O Globo: Rússia anuncia registro de vacina contra a Covid-19: saiba tudo sobre a corrida dos países pela imunização | Claudio Tognolli

O Globo

RIO — O novo coronavírus demonstra — desde sua descoberta em Wuhan, na China, em dezembro de 2019 — ter alta capacidade de contágio e taxa de letalidade por volta de 3,5%. Até o momento, o Sars-CoV-2 já infectou mais de 20 milhões de pessoas pelo mundo e tirou a vida de mais de 735 mil. Por esses motivos, o planeta entrou em uma corrida para encontrar não só remédios eficazes no tratamento da Covid-19, mas sobretudo uma vacina capaz de prevenir a infecção pela doença.

EntendaQuais são as etapas para uma vacina contra o coronavírus chegar à população

Nesta terça-feira, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que o país registrou oficialmente uma vacina contra o Sars-CoV-2. É o primeiro país do mundo a homologar um imunizante contra a Covid-19. A eficácia da fórmula desenvolvida pelo Instituto Nikolai Gamaleia em parceria com o Ministério da Defesa russo, no entanto, foi recebida com ceticismo pela comunidade científica internacional.

O calendário acelerado da Rússia pulou diversas etapas de ensaios clínicos essenciais para garantir a segurança e a eficácia da vacina, na avaliação de cientistas. O governo russo, no entanto, sustenta que a fórmula não traz riscos e que, embora os testes não tenham sido concluídos, já é possível garantir sua segurança. A fórmula nunca esteve entre as líderes da corrida global na avaliação da Organização Mundial da Saúde (OMS) (veja mais abaixo).

De acordo com a entidade, há mais de 120 vacinas propostas por cientistas do mundo todo, das quais seis estão em fase 3, a última fase de testes em humanos antes da aprovação. São elas: Sinovac (China), Instituto Biológico de Wuhan/Sinopharm (China), Instituto Biológico de Pequim/Sinopharm (China), Oxford/AstraZeneca (Reino Unido), Moderna/NIAID (EUA) e BioNTech/Pfizer.

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Vacinas são testadas no Brasil

Há três candidatas à vacina contra a Covid-19 sendo testadas no Brasil. Cientistas se preparam para pedir autorização para a realização de um quarto teste.

A primeira é a desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, a que está “mais avançada” segundo a OMS. São cinco mil voluntários brasileiros residentes nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Em São Paulo, os estudos dessa vacina são liderados pela Unifesp. A infraestrutura médica e de equipamentos são financiados pela Fundação Lemann. No Rio e Salvador, os testes ficam a cargo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, da Rede D’Or, que vai cobrir os custos da primeira fase da pesquisa.

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O presidente Jair Bolsonaro editou uma Medida Provisória (MP) no dia 6 de agosto que libera cerca de R$ 2 bilhões em crédito extraordinário para a produção e disponibilização de possível vacina contra a Covid-19, que se encontra em fase de pesquisa. A MP foi  assinada por Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto.

Ministério da Saúde fechou um acordo com a AstraZeneca de transferência de tecnologia para a fabricação de vacinas no Instituto Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A previsão é que insumos para a produção de 15 milhões de doses (o primeiro lote) cheguem ao Brasil até dezembro. A expectativa é que o primeiro lote seja liberado em janeiro de 2021.

A Sinovac (China) também está sendo testada no Brasil, em parceria com o Instituto Butantan. Foram trazidas 20 mil doses ao país, que serão aplicadas em até 9 mil voluntários em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que terá inicialmente 30 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 desenvolvida em parceria com a empresa chinesa Sinovac. Ele disse acreditar que a vacina estará disponível em janeiro de 2021.

No dia 5 de agosto começaram os testes no Brasil da vacina desenvolvida farmacêutica americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech. A pesquisa vai mobilizar um total de mil voluntários nas cidades de São Paulo e Salvador.

O Instituto de Tecnologia do Paraná assinou no fim de julho um acordo com a farmacêutica chinesa Sinopharm para o preparo de uma potencial vacina para a Covid-19 no Brasil. Os responsáveis pelos ensaios clínicos pretendem enviar, até 15 de agosto, um pedido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para realizar os estudos de imunização.

