Pedro Parente: a Maria Antonieta brasileira, por Marcio Sergio Christino – Claudio Tognolli

Querem diesel? Deem gasolina azul! Ficou famoso o episódio no início da revolução francesa. O povo faminto teria se aglomerado defronte a Versailles onde a rainha, ao perguntar a razão do tumulto, teve como resposta “O povo quer pão” ao que respondeu “Então lhes dê brioches”. O episódio na verdade nunca ocorreu, mas é fato que Maria Antonieta foi executada pela Revolução após um infamante julgamento. Seus filhos foram maltratados em cativeiro até a morte. Foi outra época, onde, de qualquer forma, a sociedade, ou o povo, como queiram, estavam com os nervos à flor da pele. Mas já não se fazem revoluções como antigamente (não sou saudosista, agradeço a Deus), mas se uma coisa não que não muda nunca é a reação do povo, ou da sociedade, como queiram, quando chega a um beco sem saída. No Brasil, e no mundo hoje, o combustível é o sangue da economia, as ruas veias, as estradas artérias, os bloqueios são conhecidos como causas de mortalidade fulminante, enfartes e AVCs são as maiores causas de morte nos seres humanos.

A visão econômica hoje leva em consideração apenas o lucro e o mercado nauseando-se com qualquer cogitação social ou popular. Daí porque transformar a Petrobrás em uma casa de câmbio (expressão do Senador Randolph Rodrigues) não deveria espantar ninguém. É claro que o discurso da eficiência econômica emergiu forte. É preciso repassar os custos da empresa para que pudesse gerar lucro, assim, quando o preço do petróleo aumenta, o aumento de seus derivados é automático. Só não disseram que neste aumento se inclui também o custo financeiro da moeda também.

Só não disseram da mesma forma que a direção é uma só: para cima, pois mesmo que os custos diminuam os preços não o acompanhem, exceto cosmeticamente. Assim, o custo é repassado inteiramente para a sociedade, ou povo se preferirem, que não tem seus rendimentos corrigidos quer pelo custo de uma “commoditie”, quer pelo sistema financeiro. Isto, é claro, porque desequilibraria o mercado. Simples assim. Sociedade sem combustível é corpo sem sangue, o enfarte político começou a dar sinais, ninguém deu bola, não havia precedente tão grave. Deu no que deu.

A sociedade reagiu contra a ideia de lucro e mercado, os caminhoneiros foram reconhecidos, e embora sofrendo os efeitos deletérios houve o apoio geral. Como existe governo sem empresa, mas não governo sem povo, e percebendo que o fenômeno Maria Antonieta se aproximava, o governo cedeu. Pedro Parente virou a Maria Antonieta brasileira, fazer o que ele fazia não exigia destreza e nem habilidade, qualquer empresa capaz de repassar totalmente seus custos e podendo cobrar o quanto quiser para se equilibrar será sempre bem sucedida. Ninguém precisa de grande formação para isto.

Mas o que assombra mais, o que assusta e ninguém se deu conta, é que durante a greve o preço da gasolina aumentou e pior, não dá sinais de baixar. Um aumento significativo, alto, que foi incorporado sem que ninguém se desse conta. Assistimos a tudo passivamente, vemos a mão direita retirando o que a mão esquerda deu. Uma coisa, porém, mudou, pela primeira vez uma reação social intensa conseguiu brecar a escalada da liturgia do mercado. A mobilização social atingiu o Brasil inteiro e agora o ideal mercado e eficiência financeira a qualquer custo encontrou um limite. Há esperança. Temos eleições pela frente. O processo democrático não se alterou. A sociedade mostrou seu poder de reação. Devemos participar desta solução e termos a consciência de que o MP não está aparteado do meio social. Estejamos atentos para que não sejamos ultrapassados pela história, senão, é claro, ficaremos para trás.

Marcio Sergio Christino é Procurador de Justiça em São Paulo

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