MPF volta a investigar empresas por “caixinha da ditadura” e prepara pedidos de indenização | Claudio Tognolli

Metrópoles

Grupo se reúne nesta terça, em continuidade aos levantamento da Comissão da Verdade. Objetivo é embasar futuras ações de indenizações

 

REPRODUÇÃO/REDES SOCIAS
Empresas que ajudaram a financiar a ditadura militar (1964-1985) no Brasil voltaram a ser alvo do Ministério Público Federal (MPF) que iniciou um trabalho para tentar concluir os levantamentos já realizados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), constituída no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

A busca pelas empresas que participaram da “caixinha da ditadura” reunidas na chamada Operação Bandeirantes, conhecida como Oban, ou mesmo empresas fora desse grupo, mas que ajudaram de alguma forma na repressão, é um dos 10 pontos a serem investigados pelo grupo de trabalho formado na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão técnico do MPF.

A coordenadora do grupo é a procuradora regional da República, em São Paulo, Eugênia Augusta Gonzaga. A primeira reunião temática com entidade civis será realizada nesta terça-feira (24/11).

Ela presidiu a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos de 2014 até agosto de 2019, quando foi exonerada após ter se manifestado publicamente em defesa da família e da memória do desaparecido político Fernando Santa Cruz. Na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro atacou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, insinuando, sem provas, que o pai dele, Fernando, havia sido morto por companheiros de guerrilha, por suposta traição.

Eugênia Gonzaga agora continua, com o auxílio de mais cinco procuradores do MPF, a busca por informações sobre o período militar.

Para ela, o trabalho precisa ser desenvolvido no sentido de ouvir atores da sociedade civil, buscar testemunhas e provas de participação das empresas em ações com o objetivo de basear futuras reparações de danos causados a opositores do regime militar.

“Nosso objetivo primeiro é dar sequência ao trabalho de justiça de transição (ramo da Justiça que como objetivo julgar os perpetradores de crimes e graves violações de direitos humanos, e inclui um conjunto de medidas políticas e judiciais utilizadas como reparação), que é feito no MPF há mais 20 anos. Eu sempre atuei na área cível e esse GT Memória e Verdade é apenas para medidas cíveis”, destaca a procuradora.

“Eu acredito que, se a gente fizer um levantamento consistente e der oportunidade para essa empresas também trazerem sua versão, trazerem suas provas, eu acho que isso pode contribuir para gente conseguir promover uma reparação mais geral para a sociedade brasileira no tocante aos crimes cometido pela ditadura.”

Apoio das elites

“O que queremos é ampliar essa investigação também para demostrar o quanto a sociedade brasileira colaborou com essa ditadura. No início, os próprios veículos de imprensa estavam a favor do golpe, viam sentido na derrubada do governo anterior. A ditadura brasileira foi amplamente apoiada, principalmente pelas elites, pelo setores de importação, pelos setores de formação. Além disso, os militares foram bem-sucedidos em conseguir calar a voz de todos que poderiam demonstrar o que estava acontecendo”, avalia a procuradora..

“A gente acha, inclusive, que esse acordo com a VW foi frutífero até por pressão da VW internacional, na Alemanha, que não quer ver sua história manchada com esse tipo de acusação. Então, ela (a empresa) quis também fazer a reparação”, ressalvou.

O grupo já havia sido criado em 2015, estava inerte e no último dia 13 de agosto teve sua nova composição nomeada pelo novo subprocurador Carlos Alberto Carvalho de Vilhena Coelho.

error: