica. Daniel Watson, assistente do USTR (representação comercial dos EUA) para o Hemisfério Ocidental, disse durante o seminário que o foco da política de Biden neste momento é o investimento doméstico e que qualquer negociação com o Brasil seria complicada por causa das preocupações dos congressistas americanos com as ações do governo brasileiro.

Policiais terão financiamento habitacional com subsídio – O governo anunciou ontem uma nova linha para o financiamento de casas com juros mais baixos voltada exclusivamente a policiais e bombeiros, base de apoio do presidente Jair Bolsonaro. O novo programa, batizado de Habite Seguro, terá já neste ano R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública. As condições vantajosas, que incluem desconto no valor de contratação do crédito e no valor da entrada para ter direito ao empréstimo, não serão estendidas a outras categorias. Trabalhadores da iniciativa privada, por exemplo, não conseguirão financiar suas casas com o mesmo subsídio dado aos profissionais de segurança. Serão contempladas categorias como policiais federais e rodoviários federais, bombeiros militares e agentes penitenciários, bem como guardas municipais. A linha beneficia também os aposentados. “Entendemos que pode, sim, atingir grande parte deste efetivo da segurança, que arrisca a sua vida em defesa da nossa vida e do nosso patrimônio”, disse Bolsonaro. Enquanto isso, um ano depois de seu lançamento, o programa Casa Verde e Amarela (substituto do Minha Casa Minha Vida) ainda não decolou. A entrega de novas casas está abaixo da média dos últimos anos, e até agora nenhuma moradia foi regularizada ou alvo de reformas. O valor do subsídio destinado aos profissionais de segurança até o fim do ano corresponde a 25% do total de R$ 400 milhões que existem hoje no Orçamento de 2021 para a faixa 1 do Casa Verde e Amarela, voltado a famílias com renda mensal de até R$ 2 mil. O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) tem alertado para o risco de paralisia nas obras e pede mais R$ 800 milhões para assegurar os contratos já em andamento, mas ainda não foi atendido.

Abuso de drogas em alta na pandemia – Marcelo enterrou a mãe em meio à pandemia. Quinze dias depois, foi a vez de um irmão. Mais duas semanas, outro irmão. De luto, descontou no álcool. Para Lívio, pesaram o isolamento social e as incertezas diante de um vírus desconhecido. Também passou a beber de domingo a domingo. Já Filipe ficou sem emprego, voltou à cocaína e acabou indo morar na rua. Agora, busca reabilitação: “Cansei de só sobreviver, quero voltar à vida.” Em agosto, o Estadão foi a duas comunidades terapêuticas e uma república, mantidas pelo governo de São Paulo, para contar histórias de quem perdeu o controle na crise sanitária, e tenta retomar a autonomia sobre a vida. As unidades prestam assistência a dependentes químicos. Para preservar os acolhidos, os nomes usados são fictícios. Trauma, perda de renda, mudança brusca de rotina e vulnerabilidade social estão na raiz do consumo compulsivo de álcool e de outras drogas, relatam psicólogos, pesquisadores e assistentes sociais. “Percebemos o aumento até pelo número de ligações e mensagens recebidas nas redes sociais”, diz Denis Munhol, coordenador de uma unidade visitada pela reportagem. Em 2020, as mortes ligadas a “transtornos mentais e comportamentais por causa do uso de álcool” subiram 23,9% no País, segundo dados do Ministério da Saúde. Ao todo, houve registro de 8 mil óbitos, ante 6.445 no ano anterior – a maior alta ao menos desde 2008. Estudo da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), de novembro, diz que 42% dos brasileiros relatam beber mais álcool na pandemia. Com 3.799 entrevistados, o trabalho indica que a chance de beber com mais frequência subiu 73% diante de quadros graves de ansiedade.

Ex-presidente do BC, Goldfajn será diretor do FMI – O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou ontem que o ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn será o novo diretor do departamento de Hemisfério Ocidental da instituição. Escolhido pela diretora-gerente, Kristalina Georgieva, Goldfajn será o brasileiro que assume o cargo mais alto no FMI desde a saída do economista Murilo Portugal, que deixou o posto de subdiretor-geral do fundo em 2011 para presidir a Febraban. Não há registro na história recente do banco de um brasileiro na chefia do departamento, que é um dos principais cargos da instituição em Washington, responsável pelo acompanhamento da política econômica dos países membros nas Américas, incluindo Estados Unidos e Brasil. Ele assume em 3 de janeiro de 2022 a vaga que foi ocupada de 2013 até 31 de agosto deste ano pelo mexicano Alejandro Werner, que se aposentou. A escolha do diretor foi feita diretamente por Georgieva, após uma seleção interna, sem indicação política. O governo brasileiro não é consultado oficialmente para a vaga. Informalmente, no entanto, o fundo costuma manter conversas com o país de nacionalidade dos escolhidos para a diretoria antes de fazer o anúncio. A instituição fez uma espécie de sondagem nos bastidores junto ao Ministério da Economia, que não apresentou objeção à escolha de Goldfajn, segundo fontes. Goldfajn tem nacionalidade dupla, brasileira e israelense. O economista presidiu o BC de 2016 a 2019, indicado pelo ex-presidente Michel Temer. Ele já trabalhou como economista do FMI entre 1996 e 1999. Atualmente, ele é presidente do conselho do Credit Suisse Brasil. No comunicado divulgado pelo banco, Goldfajn afirmou que irá seguir sua “vocação”, “que é a de contribuir com a sociedade em um cargo público, desta vez em uma organização internacional”. “A economia mundial vive um momento muito desafiador, agravado pela pandemia da covid-19, e a oportunidade de colaborar a partir dessa posição no FMI me deixa entusiasmado”, disse.

Valor sobe, mas motoristas de apps se queixam – O reajuste dos ganhos de motoristas anunciado pelas empresas Uber e 99 foi insuficiente, segundo eles, para compensar a alta recente de preços dos combustíveis e com a manutenção dos veículos. O movimento das plataformas veio após relatos de parceiros deixando a profissão ou negando corridas para não ficar no prejuízo. O Estadão conversou com motoristas de apps, e a avaliação é de que a mudança foi tímida e que os ganhos foram consumidos pela inflação. Só o combustível teve alta de mais de 50% no ano. Já o reajuste das empresas nos repasses aos motoristas foi de até 35%, sendo de 10% em algumas regiões. A reportagem enviou questionamentos dos motoristas ao Uber e ao 99, mas as empresas não responderam diretamente às perguntas, ressaltando apenas os reajustes concedidos.

Falta de tudo no Reino Unido – O Reino Unido atravessa a pior crise de oferta em mais de meio século. Unidades do Mcdonald’s chegaram a parar de servir milk-shake. Franquias da Nando’s e do KFC tiveram de fechar por falta de frango. A BP fechou postos de combustível por falta de gasolina e diesel. Frutas e verduras estão apodrecendo nos campos por falta de trabalhadores para a colheita. Tudo isso vem ocorrendo por duas razões: Brexit e covid-19. Desde o início da pandemia, um milhão de trabalhadores deixaram o Reino Unido, e muitos não voltaram – o pior declínio demográfico desde a 2.ª Guerra. Quem puxa a fila são os caminhoneiros do Leste Europeu. Segundo a Road Haulage Association (RHA), há 100 mil motoristas a menos do que os 600 mil que havia antes da pandemia. O resultado é um nó de logística. “Cerca de 95% de tudo o que recebemos no Reino Unido chega no contêiner de um caminhão”, disse Rod Mckenzie, diretor da RHA. “Então, se não houver caminhões circulando em número suficiente, haverá menos coisas sendo entregues.” A combinação de pandemia e novas regras de imigração – após o Brexit – deixou setores chave sofrendo de intensa escassez de mão de obra. A queda em ritmo recorde da oferta de emprego aumentou os salários médios, mas criou um problema incomum: as empresas não conseguem preencher as vagas deixadas pelos imigrantes. A crise afetou o agronegócio. Frutas foram deixadas apodrecendo nas fazendas, matadouros têm dificuldade para processar a carne de porcos e galinhas e as entregas de leite estão atrasadas. Segundo associações do setor, os problemas não decorrem da falta de produtos, mas sim de trabalhadores para colher, processar e transportar os alimentos.

