Resumo de jornais e revistas de sábado (11/09/2021) | Claudio Tognolli

Resumo de sábado (11/09/2021)

Edição: Chico Bruno

Capas

VEJA – O estranho mundo de Jair

Os arroubos retóricos, as decisões erradas e as recorrentes trapalhadas de Jair Bolsonaro são quase sempre derivados de convicções que o presidente forma a partir uma realidade paralela que ele mesmo criou, apenas ele conhece e, por isso, é difícil de compreender. Desde o início do mandato, ele se dedica a escolher adversários de ocasião e a combater toda sorte de supostas conspirações que teriam o mesmo objetivo: ti­rá-lo do poder. Atormentado por fantasmas, não lida com a vida real, na qual só 30% da população foi totalmente imunizada contra o coronavírus, 14 milhões estão desempregados, a inflação dos alimentos avança de forma assustadora e há até risco de apagão.

ISTOÉ – Basta! É hora do impeachment

Bolsonaro queria transformar o Sete de Setembro no ensaio geral do seu golpe de Estado. Conseguiu o contrário. O caminho sem volta do presidente rumo à ruptura institucional fez entidades da sociedade civil se mobilizarem e já provocou uma união que tem tudo para lembrar o Diretas Já, movimento suprapartidário nos anos 1980 que sedimentou a redemocratização e lançou as sementes da Constituição de 1988. No domingo, 12, mesmo palco da manifestação bolsonarista, partidos, personalidades e centrais sindicais comparecerão para exigir a única medida capaz de brecar o putsch: o impeachment.

CartaCapital – Patético e trágico

Agora há mais atores políticos contra Bolsonaro, mas o apoio fanático ao presidente é capaz de manter o Brasil imobilizado e na ruína econômica.

Crusoé – O que falta para enxotá-lo?

Notas de repúdio já não bastam para um presidente que não governa, aposta no caos e afronta a democracia de modo cada vez mais escancarado. Independentemente da promessa que irá baixar as armas, o país não aguenta mais tantas crises

Manchetes

CORREIO BRAZILIENSE – A cada cinco estudantes entre 13 e 17 anos, uma sofreu abuso sexual

Em pesquisa, o IBGE traça um retrato da saúde emocional e física de estudantes das redes pública e privada de todo o país. Realizado antes da pandemia, o levantamento envolve jovens do 7º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, com idade entre 13 e 17 anos. E aborda desde temas como alimentação até questões como violência sexual. No estudo, 20,1% das adolescentes disseram ter sido vítima de algum tipo de abuso. E 8,8% delas foram forçadas a ter relação sexual. Entre os meninos, 3,7% sofreram esse tipo de crime. Namorados foram apontados como principais agressores. Entre outros dados, a pesquisa mostra que as meninas começam a beber e a fumar mais cedo do que os garotos; 7,9% engravidaram ao menos uma vez; e 29,6% acham que a vida não vale a pena. Garotas do DF são as mais insatisfeitas com o próprio corpo.

O ESTADO DE S. PAULO – SP tem um milhão sem vacina e ameaça ir ao Supremo contra Saúde

Por falta de vacinas, o Estado de SP acumula cerca de 1 milhão de pessoas que não receberam a segunda dose do imunizante da AstraZeneca. Na capital, o número chegará a 340 mil na segunda-feira, segundo a Prefeitura. O governador João Doria (PSDB) disse que pretende recorrer ao STF caso não receba do Ministério da Saúde 1 milhão de doses da vacina até terça-feira. Esse volume, segundo ele, já deveria ter sido entregue. “Isso não é um problema só de São Paulo, é um problema do País”, afirmou. Ontem, o Estadão mostrou que alguns Estados temem a falta de doses de AstraZeneca nas próximas semanas. Para o governador, caso não tenha doses da AstraZeneca, o ministério deve fornecer o imunizante da Pfizer. “Ao contrário do que foi divulgado pelo governo de São Paulo, o Ministério da Saúde não deve segunda dose de vacina covid-19 da AstraZeneca ao Estado”, informou a pasta em nota. De acordo com o ministério, SP utilizou como primeira dose vacinas destinadas à dose 2.

