Por que a pandemia atinge a Espanha com tanta força | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

Mulher passa pelo Parque de Roma, em Madri, onde foram colocadas bandeiras em homenagem aos mortos por covid-19 na EspanhaBandeiras em homenagem aos mortos por covid-19 no Parque de Roma, em Madri

O chileno Pablo Cerda, de 40 anos, ficou surpreso ao deixar Santiago para estudar em Madri. “As pessoas vivem em um espaço muito apertado aqui”, afirma. Depois de procurar um apartamento por conta própria, o cineasta percebeu que a situação se devia principalmente aos valores altos dos aluguéis, mas também ao tipo de construção: muitos quartos pequenos, alguns sem janelas, distribuídos por muitos andares. Ele também notou condições de trabalho muitas vezes precárias e que muitas pessoas trabalhavam sem ter autorização de residência no país.

De acordo com o Eurostat, o órgão de estatísticas da União Europeia, o salário líquido anual de uma família espanhola com dois filhos é, em média, mais de 20 mil euros inferior ao de uma família alemã. No entanto, um estudo realizado pela revista especializada em mercado imobiliário Magazyne mostra que o aluguel de um apartamento do tamanho adequado na Espanha é, em média, apenas um pouco mais barato do que na Alemanha.

Quando Cerda chegou a Madri, em setembro de 2019, o aluguel mensal de uma quitinete no centro da capital espanhola custava entre 650 e 900 euros por mês. O preço não mudou muito, mesmo com a situação econômica atual. Cerda morou inicialmente em um bairro operário de Madri, onde os preços também haviam subido 21% nos últimos quatro anos, de acordo com o portal imobiliário Fotocasa. Ele passou o lockdown, de março a maio, em um quarto que, apesar de ter apenas seis metros quadrados, custa 350 euros por mês.

Quando morar junto se torna perigoso

“Essas condições de vida mudam as pessoas, principalmente em tempos de pandemia”, acredita Cerda. As restrições eram – e agora estão novamente – particularmente fortes na Espanha. O número de infecções permanece alto, já que as áreas metropolitanas se revelam disseminadoras do vírus.

Isso porque poucas pessoas ficam em casa diante de seus computadores, mas trabalharam em hospitais, com cuidados a idosos, em restaurantes ou como faxineiras. Muitos trabalham como informais e não podem se dar ao luxo de testar positivo e ficar em um isolamento adequado em apartamentos compartilhados.

A Catalunha já introduziu uma regra para tentar resolver o problema de moradia: há alguns anos, Barcelona, que recebeu cerca de 30 milhões de visitantes estrangeiros no ano passado, reduziu drasticamente – assim como fez Berlim – o número de apartamentos turísticos para liberar espaço para moradias. Os aumentos do valor do aluguel também foram limitados.

O governo regional, no entanto, diferencia os investidores institucionais dos privados e não usa o teto de aluguel em todas as cidades. Porém, a regra é particularmente importante em Barcelona, onde o problema da habitação também se multiplicou durante a pandemia, acredita o holandês Jasper van Dorrestein, que vive na cidade.

“Não são apenas os aluguéis relativamente altos, mas também as condições exigidas por muitos locatários, como vários meses adiantados de aluguel como caução, que você não receberá de volta quando quiser se mudar”, afirma.

O governo central também mudou isso no ano passado e reduziu os encargos financeiros para os inquilinos, mas ainda existem muitos contratos de locação ilegais em que são aplicadas regras diferentes.

No entanto, nada disso está ajudando no combate ao novo coronavírus: a Catalunha implementou novas medidas na semana passada, incluindo as des que hotéis não podem receber hóspedes e o fechamento de bares e restaurantes por 15 dias.

Erro no sistema

“Há simplesmente um problema em nosso sistema”, afirma Pedro Abella, especialista em mercado imobiliário da Universidade IE, em Madri. Ele frisa que os terrenos urbanos se tornaram muito caros nas últimas décadas. “É por isso que mais moradias sociais deveriam ser construídas em terrenos públicos.”

De acordo com diferentes estimativas, no entanto, vários milhões de apartamentos na Espanha estão vazios ou não estão disponíveis para venda. Isso também inclui os tomados por bancos por causa da crise econômica anterior – e provavelmente outros imóveis serão adicionados nestes próximos meses.

Custo de vida na Espanha

Esses apartamentos vazios estão sendo ocupados cada vez com mais frequência, porque os estrangeiros sem contrato de trabalho ou espanhóis de baixa renda não veem outro jeito de conseguir uma moradia. Há ainda centenas de milhares de estrangeiros que não possuem uma autorização de residência válida.

“Ao alugar, você sempre tem que ter alguém que possua um contrato de trabalho. Ele terá então que certificar que receberá o aluguel dos outros”, comenta a búlgara Ivanka Ivanova.

Densidade populacional

A esse cenário se soma o fato de que o custo de vida na Espanha é apenas ligeiramente inferior ao da Alemanha, de acordo com a Eurostat. Nas cidades, em particular, há uma lacuna entre o custo de vida e os salários. “Madri é cara em comparação a metrópoles como Paris ou Moscou”, afirma Cerda, que já trabalhou e viveu em muitas partes do mundo.

A Espanha é mais segura do que a maioria dos outras nações onde ele já esteve, mas ele vê aqui também moradores de rua, mendigos e muitos prédios altos e feios construídos ao lado de hospitais enormes. Isso apsear de a Espanha ter uma das densidades populacionais mais baixas da Europa.

Uma solução, aponta Abella, seria expandir horizontalmente em vez de verticalmente. “Especialmente porque vemos um declínio populacional em áreas rurais.”

O compositor espanhol de músicas para filmes Manuel Villalta afirma haver uma razão cultural para o fato de as pessoas se amontoarem em prédios altos em áreas comerciais. “Nós concentramos tudo e amamos aglomerações. Possuir uma casa, como eu tenho, é uma exceção para um espanhol. Agora, na pandemia, no entanto, estou feliz por morar sozinho no campo”, diz.

No entanto, a maioria dos cerca de 300 leitos hospitalares para cada 100 mil habitantes na Espanha – na Alemanha são 800 – estão em Madri, Barcelona, Bilbao, Valência e Sevilha, e não em Sierra, onde Villalta vive. “Pelo menos temos uma vantagem aqui em Madri”, brinca Cerda.

Por outro lado, o risco de infecção é particularmente alto na capital espanhola. Um círculo vicioso.

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