Na internet, suspeito ironizava Bolsonaro e divulgava vazamentos contra Sérgio Moro | Claudio Tognolli

Exclusivo: Na internet, suspeito ironizava Bolsonaro e divulgava vazamentos contra Sérgio Moro

Investigado por ataque no celular do ministro da Justiça também já se envolveu com política em Araraquara

Um dos quatro suspeitos de envolvimento aos ataques a telefones celulares de autoridades ligadas ao Governo Federal e à Operação Lava Jato, entre elas, o atual ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, vítima de acesso ilegal no aplicativo Telegramque era morador de Araraquara como o ACidadeONmostrou com exclusividade, já estava foragido da Justiça, mas nem por isso deixava de ter uma vida ativa na internet. Em seu Twitter, que usou até ontem, Walter Delgati Neto, mais conhecido como Vermelho, dizia que o “Brasil não é para principiantes” e aproveitava para ironizar o atual presidente da república, Jair Bolsonaro (PSL) e repostar conteúdos relacionados ao vazamento do Telegram de Moro.

 

Ele, que já tem condenações por estelionato e tinha familiaridade com o ambiente online, como o ACidadeON/Araraquara mostrou com exclusividade, teve a casa vistoriada, mas como não foi encontrado evitou a prisão desta terça-feira na Operação Spoofing, cujo objetivo foi desarticular organização criminosa que praticava crimes cibernéticos. Foram cumpridas onze ordens judiciais, sendo sete mandados de busca e apreensão e quatro mandados de prisão temporária, em Araraquara, São Paulo e Ribeirão Preto. Além de Moro, o crime envolveria ainda juiz federal, desembargador e dois delegados.

No Twitter, Walter Delgati Neto se mostrava contra o atual governo federal (Reprodução/Twitter)

A casa de Delgatti Neto [ocupada apenas pela avó] foi vistoriada pelos agentes federais de Brasília; documentos foram apreendidos. Na internet, Delgatti Neto, que criou a conta em 2010, mas voltou a comentar em 27 de maio, depois de abandonar o Twitter em agosto de 2011, repostava conteúdos contra Bolsonaro e também vivia discordando do chefe dos procuradores ligados a Operação Lava-Jato, Deltan Dallagnol. Em um compartilhamento de 18 de julho, ele replica a imagem de Sérgio Moro com a frase “Delação Manipulada”.

São dezenas de postagens dos mais variados colunistas e meios de comunicação que ele passou a divulgar desde então. Uma delas, no dia 6 de julho, mostra os bonecos de Moro e Dallagnol falando sobre um hacker ter invadido as contas do Telegram. Delgatti tem uma série de condenações judiciais e processos tramitando na Justiça, mas, antes de entrar para os atos ilícitos, já se mostrava ligado à política. Em 22 de junho de 2007, se filiou ao DEM em Araraquara. Mesmo distante, ele segue ativo [ao menos no papel].

Presidente do DEM de Araraquara desde 2018, Leandro Azem Cortez confirma que Delgatti é filiado de um modelo antigo do partido na cidade, mas não integra o grupo do Novo DEM que vem sendo reestruturado por técnicos em gestão pública, empresários e comerciantes da cidade. “Essa lista é antiga, mas estão todos ativos, sem participação na gestão da nova legenda local”, diz Cortez explicando que ele não representa o partido, nunca participou de uma reunião e ninguém o conhece.

Como o ACidadeON/Araraquara mostrou Delgatti e o outro suspeito Gustavo Henrique Elias Santos, de 28, que quando atuou como DJ era chamado de Guto Dubra e que hoje teve a casa vistoriada no Jardim Roberto Selmi Dei, mas acabou preso temporariamente em São Paulo, já tinham sido detidos juntos anteriormente. Na época, Delgatti usava uma falsa funcional de policial civil em Santa Catarina. O DJ foi solto; o colega acabou por um período na prisão.


No mandado de busca e apreensão assinado pelo juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Criminal do Distrito Federal, em que ACidadeON/Araraquara também teve acesso com exclusividade, consta apenas os endereços e informação de “se obter de forma seletiva todos os elementos de provas relacionadas a invasão de contas do aplicativo Telegram utilizadas pelo atual ministro da justiça e segurança pública.”

No documento está descrito que os agentes devem promover a busca e apreensão de bens e documentos relacionados à execução e produtos do crime em questão, bem como documentos e mídias de armazenamento, além de aparelhos eletrônicos. Os agentes também ficaram liberados para apreender qualquer elemento que constituísse uma prova prática de outro crime principalmente envolvendo aplicativos como WhatsApp Telegram.

Oficialmente, a PF não confirma a identidade dos suspeitos que rastreou através dos sinais do ataque aos telefones. Não está claro se o grupo tem ligação com o pacote de mensagens privadas dos procuradores da Lava-Jato obtido pelo site The Intercept Brasil [que passou a divulgar as conversas desde 9 de junho apontando uma colaboração entre o então juiz e Deltan quando ambos atuavam em Curitiba pela Lava-Jato]. A informação também que corre é que, ao contrário do que se imaginava, o grau de capacidade técnica dos hackers não era alto.

