Ensaio : O estranho em Freud, por Dora Tognolli – Claudio Tognolli

Por Dora Tognolli

O Psicanalista estranha…

Unhheimlich é tudo aquilo que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz.
Freud. O Estranho (citando Schelling)

Fora da mídia 

Folheio um guia médico, distribuído na cidade onde resido, que se propõe a uma prestação de serviços, informando os cidadãos acerca das várias especialidades médicas e paramédicas da região. É um guia bem elaborado, com papel brilhante, organizado em ordem alfabética, ilustrado com o visual de cada profissional e seu ambiente de trabalho. Minha curiosidade é grande e consulto todas as especialidades. Além do visual, há certificação dos profissionais, com seus respectivos registros em órgãos de classe. Na letra P, surgem as áreas Psicologia e Psicoterapia. Confesso que experimento um misto de curiosidade, inveja e exclusão: por que não figuro nesse guia, já que sou uma profissional da região, há quase 20 anos? Estranho…

Como toda publicação baseada nas novas formas de marketing, há pouco texto, as pessoas aparecem sorridentes, assépticas, em geral de avental branco e todas elas estão ao lado de uma mensagem rápida: um só parágrafo. Como ilustração, menciono alguns slogans desses profissionais, que figuram em box destacados, ao lado de suas silhuetas: “Minha meta é poder ajudar as pessoas a lidar com seus problemas. Quando mudamos nossa maneira de pensar, e conseqüentemente o comportamento, melhoramos significativamente nossa vida e daqueles que estão a nossa volta.”; “Minha maior conquista é provocar um processo de transformação no jeito de ser, pensar e agir do meu paciente, melhorando sua qualidade de vida. É uma realização ouvir ‘eu melhorei, eu superei, eu consegui’.”; “Iluminar a vertente inconsciente da mente e ajudar as pessoas a enxergarem a origem e causa de seu sofrimento certamente são grandes conquistas para mim e para o paciente.”.

Confesso que cheguei a me imaginar fazendo parte do guia (por que não?), e até a formular qual seria meu recado ou mensagem, mas logo esse devaneio passou. Nesse momento, pensei o quanto a Psicanálise dialoga com a sociedade de consumo, midiática, onde as pessoas estabelecem redes a partir de valores peculiares, como aparência, promessa de bem-estar e rapidez. Dentro desse percurso, vêm à tona algumas idéias expressas no livro A Sociedade de Consumo, de Jean Baudrillard, onde é enfatizado o mundo dos objetos que nos repetem sempre o mesmo discurso apaziguador, que pode resultar numa grande alienação, afastando-nos da realidade: o lugar da comunicação, onde ela é fabricada e elaborada, é um não-lugar, onde nada se passa.

Bem, nesse sentido, há um certo alento em ocupar o lugar do estranho, nesse não-lugar que nos é oferecido cotidianamente. Caso contrário, o analista poderia funcionar como um gadget – mais um acessório que autoriza o ingresso do sujeito na sociedade de consumo, e onde nada é para acontecer. Pode até ser que alguns pacientes nos tomem assim, mas se essa forma de aproximação com a Psicanálise é um sintoma, temos chance de enfrentá-la, quiçá. Mais do que isso: no sentido da comunicação de massas, para que o psicanalista ganhe personalidade, deve renunciar à singularidade, base de suas condições de trabalho. Bem, aqui uma certeza: essa despersonalização não nos interessa. Que permaneçamos estranhos…

O texto de Freud

No texto de Freud, de 1919, traduzido pela Imago como O Estranho, e no original alemão das Unheimlich, somos conduzidos à ambivalência no seu mais alto grau, a ponto da tradução da expressão e todos os sentidos a ela associados conferir muito trabalho. Na sua origem, conforme utilizada, e que pode ser aqui pos nós tratada como “estranho familiar” ou “inquietante estranheza” (como outros tradutores preferem) – tentativa de não deixar a ambivalência escapar – é uma expressão que remonta a outro escrito de Freud, pouco comentado entre nós, mas muito instigante, que se refere ao sentido antitético das palavras, guardado por idiomas que já morreram; em algumas línguas mortas, as palavras expressavam os possíveis gradientes opostos de uma mesma qualidade – claro-escuro; noite-dia – e cujas derivações para outros idiomas podem rastrear essa possível origem da linguagem humana – caso de light e night, pertencentes originalmente a uma mesma matriz.