O GLOBO – Guedes admite que ‘barulho político’ afeta a economia

FOLHA DE S. PAULO – Guedes admite que barulho de Bolsonaro prejudica economia

Notícia do dia

O ministro Paulo Guedes (Economia) admitiu nesta sexta-feira (10) a investidores estrangeiros que a crise institucional, alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro, pode prejudicar a economia do país. “Todo esse barulho sobre instituições e democracia pode afetar a nossa bem-posicionada economia, no sentido de que estamos prontos para avançar novamente? Minha resposta é que isso pode produzir muito barulho, desacelerar o crescimento. Mas não mudar a direção [da política econômica], estamos na direção correta”, disse o ministro. As declarações foram feitas em evento virtual promovido pelo banco Credit Suisse. O ministro foi questionado por investidores sobre a instabilidade provocada por Bolsonaro enquanto o país enfrenta dificuldades econômicas em diferentes frentes. A conversa, em inglês, foi comandada por Ilan Goldfajn –presidente do conselho do Credit Suisse no Brasil e ex-presidente do Banco Central. Após uma primeira pergunta de caráter protocolar, Goldfajn afirmou que investidores buscavam uma declaração de Guedes sobre o comportamento do presidente. O ministro reconheceu que o nível de “ruído” está alto e afirmou que Bolsonaro pode ter passado dos limites com palavras, mas não com ações. Para Guedes, a nota assinada pelo presidente na quinta-feira (9) para acalmar os ânimos colocou “tudo de volta aos trilhos”. Apesar de Guedes sugerir que Bolsonaro exagerou somente nas “palavras”, especialistas apontam que as declarações do presidente já são classificáveis como crimes de responsabilidade –passíveis, portanto, de impeachment– por representarem atentado contra o cumprimento de decisões judiciais e contra o livre exercício dos Poderes.

As notícias de primeira página e os destaques do editor

Medo de perder aliados no Congresso motivou nota retórica de Bolsonaro – A escalada na temperatura com partidos aliados teve peso determinante na iniciativa de Jair Bolsonaro (sem partido) de buscar o ex-presidente Michel Temer (MDB) e publicar uma nota para tentar atenuar a crise institucional provocada por ele com os repetidos ataques a integrantes do Supremo Tribunal Federal. A “Declaração à Nação”, divulgada na quinta-feira (9), deixou o mandatário em saia-justa com apoiadores que respaldaram as ameaças golpistas no 7 de Setembro. Nesta sexta-feira (10), Bolsonaro buscou se justificar para sua base, afirmou haver cobranças para reações imediatas e “que vá lá e degole todo mundo”, mas defendeu mudanças graduais no Brasil. Segundo assessores do Palácio do Planalto, a quarta-feira (8) pós-feriado e a manhã de quinta deixaram Bolsonaro especialmente preocupado com a possibilidade de afastamento dos partidos que compõem a base no Congresso. A declaração do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi considerada dura por Bolsonaro. Com a caneta na mão para abrir um dos mais de cem pedidos de afastamento de Bolsonaro, Lira enviou sinais de tentativa de apaziguamento e não usou a palavra “impeachment”, mas elevou o tom de crítica e falou em “basta”.

Bolsonaristas de farda podem ter cometido crime em atos – A manifestação de raiz golpista na Esplanada dos Ministérios contou com grupos numerosos de bolsonaristas vestidos com indumentárias militares, responsáveis por atos e discursos que remetiam a rotinas na caserna. Partiram de parte desses grupos ofensivas inflamadas para invadir a via que dá acesso ao STF (Supremo Tribunal Federal), bloqueada desde o início da semana pela PM do DF. Caminhoneiros responsáveis por 101 caminhões estacionados na Esplanada também pressionaram pela invasão. A Esplanada foi liberada nesta sexta-feira (10), até a altura do Ministério da Saúde. Os caminhões foram retirados das vias. Como ainda há manifestantes no local, com previsão de que continuem até domingo (12), o acesso à praça dos Três Poderes e ao STF segue bloqueado. A Folha registrou em fotos a participação desses grupos na manifestação de 7 de Setembro e também acompanhou a atuação desses bolsonaristas radicais nos dois dias seguintes. Eles se mostravam para os demais manifestantes como militares e conduziam marchas, discursos ou estratégias de ataque a instituições. Não fica claro se ali estavam militares da reserva, civis trajados com roupas militares ou paramilitares. O Código Penal Militar prevê punição tanto a integrantes das Forças quanto a civis que se passam por esses integrantes. O crime é de “uso indevido de uniforme, distintivo ou insígnia” e tem pena de prisão de seis meses a um ano.

