'Havendo uma vacina validada, a Fiocruz terá condições de produção', diz presidente da instituição | Claudio Tognolli

O Globo

RIO — No primeiro semestre de 1900, o Rio de Janeiro enfrentava um sério surto de peste bubônica, uma infecção grave transmitida por pulgas. Em 25 de maio daquele ano, o bacteriologista Oswaldo Cruz criava, numa bucólica fazenda numa área rural da cidade, o Instituto Soroterápico Federal.

Após 120 anos, o mesmo lugar, agora Fiocruz, tem protagonismo nacional contra a maior pandemia do século 21, provocada pelo novo coronavírus.

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À frente da instituição, a socióloga Nísia Trindade, a primeira presidente mulher da história da Fundação Oswaldo Cruz, comanda uma estrutura gigante, referência em toda a América Latina, com milhares de funcionários e a missão de que as respostas venham da ciência.

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Trindade diz que há dois grupos de pesquisadores trabalhando na busca de uma vacina e garante que, ainda que ela venha de fora, a Fiocruz poderá produzí-la.

Enquanto a cura não aparece, são feitas pesquisas para tratamentos, um hospital foi criado para atender quase 200 pacientes com Covid-19, milhares de testes têm sido produzidos, assim como informações científicas que podem servir de guia para a tomada de decisões políticas.

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Simbolizada pelo célebre castelinho, a Fiocruz tem hoje 50 laboratórios de referência, atua em 20 áreas de pesquisa, com 30 programas de pós gradução, 12 trabalhadores, dos quais 5.400 servidores.

Nos últimos meses, recebeu suportes expressivo do Ministério da Saúde: R$ 20 milhões em março, R$ 157 milhões de crédito orçamentário em abril, e R$ 713 milhões em maio. Para além dos números, a presidente defende a fundação, que recebeu palmas e doações da sociedade: “Nossa instituição tem uma alma”.

A Fiocruz surgiu há 120 anos justamente para combater uma epidemia. O ano de 2020 estava recheado de programações comemorativas, mas veio outra pandemia. Como enxerga isso? 

Simbolicamente, é a afirmação de uma vocação. Porque a Fiocruz surgiu para combater surtos de febre amarela e, especialmente, da peste bubônica. Em meio à crise sanitária no início do século 20, atende primeiro a capital e depois leva saúde em nível nacional, para os grandes sertões brasileiros.

Falamos de Oswaldo Cruz, mas também de Carlos Chagas, que esteve à frente da gripe espanhola, a pandemia que marcou o século 20 assim como essa vai marcar o século 21. Nesse histórico, ao longo do século em diversos momentos a instituição deu respostas, como na epidemia de HIV, na de zika, dengue e chicungunha. O Brasil construiu uma base científica, tecnológica e de saúde universal. São as bases que o país pode mobilizar nesse momento.

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Tínhamos pensado numa grande comunicação neste ano para pensar o futuro, mas agora vivemos essa grande reflexão de outra forma. Fomos postos à prova, infelizmente. Gostaria muito que ficasse registrada uma palavra de solidariedade e pesar pela perda de tantas vidas. Ao mesmo tempo, sinto que é um privilégio para a instituição poder ajudar, ser parte da resposta.

Quais iniciativas a Fiocruz tem desempenhado contra essa epidemia? 

Estamos atuando em diversas frentes: vigilância, sentinela de casos, preparação para diagnóstico, controle da evolução da doença, sistema de dados, atenção aos pacientes. A pesquisa é fundamental agora e continuará a ser.

Antes das ações visíveis, quero falar dos sistemas de dados, como o Monitoracovid, mapeamentos, pesquisas, além da comunicação pública. A informação é uma ferramenta importante e, sem ela, não há como saber a evolução da doença, se é momento de relaxar ou de fortalecer medidas de isolamento. Fornecemos informação confiável, dados epidemiológicos, permitindo que o conhecimento seja usado para criação de políticas públicas.

Entre as realizações, a primeira é o papel dos laboratórios. A Fiocruz já tem uma tradição de desenvolver testes diagnósticos, um grande problema do Brasil. É hoje um instrumento importante de saúde pública porque a pandemia pode ter ondas, isso é precioso. Entregaremos até setembro 11 milhões de testes e estamos constituindo centrais de análises. E, numa epopeia, em pouco mais de 50 dias erguemos o centro hospitalar dedicado à Covid-19. Foi uma decisão pela necessidade imediata, mas também para fases futuras porque era uma carência do nosso instituto de infectologia. Abriu há uma semana, é permanente, com 195 leitos, todos para tratamento semi-intensivo e intensivo.

