Isto É: Todos pela democracia. Ele não | Claudio Tognolli

Isto É

País começa a se unir em defesa da democracia e contra os ataques de Jair Bolsonaro ao STF e às instituições. Protestos ocorreram em várias cidades e devem se repetir, acuando o presidente, que passou a chamar os manifestantes de “terroristas”. As iniciativas suprapartidárias alinham diferentes correntes políticas, reúnem juristas, políticos, intelectuais e torcidas organizadas e lembram a campanha das Diretas

 

Em momentos de tensão social e política, são as ruas que falam mais alto. Mas a dinâmica política foi inteiramente afetada pela pandemia, o que explica uma certa apatia da sociedade mesmo com a crise histórica que penaliza o País. Agora, a sociedade começa a reagir contra as ameaças quase diárias de ruptura institucional feitas por Jair Bolsonaro. Desde o último fim de semana, a indignação passou a ganhar as ruas, não se limitando aos panelaços quase diários pelo País. O que faltava para fortalecer a onda pró-democracia, a participação popular e organizada da sociedade, já não falta mais. Manifestações e movimentos da sociedade civil passaram a se multiplicar contra o avanço autoritário do presidente.

O grito das ruas começou a ser ouvido no domingo, 31, quando integrantes de torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) organizaram ato pró-democracia na avenida Paulista. O protesto começou de forma pacífica, com palavras de ordem contra Bolsonaro inspiradas nos gritos coletivos dos estádios e faixas pró-democracia. Mas degenerou para episódios de violência contra a polícia, que tentava evitar choques com outra manifestação de bolsonaristas marcada para o mesmo local. No Rio, torcedores do Flamengo, do grupo Fla Antifascista, fizeram um protesto na orla de Copacabana até encontrar membros de um ato a favor do presidente, o que levou a polícia a dispersar os manifestantes. Essas ações também passaram a repercutir a luta antirracista, que se originou nos EUA. Manifestações em defesa da democracia, contra o racismo e contra Bolsonaro também ocorreram em Manaus e Curitiba.

Juristas e advogados se unem

A movimentação não ocorreu apenas nas ruas. No dia seguinte, entidades de magistrados e membros do Ministério Público lançaram uma nota conjunta manifestando “preocupação com a situação política do país, em virtude de episódios ocorridos nas últimas semanas que em nada contribuem para a gestão das atuais crises sanitária e econômica, bem como consubstanciam flagrante risco institucional”. Assinaram o documento a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a Associação dos Juízes Federais (Ajufe), a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). No mesmo dia, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e seis centrais sindicais se reuniram numa videoconferência para articular um movimento de defesa da democracia.

A VOZ DAS RUAS Manifestantes na avenida Paulista,
em São Paulo, em ato pró-democracia estimulado por torcidas organizadas. Rio e Curitiba também tiveram manifestações (Crédito:Toni Pires/FramePhoto)

A internet também virou ferramenta de mobilização. O movimento “Basta!”, que reúne advogados e juristas de diferentes matizes ideológicas e políticas, aponta os crimes de responsabilidade do presidente e pede respeito à democracia. Foi lançado com cerca de 720 signatários, entre eles o ex-governador Claudio Lembo, Antonio Claudio Mariz de Oliveira, Sergio Renault, Dalmo Dallari, Celso Lafer, José Eduardo Martins Cardozo e Sebastião Tojal. Em quatro dias, já tinha 50.480 assinaturas. Conseguiu a proeza de reunir apoiadores que até recentemente estavam em lados opostos, como o ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da Lava Jato, e Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado que defendeu vários acusados. Outro movimento, o “Juntos pela democracia”, foi organizado pelo sociólogo Ricardo Borges Martins e pelo grupo Pacto pela Democracia. Seu manifesto juntou 130 entidades, como o RenovaBR, Raps, a ONG Sou da Paz, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e o Instituto Ethos.

