Portos : o fator Funaro chega a Temer – Claudio Tognolli

O doleiro e delator da Lava Jato Lúcio Funaro deverá ser ouvido no âmbito do Inquérito do Portos, que apura se Michel Temer recebeu propina de empresas do setor portuário por meio da edição do Decreto dos Portos, em maio do ano passado. Segundo o delegado Cleyber Malta Lopes, é “explorar com melhores detalhes as novas informações disponíveis, relacionados aos fatos investigados, a partir dos termos que constam” no conteúdo da delação do operador.

Lopes pediu a prorrogação do inquérito por mais 60 dias na última quinta-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro relator do caso na Corte, Luís Roberto Barroso, autorizou que a Polícia Federal realizasse novas diligências, mas não se manifestou sobre a prorrogação, até que a Procuradoria- Geral da República se manifeste sobre o assunto.

Em sua delação, Funaro citou que Temer possui negócios com a empresa Rodrimar e teria influenciado diretamente a aprovação da MP 595/13. A MP dos Portos foi aprovada em maio de 2013. Além da Rodrimar, Funaro também citou o Grupo Libra como responsável por pagar propinas ao grupo político ligado a Temer.

Veja depoimento já prestado por Funaro, em que Temer é citado:

COLABORADOR esclarece que conheceu Joesley Batista em 2011; Que no ano de 2015, a partir do mês de maio do mesmo ano, começou haver uma preocupação por parte do COLABORADOR e de Joesley a respeito do bloqueio das contas de Eduardo Cunha na Suíça; Que esse fato poderia fazer com que o Deputado Eduardo Cunha viesse a ser cassado ou a ter problemas no seu âmbito de influência política, fazendo com que o projeto tanto do COLABORADOR quanto de Joeslye pudesse ficar comprometido, pois a partir de então as nomeações de cargos no governo federal e as definições de pauta para Câmara dos Deputados deixaria de estar sob o comando de Cunha. QUE a preocupação era tão visível no COLABORADOR quanto em Joesley; Que, por ocasião do acompanhamento do processo junto às autoridades suíças, o COLABORADOR esteve reunido em Genebra com o advogado de Eduardo Cunha; Que esse advogado foi indicado a Cunha pelo próprio COLABORADOR; Que o nome do advogado é “Didier”; Que esse advogado prestou depoimento no Conselho de Ética a pedido de Cunha; Que o COLABORADOR pagou parte dos honorários desse advogado, não sabendo quem pagou a outra parte; Que Cunha outorgou a procuração a esse advogado na cidade de Cascais, Portugal; Que o COLABORADOR também se reuniu com esse advogado na Suíça para se inteirar da situação; Que a situação não era boa porque os documentos apresentados pelo advogado eram muito ruins, especialmente porque o procurador Stephen Lenz detinha vários documentos que indicavam que iriam transferir o processo de Cunha para o Brasil;

 

Que nessa reunião com Diddier na Suíça também participou o sobrinho de João Augusto Heniques, operador de Cunha, o ex-Fernando Diniz e outros; Que a conta de Cunha foi “contaminada” por conta de transferências feitas por Henriques e por essa razão o sobrinho dele estava na reunião; Que o COLABORADOR passava todas essas informações para Joesley; Que Francisco de Assis, advogado do grupo JBS, certa vez indagou ao COLABORADOR se não queria conhecer um advogado que prestava serviços na Suíça para o grupo e que poderia ajudar na situação de Cunha; Que o nome desse advogado era Lucio Velo. QUE houve um almoço com o intuito de Francisco apresentar o COLABORADOR ao advogado Lucio Velo; Que nesse almoço também estava presente o advogado tributarista do grupo , de nome Bichara; Que esse almoço foi no restaurante Varanda, no shopping JK; Que no mês de outubro de 2015 o COLABORADOR começou a perceber que poderia ser alvo de investigações ou medidas judiciais; Que nessa época a Receita Federal começou a intimar o COLABORADOR para prestar uma série de informações; Que no dia 11 dezembro de 2015 o Joesley compareceu à casa do COLABORADOR acompanhado da esposa, ocasião em que trataram do crédito da compra da Alpargatas; Que nessa ocasião, em razão das preocupações acima relatadas, o COLABORADOR combinou com Joesley que a comissão devida ao COLABORADOR em razão da operação da Alpargatas e outros valores pendentes, ficaria com o próprio Joesley a fim de que o crédito fosse utilizado para amparar a família do COLABORADOR na eventualidade de ocorrer a prisão do COLABORADOR; Que no dia 15 de dezembro de 2015 o COLABORADOR foi alvo de busca e apreensão na operação Catilinárias; Que ao procurar um advogado foi-lhe indicado o advogado Antônio Mariz Oliveira;

