Pandemia ressurge de vez na Europa | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

Cena rara: apenas dois turistas diante da Monalisa, no Museu do LouvreCena rara: apenas dois turistas diante da Monalisa, no Museu do Louvre

Com os números de novas infecções atingindo níveis recordes diários em vários países, como Alemanha, França, Itália e Polônia, aumentaram nesta semana os temores de que a Europa esteja ficando sem tempo para controlar a nova onda de casos de coronavírus.

Muitos governos impuseram medidas mais rígidas de segurança. A França estabeleceu um toque de recolher às 21h em muitas de suas maiores cidades. No Reino Unido, o governo lançou um sistema de três níveis de alerta para categorizar quais restrições são necessárias nas cidades de acordo com os índices de contaminação. Londres, por exemplo, está em alerta alto de risco (nível 2), o que, entre outras coisas, restringe reuniões a seis pessoas e proíbe o encontro com pessoas de fora de seu domicílio em bares e restaurantes.

Com o início do outono no Hemisfério Norte, surgiram dezenas de milhares de novos casos confirmados de infecções por coronavírus em toda a Europa nas últimas semanas. A alta na taxa de contaminação levou as autoridades a retomar muitas das medidas que chegaram a ser suspensas durante os meses mais quentes do verão. República Tcheca, Bélgica, Holanda, Espanha, França e Reino Unido estão entre os países que causam particular preocupação.

O chefe do departamento europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS), Hans Kluge, pediu aos governos que sejam rigorosos no controle do Sars-Cov-2. Segundo Kluge, a maior parte da disseminação ocorre em residências, espaços internos e comunidades que não cumprem as medidas de proteção.

“Essas medidas têm como objetivo nos manter à frente da curva e nivelar seu curso”, disse Kluge. “Depende, portanto, de as aceitarmos enquanto ainda são relativamente fáceis de seguir em vez de seguir o caminho da severidade.”

Cartaz numa rua de Hamburgo avisa aos pedestres do uso obrigatório de máscara entre 12 e 22 horas.Cartaz numa movimentada rua de Hamburgo avisa aos pedestres do uso obrigatório de máscara entre 12 e 22 horas

Europa soma mais mortes que nos EUA

As nações europeias somam quase 240 mil mortes ligadas à covid-19 – mais do que as cerca de 217 mil mortes registradas nos EUA, segundo os dados divulgados pela Universidade John Hopkins. No entanto, a instituição americana têm recebido críticas de especialistas por subestimar o verdadeiro número de casos e mortes relacionados à pandemia nos EUA.

Na quinta-feira, os mercados financeiros da Europa fecharam em quedas acentuadas – um reflexo dos temores de que as novas medidas restritivas afetem a economia da região e suspenda a recente recuperação de sua recessão mais aguda da história moderna. Os principais índices de bolsas de valores fecharam em queda de mais de 2% na Europa.

Embora a Alemanha ainda esteja em boa forma econômica, os alarmes já foram acionados no país economicamente mais poderoso da União Europeia. Na quinta-feira, a agência governamental para o controle e prevenção de doenças infecciosas da Alemanha, o Instituto Robert Koch (RKI), relatou que pela primeira vez desde o início da pandemia a Alemanha superou a barreira dos 7 mil casos. A quantidade de testes, porém, vem também aumentado significativamente.

A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, e os governadores dos 16 estados alemães – que são responsáveis por impor e suspender as restrições sanitárias – concordaram na quarta-feira em endurecer as regras de uso de máscara, estipular um fechamento mais cedo de bares e limitar o número de pessoas que podem se reunir em áreas onde as taxas de infecção estejam altas.

Mas tais decisões “provavelmente não serão suficientes”, segundo admitiu o gabinete do governo.

“Devemos frear este crescimento exponencial, quanto mais rápido melhor”, disse Merkel. Ela apontou que os países vizinhos estão tendo que tomar “medidas muito drásticas”.

Nesta semana, a Holanda determinou o fechamento de bares e restaurantes, e a República Tcheca e a Irlanda fecharam escolas. O Ministério da Saúde tcheco comunicou o registro de mais de 9.500 novos casos de infecção por coronavírus na quarta-feira, mais de 900 casos a mais do que o recorde anterior.

No dia seguinte, o governo tcheco anunciou que os militares instalariam um hospital de campanha no centro de exposições de Praga. “Temos que criar capacidade extra o mais rápido possível”, disse o primeiro-ministro tcheco, Andrej Babis. “Não temos tempo. O prognóstico não é bom.”

“Prosperidade da Europa está em jogo” 

Markus Söder, governador da Baviera, estado alemão que faz fronteira com a República Tcheca, disse que o governo bávaro recebeu um pedido de ajuda para tratar pacientes tchecos com covid-19. Söder argumentou que “tudo o que vier depois custará mais” e enfatizou a importância de se agir agora. “Vou mesmo ir mais longe ao dizer que a prosperidade da Europa está em jogo”, disse.

Na França, que na quinta-feira superou a marca de 30 mil casos diários, o presidente Emmanuel Macron colocou 18 milhões de residentes em nove regiões, incluindo Paris, sob um toque de recolher às 21h deste sábado.

O governo francês destacou 12 mil policiais para fazer cumprir o toque de recolher e gastará um adicional de 1 bilhão de euros em ajuda financeira para as empresas afetadas pelas novas restrições. “Nossos compatriotas pensaram que esta crise de saúde havia ficado para trás”, disse o primeiro-ministro francês, Jean Castex. “Mas não podemos viver normalmente enquanto o vírus ainda estiver por aqui.”

No momento em que o governo de Macron enfrenta o ressurgimento das infecções em grande escala, a polícia francesa vasculhou na quinta-feira as casas de um ex-primeiro-ministro, do atual e ex-ministro da Saúde e de outras autoridades do alto escalão em uma investigação sobre a resposta do governo à pandemia. A ação policial foi desencadeada por dezenas de reclamações nos últimos meses, principalmente por falta de máscaras e de outros equipamentos sanitários essenciais disponíveis.

Aurélien Rousseau, diretor da agência de saúde pública da região de Paris, afirmou que quase metade dos leitos de terapia intensiva da região está ocupada por pacientes com covid-19, e que outros leitos de hospitais também estão sendo ocupados rapidamente.

“É uma espécie de onda de primavera que afeta todos simultaneamente”, disse Rousseau. “Tínhamos um ponto cego em nossas políticas de rastreamento. Eram a esfera privada, eventos festivos.”

Bares e restaurantes fechados na praça Rembrandt, em AmsterdãRestaurantes e bares na praça Rembrandt, em Amsterdã, fechados devido às restrições adotadas pelo governo holandês

O governo britânico realocou na quinta-feira Londres e outras sete áreas para o segundo maior nível de risco – numa escala de 1 a 3. A medida significa que milhões de britânicos estão impedidos de se encontrar com pessoas fora de seus lares e serão solicitados a minimizar viagens.

“Sei que essas restrições são difíceis para as pessoas. Eu odeio o fato de termos que implementá-las”, disse o secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, na quinta-feira. “Mas é essencial que sejam implementados para manter as pessoas seguras e prevenir maiores danos econômicos no futuro.”

A Itália registrou na quarta-feira seu maior salto de infecções num único dia desde o início da pandemia. As autoridades contabilizaram mais de 7.300 novos casos em meio a um ressurgimento que está sobrecarregando o sistema de rastreamento de contatos do país.

A Polônia registrou um recorde de quase nove mil novos casos na quinta-feira. Desde sábado, o uso de máscaras é obrigatório ao ar livre e foram impostos limites rígidos ao tamanho das reuniões de pessoas. Eslováquia, Eslovênia, Croácia e Bósnia também relataram números recordes de contaminações diárias.

Portugal decidiu limitar as reuniões sociais a um máximo de cinco pessoas, ao mesmo tempo em que o governo enviou uma proposta para tornar obrigatório o uso de máscaras em público e para impor multas a quem desrespeitar as regras. A proposta ainda terá de ser aprovada pelo Parlamento e promulgada pelo presidente português.

Até mesmo a Suécia, que escolheu uma abordagem bastante questionada de manter abertos diversos setores da sociedade, levantou a perspectiva de restrições mais severas. “Muitos não seguem as regas”, disse o primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven. “Se não houver correção, devemos tomar medidas mais duras.” Ele não entrou em detalhes.

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