PODERES UNIDOS Ministro do Supremo Tribunal Federal se unem contra os ataques de Bolsonaro. Parlamentares se mobilizam para formar uma frente ampla pela democracia, que conta com o apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (abaixo) (Crédito: Pedro Ladeira)

Na internet

Além das entidades organizadas, também pipocam ações espontâneas. É o caso do “Estamos Juntos”, lançado no sábado, 30, organizado pelo escritor Antonio Prata, entre outros. Criado inicialmente por artistas e intelectuais, já agrupa centenas de personalidades de diversas tendências como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, o deputado Marcelo Freixo (PSOL), o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, o médico Drauzio Varella e a atriz Fernanda Montenegro. Já a campanha “#Somos70porcento” surgiu nas redes sociais, criada pelo economista Eduardo Moreira, fazendo uma alusão à maioria que não aprova o governo Bolsonaro, segundo as últimas pesquisas. “A minoria que apoia Bolsonaro é tão agressiva que se faz parecer como maioria. A maioria está assustada. A ideia foi fazer ela se assumir, contra as barbaridades antidemocráticas do Bolsonaro, a favor da cultura e da preservação da Amazônia”, diz Moreira. Esses movimentos viram o número de adesões disparar. O “Estamos Juntos” foi lançado com 1,6 mil assinaturas. Cinco dias depois, já somava 276 mil. O “#Somos70porcento” ficou em primeiro primeiro lugar no Twitter Brasil no primeiro dia de lançamento, e em terceiro lugar no mundo. Desde então, não parou de angariar apoios, como o da apresentadora Xuxa. O sucesso dessas iniciativas foi tão grande que levou os apoiadores de Bolsonaro a lançarem uma contraofensiva com o uso de robôs. “Os caras entraram com tudo. Mas demos uma surra nas redes”, brinca Moreira.

ANDRE BORGES

O sucesso fez as ações se multiplicarem. Movimentos como “Esportes pela democracia”, com Walter Casagrande, Gustavo Kuerten, Raí e Ana Moser, e “As Forças Armadas e a Democracia”, assinado por 170 profissionais de Direito, também exigiram o respeito à democracia. Esses grupos não pregam o impeachment, como faz a Comissão Arns, tendo à frente o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias. Mas alertam para o risco da escalada autoritária, e, por isso, começam a repercutir no Congresso. Parlamentares ensaiam criar uma frente ampla democrática unindo políticos de diferentes espectros ideológicos, da direita à esquerda.

Congresso se movimenta

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mostra simpatia. Retransmitiu em rede social mensagem do deputado federal Fábio Trad afirmando que “liderar é saber o momento de superar diferenças para unir forças pelo essencial”. O deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos líderes do MBL, criou um grupo de WhatsApp com congressistas que conta com dezenas de deputados, entre eles Joice Hasselmann (PSL-SP), Alessandro Molon (PSB-RJ) e Tabata Amaral (PDT-SP), uma das expoentes da nova esquerda. A movimentação também ocorre fora do Parlamento. Jornalistas, lideranças partidárias e representantes de entidades como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) participaram de um ato virtual em defesa da democracia e da liberdade de imprensa, de caráter suprapartidário.

VIRTUAL Videoconferência reuniu a CNBB, a OAB e seis centrais sindicais para articular um movimento de defesa da democracia (esq.). Parlamentares e jornalistas participaram de um ato virtual pela liberdade de imprensa (centro). Um dos alvos do presidente, o ministro Alexandre de Moraes (dir.) tomou posse no TSE