Somos uma referência, o que significa que além de tratar os pacientes contribuímos para protocolos, com estudos clínicos sobre medicamentos, pesquisas internacionais. As duas pontas estão ligadas: a atenção ao paciente e o estudo clínico, muitas conclusões vão se dar, infelizmente não na velocidade de transmissão do virus. É uma corrida.

A Fiocruz recebeu muitas doações da sociedade civil. Qual o montante? Como avalia esse apoio? 

As pessoas ficam contentes de participar. Não começamos uma campanha, foi o contrário: empresários, movimentos da sociedade nos procurando, querendo fazer doações. Então criamos o site da iniciativa Unidos contra Covid (www.unidos.fiocruz.br) para organizar esse movimento espontâneo. Foram mobilizados R$ 89 milhões, recursos que vieram de várias formas, por instituições, movimentos empresariais, doações, não só em dinheiro, mas em máscara, álcool gel, até unidades de apoio ao diagnóstico. Depois, estabelecemos um edital para populações vulneráveis, ações específicas em favelas, instituições asilares, populações indígenas, construindo com as pessoas as melhores soluções. É muito bonito porque falamos muito do aspecto dramático, mas é importante também ver a mobilização da sociedade.

Já ouvimos pessoas gritando “Viva, Fiocruz” nas janelas. Acha que a população reconhece o trabalho da fundação?

Fiquei sabendo. Em todo o mundo os profissionais de saúde são aplaudidos, no Brasil não é diferente e, ao pensar nesses profissionais, muitas pessoas se lembram da Fiocruz. Vejo com emoção, mas com responsabilidade. Você só vai aderir a medidas difíceis se tiver confiança nos caminhos que a ciência vem apontando. Não é que não cometemos erros, mas a ciência dá uma base, tem métodos, é posta à prova.

De março a maio, o Ministério da Saúde aumentou os repasses. Como foi isso? 

Veio num crescendo porque as atividades vieram num crescendo, com a construção do centro hospitalar, infraestrutura para desenvolvimento de teste diagnóstico, ampliação da capacidade de produção para teste PCR e teste rápido. Há  estudo clínico que pesquisa um conjunto de medicamentos, como a cloroquina, hidroxicloroquina, medicamentos virais já conhecidos que já foram testados em laboratório, e o interferon beta. Os medicamentos que não têm eficácia vão sendo eliminados para Covid-19. Estamos a postos para produzir medicamentos necessários. É um conjunto de ações importante. Além da nossa contribuição para América Latina e Caribe, já treinamos laboratórios e temos cooperação histórica. Isso só é possível porque trabalhamos em rede.

Como a senhora avalia o combate à pandemia no Brasil? 

Com tantas desigualdades, não só sociais, mas também regionais, de infraestrutura, de distâncias, o Brasil é muito complexo e temos que olhar isso. Claro que temos que nos mirar no melhor do mundo porque o Brasil tem potência, história e o Sistema Único de Saúde, um aliado de valor inestimável. O SUS articula muitas dimensões com programas de êxito e foi acionado para responder, mas a epidemia também expõe as fragilidades, como a falta de saneamento, de moradia.

E há um aspecto em particular delicado que é a dependência tecnológica. Mesmo com os recursos do ministério, foi difícil a importação de ventiladores mecânicos, dos equipamentos de proteção individual, que não tínhamos, e fármacos, porque 90% dos fármacos consumidos no Brasil são importados. Precisamos ter formas de não ser tão dependentes. Isso tem que estar no radar.

Em relação à população e ao governo. Acha que compreenderam o perigo da doença? 

Essa compreensão é desigual e está ligada à desigualdade social. Temos muitos trabalhadores em situação precária, moradias que não permitem fácil aceitação e utilização prática das recomendações necessárias, que também foram se alterando. É um desafio enorme, não é só saúde. Acho correto um comitê interministerial com especialistas que tenham interlocução com o governo. Não podemos achar que as medidas de isolamento são simples, não são, mas são necessárias para proteger a vida e impedir uma catástrofe.

A Fiocruz recomendou o lockdown, mas até agora ele não aconteceu.  

Não existiria uma medida única no Brasil, as medidas de isolamento social respeitam parâmetros, como o número de casos, óbitos, capacidade da rede de dar resposta, capacidade de testagem. A Fiocruz foi consultada e respondeu a um questionamento em relação à situação do Rio de Janeiro, numa situação de escalada de casos, 80% dos leitos ocupados, falta de profissionais de saude, que adoeceram. Cada medida que propomos tem fundamentação cientifica.