 

Que Joesley chamou o COLABORADOR no dia 18 de dezembro de 2015 para ir a sua casa, ocasião em que foi-lhe indagado se havia sido apreendido alguma coisa comprometedora em seu local de trabalho; Que nessa ocasião Joesely já estava de posse de cópia da Ação Cautelar 4044 (Operação Catilinárias); Que Joesley falou que quem lhe passou cópia dessa ação foi o advogado José Gerardo Grossi e que o conhecia em razão de uma venda de uma fazenda; Que Joesley nessa ocasião falou “vamos tocando juntos”, “vamos amarrar as pontas”, ou seja, Joesley estava combinando que combinassem as versões; Que nesta mesma reunião do dia 18 de dezembro de 2015 Joesley e seu advogado Francisco propuseram ao COLABORADOR fazer um contrato guarda-chuva a fim de dar aparência de legalidade aos negócios já efetuados entre o COLABORADOR e Joesley; Que esse contrato tinha função de dar dupla tranquilidade, ao grupo J&F e origem para os pagamentos efetuados as empresas do declarante ou de sua responsabilidade e de dar tranquilidade ao declarante de ter seus créditos reconhecidos pelo grupo J&F; Que essas conversas reforçaram o pacto que o COLABORADOR e o Joesley havia fechado no dia 11 de dezembro de 2015. QUE Joesley e Francisco chamaram Natalino Bertin para também alinhar contratos e discursos; Que no mês de fevereiro ou março de 2016 o COLABORADOR compareceu ao escritório de seu advogado Antônio Mariz, acompanhado de Francisco de Assis, advogado de Joesley; Que o objeto dessa reunião era deixar Francisco a par da estratégia de defesa, demonstrando assim que as partes estavam alinhadas; Que em caso de alguma discordância por parte de Francisco ou Joesley com relação à condução da defesa do COLABORADOR, Francisco e Joesley teriam a chance de explicitar ao COLABORADOR de imediato qual seria o problema; Que melhor explicando, Joesley queria acompanhar de perto, minuciosamente, qual seria a linha da defesa técnica do COLABORADOR, podendo inclusive sugerir estratégias; Que, em outra ocasião, entre fevereiro e junho de 2016, antes do COLABORADOR ser preso, Joesley chamou o COLABORADOR novamente em sua casa para conversarem sobre a situação de Eduardo Cunha; Que o COLABORADOR disse a Joesley que Cunha “estava se segurando”; Que nessa reunião Joesley disse que, caso acontecesse algo com Cunha, o COLABORADOR deveria “sair na frente”; Que “sair na frente” significa buscar fazer uma colaboração premiada, resguardando Joesley; Que Joesley tinha muito preocupação no sentido de que o COLABORADOR pudesse se juntar a Cunha e ambos delatassem Joesley e seus parceiros políticos, por isso queria garantir que o COLABORADOR permanecesse fiel; Que Joesley tinha medo da delação do COLABORADOR e da de Cunha;

 