Estranho, ou melhor, Unheimlich, permite tecer várias redes de significados: a expressão pode remeter ao inconsciente, ao id (das Es – a coisa), ao superego, ao outro, ao recalcado, ao desconhecido, ao mágico, à nossa imagem no espelho, entre outras associações. Mas, aí, já familiarizamos por demais o conceito, e ele deixa de serestranho.

Dentro do referido texto, gostaria de destacar algumas considerações de Freud, a meu ver úteis para nossa práxis. O texto permite inúmeras possibilidades, pois toca na literatura, na ficção, na loucura, nos contos de fadas, nos sonhos, nos sintomas. Na leitura que privilegio, e esse é apenas um dos múltiplos caminhos que o texto descortina, destaco a observação de Freud acerca de algumas produções literárias que têm o poder de nos transportar para um estado de sensibilidade que dá lugar à ambivalência, que por sua vez suscita angústia e revela tensão e conflito.

Os contos de fadas, que se perpetuam ao longo de gerações, são um exemplo dessa classe de textos; têm como característica nos remeter ao mundo das crenças infantis, aparentemente superadas, mas que retornam. Dada sua potência literária e atração que exercem sobre diversas gerações, podem ser uma saída para a angústia que habita os humanos. De certa forma, veiculam sensações e vivências primitivas que, na sua origem, despertavam muita angústia: desamparo, medo, terror, mistério – palavras presentes no texto freudiano, que guardam relação com o estranho. Paradoxalmente, Freud conjectura que é estranho o que é familiar, mas que ficou na sombra, em estado latente, bruto, e que emerge em várias situações e ambientes.   Na arte e na ficção, há oportunidade para manifestação das mais estranhas fantasias e desejos.

Dentro do modelo médico clássico, que visa a cura, o estranho deve ser familiarizado, calado, aplacado, para que a paz reine e a experiência tenha o tom de tranqüilidade (eliminação da angústia).

Ora, o próprio Freud nos mostra que é a vida que perturba, e não a morte: a morte pode ser entendida como a volta ao estado inanimado, o sossego das pulsões, a eliminação do conflito, ou, dizendo de outra forma, a garantia de felicidade. Dentro dessa perspectiva, a Psicanálise descortina um lado sombrio e perturbado que acompanha a trajetória humana, que tem como marca o próprio desamparo experimentado no nascimento (Hilflosigkeit).

Se assumirmos a categoria do estranho como uma modalidade humana que permeia as experiências significativas, estamos diante de uma particularidade e uma limitação do método analítico, que vai propiciar o convívio com esse Unheimlich, do qual queremos nos livrar, mas não conseguimos, já que inerente à nossa condição.

O sujeito que procura o analista encontra-se em estado de sofrimento: algo não vai bem, ou no mínimo a negociação entre suas esferas fragmentadas precisa de um interlocutor. Ao chegar, consegue formular uma queixa, que já é uma tentativa de dar vazão a um sinal interno de alarme (angústia-sinal): o casamento está se rompendo, há dificuldades de integração social, os filhos tão desejados estão trazendo problemas, a solidão é insuportável, a escolha profissional foi equivocada, a família não compreende nem sequer colabora com seu projeto de vida, a violência e a agressividade estão sem controle, a frigidez sexual ou falta de motivação está dificultando sua existência etc.

O analista escuta, pergunta, pacientemente pede novas associações, desloca o tema. Ou seja, não se familiariza tanto assim com o diagnóstico que chega pronto: põe em questão a queixa aparente, até que ela se transforme num motivo consistente. Para isso, pede tempo e não pode se apressar. Onde há ponto, coloca interrogação: “a família vai mal”, transforma-se em “ então a família vai mal…?”

A Etnografia como modelo

Dois trabalhos memoráveis, realizados no Brasil coincidentemente por dois estrangeiros, podem nos servir como contraponto, para abarcar a modalidade do estranho, não como desvio, mas companhia constante. Lévi-Strauss, em Tristes Trópicos, descreve em detalhes e de forma muito viva como um estrangeiro, em terras estranhas (costumes, linguagem, clima, geografia), não contente com a missão acadêmica da qual tinha sido incumbido originalmente, embrenha-se no mato e se propõe a observar, estranhar, se aproximar e dar um sentido a uma cultura totalmente alheia à sua. Em Lévi-Strauss, podemos destacar a curiosidade e ao mesmo tempo a humildade para se aproximar de algo tão novo e à primeira vista sem nenhum sentido.

