Nicolelis: “Brasil virou Fukushima biológico” | Claudio Tognolli

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Reuters – O Brasil pode superar o recorde dos Estados Unidos de mais de 5 mil óbitos por Covid-19 em um único dia, e ruma para se tornar o lugar do mundo com o maior número de vítimas fatais da doença.

 

A gravidade da situação deve aumentar ainda mais com a aproximação do inverno, período em que o país registrou no ano passado seu primeiro pico da doença, avaliaram especialistas, o que pode elevar o total de vítimas fatais a mais de 500 mil ainda no primeiro semestre.

“A Organização Mundial da Saúde expôs o Brasil como alvo principal, mas acho que eles ainda não se deram conta do tamanho do rojão aqui. É um reator nuclear que entrou em reação em cadeia e está fora de controle. É um Fukushima biológico”, disse à Reuters o neurocientista Miguel Nicolelis, que acompanha de perto o avanço da Covid-19 no Brasil desde o início da pandemia.

Com uma campanha de vacinação lenta, poucas medidas efetivas de restrição de circulação de pessoas e a rápida disseminação de variantes mais transmissíveis, o Brasil se tornou o novo epicentro da pandemia, sendo responsável por uma de cada quatro mortes no mundo pelo coronavírus atualmente.

Na última semana epidemiológica o país registrou média diária superior a 2.800 mortes, com um recorde de 3.860 óbitos registrados em 24 horas na quarta-feira.

De acordo com Nicolelis, o Brasil está em rota para chegar a 500 mil mortes por volta de maio ou junho, mediante a aceleração recente da doença e a chegada dos meses mais frios do ano.

Estudo do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), ligado à Universidade de Washington, no Estados Unidos, apontou que o Brasil pode chegar a 563 mil mortes por Covid-19 em 1º de julho, caso se mantenha o cenário atual de distribuição de vacinas e medidas de restrição.

Um cenário mais positivo, em que 95% da população usasse máscara, o número estimado de mortes no período cairia para 508 mil, enquanto no pior dos cenários, com menos pessoas usando máscaras do que atualmente e um avanço ainda mais rápido das variantes mais transmissíveis, o número chegaria a 598 mil no período.

Atualmente o Brasil registra o segundo maior número de óbitos pela doença no mundo, com 332.752 até segunda, enquanto os Estados Unidos têm a maior perda de vidas da pandemia, com 555.826 óbitos.

Mas, ao contrário da curva crescente do Brasil, os Estados Unidos têm registrado quedas constates nas mortes diárias por Covid, com média nos últimos sete dias inferior a 900.

“A chance é muito grande de a gente passar os Estados Unidos, tanto do ponto de vista do dia mais letal, mas certamente tudo leva a crer que nós temos uma chance de passar no total acumulado de óbitos também”, afirmou Nicolelis, que no início do ano já alertava para a marca de 3 mil óbitos por dia que foi cruzada no mês passado.

“Sem reduzir o fluxo não essencial de pessoas pela malha aérea, ferroviária e rodoviária, e sem dobrar o número de vacinas para 2 milhões por dia, a crise vai se esticar, no inverno vamos ter a confluência das outras moléstias respiratórias, e com isso vai ter gente morrendo na rua pelo Brasil.”

O número assombroso de mortes pelo país já tem provocado impacto inclusive no crescimento populacional, uma vez que a diferença entre mortes e nascimentos atingiu uma mínima histórica e pode haver, inclusive, um maior número de óbitos do que nascimentos pela primeira vez, com o colapso do sistema de saúde provocado pela Covid impossibilitando também o atendimento a outras doenças graves.

Na cidade de São Paulo, que concentra os maiores números de casos e de mortes por Covid no país, cemitérios tem batido seguidos recordes de enterros por dia e o setor funerário tem recorrido a enterros noturnos e aceleração das exumações para atender à demanda.

Variantes

Principal arma contra o vírus, a campanha de imunização do país segue em ritmo lento mediante uma escassez de doses, uma vez que o governo federal se recusou a contratar imunizantes no ano passado. Até o momento, foram vacinados 16,7 milhões de brasileiros com a primeira dose, o que equivale a 7,9% da população, de acordo com o Ministério da Saúde. Somente os grupos prioritários somam quase 78 milhões de pessoas.

“A gente tem que lembrar a vacinação provavelmente não vai reduzir o número de óbitos tão cedo, vai demorar a fazer efeito. Precisaríamos de medidas coordenadas nacionalmente para conter a transmissão, mas isso nunca aconteceu aqui no Brasil”, disse o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Christovam Barcellos, um dos coordenadores do painel MonitoraCovid-19.

“A curva deste ano está parecida com a do ano passado. Se a gente tiver comportamento parecido em 2021, começamos com 2 mil, passamos para 3 mil e pode se formar um patamar de 4 mil mortes ao longo do inverno. Isso é uma tragédia”, acrescentou.

A drástica aceleração da pandemia coincidiu com a o avanço da variante P.1 do coronavírus, originada e Manaus e que se tornou predominante na maior parte do país. Com capacidade de transmissão duas vezes maior, ela tem atingido principalmente pessoas mais jovens, o que resultou num aumento exponencial de internações dessas pessoas. Segundo a Fiocruz, as mortes por Covid-19 aumentaram 352,62% na faixa etária de 30 a 39 anos entre janeiro e março deste ano.

O descontrole da transmissão provoca o risco ainda do surgimento de novas variantes. “Os nossos riscos são gigantes, e o mundo descobriu que o Brasil é uma bomba-relógio, um laboratório a céu aberto com 100 mil casos diários, um número explosivo de mutações ocorrendo, e quanto mais mutações, maior a chance de novas variantes, e algumas delas evidentemente vão ser mais problemáticas”, afirmou Nicolelis.

Na segunda-feira o país cruzou a marca de 13 milhões de casos confirmados, tendo acumulado um milhão de casos em apenas 14 dias –= o ritmo mais rápido desde o início da pandemia. Até o momento, são 13.013.601 infecções registradas pelo Ministério da Saúde.

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