Compare a nota de Bolsonaro com suas declarações anteriores – Dois dias após atacar o STF (Supremo Tribunal Federal) com ameaças golpistas, o presidente Jair Bolsonaro divulgou uma nota na quinta-feira (9) na qual recua, afirma que não teve “nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes” e atribui palavras “contudentes” anteriores ao “calor do momento”.

“Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar”, afirmou. A mudança de tom do presidente após repetidos xingamentos a integrantes da corte desagradou grupos bolsonaristas, foi elogiada pelos presidentes do Senado e da Câmara, mas vista com ceticismo pelos magistrados. O presidente diz que não teve intenção de agredir, mas passou os últimos dois meses em seguidos ataques ao STF e xingamentos a alguns de seus ministros como estratégia para convocar seus apoiadores para o 7 de Setembro.

Ameaça antidemocrática é mal que vai durar décadas no Brasil – “A responsabilização do Bolsonaro é algo absolutamente necessário para que a democracia brasileira volte a ser saudável.” A análise é do advogado Pedro Abramovay, diretor da Open Society Foundations para a América Latina e o Caribe, que vê aumento da adesão política ao impeachment. Abramovay parte da premissa de que o presidente Jair Bolsonaro já detonou um processo de desconsolidação da jovem democracia brasileira. Para ele, que foi secretário Nacional de Justiça de 2010 a 2011, esses estragos se tornam cada vez mais profundos na medida em que o presidente da República segue impune pelos crimes de responsabilidade cometidos até aqui. “O presidente se tornou um criminoso de responsabilidade em série. E há uma leniência com a direção ao autoritarismo hoje presente no Brasil”, avalia Abramovay, que é mestre em direito constitucional e doutor em ciência política. Ele vê como inócua a nota de Bolsonaro intermediada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). “Só quem confunde público com privado pode acreditar que um pedido de desculpas pode resolver um ataque de um Poder a outro.” Segundo o diretor da Open Society Foundations, as ameaças antidemocráticas ganharam apoio de uma fatia expressiva da população sob Bolsonaro e devem perdurar por pelo menos uma década. Nesse tempo, o Brasil terá de gastar energia para assegurar sua democracia, mesmo diante dos enormes desafios postos para o país, como o aumento da miséria e da desigualdade e a conciliação do desenvolvimento com a questão ambiental. “Precisamos superar o bolsonarismo para podermos projetar o futuro do país.”

Flávio tenta indicar novo corregedor da Receita Federal – O senador Flávio Bolsonaro (Patriotra-RJ) tenta há quase três meses emplacar seu nome de preferência na Corregedoria-Geral da Receita Federal, órgão central para destravar uma de suas teses defensivas que visa anular a origem da investigação do caso da “rachadinha”. O filho do presidente Jair Bolsonaro quer a nomeação do auditor fiscal aposentado Dagoberto da Silva Lemos. Ele é ex-diretor do Sindifisco (sindicato da categoria), cargo no qual apontou a suposta prática de acesso ilegal a dados fiscais de servidores que defendeu. A tese é usada pelo senador para anular a origem do caso da “rachadinha”. Lemos teve, na primeira metade de julho, reunião com o presidente e Flávio para debater sua futura atuação no cargo. Houve, porém, resistência do secretário-especial da Receita Federal, José Barroso Tostes Neto, que indicou o auditor Guilherme Bibiani para o cargo. O posto está vago desde julho, quando encerrou o mandato de três anos do antigo corregedor, José Pereira de Barros Neto. Em nota, Flávio negou participação na escolha do futuro corregedor e disse que “essa decisão cabe ao presidente da República”, embora a lei dê essa atribuição ao secretário da Receita. Lemos não retornou ao contato da reportagem.

