Ensaio: Urubu – Luz – Tom, por Dora Tognolli – Claudio Tognolli

Urubu – Luz – Tom

 Por Dora Tognolli

 O resto é mar…
(Tom Jobim, Wave)

Desde a juventude, dirigi os olhos do meu espírito mais para dentro do que para fora, e é muito natural que tenha aprendido a conhecer o homem até um certo ponto sem de modo algum compreender e entender as pessoas.

(Goethe, p.336)

 Introdução

A motivação para escrever este texto tem origem no filme A Luz do Tom, de Nelson Pereira dos Santos. Um filme singelo, narrado por três mulheres da vida de Tom Jobim: Helena, sua irmã; Thereza, sua primeira mulher; e Ana Lontra, a viúva do artista. Espécie de documentário, prima pela simplicidade e pelas narrativas das três mulheres marcadas por afeto. Os depoimentos são colhidos no seio da natureza: praias, riachos, matas, sons de pássaros e silêncio, e recuperam a forma de pensar de Tom.

O filme nos deixa tristes, mas não melancólicos; saudosos, mas não nostálgicos; orgulhosos do Brasil, mas não arrogantes; dentro da natureza, mas não ecochatos; e muito ligados à poética de Tom Jobim, que surge como um artista, jamais como um herói nacional.

Diante dos excessos, do vazio, da despersonalização, das melancolias, dos pânicos e medos, pensei nesse filme, que retrata Tom Jobim com muita propriedade, como uma espécie de antídoto diante do medo do vazio e da falta de humor e joie de vivre reinantes.

Além do filme, recorro a relatos do próprio Tom Jobim, alguns aspectos de sua carreira profissional, comentários de críticos de arte e música, e o contraponto da clínica atual.

Medo

Tive medo, quando li a ficha de um paciente que procurou o Centro Clínico e num dos campos de preenchimento de seus dados, rabiscou fortemente uma linha toda, e logo depois revelou: sou ex-toxicômano.

Tive medo quando uma paciente conta, deitada no divã e observando o céu lá fora, ao ver um urubu em pleno vôo, que essa imagem lhe era muito familiar. Quando pequena, tinha vários amigos urubus, que viviam num lixão perto de sua casa, e passeava com eles como pets de estimação.

Tive medo quando uma mãe me procura porque seu filho quase cego, estimulado e ajudado tanto por ela, que ninguém percebe que é cego, passou a desfiar suas roupas enquanto se encontrava na escola, chegando em casa com sua camiseta destruída.

No texto Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Freud propõe que a angústia, mais do que transformação da libido, seria o afeto primordial, que dispara no ego todo um movimento que pode desembocar em sintomas, neuroses e produções, incluindo as produções artísticas. Durante toda a vida, nosso aparelho psíquico vive às voltas com a angústia: produção de angústia, mitigação de angústia, deslocamentos e condensações.

Outro conceito importante, descrito no texto mencionado, é o de angústia-sinal, que aponta para um aspecto adaptativo diante do mundo, uma espécie de alarme interno diante de situações que rememoram traumas, que não foram representados, mas que convivem no nosso inconsciente e geram desequilíbrio e mal estar, como se experiências traumáticas e de dor constituíssem nosso acervo, nossa marca para continuar enfrentando a realidade externa e a realidade interna.

A angústia-sinal seria uma modalidade não ligada a um objeto, mas decorrente de uma experiência interna de desprazer, que desestabiliza o sujeito. Vale lembrar que uma das situações de perigo, vivida no plano interno, decorre do acerto de contas entre o ego e o superego, herdeiro do complexo de Édipo e também derivado da angústia de castração.

Se a representação pode ser recalcada ou transformada, o afeto escapa: temos que buscá-lo, em especial em sua forma primitiva, a angústia.

O ego, pressionado pelos perigos internos e externos, que muitas vezes aparecem sob forma de medo, tem um trabalho incessante. A partir dos textos metapsicológicos de Freud, onde ele revê todos seus casos clínicos, o que fica claro é que é inútil fugir dos perigos que surgem de dentro.

O medo do analista pode funcionar como uma espécie de angústia-sinal: somos afetados (vale lembrar que afetado é derivado de afeto) por restos, traumas, memórias inacessíveis de dor, veiculadas pelos sujeitos. Nossos medos, ou angústia, poderiam funcionar como balizadores do caminho oposto à formação do sintoma: do sintoma, somos conduzidos à angústia.