Projeto antiterror gera polêmica na Câmara – Deputados bolsonaristas tentaram aprovar ontem projeto de lei que, segundo especialistas, pode abrir a possibilidade de se criminalizar movimentos sociais e protestos da oposição contra o presidente Jair Bolsonaro. A proposta cria uma Autoridade Nacional Contraterrorista, cujos agentes terão autorização para matar, o chamado “excludente de ilicitude”. O projeto diz ainda que agentes terão acesso a toda informação sigilosa de que precisarem para reprimir e prevenir “ato que, embora não tipificado como terrorismo, seja perigoso para a vida humana”, ou qualquer ameaça “potencialmente destrutiva a alguma infraestrutura crítica, serviço público essencial ou recurso-chave” ou que “afete a definição de política pública por meio de intimidação”. Para a oposição, especialistas em segurança e para a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), o projeto é a mais nova ameaça do bolsonarismo ao estado de direito e à democracia. Segundo eles, se aprovado como está, o projeto criará “uma polícia política”, a “KGB de Bolsonaro”. “O temor é de que a Autoridade Contraterrorista seja um instrumento para se tornar a polícia política de Bolsonaro”, disse o líder da oposição na Câmara, Alessandro Molon (PSB-RJ). De autoria do deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), o projeto recebeu parecer favorável do Delegado Sanderson (PSL-RS). Ele foi lido ontem e avançou com a possível aprovação do texto na comissão especial que analisa o tema na Câmara. A proposta tem como base um texto apresentado por Bolsonaro quando ele era deputado, em 2016. A oposição pediu vistas (mais tempo para analisar) e a previsão é de que o projeto seja votado na quinta-feira. A autoridade antiterror, segundo o texto do projeto, terá um chefe policial e um chefe militar diretamente subordinados a Bolsonaro. Ela terá acesso ilimitado a informações sobre intimidade e privacidade de qualquer cidadão.

Nova estatal de energia terá R$ 4 bi de verba – O Diário Oficial da União de ontem publicou decreto do presidente Jair Bolsonaro que cria uma nova estatal dentro do plano de privatização da Eletrobras: a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, a Enbpar. A nova empresa pública será responsável por assumir a Eletronuclear e a Itaipu Binacional, que devem seguir sob controle da União após o repasse da Eletrobras para a iniciativa privada. Serão destinados R$ 4 bilhões do Orçamento deste ano para constituir a nova empresa pública, segundo o Ministério da Economia. Essa é a segunda estatal criada por Bolsonaro. A primeira foi a NAV Brasil Serviços de Navegação Aérea, responsável pelo controle do espaço aéreo do País, criada no fim do ano passado. Como mostrou o Estadão à época, o ato representou uma vitória da ala militar do governo frente à equipe econômica, que continua a defender as privatizações como uma das prioridades do governo. Até hoje, no entanto, o governo não fez nenhuma privatização. Segundo a Secretaria-geral da Presidência, a criação da Enbpar, que será organizada sob a forma de sociedade anônima e vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), “viabiliza a desestatização da Eletrobras”. Recentemente, o presidente da Eletrobras, Rodrigo Limp, afirmou que a previsão é de que a operação seja realizada em fevereiro de 2022, mas não descartou que haja um plano B se algo sair fora do programado. O Ministério da Economia informou que o Orçamento deste ano prevê R$ 4 bilhões para constituir a nova empresa, que terá sede em Brasília. “A nova empresa terá estrutura enxuta e poderá incorporar, futuramente, as Indústrias Nucleares do Brasil S.A., o que vai permitir maior racionalidade ao setor de geração de energia nuclear, fazendo com que todas as atividades desta cadeia estejam vinculadas ao mesmo controlador”, afirmou, em nota, a pasta comandada por Paulo Guedes.

