O perfil de dois radicais: coronel Erasmo Dias e Correinha, fundador do Esquadrão da Morte – Claudio Tognolli

Por Claudio Tognolli

Sempre, por volta do dia de Tiradentes, este repórter tentou nivelar seu destino com alguns brasileiros famosos por terem exercido seu patriotismo de uma forma que a grande maioria considerou torta –talvez porque, em seus excessos, ou nem tanto, tenham ficado cegos pelas próprias luzes a guiarem seus arbítrios e jornadas. Nada mais natural do que trazer a crônica de vida e dois desses personagens, bem no Dia da Pátria: a do coronel Erasmo Dias, morto aos 85 anos, em 2010, e de Astorige Correa, o Correinha, tido e havido como um dos fundadores do temido Esquadrão da Morte.

Sujeitos a acessos de legalidade demolidores (até converterem-se em ilegais), e surtos idem de patriotismo extremado , Erasmo Dias e Correinha confessaram ao repórter que sempre conhecerem muito bem seus papéis nos anos de chumbo. Dias, pouco antes de morrer, confessou-se ao repórter um “caçador de melancias” (termo a que chamava oficiais do exército comunistas). Já Correinha, nascido sob o signo de peixes, hoje morador do Paraná, tem-se como um “tubarão social”, a seu modo tentando “limpar o lixo da sociedade”. Confira os perfis desses tortos patriotas.

Erasmo ou o Outono do patriarca

O coronel Antonio Erasmo Dias, aos 85 anos de idade, seis filhas, dois casamentos, nem se parecia com a imagem do cão de guarda do regime militar que a crônica pinta dele. Primeiro ele ri da piada que acabou de contar. Para depois, com antecipação, rir da piada que ainda vai contar. Seus olhos, verde-azulados, estridulam junto das mãos. Ele parece um asterisco humano: fala, gesticula sem parar. Os olhos fiscalizam, vitreamente, cada palavra que o repórter anota. “Toda a minha carreira foi cumprir ordens. Não pedi nada: tudo pediram para mim. De ser secretário a deputado, de tomar conta dos comunistas presos, como Zé Dirceu e Franklin Martins, de tentar tocaiar o Carlos Lamarca. Tudo isso veio de ordens que apenas cumpri”, diz Erasmo Dias.

Erasmo Dias sabe bem como dar entrevistas. Já parece ter selecionados os episódios mais apetitosos. Nasceu em Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo, a 2 de junho de 1924, começa a relatar. Em seguida, Erasmo parece sentir o mais sistemático prazer ao encetar detalhes sobre o mágico espaço familiar que o concebeu. “Tive 7 irmãos. Meu pai era um padre secular português, que saiu de Portugal em 1909, porque era monarquista e a monarquia estava acabando. Ele abandonou o celibato para se casar com minha mãe, uma professora de música. Logo me disse: “Filho de pobre ou vira padre ou militar. Padre não te recomendo, pela própria condição que abandonei”. Então fui ser militar”.

Era assim que nasceriam as porções mais ferventes da crônica do Regime Militar em São Paulo. Afinal de contas Erasmo Dias comandou a invasão à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, em 22 de setembro de 1977, onde uma reunião de estudantes pretendia rearticular a União Nacional dos Estudantes, a UNE. Cerca de 1.100 estudantes foram presos e levados ao quartel da polícia na avenida Tiradentes. Ele mesmo solicitou o enquadramento de 32 estudantes na Lei de Segurança Nacional. O grupo foi acusado de infringir o artigo 39, inciso 1°, que penaliza o ato de incitar a subversão da ordem, e o artigo 42, que pune a tentativa de reorganizar partidos, entidades e associações de classe extintas por lei. “Eu apenas cumpria ordens. Veja você, desde o Congresso de Ibiúna, em 1968, em que o Zé Dirceu foi preso, a UNE estava proscrita. Mesmo assim tentaram fazer publicamente 11 congressos ilegais. A PUC era a décima segunda tentativa de de desafiar o regime. Não relei a mão em ninguém, jamais. Nunca fui acusado de tortura. Na PUC as bombas de gás, muito superficialmente, queimaram as roupas íntimas de umas onze estudantes, pois as calcinhas e sutiãs deveriam ser de nylon, que derrete ao calor. Veja bem: como então secretário de segurança pública de São Paulo, sofri uma Comissão Parlamentar de Inquérito, da Assembléia Legislativa de São Paulo,e fui processado pelo Tribunal de Justiça. Você conhece alguém, nesse meu cargo, que tenha sido absolvido em instâncias tão poderosas? Claro que não. Mantenho a cabeça erguida. Apenas quis mostrar quem eram as melancias, a minha vida toda”.

É óbvio que a próxima pergunta teria de ser sobre o significado de melancia. Erasmo Dias ri bem na hora que a pergunta é disparada. “Meu filho, melancia é o que é verde por fora e vermelho por dentro. E o Exército me deu essa tarefa de descobrir oficiais –melancias, que eram bem verdinhos por fora mais comunistas vermelhos por dentro”. Nessa altura da conversa, portanto, está dada a senha de entrada ao eremitério mais cerimonioso nas memórias de Erasmo Dias: como ele fez Exército, ou como o Exército o fez. Erasmo Dias se diz, como sua mãe, “um professor por vocação”. Foi bacharel em direito pela Universidade da Guanabara, formou-se em história na USP. Ficou 35 anos no Exército, 15 dos quais jura ter dado aulas “todas as noites”. Parece suspender a respiração agora, porque vai falar de coisas importantes para ele. O clima ao redor do coronel parece auriverde. Ele olha para o nada e dispara a língua. Aliás, disparar a língua pode ser um pleonasmo: pois o coronel vai falar, e muito, sobre como e quando disparou granadas e, sobretudo, metralhadoras. Ele começa a narrativa exatamente em março de 1964, o mês e o ano da revolução. “Santos era uma cidade meio vermelha, por iso eu estava lá. Tínhamos na cidade oficiais das 3 armas, todos duvidosos, a maioria melancias. Tanto que a 15 de março de 1964 o presidente João Goulart nomeu 15 generais dele, os 15 eram comunistas de 4 entranhas. O Brasil caminhava para o peleguismo comuno-socialista. No dia antes de revolução eu tinha operada as hemorróidas. E veja que em 31 de março de 1964, 16h, o general Fasheber, de Minas Gerais, me ligou avisando que “o negócio começou”. Era a Revolução. Minha missão foi ocupar a Cosipa e a Refinaria de Presidente Bernardes. Passei por um corredor polonês de comunistas operários. Entrei na refinaria. Eu, com minha submetralhadora Thompson, e meu capitão com uma submetralhadora Ina. Quando entramos lá dentro, o almirante Zavataro, um comunista, estava sentado com os dois pés sobre a mesa, e rodeado de sindicalistas. Soube depois que alguns pelegos já haviam sabotado a refinaria, misturando químicas para que fermentassem dentro do forno e o desestabilizassem. Quando o almirante nos viu e ia telefonar, eu disse “tire esses pés da mesa, oficial”. Em seguida metemos rajadas de metralhadora no quadro das linhas telefônicas. Eu disse “Almirante, agora isto é uma área militar”.

Coronel Erasmo Dias também gosta de lembrar quando comandou o Forte de Itaupu, na Praia Grande, litoral paulista. “Eu estava abrigando os quase 40 estudantes presos no Congresso da UNE em 1968. Lembro do Franklin Martins, o mais alto e o mais calado, lembro do Zé Dirceu, cabeludão, lembro bem do Travassos e do Palmeira. Eles costumavam cantar o hino da Internacional Socialista todas as noites, comandados pelo Zé Dirceu. Mas uma vez fui lá e os obriguei a cantar o Hino Nacional! Fizeram direitinho! Mas o bom mesmo foi quando eu chamei o Travassos e disse “Você é guerrilheiro, né?” Então botei uma metralhadora Madsen, sueca, no tripé, e mandei ele fazer um alvo no mar. Ele não sabia atirar, quando foi puxar o gatilho tomou um coice da arma e sangrou, muito levemente, o queixo. Chamei o Zé Dirceu parta atirar. Mas antes, saquei uma tesoura e cortei-lhe os cabeços compridos ao pé da metralhadora. Sempre os trarei com hóspedes vips, lhe dando do bom e do melhor, jamais encostei o dedo em alguém. Tanto que quando fui deputado estadual em São Paulo, Zé Dirceu, que também era, me cumprimentava todos os dias”.

Coronel Erasmo Dias também tem ótimas memórias de quando, ao lado do futuro ministro do Exército do governo Sarney, Leônidas Pires Gonçalves, tentaram prender o guerrilheiro Carlos Lamarca, em Piedade, interior de São Paulo, “despejando helicóptero abaixo mais de 600 granadas de ataque, que são as que não machucam, mas fazem muito barulho, por favroir escreva aí que são as de ataque, não as de defesa, aquelas que se despedaçam em mil pedaços de ferro e matam feio”.

Coronel Erasmo Dias gosta ainda e também de lembrar quando o presidente Ernesto Geisel o chamou, em 1978, e disse que ele deveria ajudá-lo. “Ele me adiantou que iam lançar o general João Figueiredo à presidência, e que eu deveria ajudá-los apoiando o Figueiredo. Eu então acatei os pedidos do Geisel e me lancei candidato a deputado federal. Tive 146 mil votos, um recorde para a época”.

Já no poder, o general Figueiredo gostava de chamar o coronel Erasmo Dias na Granja do Torto, para conversas de fagulhas incandescentes, em que os “irmãos em armas” gostavam de prefigurar os detinos da Revolução de 1964. “Eu disse ao presidente Figueiredo; “O sr. dá TV pra um, rádio prá outro, e eu que nunca pédi nada só peço algo: que conceda autonomia para a cidade de Santos, que desde 1964 é uma zona de segurança nacional”. O presidente concordou e disse que era para eu dar uma faturada política na conquista, já que a maioria dos meis eleitores é de Santos”. Chegou o dia: o general-presidente Figueiredo foi para Santos. Caberia a Erasmo Dias fazer o anúncio. “Mas e deputado do PTB Gastone Righi pegou o microfone e faturou, falou na minha frente. Olhei pro general Figueiredo. Ele me fez aquele gesto de “deixa prá lá”. Como você vê, eu só cumpri ordens a vida toda”.

A germinação de cenas do passado é surpreendente. São memórias magneticamente carregadas dos mesmos gestos que Erasmo parece ter tido quando da acontecência do que ele relata. Mas é hora de ir. E o coronel Erasmo Dias encerra a conversa com uma outra das tantas memórias, uma que ele considera de todo presciente do que se vê hoje na Amazônia. Quando adido militar na Colômbia, o general Leônidas Pires Gonçalves fez uma relatório ao SNI, Serviço Nacional de Informações, dando conta de que aquele país, por motivos de segurança nacional, os bispos haviam sido nacionaliados. Ou seja: nada de bispo gringo. “Eu fiz uma proposta de lei para que nacionalizassemos também nossos bispos. O presidente Figeuiredo então me deu uma bronca. Disse, “Erasmo você está querendo me destronar!!!”. Erasmo Dias acha que o episódio já era um alerta. “Veja o que estão fazendo com a Aazônia, certos religiosos infiltrados”. Quase 3 horas de conversa, Erasmo Dias concorda em responder algo sobre o presidente Lula. “Ele é uma faca de dois gumes, ele é ao mesmo tempo dois presidentes distintos, um dia é de esquerda, outro dia é de direita”.

Correinha: o gatilho fácil

Os olhos são azuis, líquidos e diáfanos. A pele, cor de chocolate. Os gestos, calmos. A fala é erudita, com citações de alta literatura (seu autor predileto é o Nobel colombiano José Maria Vargas Vila). A altura deste senhor, hoje com 70 anos, não passará de um metro e sessenta. Mas seu nome faz qualquer policial se curvar, ainda hoje. Astorige Corrêa, o Correinha, era o líder do Esquadrão da Morte de São Paulo. Nos anos 60 e 70 o grupo fez má fama internacional, sob acusação de cometer justiciamentos, fazer justiça com as próprias mãos e tudo isso na base do chumbo incandescente. Correinha ficou preso 4 anos e passou outros 22 na clandestinidade. Acossado sempre pelo ex-vice-prefeito de São Paulo, Helio Bicudo, que fez nome e fama denunciando o Esquadrão da Morte, Correinha jacta-se ao dizer que “passar todo esse tempo como clandestino e ter ainda criado duas filhas e um filho é coisa somente para quem tem muito intelecto”.