As três vinhetas clínicas mencionadas, disparadoras de angústia, prosseguiram seu caminho associativo, produto do trabalho analítico. O paciente que se denuncia como ex-toxicômano revela em seus gestos que é um homem muito assustado, o que o transforma em um homem assustador: carrancudo, de pouca fala, alto e forte, não desperta empatia. Pelo contrário, provoca certa repulsa. Suas narrativas não incluem seu passado de drogado, que ele insiste em mostrar que ficou no passado, mas na ficha preenchida, o estigma surge e o define como alguém que tem uma marca. Também faz questão de se apresentar como não religioso, considerando as religiões um grande atraso da humanidade. Relendo Totem e Tabu (1913), poderíamos situá-lo dentro do sistema totêmico, anterior à eleição de um objeto, que guarda proximidade com o animismo e com o narcisismo. Esse sistema, onde impera o tabu, é anterior à escrita, ao mundo simbólico, e o tabu é vivido como um imperativo categórico, de origem enigmática e inquestionável.

Ex- toxicômano, dentro desse raciocínio, funcionaria como uma marca de origem, quase um destino, que não pode ser tocado. Estamos no território dos poderes demoníacos, vingativos. Durante o tratamento, o paciente vive uma situação de doença grave, que o aproxima da morte. Paradoxalmente, essa experiência o humaniza, e ele passa a experimentar outra forma de viver, mesmo porque passa a depender de seus familiares, para concluir o tratamento. Uma tragédia real o remete a uma tragédia interna, mais antiga. Seu entristecimento e dor têm lugar e ele se dá conta de diversos afetos que estavam congelados.

A segunda vinheta, que trata da história infantil da menina com o urubu, passa por um caminho peculiar: a paciente interrompe a análise após três anos de trabalho. Retorna trazendo novamente a história do urubu. Na tentativa de reencontrar sua analista, que ela supunha ter mudado de endereço, ter mudado de profissão, em suma, ter se perdido para sempre, vasculha diversos sites de Psicanálise e se defronta com um texto, escrito pela analista para uma revista institucional, onde há uma pequena vinheta contando a história do urubu. Ela identifica a si mesma, protagonista da história, com muita emoção e gratidão, como se aquela história fosse um segredo compartilhado com a analista e a prova de que ela não fora esquecida. O urubu, símbolo de sua infância, seu grande amigo, agora nos unia: perdemos o medo dele.

O menininho quase cego se apresenta: diante dele, perdemos o medo. O semblante de terror fica com a mãe, abalada em seu narcisismo quiçá por ter gerado um filho defeituoso, que ela tenta obstinadamente consertar. E até consegue, para fins operativos: ele é inteligente, culto, agradável, adora contar histórias e faz tudo que uma criança normal dá conta de fazer. Na escola, após o enorme esforço das primeiras horas, junto aos amiguinhos, mas separado deles, já que no grupo as diferenças se evidenciam e não se contêm, suas mãos começam a desfiar incansavelmente qualquer fio da roupa que veste e ele se acalma, triste, sozinho, sem ninguém. Nesse gesto, surge a angústia, inexplicável, pulsional, imperativa.

Vergonha e Humilhação

Em nossos romances familiares, podemos recortar situações grupais, nas quais somos ameaçados em nossa estima e no plano dos ideais. Aos doze anos, passeando pela cidade, Freud ouve de seu pai uma dessas narrativas, que o marca profundamente; o menino Freud fica decepcionado em não localizar em seu pai uma atitude heróica: muito pelo contrário, tem diante de si um judeu covarde e submetido aos preconceitos anti-semitas.

“-Quando eu era rapaz, num sábado fui dar uma volta pelas ruas da cidade onde você nasceu, todo lindamente enfeitado, com um gorro de pele novo na cabeça. Então vem um cristão, de um lanço atira meu gorro no estrume e grita: ‘Judeu, fora da calçada’. – E você o que fez? – Desci para a rua e apanhei meu gorro.”(Gay, 1989. p.28)

Um paciente relata uma situação similar: tem vergonha da história de seu pai, um homem fraco, de vida medíocre, escravo da mãe autoritária. Não esquece quando seu pai foi demitido do trabalho e a família atravessou uma situação difícil, por conta desse desemprego temporário. Trata-se de um homem muito ambicioso, de um lado, e muito assustado, de outro. O mesmo sentimento de vergonha é experimentado por ele, no presente, quando se dá conta que seus amigos viraram diretores de empresa e ostentam carros e bens materiais que ele não atingiu.

Freud, em seu trabalho sobre o Narcisismo (1914) começa a desenhar a estrutura complexa do aparelho psíquico, que nos textos metapsicológicos posteriores, como O Ego e o Id, resultarão na segunda tópica. Nesses textos, vai ficando claro que o ego deve separar-se da suposição de autossuficiência e do ideal de completude que um dia possuiu, numa espécie de utopia de si mesmo. Esse momento primordial dará origem ao Ego ideal, paradigma de todas as virtudes e talentos que o ego acreditou ter. Sofremos todos de uma nostalgia pela perda desse ego soberano – o chamado Ego ideal, e também sofremos porque nunca estaremos à altura dos projetos impostos pelo ideal do Ego, relacionados ao superego.