Fernández tem revés eleitoral na Argentina – A derrota da coalizão apoiada pelo presidente argentino, Alberto Fernández, nas primárias para o Legislativo, aumentou a pressão por reformas no governo. O revés em bastiões do peronismo, como a Grande Buenos Aires e a Patagônia, é visto com preocupação por setores governistas, que terão de se esforçar para mudar o cenário até às eleições de 14 de novembro. Uma reforma ministerial, avaliam analistas, não está afastada. “As chances de que isso (a derrota) produza mudanças no gabinete antes de 14 de novembro aumentaram com esses resultados”, disse Lucas Romero, diretor da consultoria Synopsis Consultores. “Estamos vendo um revés marcante em quase todas as províncias.” A coalizão de oposição Juntos pela Mudança, apoiada pelo expresidente Mauricio Macri, saiu vencedora em distritos tradicionalmente controlados pela esquerda peronista. A vitória mais surpreendente veio na Província de Buenos Aires, que tem mais de um terço dos eleitores do país e é o principal bastião do peronismo na Argentina, onde os opositores lideravam por 4,4 pontos porcentuais com 97% dos votos apurados. A oposição também venceu em províncias do interior, como Entre Ríos, Santa Fé, Chaco e Corrientes, e em algumas províncias do sul, como Santa Cruz, que é o reduto eleitoral da família Kirchner.

Para Bolsonaro, manifestantes são ‘dignos de dó’ – O presidente Jair Bolsonaro afirmou ontem que os manifestantes que foram às ruas, no domingo, protestar contra ele e contra o governo federal são “dignos de dó” e não representam a maioria da população. A apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, o chefe do Executivo ainda ironizou a presença de cinco presidenciáveis nos atos realizados em São Paulo. “A maioria da população é de bem. Essa minoria que é contra que muitos foram às ruas ontem (anteontem), são dignos de dó, de pena. Não vão me tirar daqui com isso de jeito nenhum”, afirmou. “Viram em São Paulo cinco presidenciáveis aglomerados?”, disse Bolsonaro. Entre os cotados para disputar o Palácio do Planalto no ano que vem, estiveram presentes no protesto na Avenida Paulista o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Ciro Gomes (PDT) e os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-se) e Simone Tebet (MDB-MS).

Justiça autoriza coercitiva de ‘lobistas’ – O juiz Francisco Codevila, da 15ª Vara Federal do Distrito Federal, acolheu ontem um pedido do presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), e ordenou a intimação do advogado e empresário Marcos Tolentino para que ele compareça a depoimento no colegiado marcado para hoje. O magistrado autorizou a condução coercitiva do advogado, caso ele deixe de comparecer “sem a devida justificativa”. Também a pedido de Aziz, a juíza Pollyanna Kelly Medeiros Martins Alves, da 12ª Vara Federal do Distrito Federal, determinou a expedição de mandado de condução coercitiva para o advogado Marconny Faria caso ele não compareça nem justifique sua eventual ausência em depoimento à CPI, amanhã. Tolentino e Marconny são apontados como “lobistas” da Precisa Medicamentos.

Popularidade de Bolsonaro desaba após carta – Logo após os atos do 7 de Setembro que mobilizaram sua base em demonstração de apoio, o presidente Jair Bolsonaro teve um tombo de popularidade nas redes sociais ao divulgar uma carta em que volta atrás nos ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e nas ameaças golpistas. O IPD (Índice de Popularidade Digital) de Bolsonaro, medido pela consultoria Quaest, mostra que as manifestações do Dia da Independência fizeram Bolsonaro chegar ao seu segundo melhor patamar desde o início do ano, com 81,8 pontos. Marcas maiores, em torno de 83 de pontos, foram vistas apenas no início de janeiro e no começo de maio, na esteira da motociata do presidente em Brasília. Já no dia 8, o índice cai para 62,4 e vai diminuindo ainda mais para 53,7 na quinta (9), dia da divulgação da carta, e 37,1 na sexta (10) —a pior marca de Bolsonaro em 2021. Sua popularidade digital chegou a variar em torno de 37 pontos somente no início de julho, quando a CPI da Covid avançou sobre suspeitas de corrupção na compra de vacinas.

