O Rei e Eu: Por Carlos Brickmann | Claudio Tognolli

O Rei e Eu

Carlos Brickmann

Já torci por Pelé, mas poucas vezes: quando defendia a Seleção brasileira. Nos outros múltiplos jogos em que o vi, tive a dura missão de torcer contra, a favor da defesa. Sim, disse enfaticamente que Almir era melhor do que ele, que no Corinthians disputaria a posição com Silva e Flávio Minuano; cantei “um, dois, três, o Santos é freguês” quando terminou aquele maldito tabu de vinte e poucos anos; repeti, e escrevi, que o Negão só não tinha realizado um sonho na vida: o de jogar no Corinthians. Era o melhor do mundo, sim; seria hoje o melhor do mundo, sem dúvida. Mas jogava no time errado. Aquele não era o meu Pelé.

O meu Pelé eu conheci no início da década de 1990, quando já tinha há longo tempo deixado o futebol. “Alemão” Canhedo, filho do dono da Vasp, era amigo do Crioulo, e o levou para a empresa como garoto-propaganda. As coisas estranhas que acontecem no mundo: eu era o diretor de Comunicação e ele formalmente, claro que só no papel, era meu subordinado. Até hoje, quando nos vemos (raras vezes, infelizmente), me chama de “meu diretor”.

Nunca houve um jogador como Pelé; nunca houve um representante de empresa como Pelé.

Certa vez, na Bahia, houve reunião da Associação Brasileira de Agentes de Viagem, Abav. Os diretores da empresa estavam lá, mas fora das reuniões de negócios ninguém os notava. Pelé era a estrela. Com os publicitários Joca e Nizan Guanaes, organizamos um almoço para a imprensa com Pelé e Mãe Cleusa do Gantois, filha de Mãe Menininha, uma lenda no candomblé. Mãe Cleusa me confidenciou que seu sonho era ter um autógrafo de Pelé. Fácil, pensei: Pelé não negava autógrafos, por mais ocupado ou apressado que estivesse. Discretamente, falei-lhe do sonho de Mãe Cleusa. Ele: “Não vou dar autógrafo para ela, não”. Tomei um susto. Mas em seguida chamou os fotógrafos e cameramen e pediu-lhes que mirassem Mãe Cleusa. Foi até ela e deu-lhe um beijo no rosto. Mais tarde mandou-lhe cópias das fotos e vídeos, tudo com sua assinatura. Ela chorou de emoção. Sentou-se com ela e contou-lhe histórias das Copas.

No voo inaugural da Vasp para os Estados Unidos, Pelé era a grande atração. Descemos em San Francisco, fiquei a seu lado. Foi imediatamente cercado por caçadores de autógrafos (todos atendidos), mães com bebês no colo querendo fotografá-los no colo do Rei, todos fascinados, “Pelé, Pelé”, e um estranho grupo de rapazes falando algo parecido com francês (depois descobrimos: era um dialeto da Tunísia). Fiz a foto dos cinco com Pelé. A surpresa: Pelé jamais jogou na Tunísia, os garotos tinham por volta de 20 anos, e ele havia abandonado o futebol há 14. Mas eles o reconheceram, o aclamaram – nunca o tinham visto, mas sabiam quem era Pelé.

Na sede da Fifa, em Zurique, o alemão Franz Beckenbauer sugeriu que o almoço fosse num restaurante próximo. Mandou chamar táxis. Um dirigente suíço lhe disse que o restaurante era logo ali, algo como meio quarteirão, era melhor ir a pé. Beckenbauer cortou a conversa: “O sr. não sabe o que é andar com Pelé. Se formos a pé, vamos chegar na hora do almoço de amanhã”.

Andar com Pelé é uma experiência única. Ele não tem pressa: tem tempo para todos os que lhe pedem autógrafos, fotos, respostas. Foi numa conversa com fãs, por exemplo, que eu soube qual o jogador que considerava seu marcador mais violento: Pavão, beque central do Flamengo (do trio final Garcia, Tomires e Pavão). A paciência é infinita: até a caminho do banheiro atende os fãs – num caso, pelo menos, pediu licença e voltou em seguida, ao encontro do grupo. Em aeroportos, é terrível: o avião na hora de decolar e ele tirando fotos com desconhecidos que ele jamais encontrará de novo.

Nesta imensa coleção, só falta uma foto autografada: a que nossa amiga comum, Tereza Myre Dores, vizinha de Pelé no Guarujá, me prometeu. Tereza, cadê a foto de meu Rei?

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