Além da descrição da vida, dos papéis, das estruturas de parentesco e poder de diversas tribos e nações, como Bororo, Cadiveu, Nambiquara, entre outras, o autor reconhece que sua inteligência tem algo de neolítico: apesar da aparente distância existente entre ele (representante da civilização européia) e as culturas que vai narrar, reconhece uma grande afinidade entre a estrutura das civilizações “primitivas” e a estrutura de seu próprio pensamento. Confessa, fazendo uso inclusive das teorias freudianas, que o homem pode ser visto mediante um cânone retirado da geologia: em camadas, onde fenômenos impenetráveis à primeira vista, que provocam muita estranheza, podem revelar elementos complexos, que vão sendo descortinados a partir da dedicação do observador, onde se destacam qualidades sensoriais, como sensibilidade, faro e bom gosto. Sua experiência de etnógrafo demonstra que uma solicitação da curiosidade estética permite alcançar um conhecimento antes não imaginado.

Na narrativa de Lévi-Strauss, vamos tomando contato com seu estranhamento, sua falta de lugar e busca de caminhos, o que favorece que ele se aproxime também de outros homens, aparentemente tão diferentes e insondáveis, mas não mais do que o próprio pesquisador.

O nome do livro também traz um enigma: por que “Tristes Trópicos”? O que há de triste nessa trajetória? Talvez seu sentido de estranheza e mistérios, que nunca se solucionam plenamente. Também alude ao viajante solitário, que acaba construindo apenas uma narrativa, que nunca estará completa e nem terá acesso à verdade última. Sua experiência é profunda: toca o âmago das nações que visita, mas está de passagem, não se fixa, sempre sai em busca.

Roger Bastide, em livro belíssimo, onde se propõe a penetrar no Candomblé da Bahia, também nos oferece sua experiência de proximidade com outros estrangeiros: africanos, na origem, e escravos no Brasil, que reproduziram aqui a África da infância perdida, através da manutenção e dedicação a ritos e cerimônias de extremo envolvimento. Neste caso, diversas camadas de estrangeiros convivem: o escravo/ex-escravo, o europeu colonizador, o europeu cientista e as entidades sagradas. A pesquisa de Roger Bastide é exemplar. Exposto ao pensamento selvagem, misterioso e radical que caracteriza a religião do candomblé, ressalta o contato com essa forma de pensar, de cunho animista, que nos remete àquilo que habita em nós, que podia ter sido e não foi, e é por isso que ficamos impactados, assustados e curiosos com as cerimônias que esse pensamento engendra, para se expressar.

Roger Bastide não é um pesquisador que toma distância de seu objeto, mas mergulha em sua complexidade e estranheza, até emergir com algumas idéias novas, das quais não necessariamente compartilha, mas admite conhecer e experimentar. Como se trata de uma religião, levada muito a sério por seus adeptos, como um trabalho, Bastide passa a respeitar esse segredo/sagrado/privado: de certa forma, também ele precisa experimentar em si os mistérios, retomando o estranho/familiar para si mesmo, nas formas religiosas de encarar a morte, o sexo, a fome, o trabalho – mistérios também nossos, de difícil aproximação.

A transformação mítica do espaço simbólico em espaço religioso é uma experiência relatada com muita emoção em seu livro: o terreiro é a África; os pés descalços representam a condição escrava; o poste central representa a união sexual que nunca cessa, garantindo a vida; e o axé é a força invisível, mágica, sagrada, de todo ser animado, de todas as coisas. A partir dessa experiência, Bastide conclui que não há nada de primitivo nesses religiosos: seu pensamento é marcado por complexidade.

Uma frase de Roger Bastide elucida de forma brilhante o que pode estar por trás do sentido de conhecer e ter uma experiência marcante: “É à medida que se vai penetrando no santuário que os mistérios vão sendo aprendidos”, e mais adiante: “é o tempo que amadurece o conhecimento das coisas; o ocidental quer saber tudo desde o primeiro instante, eis porque, no fundo, nada compreende”.