“Relatório paralelo”: TCU suspende auditor por 45 dias – O auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques recebeu uma suspensão de 45 dias por conta do relatório falso que produziu sobre uma suposta supernotificação de mortes por covid-19 no Brasil ao longo de 2020. Durante o período afastado, ele não receberá salário. O levantamento feito por Alexandre acabou sendo usado pelo presidente Jair Bolsonaro para colocar em dúvida o número de óbitos pela crise sanitária. O chefe do Executivo recebeu o documento por intermédio de Ricardo Silva Marques, pai do auditor do TCU. Ele estudou com Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras e ganhou um cargo na Petrobras por indicação do mandatário. A recomendação de suspender Alexandre — que chegou a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19 em agosto — partiu da comissão do TCU que conduzia um processo administrativo disciplinar contra Alexandre e aceita pela Secretária-geral de Administração da Corte. No relatório final sobre o caso, o presidente do colegiado, Marcio André Santos de Albuquerque, escreveu que o auditor “agiu com dolo, ainda que eventual, uma vez que, voluntariamente, de forma consciente, quis repassar o documento para o seu pai, sem se importar como resultado que a sua conduta poderia produzir”.

Para Moraes, rachadinha é um modo de corrupção – O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, qualificou a rachadinha — esquema ilícito em que servidores devolvem parte de seus salários a parlamentares — como uma “clara e ostensiva modalidade de corrupção, que, por sua vez, é a negativa do Estado Constitucional”. Na avaliação do magistrado, a prática “não só desvia os recursos necessários para a efetiva e eficiente prestação dos serviços públicos, mas também corrói os pilares do Estado de Direito e contamina a necessária legitimidade dos detentores de cargos públicos”. A indicação consta no acórdão publicado na última quinta-feira, referente ao julgamento em que o TSE reconheceu a inelegibilidade da ex-vereadora de São Paulo Maria Helena Pereira Fontes (1997-1999) — que concorreu ao mesmo cargo de São Paulo nas eleições 2020 — em razão de condenação por rachadinha, que desviou R$ 146,3 mil dos cofres da Câmara Municipal paulistana. O julgamento se deu no plenário virtual da corte eleitoral e foi finalizado no dia 19.

Retirada da pauta – A 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) retirou da pauta da sessão de hoje o processo que discute o foro privilegiado do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) na investigação das rachadinhas. O caso havia sido listado para discussão pelo presidente, ministro Nunes Marques, no último dia 1º. Caberá a ele inserir o processo novamente no calendário de julgamento. O primeiro adiamento do caso se deu no dia 31 de agosto, quando o ministro Gilmar Mendes atendeu a um pedido da defesa do senador. No julgamento, a Turma vai decidir se referenda ou derruba a decisão da Justiça do Rio de Janeiro que garantiu foro especial a Flávio e transferiu o inquérito das rachadinhas para segunda instância. Tal decisão foi tomada, em junho do ano passado, pela 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Na 2ª Turma, o pano de fundo da discussão será a tese dos “mandatos cruzados”, da defesa do senador, pela qual um político pode manter o foro privilegiado do cargo antigo após assumir um novo posto — a rachadinha ocorreu quando Flavio era deputado estadual no Rio.