Geddel, preso no caso do ‘bunker’ com R$ 51 mi, vai ao semiaberto – O ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), concedeu progressão ao regime semiaberto ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, que chefiou a Secretaria de Governo durante a gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB). Ele e o irmão, o ex-deputado federal Lúcio Vieira Lima foram condenados em 2019 por lavagem de dinheiro e organização criminosa, em processo relacionado à apreensão de cerca de R$ 51 milhões em dinheiro em um apartamento de Salvador. “Preenchidos os requisitos subjetivo e objetivo, conforme já reconhecido no despacho (…), e comprovado o recolhimento do valor definido a título de multa penal, defiro a Geddel Quadros Vieira Lima a progressão ao regime semiaberto”, escreveu Fachin na decisão, assinada na quinta-feira (9). O ex-ministro estava em prisão domiciliar com monitoramento por tornozeleira eletrônica desde 15 de julho de 2020, após liminar concedida pelo ministro Dias Toffoli. Na semana anterior, Geddel havia recebido resultado positivo para Covid-19 —diagnóstico posteriormente descartado após um exame de contraprova—, o que motivou o pedido da defesa. No mês passado, em sessão virtual, a Segunda Turma do STF já havia atendido parcialmente a um pedido da defesa de Geddel e de Lúcio e anulado as condenações de ambos por organização criminosa. Foi mantida, porém, a condenação por lavagem de dinheiro.

Bolsonaro é fera ferida e não vai parar, diz Arminio Fraga – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é uma ‘”fera ferida” e “acuada” diante de seus baixos índices de aprovação e deve tornar constantes os ataques à democracia, como os do 7 de Setembro. Na opinião do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, esse comportamento deve afetar a recuperação da economia, retraindo investidores, elevando as taxas de juros e pressionando o dólar e a inflação. “Do ponto de vista econômico, é absolutamente paralisante”, afirma. Segundo ele, a esperada recuperação do setor de serviços, que representa 70% do PIB (Produto Interno Bruto), vai acontecer em “um ambiente muito adverso para o emprego, para o empreendedorismo e para o investimento em geral”.

Aditivo da VTCLog suspenso – O Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu um termo aditivo no contrato entre a VTCLog e o Ministério da Saúde para transporte de insumos. O aditamento foi assinado pelo então diretor de Logística da pasta, Roberto Ferreira Dias, que deu sinal verde para um pagamento 18 vezes maior do que o valor recomendado pelos técnicos do ministério. A decisão foi do ministro Benjamin Zymler. A relação da VTCLog com a pasta vem sendo investigada pela CPI da Covid. O contrato vigora desde 2018 e vinha sendo acompanhado pelo TCU. Porém, uma representação dos senadores Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE) fez com que os técnicos da Corte de contas analisassem mais detalhadamente as mudanças que foram endossadas pelo então diretor de Logística. m nota, a VTCLog, afirmou que “está absolutamente tranquila em relação à análise do Tribunal de Contas da União”. “A suspensão não afeta a legalidade e a lisura com que o termo aditivo foi realizado. A empresa já apresentou à CPI todos os esclarecimentos devidos e fará da mesma forma ao TCU”.

Ato mobiliza mulheres indígenas – Cerca de cinco mil mulheres, de 172 etnias indígenas, marcharam, ontem, na região central de Brasília, para garantir o direito ancestral pela terra e pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a votar contra o marco temporal, que define a demarcação das terras e restringe o direito à propriedade somente às áreas já ocupadas na data da promulgação da Constituição de 1988. De cocares na cabeça, pinturas de guerra pelo corpo e maracas nas mãos, elas saíram do acampamento Luta pela Vida, na Funarte, no centro da capital, até a Praça do Compromisso, na Asa Sul, onde foi erguida uma estátua em homenagem a Galdino Pataxó, índio queimado vivo por jovens brasilienses, em 1997. Esta segunda edição da marcha estava agendada para o 7 de Setembro e seguiria da Catedral ao STF, pela Esplanada dos Ministérios. Foi adiada e teve o roteiro alterado para evitar possíveis conflitos com bolsonaristas, que continuavam acampados na Esplanada dos Ministérios, mesmo após os atos antidemocráticos do feriado. Entre rezas, discursos e danças, as indígenas, em frente à estátua, e em um ato simbólico com grito de “fora Bolsonaro”, queimaram um boneco do presidente da República. Em seguida, voltaram para o acampamento indígena.