Essas ações foram catalisadas pelas ameaças repetidas de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF). Por isso, enquanto a internet se agitava, presidentes dos 27 Tribunais de Justiça do País anunciaram em carta o apoio integral à Corte. No domingo, 31, Bolsonaro participou mais uma vez de um ato em Brasília que pedia intervenção no STF. Para sugerir apoio das Forças Armadas, sobrevoou a manifestação em um helicóptero da FAB, ao lado do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Também desfilou montado em um cavalo da PM, tentando criar uma imagem solene, como se conduzisse os destinos da Nação. Essa demonstração foi esvaziada, assim como os últimos atos pró-governo, mostrando que o presidente está cada vez mais isolado e entrincheirado. Por isso mesmo, a tensão na Praça dos Três Poderes permanece elevada. O ministro Celso de Mello, relator do inquérito que apura a interferência política na Polícia Federal, é o maior alvo do presidente. Um comentário seu feito em um grupo privado revela a gravidade do ambiente político. “É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar”, escreveu o decano. “Os bolsonaristas “desprezam a liberdade, odeiam a democracia” e pretendem instaurar uma “desprezível e abjeta ditadura militar”, externou. Outro alvo é o ministro Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do preferido do presidente para a direção-geral da Polícia Federal, atraindo a sua ira. Moraes também é o relator do inquérito das fake news, que apura os ataques aos ministros do STF. Essa ação pode ter desdobramentos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que julgará pedidos de impugnação da chapa Bolsonaro-Mourão nas eleições de 2018 pelo uso ilegal de propaganda em redes sociais, o que preocupa cada vez mais o mandatário. Sentindo o risco crescente, o presidente ensaiou uma distensão, que não deve durar, a julgar pelo seu histórico. Participou da posse virtual de Moraes como ministro do TSE na terça-feira, 2.

Bolsonaro chama os manifestantes de “marginais” e “terroristas”. Identificar bodes expiatórios é uma forma de fortalecer o discurso autoritário

INFLEXÃO A passeata dos cem mil no Rio de Janeiro (abaixo), em 1968, que reuniu Edu Lobo e Chico Buarque, e o movimento das Diretas Já, em 1984, com Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, unificaram diferentes correntes políticas e apontaram mudanças

Novas manifestações

Ao mesmo tempo em que mira o STF, Bolsonaro insiste em sua política de desprezo pela vida. “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo “, declarou, novamente ignorando a recomendação do isolamento social. Isso enquanto o País bate seguidamente o recorde de mortes diárias pela Covid-19, disputando a liderança mundial nesse ranking macabro, e está sem ministro da Saúde desde 15 de maio. Para fugir das críticas, ele tem reagido às manifestações como se fosse vítima, acenando com a possibilidade de uso das Forças Armadas. O vice, Hamilton Mourão, juntou no mesmo balaio os distúrbios que se seguiram aos protestos em Curitiba, as ações de torcidas organizadas e a onda antirracista nos EUA. Bolsonaro chamou os manifestantes de “marginais” e “terroristas”. Para o mandatário, identificar bodes expiatórios e despertar o fantasma do terrorismo é uma forma de fortalecer o discurso autoritário. Esse é o risco que emana de movimentos como os das torcidas organizadas, que muitas vezes têm histórico de violência. E serve como alerta para as novas manifestações previstas para o domingo, 7, em várias cidades, que prometem incorporar a luta contra a discriminação racial.

Uma das chaves para o sucesso dos movimentos democráticos que ganham tração é a superação da polarização. “Li os manifestos e acho que tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora. Não tenho mais idade para ser maria-vai-com-as-outras”, disse o ex-presidente Lula. O petista recomendou aos pares que tenham cautela ao aderir aos manifestos para evitar, na ótica dele, reforçar iniciativas originadas na elite que têm como objetivo anular o papel do PT. Felizmente, é uma voz dissonante, que comprova o fato de que o bolsonarismo e o petismo se alimentam. Pautas difusas, como as das manifestações de junho de 2013, prenunciam desconforto e mudanças que podem demorar anos para se concretizar. A atual mobilização da sociedade, incipiente por causa da quarentena, lembra outras ações que conseguiram mudar o curso da história. A Passeata dos Cem Mil, em 1968, aumentou a cisão da sociedade com o regime militar. O movimento das Diretas Já, em 1984, não conseguiu restabelecer as eleições diretas, mas unificou correntes políticas e criou um consenso para superar a Ditadura. Agora, o País vive um outro momento, mas ele não é menos delicado, por força da desestabilização alimentada por um novo caudilhismo. A mobilização parece se impor. A escalada da ameaça autoritária, aos poucos, tira a população do entorpecimento e começa a criar as bases para um novo ciclo político — democrático e de respeito à vida.

ADESÃO Movimento suprapartidário, o “Estamos Juntos” foi lançado no sábado,30, com 1,6 mil assinaturas. Cinco dias depois já somava 276 mil
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