Ganhou mais do que perdeu – O presidente Jair Bolsonaro chega à primeira semana pós-tensão do Sete de Setembro com mais ganhos do que perdas, conforme contam seus mais fiéis escudeiros. Primeiramente, os candidatos de centro que se reuniram no último fim de semana mostraram uma capacidade de mobilização compatível com os números que detêm nas pesquisas, ou seja, muito baixa a preços de hoje. Em segundo, o fato de o PT não encorpar o ato de 12 de setembro, onde, aliás, Lula foi atacado, terminará por afastar essa turma de centro de uma possível candidatura petista num segundo turno, se mantida a polarização. Para completar a alegria dos governistas, o impeachment perdeu fôlego. O PT não quer tirar Bolsonaro, porque acredita que o vencerá fácil num mano a mano em 2022. O agronegócio e outros segmentos que têm voz ativa no Parlamento também não querem o afastamento do presidente. O país pode se preparar para a volta dos antigos problemas. A contar pelas declarações de Michel Temer ao CB.Poder abrindo a semana, o MDB também está fora desse barco do impeachment. A ordem nesses partidos, aliás, é parar com as tensões para mostrar temas considerados urgentes, gasolina cara, preço do gás nas alturas, energia elétrica e por aí vai. A primeira será hoje, com o plenário transformado em comissões gerais para ouvir a Petrobras.

Arthur na área …sem passar recibo – A contar pela investida do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), chamando o presidente da Petrobras, Silva e Luna, para cobrar o salgado preço dos combustíveis, o governo não terá tanta paz quanto parece. O detalhe é que, em vez de processo de impeachment, Lira vai entrar na cobrança dos temas que mais interessam à população. O chamamento a Silva e Luna vem sob encomenda para que, sem brigar diretamente com o Planalto, fique claro que os aliados de Bolsonaro no Congresso não estão confortáveis com a situação a que foram submetidos na semana passada. Muitos não gostaram de ver o presidente Bolsonaro prestigiar Michel Temer na hora de refluir do “modo tensão” para “paz e amor”, deixando Lira, que pediu pacificação, meio de lado.

‘Protestos vazios cobram preço político’ – As imagens da Avenida Paulista com uma presença modesta de manifestantes contra Jair Bolsonaro rodaram as redes, utilizadas à esquerda e à direita como mostra do insucesso do protesto. Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, os organizadores cometeram um erro ao realizar um ato com baixa adesão — e isso pode cobrar um preço. Mas isso, diz ele, não representa o potencial eleitoral dos grupos políticos. Melo diz que o esvaziamento do protesto começou em contradições na própria convocação e que a carta elaborada por Michel Temer, publicada via Palácio do Planalto, arrefeceu o sentimento de que seria preciso uma resposta rápida a um iminente golpe por parte de Bolsonaro. Para o cientista político, a centro-direita precisa se “fulanizar” em torno de um nome antes de buscar uma união com a esquerda: “enquanto a chamada terceira via não tiver um rosto, a dispersão é natural”.

Lobista recebia núcleo de Bolsonaro para passeios de lancha e churrascos – Mensagens enviadas à CPI da Covid revelam que o lobista Marconny Albernaz de Faria, apontado como um intermediário da Precisa Medicamentos, mantinha relação com o núcleo familiar e uma advogada de Jair Bolsonaro. O material expõe eventos realizados na casa de Marconny, em Brasília, como churrascos e passeios de lancha. O lobista ainda se dispunha a cuidar da agenda de pessoas do círculo do presidente, com o agendamento de consultas médicas e horário em salão de beleza. As mensagens de aplicativo mostram ainda a proximidade dele com Ana Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro, com o filho 04 do presidente, Jair Renan Bolsonaro, e com a advogada Karina Kufa. A Precisa Medicamentos está no centro das investigações da CPI por suspeita de irregularidades nas negociações da vacina indiana Covaxin. O Ministério da Saúde decidiu encerrar o contrato de R$ 1,6 bilhão com a empresa para a compra de 20 milhões de doses do imunizante. Procurada, Ana Cristina, que também é mãe de Jair Renan, não respondeu aos questionamentos da reportagem. Kufa afirmou, em nota, que nunca escondeu a amizade com Marconny, que, por sua vez, por meio de advogados, disse que as mensagens foram distorcidas.

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