Greta Thunberg critica o Brasil – A ativista Greta Thunberg, 18 anos, participou, ontem, de sessão temática ambiental no Senado para debater os resultados do IPCC, sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, e fez duras críticas às autoridades brasileiras. Durante a reunião, Greta destacou a importância dos povos indígenas no país e o combate que precisa ser feito contra o aquecimento global. Greta afirmou que a forma como os temas têm sido conduzidos pelos líderes políticos brasileiros é “vergonhosa”. Ela disse considerar que o Brasil não começou a crise climática, mas “acrescentou muito combustível a esse incêndio”. “Não importa como nós vemos isso. O que os líderes do Brasil estão fazendo hoje é vergonhoso. É extremamente vergonhoso o que eles estão fazendo com os povos indígenas e com a natureza”, disse. Greta também destacou que o fracasso de outros governos com relação ao tema não é uma desculpa para que o país siga pelo mesmo rumo. “O que os líderes do mundo falharam não tem desculpa, o Brasil não tem desculpa para não assumir sua responsabilidade”, disse ela, por videoconferência.

OAB quer saber quem bancou manifestações – A Ordem dos Advogados do Brasil enviou ao presidente Jair Bolsonaro, na última quinta-feira, um requerimento de informações sobre os gastos públicos com os atos do dia 7 de Setembro. Assinado pelo presidente da entidade, Felipe Santa Cruz, o documento tem como base a Lei de Acesso à Informação. De acordo com a OAB, requerimentos semelhantes, com questionamentos específicos, serão encaminhados a outras autoridades que possam estar relacionadas à utilização de recursos públicos nas manifestações. Após discursos de Bolsonaro com tom de ameaça ao Judiciário e ao Legislativo, Santa Cruz afirmou em seu perfil no Twitter que o presidente “usou dinheiro público” para transformar o feriado em um “evento particular a serviço de seus interesses golpistas”.

Desolação no bolsonarismo – A mensagem à Nação do presidente Jair Bolsonaro, em que recua nos ataques que fez, no 7 de Setembro, contra o Supremo Tribunal Federal, deixou seus apoiadores radicais desolados. Em grupos bolsonaristas e nas redes sociais de lideranças ligadas a caminhoneiros e motociclistas, predomina um sentimento de abandono e de desconfiança. Um dos mais indignados com o recuo presidencial era o pastor Jackson Vilar, organizador de uma “motociata”, em São Paulo, em junho. Ontem, divulgou um vídeo em que chama o presidente de “calça frouxa” e anuncia rompimento com Bolsonaro. “Em Brasília, nós temos um calça frouxa, um traidor da pátria chamado Jair Messias Bolsonaro. Nós estamos vendo pessoas sendo presas no Brasil, patriotas dando a vida. Mas agora eu te digo: eu não acredito em Bolsonaro mais. Pode me chamar de traidor, do que você quiser. Todos foram enganados por esse traidor”, bradou. Nos grupos bolsonaristas, os apoiadores buscam explicar, por meio de textos apócrifos e vídeos caseiros, o que seria a “estratégia de Bolsonaro” com o recuo. Há quem acredite que o passo para trás tenha sido para “tomar impulso” e voltar a atacar o STF com mais força em breve. A falta de direção se deve, principalmente, porque os filhos do presidente estão calados desde a mensagem à Nação. O vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) continuam ativos nas redes sociais, mas não tocam no assunto.

PM desocupa Esplanada com retirada de radicais – Depois de seis dias acampados na Esplanada dos Ministérios, manifestantes e caminhoneiros que vieram a Brasília dar apoio aos atos convocados pelo presidente Jair Bolsonaro no 7 de Setembro foram retirados, ontem, do local pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). As autoridades negociavam a liberação das vias que dão acesso à Praça dos Três Poderes, desde o fim das manifestações, mas receberam um ultimato para que saíssem ou seriam removidos. Ainda assim, eles tentaram resistir e a polícia teve de agir com energia, o que gerou reclamações de que estavam sendo enxotados. O grupo afirmava que tinha autorização para ficar no local até dia 20, versão que foi contestada pela PMDF, que deixou claro ser ilegal a ocupação. O Correio presenciou o momento em que um homem foi detido, mas liberado logo em seguida. Ele estava exaltado e se recusava a deixar a Esplanada. O grupo havia furado um bloqueio da PMDF na noite de segunda-feira e afirmava que não deixaria a área. “O pessoal da organização nos informou que temos autorização para ficar aqui até o dia 20 de setembro. Essa é uma ocupação legal, é nossa terra, do povo brasileiro”, disse uma manifestante pró-governo que não quis se identificar.