No início de sua pesquisa num dos terreiros, um dos babalaôs, vendo sua ansiedade, dizia ao antropólogo: “A cada semana, a cada mês, ensinarei ao senhor algo de novo, pouco a pouco…” , ou “por hoje chega – volte amanhã, que saberá um pouco mais…”

Deixando de lado a especificidade do objeto de estudo desses dois antropólogos, os exemplos e ensinamentos podem funcionar para nós analistas, como modelos de aproximação com o humano, ou com o “estranho humano”. O próprio enquadre analítico guarda em seu formato a idéia de voltar amanhã, para não saturar, e também para não familiarizar demais. A frase dita pelo babalaô é dita por nós, de certa forma, a cada paciente, a cada encontro: “Amanhã continuamos. Para que a pressa?”.

O Estranho na clínica

O território do consultório, numa analogia com os terreiros visitados por Roger Bastide ou mesmo as aldeias indígenas eleitas por Lévi-Strauss, tem algo de misterioso e também assustador. O primeiro contato com o paciente é dotado de uma carga peculiar: tem início a formação de um campo novo, no qual estão depositadas muitas expectativas, de ambas as partes, mas o que mais assusta é o desconhecido. O dispositivo da fala, muitas vezes, surge para familiarizar e colocar em cena algumas equações aparentemente bem resolvidas, e o primeiro gesto do analisa é escutar, no sentido de receber, acolher.

Porém, o analista, além de acolher, desconfia, estranha, se pergunta, fica curioso ou ansioso diante de cada nova história que lhe chega. Aos poucos, uma narrativa vai sendo elucidada, muitas vezes pela primeira vez, no sentido de visar alguma modificação ou elemento de surpresa. Se a doença/sofrimento familiariza o paciente, não o faz com o analista: ele não se conforma, implica-se na gramática que lhe é exposta, e quer implicar o outro também, que muitas vezes chega alienado de seu discurso e portanto de seu mundo interno.

Na análise, começa a se criar lugar para um mundo interno, que muitas vezes causa estranhamento ao seu próprio donatário. Mas a situação é ainda mais complexa: Freud, a partir principalmente de suas dificuldades de tratar, iluminou um mecanismo presente nas relações humanas, que revela a implicação de um sujeito sobre o outro – a transferência, que faz uso de um outro para que os conteúdos ganhem sentido.

Falamos muito sobre esse conceito, familiarizamos demais sua presença, mas quando ele opera, opera em nós, e portanto estamos submetidos a ele. A transferência também é algo estranho: como uma bruxa ou ser mitológico, devemos ter cuidado com ela, mas não podemos eliminá-la, até porque é a partir dela que se engendra o processo analítico. O analista é seu destinatário e a utiliza como ferramenta de conhecimento e aproximação de uma outra realidade – a realidade do outro (como diz Lévi-Strauss, com faro, sensibilidade e bom gosto).

Cito uma passagem de Ítalo Calvino, quando trata da leveza, e faz uso da figura da Medusa: Perseu, o herói da história, lida com o monstro de forma sui generis; não o encara diretamente, pois seu olhar petrifica tudo que o circunda. Perseu não recusa a visão da realidade: a existência de um ser mais forte que ele, monstruoso, com capacidade para destruí-lo; mas recusa a visão direta dessa realidade monstruosa, fazendo uso de um espelho, uma mediação necessária para enfrentar forças incontroláveis. A não recusa da realidade, ainda que monstruosa e perturbadora, é a garantia de seu enfrentamento e consideração.

Se for possível fazermos um paralelo, o analista enfrenta o estranho, não se recusa a ter contato com a realidade interna que se apresenta, mas recusa o olhar direto ou o olhar que o paciente já dedicou a essa realidade. Propõe, assim, um outro olhar, o que pode ser fonte de outro estranhamento: algo tão familiar para o paciente, seus sintomas, colocados na categoria de estranho. Essa dupla realidade faz brotar comentários do tipo: “Eu sempre soube, mas não sabia…”, um paradoxo da razão que só cabe dentro de um sistema como o inconsciente, onde, segundo Freud, não há o não, mas qualidades brutas de experiências.

A experiência do Unheimlich, presente na vida e presente na clínica, demanda um cuidado especial. Mais uma vez, utilizo-me de expressões de Calvino, sugerindo a troca da palavra “mitos”, em seu texto aqui transcrito, pela expressão “inconsciente” ou “Unheimlich”:

Não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado sem nunca sair de sua linguagem imagística. (Calvino, 2006. p 16)

Ainda dentro do mito de Perseu, não devemos esquecer que da cabeça da Medusa decepada, saiu Pégasus, o último cavalo alado, que servirá a Perseu de forma exemplar. Num contraste extremo com o monstro que o origina, Pégasus é belo, leve, suave, embora tenha nascido do sangue da aterrorizante Medusa. Os contrastes e as antíteses mais uma vez se fazem presentes: do peso, a leveza; da morte, a vida; e Perseu não exclui nenhum desses elementos de sua experiência.