Pesquisadores da Fiocruz foram atacados por conta da cloroquina. Como avalia isso? 

Os pesquisadores participaram de um projeto de pesquisa, que passou pelos procedimentos necessários no Brasil, com comitê de ética interno e externo. Polêmicas e controvérsias não são novidade o importante é saber como essas questões são avaliadas. Há dois valores fundamentais da ciência: a liberdade e a ética.

Quais expectativas a senhora tem para depois da pandemia? O Brasil vai valorizar mais a ciência? As pessoas ficarão mais solidárias? 

Um mundo mais solidário é uma aposta que está aí para nós. Mas podemos voltar ao mesmo modelo de desenvolvimento que gera desigualdade, impactos ambientais negativos e esquecer o que aconteceu. As pessoas podem ter a vacina e, com o tempo, esquecer tudo, mas também podemos ter um outro efeito: depende de como a sociedade, suas associações, instituições, líderes mundiais, os fóruns, líderes religiosos, como todos vão construir esse caminho.

Construir um pacto pela vida é fundamental, mas pode ser que tenhamos aumento de desigualdade. Durante a pandemia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) ordenou que vacinas e medicamentos sejam bens públicos. Mas isso pode ser esquecido. A gripe espanhola de 1918 matou 35 milhões, mais do que a Primeira Guerra Mundial, que matou 15 milhões. A pergunta não é como vai ser o mundo, mas que mundo queremos.

Do ponto de vista das ciências da saúde, acho que elas têm dado mostras de capacidade de respostas muito importantes. Os cientistas são chamados a falar, contribuir para recomendações e elas estão sim em evidência e podem gerar uma maneira positiva de olhar para isso. Mas isso não depende só da aceitação da sociedade. A comunidade científica tem feito mais esforço para dialogar. Nada está dado, tudo é uma construção permanente de conhecimento e de políticas públicas. É trabalhoso e só bem-sucedido num ambiente democrático.

A senhora teme se infectar? 

É claro, todos nós, mas lido com o medo seguindo os preceitos da ciência. Com coerência entre discurso e prática. Adoro caminhar na areia, programas ao ar livre, mas estão abolidos da minha vida, e o convívio com a família é virtual. É impossível não vir à instituição, alternando com atividades em home office. Mas eu tenho, sim, medo de me infectar e de infectar os outros. É uma doença que pode causar formas graves e não há como ter certeza de fatores de risco. Mas nada que me paralisa.

A senhora acha que a tão esperada vacina pode vir do Brasil?  

Temos dois grupos de pesquisa na própria Fiocruz pesquisando vacinas e esperamos que esse trabalho seja exitoso. Vacina requer muito conhecimento de laboratório mais uma fase importantíssima de estudo clínico. Seria fantástico produzir de grupos nacionais, mas, junto com o Ministério da Saúde, estamos trabalhando para formar um painel de avaliação de vacinas candidatas estrangeiras e, havendo uma vacina validada por estudo clínico e de acesso para o mundo, a Fiocruz terá condições de produção.

Daí a importância da resolução da OMS de que vacinas e medicamento são bens públicos, sem lucro. Temos o laboratório Biomanguinhos, responsável pela maior parte das vacinas do Programa Nacional, de febre amarela, sarampo e com experiência histórica. Uma vez identificada vacina e definida com o Ministério da Saúde, a Fiocruz tem condições para contribuir.

Oswaldo Cruz foi um pioneiro em valorizar a ciência e investir da maneira como o fez. 120 anos depois, as pessoas que trabalham hoje na Fiocruz são pioneiras? 

Oswaldo Cruz e Carlos Chagas são figuras notáveis e pioneiros sim, mas não trabalhavam sozinhos. Havia uma rede mobilizada, ninguém faz trabalho de ciência sozinho em nenhum momento da história. Hoje, a ciência é um empreendimento mais complexo que envolve grupos de pesquisadores, redes, relações com indústrias, empresas. Não que não existissem no passado, mas hoje é numa escala sem proporção. Nossa instituição tem uma alma, pela sua história que vai sendo atualizada e renovada, mobilizando sentimentos para fazer seu trabalho pela saude publica. Temos muitos pioneiros, desbravadores visionários, mas nunca o gênio isolado, sempre trabalho em equipe.

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