Mais um estrago patrocinado por Trump | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

 

Talvez os mercados sejam, às vezes, de fato mais inteligentes do que os observadores dos mercados: no dia em que negociadores dos EUA e da China mais ou menos celebraram, na Casa Branca, um acordo inicial sobre a guerra comercial insuflada pelo presidente Donald Trump, as bolsas deram de ombros – tanto em Hong Kong como em Xangai ou Frankfurt.

Na Ásia foram registradas pequenas quedas. Também na Alemanha o DAX caiu 0,2%. Não é o que se possa chamar de clima de festa.

À primeira vista, o resultado apresentado por Trump e seus negociadores de fato impressiona: a China se compromete a comprar muito mais produtos dos Estados Unidos. Fala-se de um aumento de 100 bilhões de dólares por ano. A China garante concessões na proteção tanto de propriedade intelectual de empresas dos EUA, como de tecnologia já transferida. E Pequim acena com o incremento da compra de produtos agrícolas americanos. Os produtores americanos saberão ser gratos a Trump.

E, no início da semana, os chineses já haviam apresentado dados que podem ser lidos como uma justificativa para o acordo da “fase um” dessa guerra comercial que ainda deverá durar muito: queda nas exportações para os EUA, e crescimento historicamente fraco do comércio exterior do país. A consequência é um crescimento econômico de apenas 6%, fraco para os padrões chineses.

Sem crescimento forte não há segurança política no império do Partido Comunista – é, quem sabe seja assim tão simples.

A verdade, porém, é que ainda não está claro o que acontecerá com todas as promessas do acordo. Trump é um líder errático. Os poderosos chineses vão fazer de tudo para não entregar as cartas que de fato querem manter: o objetivo deles é, por todos os meios disponíveis, crescer tanto econômica quanto politicamente para tornar a China a líder mundial no mundo digital – e assim se manterem no poder.

Mais do que qualquer outra coisa, o que esse chamado acordo deixa claro, são os sintomas dos problemas que ele deveria resolver.

Belzebu Trump mostra – e isso já é sua marca registrada – um menosprezo explícito por qualquer acordo internacional e multilateral no qual não seja ele quem dita as regras. O instrumento chamado sanção se tornou seu pé-de-cabra favorito: “Se não quer colaborar por bem, vai colaborar na marra.”

O economista alemão Gabriel Felbermayr chamou o acordo fechado em Washington de “nonsense bilateral num mundo multilateral”. Uma definição melhor é impossível. E, em Pequim, o presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, Jörg Wuttke, cunhou a acertada expressão “comércio dirigido” – é isso que sai desse acordo comercial entre Washington e Pequim.

Houve um tempo em que, para conflitos comerciais como esse que está sendo “resolvido” agora na Casa Branca, havia mecanismos de arbitragem internacionais, em especial a Organização Mundial do Comércio (OMC). É verdade que nem tudo está em ordem na OMC. Só que também por lá foi Trump quem agiu para paralisar de vez as coisas.

Os países que haviam aceitado esses mecanismos internacionais logo se viram recompensados, lembram os economistas. O instituto econômico alemão IfW calculou esse efeito positivo: no total, ele gira em torno de 855 bilhões de dólares por ano para os 180 países da OMC, os quais apresentam uma média de crescimento econômico anual de 4,5%.

A guerra comercial do presidente americano é um ataque direto a essa conquista, pouco importando o que seja decidido na Casa Branca. A chance de uma resolução multilateral de problemas se torna menor e não maior. O resultado pode ser visto na balança comercial da China e também – em outros setores – no Iraque, Irã, Brasil ou na Hungria e Polônia.

America first destrói conquistas internacionais que poderiam ser usadas para resolver problemas globais decisivos, e isso em troca de (talvez) uns 40 bilhões de dólares a mais para os produtores agrícolas dos Estados Unidos.

O voto deles pode garantir a reeleição de Trump. É, quem sabe seja assim tão simples.

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