BEIRUTE – O ex-titã da indústria automobilística Carlos Ghosn pretende aplicar toda a sua experiência empresarial para formar novos executivos e lideranças no Líbano, país onde viveu a infância e procurou abrigo após fugir da Justiça do Japão, e, de quebra apoiar o desenvolvimento tecnológico e do ecossistema de start-ups.

São esses os pilares do projeto “Moving Forward”, anunciado nesta terça-feira pela Holy Spirit University of Kaslik (Usek), na primeira aparição pública de Ghosn em meses.

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Ex-chefe da Nissan-Renault, Ghosn fugiu do Japão para o Líbano no fim de 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de irregularidades financeiras, violação de confiança e sonegação de fundos das montadoras, todas as quais ele nega. Ele continua sendo procurado pela justiça japonesa.

— Como vocês devem se lembrar, eu cheguei em Beirute em dezembro de 2019, em circunstâncias obviamente dramáticas. Em janeiro, eu fiz um discurso e me perguntaram: o que você vai fazer? Eu respondi que estava pronto para colocar a minha experiência e o meu conhecimento à disposição de qualquer instituição, para algo com propósito — relembrou Ghosn, em coletiva transmitida do campus da universidade. — O Talal Hachem (presidente da Usek) me procurou pessoalmente e disse: “vamos conversar”.

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O resultado dessas conversas é o lançamento de um programa de treinamento para executivos de ponta, previsto para ter início em março do ano que vem.

Anualmente, serão selecionados até 20 candidatos que terão tutoria não apenas de Ghosn, mas de alguns colegas de sua rede de contatos, como Thierry Bolloré, CEO da Jaguar Land Rover, e Ken Curtis, ex-vice-presidente do Goldman Sachs.

— Eu os procurei e disse: eu preciso do seu tempo, não preciso do seu dinheiro. Preciso que vocês dediquem parte do seu tempo para ajudar o Líbano a superar esta situação difícil — contou Ghosn, fazendo referência à crise política, econômica e financeira que o país atravessa.

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A ambição, disse Ghosn, é que o programa lançado pela Usek se torne referência não apenas no país, mas em toda a região. Quem estará à frente do curso será a reitora da Escola de Negócios da universidade, Danielle Khalife-Fraiha.

Segundo ela, o programa será único, por focar em “tópicos enfrentados diariamente nos negócios reais”, que muitas vezes não são abordados nos cursos universitários.

Os estudantes receberão treinamento, por exemplo, sobre como lidar com a questão da diversidade ou como criar programas de inovação com foco em sustentabilidade, temas centrais nos dias atuais.

— Esse programa inovador é a resposta que o Líbano precisa para fornecer habilidades necessárias para o mundo real, em vez de programas completamente acadêmicos — afirmou Danielle.

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Toda a receita gerada pelo programa para executivos será investida num centro de treinamento em novas tecnologias, para capacitar os jovens estudantes para o mercado digital.

— Muitos de vocês sabem que o Líbano tem técnicos, engenheiros e artesãos muito habilidosos, mas nós precisamos que essa geração, que foi treinada no passado, alcance novas tecnologias — disse Ghosn. — Estamos falando de realidade virtual, de inteligência artificial, de programação…

O projeto será gerido pelo reitor da Escola de Engenharia da universidade, Joseph Al Assad. Ele explicou que o centro de treinamento será voltado não apenas para os estudantes, como para profissionais em carreiras tradicionais, como marcenaria e agricultura, que terão acesso a formas de como melhorar os seus negócios usando novas tecnologias.

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Também será criado um laboratório maker, para prototipagem industrial. Empreendedores com uma boa ideia de produto poderão desenvolvê-lo dentro da universidade, e oferecê-lo em um aplicativo que será criado, que servirá como um marketplace.

O terceiro pilar do projeto “Moving Forward” é o apoio a start-ups. A ideia é oferecer tutoria, contato com investidores e apoio financeiro para o desenvolvimento de novos negócios e, que os bem-sucedidos, voltem para a universidade para ajudar na consolidação do ecossistema.

Segundo Ghosn, mais que apoiar indivíduos ou negócios, o projeto pretende alavancar a retomada econômica do país. O programa executivo impulsiona o crescimento de grandes companhias, o treinamento em novas tecnologias abre novas oportunidades e o apoio a start-ups pode gerar novos produtos e negócios.

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— Por que você está fazendo isso? Certamente para ajudar a instituição no seu objetivo de andar para frente, mas também para servir ao país e à sociedade — disse Ghosn. — Porque se existe uma coisa específica que o Líbano precisa é gerar empregos.