Que no primeiro semestre de 2016 o advogado Francisco de Assim foi por várias vezes à casa do COLABORADOR e ao seu escritório par saber como andava a situação processual do COLABORADOR; Que em uma dessas ocasiões encontrou com o irmão do COLABORADOR, de nome Dante; Que o COLABORADOR nessa ocasião afirmou na frente dos dois que, qualquer necessidade de dinheiro, caso acontecesse algo com o COLABORADOR, deveria ser suprida pelo grupo J&F, através de contato com Francisco ou Joesley; Que, com relação ao contrato guarda-chuva acima referido, o COLABORADOR deseja informar que quando assinaram o contrato, o assinaram com data retroativa a 2012 e que assinaram o contrato em duas vias, tiraram cópias, e destruindo o original. QUE esse contrato foi assinado em dezembro de 2015 ou janeiro de 2016; Que a intenção era que não houvesse originais para “não dar perícia”; Que, após a prisão do COLABORADOR, conforme estabelecido anteriormente, Dante procurou Francisco para receber parte do dinheiro devido ao COLABORADOR; Que Francisco afirmou que precisaria de alguns dias para que pudesse conseguir o dinheiro em espécie; Que foram feitos dois pagamentos a Dante, no valor de R$ 600.000,00 cada um, nos meses de julho e agosto, e para Roberta, irmã do COLABORADOR, foram feitos os seguintes pagamentos: um pagamento no valor de R$ 600.000,00; no mês de setembro e mais sete pagamentos de R$ 400.000,00, nos meses de outubro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril e maio, este último antecipado para final de abril. QUE em virtude desses pagamentos o COLABORADOR estava tranquilo no sentido de que Joesley estava cumprindo o pacto feito entre os dois; Que a certeza de que Joesley iria honrar esses compromissos e manter a família do depoe COLABORADOR nte segura financeiramente trazia tranquilidade ao COLABORADOR; Que, por outro lado, Joesley também se sentia seguro no sentido de que o COLABORADOR não iria tomar nenhuma medida contra os interesse dele e seu grupo; Que o COLABORADOR sabia que Joesley monitorava o ânimo do COLABORADOR em cumprir o pacto de silêncio e fidelidade através de contatos com a esposa do COLABORADOR, que é amiga da esposa de Joesley; Que esse monitoramento do ânimo do COLABORADOR também era feito por outras pessoas da família de Joesley em contatos com a família do COLABORADOR; Que no caso da irmã do COLABORADOR esse monitoramento era feito pelo advogado Francisco de Assis, quando do pagamento dos recursos; Que não passava pela cabeça do COLABORADOR que Joesley pudesse quebrar o pacto e delatar o COLABORADOR; Que essa sensação de segurança existia por conta dos pagamentos regulares feitos e por conta dos contatos feitos entre as duas famílias. QUE o declarante também enviava mensagens a Joesley no sentido de que esse ficasse seguro de que o COLABORADOR não delataria o grupo; Que em uma dessa situações o COLABORADOR enviou, por meio de sua irmã, uma mensagem para Francisco dizendo que “gente frouxa é uma merda”; Que essa frase era uma frase frequente na interlocução entre o COLABORADOR e Francisco e que, portanto, seria uma maneira fácil de Francisco compreender que realmente tratava-se de uma instrução do COLABORADOR para mudar a pessoa a quem era entregue os valores mensais; Que, explicando melhor, o COLABORADOR estava avalizando a mudança do interlocutor, do Dante para Roberta, e que os pagamentos poderiam ser pagos a esta;

 

Que também houve uma situação em que o COLABORADOR foi informado por sua advogada que sua irmã Roberta confirmou que levou a Francisco outro recado, dentro de uma caneta Bic, no intuito de tranquilizar Joesley e Francisco quanto ao compromisso firmado entre o COLABORADOR e Joesley; Que, caso os pagamentos fossem suspensos, o COLABORADOR iria “estourar ele”, ou seja, iria executar títulos de crédito contra ele; Que certamente o ânimo do COLABORADOR em delatar Joesley também aumentaria significantemente; Que, contudo, a opção da delação incriminaria não somente Joesley mas também uma série de pessoas, dentre elas Geddel Vieria Lima, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Gabriel Chalita, Henrique Constantino e Michel Temer, de forma tangencial, entre outros; Que, com a certeza do rompimento do pacto por parte de Joesley, o COLABORADOR decidiu procurar o Ministério Público para fazer a colaboração premiada. QUE, no final de junho de 2016, o COLABORADOR estava em tratativas com o escritório Figueiredo Basto e, sem querer, acabou enviando a proposta de honorários para seu advogado à época, Dr. Antonio Cláudio Mariz de Oliveira; Que, logo após ao envio do arquivo por email, seu telefone deu sinal de recebimento de mensagem por meio do aplicativo Wicker, o qual era usado pelo COLABORADOR e várias pessoas para tratar de coisas sigilosas; Que nessa ocasião tratava-se de uma mensagem de Geddel Vieira Lima; Que Geddel perguntou se o COLABORADOR estava fazendo delação; Que COLABORADOR negou a informação e perguntou a razão da indagação;