Hoje, aposentado, morou a poucos metros de um distrito policial na zona sul de São Paulo, antes de sair para o Paraná, em endereço incerto e não sabido. Correinha avalia que sua missão sempre foi “eliminar o mal” da terra. “Estuprador, por exemplo, é uma barata: não tem consciência e precisa ser mesmo é eliminado”, proclama Astorige, com o estatuto de quem foi acusado de ter matado 97 pessoas.

Mestre em kung fu, Astorige ainda treme quando lembra do olhar dos que exterminou. “É indizível o que um assassino que mata famílias tem nos olhos. Dizer que esse tipo de lixo é problema social é coisa de comunista. Crueldade não é problema social”, proclama. Apesar de ter trabalhado lado a lado com o temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, Correinha jura que não combateu militantes políticos. “Tomei quatro tiros, em quatro ocasiões diferentes, um disparado por um hoje deputado e que era um comunista que tinha assaltado um banco em São Paulo”. Atribui tamanha sorte à proteção espiritual. “O falecido astrólogo Omar Cardoso me disse que eu era do signo de Peixes, mas um peixe positivo, isto é, tubarão. Logo entendi que, como tubarão, deveria limpar os mares da sociedade do lixo dessa sociedade”.

Correinha vem de uma família de fazendeiros tradicionais da Fazenda do Embaú, no interior do Paraná. Nascido em Londrina, criado e Arapongas, veio a São Paulo estudar direito. Encantou-se pela polícia. Aos 27 anos de idade, já era manchete dos maiores jornais e revistas do Brasil. Foi ele que prendeu, por exemplo, João Acácio Pereira, o lendário Bandido da Luz Vermelha. No final dos anos 60, São Paulo chegou a ficar sem um único crime “por 38 dias porque eu não saía da rua”, lembra Correinha. “Uma vez fiquei direto 50 dias nas ruas, e derrubei os 11 bandidos da quadrilha do assassino cruel chamado Saponga”, jacta-se.

Correinha guarda de memória cenas impagáveis. Como por exemplo quando ficou preso na Penitenciária do Estado de São Paulo, ao lado dos homens que ele havia prendido. “Eu estava com a perna engessada e um dia vi na porta da minha cela uns 80 vagabundos rezando pra eu me recuperar, como pode?” Também ali pôde conversar com o médium Chico Xavier. “Ele me beijou no rosto, soltou lágrimas, depois mandou duas emissárias, Vovó Mafalda, uma socióloga, e dona Hermides, jornalista, virem de Belo Horizonte a São Paulo, especialmente para me dar conselhos espirituais”.

Homem de gatilho fácil, amante das pistolas Brownning 9 milímetros e das Colts calibre 45, Correinha acredita em reencarnação. “Sei que tenho uma missão nessa vida e a cumpri sempre com determinação”.

Astorige Corrêa lançou o primeiro volume de suas memórias. Com 240 páginas, a obra se chama “Correinha, o Caçador de Bandidos, Líder do Verdadeiro Esquadrão da Morte”. Na contracapa, há uma foto de Astorige em seus vinte e poucos anos, calça de veludo, revólver calibre 38 na cintura, e um colete de couro que ele usava para pegar bandidos. O prefácio é de ninguém menos que o deputado Afanásio Jazadji. “Com sua têmpera de homem de sangue quente, nunca deixando de falar o que lhe vêm à cabeça, e sempre se colocando como policial em favor do bem, não fazendo acordo com delinquente, endinheirado ou não, agindo às vezes com extrema valentia, Correinha ajudou a promover s carreira de inúmeros delegados”.

Já em sua obra “Meu depoimento sobre o esquadrão da morte”, o ex-prefeito Helio Bicudo chama Astorige de “assassino” e prosélito da ditadura militar. Para Bicudo, Astorige era acobertado pelas autoridades militares para fazer a limpeza social do regime dos anos de chumbo.

Veja on line o livro de Correinha

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/correinha.html

error:
0