Gustavo e Walter são suspeitos de ligação com os ataques nos celulares de uma série de autoridades, entre elas, o ministro Sérgio Moro

Quem são os suspeitos?

E o histórico deles demonstraria isso. Estariam mais para golpistas do que hackers. Um dos suspeitos [que foi preso em apartamento em São Paulo, mas a família morava no Selmi Dei, bairro periférico de Araraquara] tem 28 anos e o pai está preso desde 2006, por envolvimento com roubo, furto e uma tentativa de homicídio. Ele, no entanto, tinha uma boa vida com carro importado e frequentando bons ambientes.

Na Justiça tem contra si alguns processos. Em 14 de janeiro de 2013, ele foi preso por ter receptado uma caminhonete, uma Hillux, avaliada em R$ 91 mil, e para circular adulterou as placas e o documento. No seu celular havia fotos ostentando o uso de armas, por isso os policiais foram até a casa dele [essa mesma vistoriada hoje pela PF] e apreenderam munições calibre 38 e 735, além de simulacros de armas reais. Julgado em 2015, foi condenado a cumprir seis anos e seis meses de reclusão, em regime semiaberto.

Mas, essa relação entre os dois suspeitos de Araraquara fica comprovada em outro processo. Em maio de 2015, os dois foram detidos na companhia de mais duas pessoas dentro do Parque Beto Carrero World, em Santa Catarina. O suspeito de 28 anos foi ouvido e liberado, mas o colega, de 30 anos, que está foragido e teve a casa vistoriada na Vila Xavier, acabou preso por falsidade ideológica. Na época, detido, apresentou uma carteira vermelha com as inscrições da Polícia Civil [comprada de um camelô, em São Paulo] e dentro do carro havia uma arma e munições.

Mas, este não é o único processo envolvendo esse suspeito de Araraquara que passa a ser investigado pela PF na Operação Spoofing com o objetivo de desarticular organização criminosa que praticava crimes cibernéticos. Além de Sérgio Moro, teriam sido vítimas do grupo o desembargador Federal Abel Gomes, da TRF 2ª região, do juiz federal Flávio Lucas, da 18ª Vara Federal do Rio de Janeiro, além do aparelho dos delegados federais Rafael Fernandes, de São Paulo, e Flávio Reis, de Campinas.

Sérgio Moro teria sido algo do grupo, segundo apuração da PF (Foto: André Coelho / Folhapress)

As atividades ilícitas dele eram variadas e antigas. Em Piracicaba, no dia 7 de julho de 2012, o ele se hospedou em um hotel e pagou a conta de R$ 740 com o cartão de crédito de um homem de 75 anos. Em juízo, em agosto de 2015, não negou o crime e acabou condenado a um ano de prisão em regime aberto. Antes, em 2009, também chegou a ser detido por suspeita de envolvimento com drogas, mas foi colocado em liberdade por um habeas corpus.

Em 8 de maio de 2013, ele foi detido por policiais rodoviários, em São Carlos, com um carro avaliado em mais de R$ 100 mil, na época, e ostentando cartões de crédito e débito falsos e um extrato bancário mantendo na conta R$ 1.8 milhão. Ele chegou a ser preso, mas depois foi solto pela Justiça.

Em 21 de fevereiro do ano passado, foi julgado por envolvimento em um estelionato cometido em março de 2015. Na época, ele teve acesso a um cartão bancário furtado de um escritório de advocacia e aproveitando dele fez uma série de compras, entre elas, poltrona, cabeceira de cama, além de roupa de cama. Um prejuízo de quase R$ 1.7 mil. Quando ouvido sobre o caso negou o crime e alegou ter feito a compra com o cartão fornecido por um amigo. Ele acabou condenado a um ano e dois meses de reclusão em regime semiaberto.

Mas esse não é o único caso. Em 15 de abril de 2017, acabou preso por tráfico de drogas e falsificação de documentos. Policiais civis investigavam outro caso quando cumpriram um mandado de busca e apreensão no seu apartamento, em Araraquara. Lá, apreenderam comprimidos de um medicamento com venda proibida, além de uma carteirinha de estudante de medicina da USP com a foto dele e dados pessoais de outra pessoa.

Em janeiro do ano passado, a Justiça o absolveu do tráfico e o condenou a dois anos pela falsificação. Mas, em junho do ano passado, a Promotoria e a defesa recorreram e o Tribunal de Justiça entendeu que por ele ter um perfil reincidente o condenou também pelo tráfico de drogas. A defesa já recorreu da medida em instâncias superiores. O ACidadeON/Araraquara não conseguiu contato com o advogado de Delgatti. Já sobre Gustavo, o advogado Ariovaldo Moreira disse que vai para Brasília tomar ciência dos detalhes do caso. Na internet, o tema virou alvo de piadas. 

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