Evangélicos se opõem à indicação de Feder para o MEC | Claudio Tognolli

O Globo

BRASÍLIA — O convite do presidente Jair Bolsonaro a Renato Feder para ser ministro da Educação provocou reação negativa em vários núcleos do governo. A maior pressão vem dos evangélicos, que desde a manhã trabalham para reverter a indicação. O grupo defende alguém com perfil ideológico semelhante ao de Bolsonaro e rejeita Feder, secretário estadual de Educação do Paraná, por sua ligação anterior com o governador João Doria (PSDB-SP) e a proximidade com o grupo Lemann, que já discutiu parcerias com a secretaria do Paraná. Feder é judeu, assim como o secretário especial de comunicação do governo, Fabio Wajngarten, e teria apoio também da comunidade israelita.

Bela MegaleFeder foi um dos maiores doadores da campanha de Doria em 2016

Na noite de quinta-feira, Bolsonaro ligou para Feder para conversar sobre a eventual ida dele para o governo. À noite, quando o pastor Silas Malafaia soube que Feder podia ser o escolhido, mandou uma mensagem ao presidente, cobrando que ele nomeie para o MEC um gestor com “o mesmo viés que ele acredita”.

Na manhã desta sexta-feira, quando o nome de Feder foi confirmado por integrantes do Planalto e divulgado pela imprensa, Bolsonaro escreveu a Malafaia que estavam escolhendo por ele, dizendo que a decisão ainda não havia sido tomada. Malafaia já havia manifestado sua opinião sobre a sucessão do MEC anteriormente. Em meio à polêmica das informações falsas contidas no currículo de Carlos Decotelli, o pastor enviou uma mensagem a Bolsonaro se posicionando contra a permanência de Decotelli no cargo.

Entrevista:Cotado para o MEC chama Bolsonaro de estadista

— Eu respondi a ele (Bolsonaro), hoje de manhã, com um “ok” e mandei um provérbio do texto de Salomão que diz “Onde não há conselho os projetos saem em vão. Na multidão de conselheiros eles se confirmarão”. Ou seja, um líder que não ouve conselhos pode ter seus projetos em vão. Eu sou pastor, uso a Bíblia para dar conselho — disse Malafaia, explicando o questionamento inicial que fez a Bolsonaro:

—  Eu espero que ele coloque (no MEC) alguém que tenha o viés que ele acredita, ele não ganhou para fazer graça para quem quer que seja, a esquerda, Centrão nem ninguém. Espero que o presidente coloque alguém com um perfil que defenda sua ideologia, que tenha competência, formação. Não pode ser alguém de que se tenha dúvida. Estou vendo (na mídia) um cara que é apoiador de Dória, de Lemann, que não tem nada a ver com o presidente, queria entender se um cara desse vai ser ministro. É minha opinião pessoal.

Uma parte do grupo militar no governo com interface com os evangélicos tenta emplacar Anderson Correia, ex-presidente da Capes e atual reitor do ITA, para o cargo. Correia, que também é evangélico, é apoiado pelo grupo de militares que trabalhou desde o período de transição para o governo Bolsonaro, tendo o ministro Augusto Heleno como principal fiador. Esse mesmo núcleo foi responsável pela indicação de Carlos Alberto Decotelli para o MEC. Decotelli acabou pedindo demissão antes de tomar posse por conta de informações incorretas em seu currículo.

Merval:Feder tem proposta polêmica

Ao GLOBO, Malafaia afirmou que não conhece Anderson pessoalmente, mas elogiou seu currículo e disse que ele tem um perfil ideológico condizente com o governo.

— Se o presidente achar que tem que ser o Anderson, que tem perfil ideológico e é de altíssima formação, se for ele, ótimo — afirmou Malafaia. — Quero saber se o cara tem currículo. Nunca me posicionei dizendo “tem que ser porque ele é evangélico”. Tem que ter competência, nível , tudo isso que se espera. Ele (Anderson) é um bom nome, digo isso sem conhecer os outros nomes (além de Feder).

Nomes da ala militar advertiram o presidente de que a nomeação de Feder pode ser mais um erro, pelas denúncias de sonegação fiscal publicadas pelo GLOBO e por ter imagem colada ao grupo de partidos do Centrão. De acorco com aliados, Feder, porém, tem apoio de ministros generais, como Walter Braga Betto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

Diante desse contexto, há uma expectativa de que a nomeação, que deveria ocorrer ainda nesta sexta, acabe ficando para segunda-feira.

Olavistas fazem campanha contra

Feder também não agradou outra base do governo Bolsonaro, o núcleo ideológico, influenciado por Olavo de Carvalho. Desde que Abraham Weintraub deixou o Ministério da Educação (MEC), por desgastar o governo com atitudes e declarações ofensivas a outros Poderes e países, a base ideológica cobra do presidente um ministro com perfil semelhante ao de Weintraub, também ligado ao “olavismo”.

Nas redes, o núcleo tem feito campanha contra a nomeação de Feder. Os olavistas defendem a indicação de Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização do MEC; Sérgio Sant’Ana, ex-assessor do próprio Weintraub; ou Ilona Becskeházy, atual secretária de Educação Básica do MEC.

 

 

 

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