Contextualizando de forma diversa o paradoxo Unheimlich, é freqüente, na experiência clínica, que relatos, fragmentos, associações, rapidamente transformem-se no seu oposto. Dar lugar ao paradoxo é de grande valia. Nesse sentido, familiarizar ou dar um sentido único, pode colocar em risco o funcionamento natural do aparelho mental.

Algumas vinhetas estranhas

Aproveito o tema para relatar alguns episódios da clínica, sem nenhuma pretensão de explicá-los, mas apenas com o intuito de enfatizar as experiências paradoxais que o trabalho clínico põe à mostra e até potencializa. Nesses relatos, os personagens são anônimos; o invariante é que o foco é sempre uma relação assimétrica analista-paciente, numa sala de atendimento. Também gostaria de enfatizar que essa experiência compartilhada, nos diversos casos, não se encerrou momentaneamente, mas teve desdobramentos que foram surgindo pari passu.

Garanhão assustado

Trata-se de um homem que se apresentava extremamente sedutor e bem sucedido no contato com as mulheres. Seu escritório de direito, repleto de funcionários que iam aprender com ele as malícias da profissão, era um exemplo de seu sucesso. Além de uma turma integrada, que ele fazia questão de exibir, e da qual ele era o chefe – até porque bem mais velho e experiente, ele tinha acesso íntimo a todas as estagiárias. As meninas contratadas passavam por uma experiência sexual com ele: ele testava todas e essa era uma das regras do escritório. Porém, ao lado desse relato aparentemente seguro e bem resolvido, existia um homem muito solitário, até desvalido, que não dispunha de trocas, mas apenas relações de poder desigual, onde ele ilusoriamente ocupava o lugar-mor. Um belo dia, num ano cheio de apagões no final da tarde, que nos privavam da energia elétrica, ele vem para a consulta e perto das 19:00 a luz acaba. A analista, já prevenida diante desses reveses, movimenta-se para acender uma vela. Ele fica muito assustado e prefere encerrar a sessão, pois “não pode ficar sozinho com uma mulher numa sala escura”. Esse momento foi elucidativo, de um terror imenso diante do outro – um outro qualificado, adulto. A fragilidade de Dom Juan apareceu na sala.

Pernilongos na sala

Alguns pacientes não querem deitar; destes, alguns nos oprimem com seu olhar controlador e insistente, observando atentamente qualquer movimento. O divã está lá, mas não entra na cena e também não pode ser imposto. Neste caso, a paciente em questão, muito sensível a tudo, séria, rígida e tensa, manifestou desagrado em relação ao barulho do ar condicionado. O mal estar era localizado em diversos elementos do setting – que incluía até o manobrista do estacionamento, motivo de críticas e preleções. Curiosamente, num dia de muito calor, a analista, para evitar críticas e reclamações, preferiu desligar o ar condicionado barulhento e abrir a janela, quem sabe assim poderia favorecer o bem-estar de alguém tão queixoso. Ao chegar à sala e ocupar a cadeira em frente da analista, a paciente começa a movimentar suas mãos ininterruptamente; a analista não entende o gesto e pergunta do que se trata. “São pernilongos”, diz a paciente, “eles entraram por causa da janela aberta”. A analista poderia ter se explicado: para se livrar do ar barulhento que a incomodava, facilitou a entrada desses intrusos. Mas sem se fixar nessa explicação, começou a imitar a paciente, ajudando-a a expulsar os pernilongos com as mãos, e ambas realizaram um pas de deux, animado e divertido, que resultou em muitas risadas compartilhadas. Abriu-se uma pequena brecha para o lúdico.

