O saldo decepcionante do primeiro ano de Joe Biden

Deutsche Welle

 

Thomas Gordon-Martin (de Washington) | Isabella Escobedo (de Washington)

Mandato do democrata começou com um número recorde de votos. Passados 12 meses, sua presidência é impopular, lutando para aprovar leis essenciais. Por quê? Com eleições às portas, Biden tem pouco tempo para virar o jogo.

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Um ano atrás, dias após ele ter encorajado seus adeptos a marcharem sobre o Capitólio, chegou ao fim a caótica presidência de Donald Trump. Na manhã em que deixou a Casa Branca, esnobando a posse de seu sucessor, deixou a seguinte mensagem no Twitter: “Desejo à nova administração grande sorte e grande sucesso. Acho que eles terão grande sucesso. Eles têm o fundamento para fazer algo muito espetacular.”

Na época, os apoiadores Joe Biden podem ter concordado: o 46º presidente dos Estados Unidos obtivera mais de 81 milhões de votos, o maior resultado registrado, e assegurara uma maioria apertada no Congresso.

Corte para 12 meses depois; um ano difícil resultou na queda acentuada da popularidade do político democrata. Uma agenda legislativa sofrida, a inflação ascendente e a renitente pandemia de covid-19 precipitaram sua taxa de aprovação de 54% em abril de 2021, para o recorde negativo de 41%, antes do Natal.

O recente insucesso em aprovar a reforma dos direitos eleitorais e a obrigatoriedade de vacinação para grandes empresas pioraram os problemas de Biden em 2022. Seus colegas democratas de todas as alas ideológicas declararam publicamente que a estratégia presidencial está fracassando e apelam por uma nova abordagem.

Antecessor catastrófico, pandemia e divisão nacional

A professora de ciência política Virginia Sapiro, da Universidade de Boston, classificou como “desafiador” o primeiro ano de Biden. No entanto ela crê que nada explica melhor seus embates do que as cartas que recebeu, ao entrar no jogo da presidência: “Não sei de nenhum outro presidente que assumiu o cargo tendo um monte tão gigantesco de destroços para limpar.”

Após vencer a eleição de 2020, a agenda do político estava lotada de problemas cabeludos, entre os quais as dores-de-cabeça econômicas e de saúde pública geradas pela covid-19, assim como um eleitorado americano profundamente polarizado.

Apesar de sua maioria apertada no Senado, ele teve algumas conquistas legislativas significativas: em março, aprovou o Plano Americano de Resgate Econômico para auxiliar as famílias mais pobres.

Mais tarde assinou um projeto de infraestrutura de 1 trilhão de dólares para conserto de estradas e pontes por todo o país. “Na verdade, Biden tem sido muito bem-sucedido em certas iniciativas de legislação, mas o povo não é muito atento aos detalhes”, afirma Sapiro.

O pleito de 2020 também foi ímpar porque, logo após o anúncio do vencedor, as pesquisas de opinião mostravam mais cidadãos felizes por Trump ter perdido do que por Biden vencer. Após uma série de duplos mandatos presidenciais, a começar em 1993, os americanos emitiram seu voto de protesto para garantir que o republicano não governaria por mais quatro anos.

Promessas não cumpridas, reputação comprometida

Um ponto central da campanha de Biden foi o desejo de unir um país dividido. Ao tomar posse, ele declarou que os EUA precisavam de uma coisa: “unidade” – palavra que empregou outras sete vezes em seu discurso.

No entanto a polarização política persiste. A resistência republicana no Congresso frustra parte agenda legislativa do presidente. Ele não tem sido capaz de convencer dois senadores democratas renitentes a passarem o plano Build Back Better, de 1,75 trilhão de dólares, para combater a crise climática e fortalecer o seguro de saúde e a rede de segurança social.

A maioria conservadora na Suprema Corte poderá reverter os direitos de aborto, mais adiante em 2022, aquecendo ainda mais um tema divisor nos EUA. Nesse ínterim, as pesquisas de opinião mostram que 45% dos eleitores republicanos ainda creem que houve fraude na eleição presidencial de 2020. Após 12 meses, portanto, a unidade nacional ainda não parece estar à vista.

Para observadores do exterior, uma série de eventos possivelmente se destaca do resto: o fiasco da retirada militar do Afeganistão. A remoção das tropas americanas, em agosto de 2021, foi seguida pela reinstauração do regime talibã, significando o fim da democracia e uma derrota para os direitos humanas, especialmente para as mulheres.

As contundentes imagens de aeronaves americanas deixando para trás afegãos em pânico suscitou comparações com a controversa evacuação do Vietnam, em 1975. A retirada fez os EUA parecerem “ineptos, incompetentes e, no fim das contas, fracos”, resume Seth G. Jones, vice-presidente do think tank Center for Strategic and International Studies, sediado em Washington.

“Vinte anos de progressos nos direitos femininos foram latrina abaixo, a economia despencou e, no lugar dos EUA, temos visto chineses, iranianos e russos desenvolverem uma relação com o governo talibã”, explicou Jones à DW.

De mãos atadas – e os pés também?

Se o primeiro ano de Biden foi difícil, os próximos três podem ser ainda mais árduos. As ameaças na política externa incluem a militarização chinesa no Oceano Pacífico, instabilidade no Oriente Médio e eventual invasão russa do leste da Ucrânia.

“Há muito questionamento sobre quanta espinha dorsal essa administração tem”, comenta Jones. Sapiro acrescenta que “o único jeito de a popularidade de Biden melhorar é se a covid-19 for embora e as leis em que ele está investindo acontecerem”.

Talvez ainda mais danosos para a autoridade do chefe de Estado são os boatos que ele não concorrerá em 2024. “Essa é a conclusão não formulada e a corrente que atravessa toda Washington”, aponta Bret Stephens, comentarista de centro-direita do The New York Times.

Apesar de ter votado em Biden, ele crê que este deveria se afastar agora: aos 78 anos, o democrata já é o presidente americano mais idoso já eleito, e na próxima eleição terá 82 anos.

“O Partido Democrático precisa começar a buscar candidatos viáveis para concorrer em 2024, porque os republicanos vão estar numa posição forte para retomar a Casa Branca”, frisa Stephens.

Por sua vez, Sapiro defende que, em vez de se concentrar no próximo pleito presidencial, o que mais importa agora são as eleições de meio de mandato, em novembro próximo:  “Elas são sempre um referendo sobre o presidente, e na primeira midterm eles sempre perdem assentos.”

Se os republicanos conquistarem maioria no Congresso, se tornará adicionalmente complicado para Biden fazer seu trabalho, pois teria que fazer ainda mais concessões para aprovar qualquer lei. Indagada sobre o que o presidente será capaz de alcançar, caso isso aconteça, a cientista política Sapiro é taxativa: “Porcaria nenhuma.”

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