Bolsonaristas em estado de alerta – Bolsonaristas que apoiaram a candidatura do presidente em 2018 como quem compra um apartamento “na planta” decidiram recolher as armas, mas não desarmaram totalmente os ânimos. Significa que não vão sair atirando no capitão tampouco bater palmas para o Supremo Tribunal Federal (STF). A ordem é esperar para ver se o ministro Alexandre de Moraes deixará de lado ações que essa turma considera abuso de poder, ou continuará no ataque a segmentos aliados ao presidente. Essa turma, em especial, o grupo que tem mandato, acredita que, apesar da nota presidencial com juras de respeito aos Poderes, a paz só virá se o STF também modular suas atitudes em relação aos aliados do presidente. O STF, até aqui, tem dito que fará o que Constituição mandar. Ou seja, aproveite, porque a alegria da paz promete durar pouco.

Bolsonaro age e tenta conter insatisfação de base após nota – Alvo das críticas de apoiadores por divulgar nota na qual indica recuo em relação às ameaças feitas ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados se mobilizaram para conter o desgaste em sua base. Bolsonaro e alguns de seus apoiadores mais próximos passaram o dia usando as redes sociais e dando declarações negando que tenha havido algum recuo político depois das manifestações antidemocráticas no 7 de Setembro. A narrativa difundida por canais e influenciadores bolsonaristas é a de que o presidente apenas adotou o que seria uma “estratégia de estadista”, moderando suas falas para não prejudicar a economia, mas que isso lhe garantiria, segundo esta versão, supostas vantagens na pressão contra o Supremo. A tática foi definida ainda na quinta-feira, em meio ao impacto político provocado pela divulgação da nota, quando seguidores do presidente o acusaram de traição. Ontem, o próprio Bolsonaro tentou amenizar as queixas afirmando que não tinha recuado. “Alguns querem que vá lá e degole todo mundo”, declarou o presidente em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. “O que acontece? Cada um fala o que quiser. O cara não lê a nota e reclama. Leia a nota, duas, três vezes. É bem curtinha, são dez pequenos itens. Entende. Se o dólar dispara, influencia o combustível”, disse ele. Bolsonaro também justificou a preocupação com a economia para explicar por que pediu para que caminhoneiros desobstruíssem as estradas. “Você quando quer matar um verme, às vezes mata a vaca. Até domingo, se ficar parado, a gente vai sentir, mas se passar disso, complica a economia do Brasil. Ninguém está recuando. Não pode ir para o tudo ou nada.”

Economistas avaliam como evitar uma estagflação – Com a economia estagnada e a inflação disparando, o fantasma da estagflação volta a ameaçar o dia a dia dos brasileiros. Causado por efeitos inerentes à pandemia de covid-19, que afetam todas as economias do mundo de forma inédita, o cenário é agravado no Brasil pela estiagem e pela crise política. Segundo economistas ouvidos pelo ‘Estadão’, para fugir da armadilha, no curto prazo, a elevação dos juros ajudará a arrefecer a inflação a partir de 2022, mas com uma freada na atividade econômica e o desemprego elevado como efeitos colaterais. No longo prazo, a saída passa por estabilizar a crise política e avançar na agenda de reformas, dizem os especialistas. Indicadores recentes já apontam para a combinação de estagnação econômica e inflação. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,1% no segundo trimestre, ante os três primeiros meses do ano. Projeções sugerem que o PIB ficará no zero a zero no terceiro trimestre. Ao mesmo tempo, o IPCA (o índice oficial de inflação, calculado pelo IBGE) acumulado em 12 meses chegou a 9,68% em agosto.