Rússia registra vacina

O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou nesta terça-feira que o país registrou a primeira vacina do mundo contra o novo coronavírus, desenvolvida pelo  Instituto Gamaleya de Moscou, após menos de dois meses de testes em humanos. Ela foi batizada de “Sputnik V”, em referência ao satélite soviético lançado em 1957 na órbita da Terra. O ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, disse que o teste imunológico mostrou eficácia e segurança.

O anúncio surge depois de um aviso da Organização Mundial de Saúde (OMS),  feito na semana passada, pedindo respeito às diretrizes estabelecidas para que uma vacina fosse criada com segurança. O temor da OMS, de cientistas e autoridades internacionais é de que, na corrida política pelo pioneirismo da criação do imunizante, etapas que garantam eficácia e segurança sejam negligenciadas.

— Esta manhã, pela primeira vez no mundo, uma vacina contra o novo coronavírus foi registrada — disse Putin durante uma videoconferência com integrantes do governo exibida pela televisão. — Sei que é bastante eficaz, que proporciona imunidade duradoura — acrescentou.

Segundo Kirill Dmitriev, presidente do fundo soberano que financiou as pesquisas, mais de 1 bilhão de doses ja foram encomendadas por 20 países estrangeiros, sem detalhá-los. O início da produção deve ocorrer em setembro, ainda de acordo com Dmitriev.

A vacina será distribuída em 1º de janeiro de 2021, informou o registro nacional de medicamentos do ministério da Saúde, consultado pelas agências de notícias russas. Murashko, no entanto, já havia anunciado uma campanha de vacinação em massa para outubro.

A fórmula desenvolvida pelo instituto Gamaleia usa duas cepas de adenovírus, usualmente responsáveis por gripes, e recebem o RNA do novo coronavírus para gerar uma resposta imune. A técnica é parecida, por exemplo, com o modelo da vacina candidata da Universidade de Oxford (Reino Unido) feita em parceria com a farmacêutica AstraZeneca.

A OMS nunca listou as vacinas candidatas da Rússia como lideranças da disputa por um imunizante entre as mais de 160 desenvovlidas ao redor do mundo. O porta-voz da entidade Tariq Jasarevic afirmou a jornanlistas nesta terça-feira que o braço das Nações Unidas para a Saúde está discutindo os procedimentos com autoridades russas, mas ressaltou que, antes de receber qualquer selo de aprovação, a vacina exige uma revisão “rigorosa” dos dados sobre segurança e eficácia obtidos por meio de ensaios clínicos.

Os governos dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido já acusaram anteriormente a Rússia de promover ataques hackers com o objetivo de roubar informações sobre o desenvolvimento de vacinas. Autoridades russas negam as acusações e afirmam que o modelo do imunizante é baseado em um projeto desenvolvido com o ebola há anos e defendem o legado do país e da antiga União Soviética nas pesquisas ligadas à imunologia.

OMS defende universalização

A OMS diz estar “está promovendo um diálogo aberto e regular entre pesquisadores e desenvolvedores de vacinas para agilizar o intercâmbio de resultados científicos, debater preocupações e propor métodos rápidos e robustos para avaliação de vacinas”. A organização defende o respeito e cumprimento dos protocolos e regulamentos em vigor no desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19.

A Organização Mundial da Saúde, a Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias e a Gavi, a Aliança pela Vacina, estão trabalhando juntas para obter acesso igualitário e amplo entre os países. Eles delinearam um plano de US$ 18 bilhões em junho para lançar vacinas e garantir dois bilhões de doses até o final de 2021.

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No entanto, no dia 3 de agosto, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse em entrevista coletiva on-line na sede da entidade, em Genebra, que uma vacina pode nunca existir. A orientação é que países não esperem pela imunização e façam o que for possível para controlar a pandemia.

Para tanto, a OMS vem reafirmando diariamente que é possível controlar a disseminação da doença e reduzir a mortalidade com políticas de testagem em massa, rastreamento de casos suspeitos e adoção de medidas de distanciamento social e higiene, com o devido exemplo de lideranças e com apoio às comunidades, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade.