Que Geddel afirmou que a notícia havia chegado no Palácio do Planalto; Que, diante disso, o COLABORADOR percebeu que havia mandado a mensagem contendo a proposta de honorários do escritório Figueiredo Basto, escritório especializado em colaboração premiada, de forma equivocada para o advogado Mariz. QUE o COLABORADOR percebeu que a informação havia sido passada por Mariz a Michel Temer e que Temer prontamente acionou Geddel para sondar o COLABORADOR; Que o COLABORADOR ficou com muita raiva e ligou para Mariz xingando o advogado de “vagabundo” por ter quebrado o sigilo profissional; Que essa informação só poderia ter chegado a Temer de duas maneiras, uma diretamente por contato entre o advogado Mariz e Michel Temer, também seu cliente, e posteriormente passada a Geddel ou por intermédio de José Yunes e Mariz de Oliveira, cuja prima é casada com Yunes; Que nessa época José Yunes também trabalhava no Planalto como assessor de Temer; Que o COLABORADOR não conversava com Yunes ou Temer diretamente, daí a necessidade de acionar Geddel; Que, após a desconstituição de Mariz de sua defesa, o COLABORADOR continuou sendo monitorado quanto a possibilidade de fazer colaboração; Que, esclarecendo essa afirmação, explica que em razão do conflito com Mariz procurou o advogado Eduardo Ferrão, contudo esse não poderia atuar na lavajato; Que então pediu que Ferrão indicasse um outro advogado, sendo indicado o advogado Daniel Gerber; Que Gerber também passava informações para Joesley e Francisco sobre a estratégia de defesa do COLABORADOR. QUE Daniel Gerber dizia que conseguiria a soltura do COLABORADOR na audiência de custódia e que por isso não haveria necessidade de se fazer colaboração;

 

Que, como o COLABORADOR não foi solto, ficou nervoso e falou com Gerber no dia da audiência de custódia “fala pro teu chefe (Ferrão), pro Padilha (Eliseu) que eu vou arrebentar com todo mundo”; Que nesse dia Gerber jã não era mais advogado do COLABORADOR, porém compareceu ao ato processual; Que Gerber afirmou que, ouviu do advogado Ferrão, que o COLABORADOR não foi solto porque o COLABORADOR contratou outro escritório para acompanhar a audiência; Que, questionado qual a relação de Eliseu Padilha com o fato explicou que Eliseu Padilha é cliente e amigo íntimo de Ferrão. QUE, por ocasião do vazamento do boato de que o COLABORADOR faria colaboração, Eliseu Padilha também foi correndo falar com Gerber para saber se o COLABORADOR estava fazendo de fato delação; Que, em razão do contato de Padilha, Gerber foi ao encontro do COLABORADOR na Papuda indagar sobre o tema; Que esse evento ocorreu antes da audiência de custódia. QUE também era monitorado através de um advogado de Brasília chamado MARCOS JOAQUIM, ligado a EDUARDO CUNHA, o qual ligava para a esposa do COLABORADOR e perguntava sobre intenções de delação e sua estratégia de defesa. QUE quando de sua prisão, JOESLEY se aproximou de GEDDEL e enviava recados para políticos e membros do Governo de que estava “cuidando do LUCIO”. Que JOESLEY procurou MICHEL TEMER e outros membros do PMDB e avisou que a situação estava sob o controle, requisitando favores e boa vontade do GOVERNO em troca disso. QUE efetivamente não pagou os valores integrais que devia ao COLABORADOR. Que no dia em que sua irmã foi presa, o GOVERNO entrou em pânico, e GEDDEL começou a ligar a esposa do COLABORADOR, que ligou três vezes naquele dia, e continuou as investidas com a esposa do COLABORADOR, conforme relatado nos documentos em anexo. QUE o COLABORADOR decidiu colaborar após a prisão de sua irmã.
Elementos comprobatórios: 1. Troca de mensagens com GEDDEL; 2. Registros telefônicos com GEDDEL; 3. E-mail trocados com advogados; 4. Registros de entrada da PAPUDA; 5. Depoimentos prestados a Policia Federal de Brasília; 6. Telefone de RAQUEL PITTA, o qual contem mensagens e ligações de GEDDEL.

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