Urubu no telhado

A sala de análise é simples, sempre a mesma, mas nem tanto: nela sempre acontecem experiências diferentes; neste caso, trata-se de uma paciente que ora deita, ora senta. Muitas vezes, deitar é perturbador, porque ela vive uma experiência de desligamento, de despersonalização, que atemoriza. Numa das fases em que deitava, olhando pela janela, comenta que viu um urubu, sobre o telhado do prédio em frente. A analista estava privada dessa visão, do ângulo onde se encontrava, e é convidada pela paciente a se inclinar – o que implica numa proximidade maior com a cabeça da paciente deitada. A analista o faz, posicionando-se no ângulo da paciente, e eis que surge o urubu. Ambas acompanham seu pouso no telhado, e a paciente relata que quando criança teve um amigo urubu. Todo dia, saía para alimentá-lo e até tentou colocar uma cordinha em seu pescoço, tomando-o por seu bicho de estimação. Enquanto suas amigas tinham gatos e cachorros, ela tinha um urubu. O convívio durou até o animal desaparecer do lixão próximo de sua casa. O relato nos tenta a interpretar e falar de seus lados “sujos /agressivos /devoradores”, que ela revela em forma de história, estimulada pela visão do animal. Mas a potência narrativa era tão clara, sustentava tão bem um paradoxo e uma experiência de caráter estranho, que ficamos apenas com a história. Claro que uma narrativa dessas não passa incólume para o analista, mas sua força e estranheza não precisam ser dissipadas com pressa.

Morte do pai da analista

Muitas vezes, os fenômenos transferenciais saem do território definido para os encontros. Alguns pacientes não se dão por satisfeitos de ter o analista naquela hora e daquele jeito, previamente acertado, e aparecem em cenas inusitadas. Certa vez, uma paciente muito difícil, com uma história familiar confusa, casada com um primo de primeiro grau, o que gerou filhos com certas deficiências, ao saber da morte do pai da analista, mesmo sem conhecer sua família, foi ao enterro e fêz questão de olhar a analista numa situação de dor. Quis ver e ser vista – parece que entrou numa cena mítica, onde havia um pai morto e uma filha velando seus últimos momentos. Deixando de lado a surpresa e o espanto da analista, ainda por cima muito jovem, no começo de sua trajetória profissional, a paciente retorna à sessão depois dessa visita ao mundo familiar de sua analista, e fala contundentemente do que viu, com certo gozo. Tal situação tem um peso cru e bruto, muito condensada e sintética da visão de mundo que acompanhava essas mulher, que não podia respeitar a dor do outro, o que a fazia invadir cenas íntimas. Cenas dessa espécie talvez não possam ser resolvidas numa sessão ou com uma fala, mas demandam um trabalho delicado. Como Perseu fêz com a cabeça da Medusa, apoiando-a cuidadosamente num monte macio de folhas, certas vezes só resta ao analista tratar com leveza e parcimônia algo tão pesado e estranho.

Como desfecho, podemos pensar no grande desafio que nos cabe numa análise: convocar o estranho, conviver com ele, sustentar seus paradoxos, aproximar-se de sua intimidade e permitir que ele circule e também não transforme o paciente em prisioneiro de um narcisismo totalizante, que tudo quer compreender e abarcar. Como Perseu, talvez o analista precise confiar que da Medusa, que cristaliza e petrifica, pode surgir um Pégasus, que permite voar, sonhar, movimentar.


Referências

Bastide, R. (2001). O Candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras.
Baudrillard, J. (1995). A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70
Calvino, I. (2006). Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras.
Fédida, P. (1988). Clínica psicanalítica. São Paulo: Editora Escuta.
Freud, S. (1990). O Estranho. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das obras psicologias completas de Sigmund Freud (vol. XVII, pp. 273-314).
Lévi-Strauss, C. (1955). Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras.

Resumo

Nesse texto, a autora parte das considerações de Freud sobre o estranho (Unheimlich), reconhecendo sua importância e reservando-lhe um lugar especial, dentro da teoria psicanalítica e do trabalho na clínica. Ilustra a escrita com os trabalhos antropológicos de Lévi-Strauss e Roger Bastide, e com vinhetas extraídas da clínica.

Palavras-chave

Estranho. Unheimlich. Transferência. Ambivalência. Angústia.

Summary

The text approaches Freud’s considerations over the uncanny (Unheimlich), recognizing its importance and reserving this theme a special place inside psychoanalytical theory and practical clinical experiences. The writing is illustrated by anthropological works from Levi Strauss and Roger Bastide, and sentences extracted from clinical sessions experiences.

Key-words

Uncanny. Unheimlich. Transference. Ambivalence. Anxiety.

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