DEM cita fusão com PSL para atrair Alckmin – De saída do PSDB, o ex-governador Geraldo Alckmin recebeu na semana passada uma ligação do presidente nacional do DEM, ACM Neto, pedindo que ele espere o resultado de uma possível fusão do partido com o PSL antes de decidir sua futura filiação. Alckmin trabalha para ser candidato novamente ao Palácio dos Bandeirantes no ano que vem e vinha negociando a entrada no PSD de Gilberto Kassab. Depois de ensaiar uma aproximação com o MDB, o PSL reavaliou sua estratégia e avançou nas tratativas para fazer uma fusão com o DEM com o propósito de criar um “superpartido” para disputar as eleições de 2022. Liderado pelo deputado Luciano Bivar (PE), o PSL deixou de ser nanico e alcançou a segunda maior bancada da Câmara em 2018 (52 deputados federais) na esteira da eleição do presidente Jair Bolsonaro em 2018 – Bivar depois rompeu com o chefe do Executivo. Conforme noticiou o Estadão, já em outubro de 2019 a cúpula do DEM articulava com o grupo político ligado a Bivar uma possível fusão entre os dois partidos. Segundo aliados, após a conversa com ACM Neto, Alckmin ficou animado com a proposta, mas quer antes o aval de Kassab. “A criação desse novo partido deve ser considerada uma opção, mas isso não significa que vamos nos distanciar do PSD e do PSB”, disse o ex-deputado Floriano Pesaro, um dos coordenadores políticos do ex-governador.

‘Fogo amigo’ alveja Tarcísio em sua primeira grande crise no governo Bolsonaro – Tarcísio Freitas viveu ao longo desta semana seu momento mais tenso no governo. Até então queridinho de bolsonaristas e apontado como pragmático na entrega de resultados até por quem não simpatiza com o presidente, o ministro da Infraestrutura virou alvo das redes ao se ver envolvido em um pepino da seara ideológica, na qual a tecnicidade tem pouca serventia. De mãos atadas, Tarcísio foi alvejado pelo fogo amigo dos irmãos caminhoneiros bolsonaristas numa crise em que, para integrantes do governo, só era possível “enxugar gelo”. Foi o preço por ter subido no palanque incendiário de Bolsonaro na Av. Paulista. A avaliação no Planalto é de que o clima pesou sobretudo diante do desencontro de versões sobre o áudio de Bolsonaro pedindo o fim da greve. Enquanto Tarcísio aparecia em vídeo confirmando a autenticidade do áudio, o deputado aliado Otoni de Paula (PSC-RJ) afirmava a caminhoneiros que era falso. O ministro se sentiu contrariado. Nas redes, bolsonaristas ficaram sem norte por horas: replicar a fala do deputado seria contrariar o presidente e o ministro; endossar o discurso de Bolsonaro seria contrariar os caminhoneiros, que pediam o mesmo que as ruas na terça, 7. A principal dificuldade foi a difusão de pautas dos caminhoneiros. Muitas delas, aliás, não exatamente relacionadas às questões das estradas, como a “denúncia” da tal “ditadura do STF”. Nada disso aconteceu em 2018. A falta de materialidade na demanda dos caminhoneiros fez o governo correr para se prevenir em mais frentes enquanto Tarcísio tentava driblar os problemas. O chamado a Temer foi uma delas, mas não só. O Ministério da Justiça chegou a notificar representantes de distribuidores e revendedores de combustíveis sobre possíveis práticas abusivas e risco de desabastecimento nos postos durante a paralisação. Membros do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor receberam documento com orientações sobre como proceder com alta nos preços sem justa causa.

Moraes recebe ministro da Justiça por quatro horas – Um dia depois de Bolsonaro publicar uma nota com recuo dos ataques que proferiu no 7 de setembro, um nome de peso do governo se reuniu com o principal alvo do presidente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O chefe da pasta da Justiça, Anderson Torres, passou mais de quatro horas em um encontro a sós com o magistrado na casa dele, em São Paulo. Torres saiu otimista da conversa, que descreveu como “cordial e respeitosa”. A interlocutores disse que que o futuro das relações entre os poderes será “o melhor possível”. A agenda foi uma inciativa do ministro da Justiça com o aval de Bolsonaro.

Essa não foi a única agenda de bombeiro de Torres na capital paulista. Antes de conversa com Moraes, o ministro almoçou com a cúpula da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Lá, trabalhou para distensionar o clima após o desentendimento da entidade com bancos públicos por causa de um manifesto em defesa da democracia. Torres também costurou com o presidente da Febraban, Isaac Sidney, a criação de uma estratégia nacional de combate aos crimes cibernéticos.

error: