Onde foi parar o centro na política brasileira? | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

A recente vitória eleitoral de Joe Biden, tido como moderado, contra o radicalismo de Donald Trump nos EUA parece ter catalisado uma espécie de corrida ao centro do espectro político no Brasil – tendo em vista sobretudo as eleições de 2022. Mas à medida que o xadrez político se movimenta, torna-se cada vez mais complexo definir o centro no contexto brasileiro.

A estrada é longa até a próxima eleição – vale lembrar que o presidente Jair Bolsonaro, vencedor em 2018, sequer era cotado dois anos antes. Mas as negociações de bastidores em curso para 2022 são ilustrativas da heterogeneidade de nomes e ideias que orbitam em torno do chamado centro.

Até agora, o principal articulador da construção de um projeto político de centro é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM).

Ainda no ano passado, Maia se envolveu na articulação da iniciativa “Centro – O Brasil em Movimento”, destinada a produzir vídeos publicitários sobre uma agenda apresentada como moderada, em torno de valores tais como o liberalismo econômico e o combate à desigualdade.

Em fevereiro deste ano, ele defendeu uma candidatura única de centro para 2022 a partir dos nomes de Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB) e o apresentador Luciano Huck.

Desde então, Maia tem feito articulações nesse sentido. O grupo de interlocutores inclui também o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM). Por ora, todavia, são raros os consensos entre os nomes que reivindicam uma “terceira via” entre esquerda e direita.

Após Huck se reunir com o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro para discutir cenários da política nacional, logo após a vitória de Biden nos EUA, Maia situou o ex-juiz da Lava Jato no campo político de Bolsonaro.

“Não posso apoiar uma chapa integrada por alguém de extrema direita”, afirmou o presidente da Câmara.

Subindo o tom, Ciro Gomes chamou Moro de “fascista” e rechaçou o alinhamento dos outros nomes ao centro do espectro político. “No dia que Doria, Huck e Moro forem de centro, eu sou de ultraesquerda, o que nunca fui”, disse Ciro recentemente.

As nuances do centro

Analistas ouvidos pela DW Brasil creditam as incongruências em torno do centro a dois fatores: a ausência de uma tradição ligada a esse campo na história política brasileira e um movimento de afastamento entre os partidos de direita e o bolsonarismo.

“Não é claro para quem acompanha a política brasileira o que são forças políticas centristas. A gente tem clareza sobre os partidos de esquerda, que se autodenominam como tal. Do centro à direita, é um território nebuloso, de difícil definição”, avalia o cientista político Jairo Nicolau, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Autor do livro História do Voto no Brasil, o pesquisador classifica o DEM, partido de Rodrigo Maia, como uma força que ocupa um espaço mais conservador no campo de centro-direita.

A sigla derivou do extinto Partido da Frente Liberal (PFL), fundado por lideranças da Arena, partido de sustentação do regime militar.

“Na minha tipologia clássica, sempre trabalhei com a ideia de que MDB (ex-PMDB) e PSDB eram os partidos de centro. Em resumo, por apresentarem posições mais moderadas sobre políticas sociais e direitos, no sentido mais amplo. É o que na Europa se chama de liberalismo social”, comenta.

No cenário atual, porém, o pesquisador situa Doria, principal liderança tucana, em uma posição mais conservadora do que a assumida pelo PSDB “clássico”, capitaneado por nomes como Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

“Acho que ele está à direita do partido. Talvez a gente possa colocar no centro o Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul, e o Eduardo Paes (DEM), ex-prefeito do Rio. Com a entrada do Bolsonaro se apresentando com um discurso de direita, quem era da centro-direita está pulando para o centro”, opina Nicolau.

Radicalização nos governos do PT

O movimento ao centro é inverso à tendência de radicalização apresentada pelos partidos de centro-direita ao longo dos governos petistas, na avaliação do cientista político Josué Medeiros, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Na campanha de 2010, José Serra (PSDB) trouxe o tema do aborto, enquanto o DEM foi no ano anterior questionar as cotas raciais nas universidades”, recorda Medeiros.

Para o coordenador do NUDEB, a mudança de postura desse grupo foi determinante para legitimar posições de extrema direita no debate público brasileiro. “E todas elas são lideradas hoje por Bolsonaro”, observa.

O cientista político Geraldo Tadeu, pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), considera que o movimento ao centro sinaliza uma reorganização do sistema político após a ruptura de paradigmas provocada pela eleição de 2018.

“O pêndulo do eleitorado pode estar voltando do radicalismo para o centro, seja no contexto ideológico, político e econômico, seja na ideia de eficiência, como a de que é preciso entregar políticas públicas sem se perder em querelas ideológicas”, afirma Tadeu.

Feita a ressalva do caráter local das eleições municipais, o analista acredita que essa tendência foi observada já nas eleições municipais de 2020, com a eleição de prefeitos e partidos com perfis mais centristas.

“Pode ser que a chamada onda conservadora esteja se desfazendo nesse final de 2020 e início de 2021. A resposta dada pela direita à pandemia contribui muito para esse refluxo”, diz.

O Centrão é de centro?

DEM, PP, PSD e Republicanos, nesta ordem, foram os partidos que mais aumentaram o número de prefeitos eleitos no 1º turno na comparação com o pleito de 2016. PSDB e MDB foram os maiores perdedores, embora o último continue líder em número de prefeituras no Brasil.

Boa parte das siglas que apresentaram crescimento neste ano integram o chamado Centrão, bloco fisiológico que busca aproximação com o Executivo em troca de cargos e benesses. Atualmente, o grupo é da base de apoio do governo Bolsonaro.

O nome que acompanha o bloco desde sua formação, ainda na Assembleia Constituinte de 1988, pouco diz sobre a sua orientação ideológica, segundo Jairo Nicolau.

“Seria mais coerente que se chamasse Direitão”, brinca o pesquisador. “Só o Brasil tem o centro e o Centrão. Quando o Rodrigo Maia apoiou o Geraldo Alckmin na disputa pela presidência em 2018, o DEM estava no Centrão. Como se afastou dos outros partidos de direita, apresenta-se agora como centro”, aponta o pesquisador da FGV.

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