EUA fazem investimento grande

Os Estados Unidos fecharam o maior acordo por uma vacina candidata contra a Covid-19 desde o início da pandemia do novo coronavírus com a farmacêutica francesa Sanofi SA e sua parceira britânica GlaxoSmithKline Plc (GSK). O anúncio foi feito nesta sexta-feira pelas companhias. O montante de US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) deverá cobrir 100 milhões de doses e o custeio dos testes e da produção do imunizante.

O acordo da Sanofi-GSK com os EUA dá à Casa Branca a opção de compra de mais 500 milhões de doses por um preço ainda não especificado e prevê a distribuição para a população sem custos.

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O investimento recorde faz parte da chamada Operação Warp Speed, iniciativa coordenada pela Casa Branca com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus Sars-CoV-2 e garantir o acesso de uma fórmula exitosa à população americana.

O governo dos EUA já fechou acordos similares com outras seis parceiras: AstraZeneca, Moderna, Pfizer/BioNTech, Novavax, Jansen Research & Development e MSD/IAVI.

Com este novo acordo, o valor gasto pela Casa Branca na Warp Speed já passa de US$ 8 bilhões (R$ 41,3 bilhões). Os EUA também financiaram um imunizante testado pela Johnson & Johnson em US$ 456 milhões.

A empresa de biotecnologia americana Moderna Inc mantém discussões com vários países para fornecer sua vacina experimental contra o novo coronavírus e já recebeu cerca de US$ 400 milhões em depósitos para abastecimentos futuros.

A Moderna anunciou, no fim de julho, o início de um teste de estágio avançado com 30 mil pessoas para demonstrar que sua vacina é segura e eficaz, a última barreira antes de obter o registro da vacina junto a órgãos reguladores. A empresa disse que o imunizante pode estar disponível para uso amplo até o final do ano.

Reino Unido e União Europeia correm para garantir doses

O Reino Unido assinou um acordo para receber até 60 milhões de doses de uma possível vacina contra a Covid-19. O projeto está sendo desenvolvido pelas farmacêuticas Sanofi e pela GlaxoSmithKline (GSK). Com quatro acordos até o momento, o governo britânico fechou mais negociações de fornecimento de vacinas contra o novo coronavírus do que qualquer outro país, garantindo assim 250 milhões de doses para uma população de 66 milhões habitantes.

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A União Europeia também tem sido agressiva na obtenção da imunização, muito antes que alguém saiba se as vacinas irão funcionar. Estão sendo negociadas as compras antecipadas de possíveis imunizantes contra Covid-19 desenvolvidas pelas farmacêuticas Moderna, Sanofi e Johnson & Johnson e pelas empresas de biotecnologia BioNtech e CureVac.

A UE já chegou a um acordo com a AstraZeneca em junho para a compra antecipada de 400 milhões de doses, que estará inicialmente disponível para todas as nações do bloco.

Três candidatas em fase 3 são chinesas

A China, país onde o Sars-CoV-2 foi identificado pela primeira vez, tem três das seis vacinas em fase final de testes contra o novo coronavírus: Sinovac, Instituto Biológico de Wuhan/Sinopharm e Instituto Biológico de Pequim/Sinopharm. O presidente Xi Jinping prometeu transformar qualquer vacina desenvolvida pelo país em um bem público global.

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A farmacêutica britânica AstraZeneca anunciou no dia 5 de agosto um acordo com a chinesa Shenzhen Kangtai Biological Products, que produzirá sua vacina candidata contra a Covid-19, feita em parceria com a Universidade de Oxford (Reino Unido), no país asiático. É o primeiro acordo de fornecimento do imunizante firmado pela empresa com o segundo país mais populoso do mundo.

Um porta-voz do Ministério da Saúde da Arábia Saudita informou no dia 9 de agosto que o país começará em breve a Fase 3 de testes clínicos em cerca de 5 mil pessoas para uma vacina (Ad5-nCOV) contra a Covid-19 desenvolvida pela chinesa CanSino Biologics Inc.

A vacina usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo.

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