A vergonha pode ser compreendida como uma forte aversão do Ego a si mesmo, que passa a ser vivido como o estranho em nós, em confronto constante com o Ego ideal e com o ideal do Ego. Da vergonha, pode-se passara à humilhação, caso do paciente aqui mencionado, onde a insuficiência do Ego adquire caráter traumático e insuportável. Diante dessa modalidade, ora estamos no pólo da inibição, com características melancólicas, que impedem que o sujeito deixe seu claustro narcísico, onde permanece magoado e rancoroso; ora no pólo da vingança, que pode levar a atuações agressivas na realidade externa.

Freud não seria visto apanhando seu gorro na sarjeta, humilhado pelos não judeus, como aconteceu com seu pai: trilhou outro caminho, uma espécie de herói ambicioso, em busca de realizar o destino previsto pela feiticeira, quando era menino.

No filme A Luz do Tom, há uma passagem narrada com muita simplicidade, responsável pela fama internacional não só de Tom Jobim, mas também do Brasil. Sua mulher Thereza atende a uma ligação: vinha de Frank Sinatra, propondo um convite a Tom. Desse convite resultou a ida de Tom Jobim aos Estados Unidos, para gravar com Frank Sinatra – o primeiro encontro dos dois músicos, que globalizaram A Garota de Ipanema e a Bossa Nova. Curiosamente, Tom estava bebendo com os amigos no famoso bar Veloso, em Ipanema, e sua mulher simplesmente fornece o telefone do bar, para onde Sinatra liga. Portanto, a parceria aconteceu dentro desse bar, na rua, na praia, na cidade.

O Brasil, marcado pela vergonha, pelo complexo de vira-latas, pela valorização do estrangeiro, experimentou, numa das raras vezes, ser alguém. Uma praia, de nome impronunciável, um compositor brasileiro, uma garota anônima que passa, foram cantados em Nova York e no mundo. Da simplicidade, da música honesta, simples, moderna de Tom, uma trilha possível, uma invenção.

Num artigo de Arthur Nestrovski (2008), o músico afirma que a música de Tom Jobim “define uma ideia do Brasil e um sonho de nós mesmos” e que o Brasil resolve-se em nova chave, moderna, avançada, que extrai o mínimo do máximo, como uma obra de Niemeyer ou de Le Corbusier.

A Luz do Tom

Para conhecer Tom Jobim, temos suas canções e músicas imortalizadas, cantadas pelo mundo. Logo abaixo, transcrevemos uma narrativa que nos faz conhecer a formação, os anos de aprendizagem do artista, narrados por ele mesmo. Um momento da juventude, tocante e elucidativo, que fala por si.

Num dia bonito, solene sol, atravessei a lagoa e subi nas pedras, na curva do calombo. Sentada na amurada, uma mulher jovem e bonita me olhava divertida. Eu molhado, de calção, fortinho, devia ter uns 17 anos e ela uns 23 e me perguntou, meio sorrindo: como você se chama? Qual é o seu nome? Começamos a conversar à sombra da casuarina. A brisa às vezes ouriçava o espelho d’água. Ficamos ali, contemplando a linda lagoa, que ainda era limpa. Ela era branca, bem clara, os olhos gateados, esverdeados na luz radiosa, esparsas sardas, cabelos castanhos claros, corpo bem-feito. Marquei com ela pra de noite, ela disse que estava bem. Ardente de desejo. Nadei de volta pra Ipanema, tomei uma chuveirada e na boca da noite, montei na bicicleta e fui, cheio de dúvidas achando que ela não iria ao encontro, mas… lá estava ela, mais bonita ainda. Escondi a bicicleta no mato e saí com ela. Foi a primeira mulher branca que conheci. Vinte dias depois comecei o tratamento: arsênico, bismuto e mercúrio. DE manhã, em jejum, o Arsenox na veia dava vontade de vomitar a alma. Meu santo padrasto […] era quem em aplicava as injeções. Mas ainda guardo dela, da moça, uma terna lembrança. […] Parece que a doença progrediu mais que a ciência. A TV falou de doenças venéreas que eu nunca ouvi falar. Será que a Bíblia tem razão? O preço do pecado é a morte? Mas que pecado? Então a juventude é o maior pecado, quando os desejos são mais prementes, a paixão mais despropositada, a alma arrebatada, o romantismo exacerbado, o devaneio constante, a inquietação, a face pálida, ás vezes rubra, as mãos geladas, suadas, a respiração ofegante, o peito arquejando em largos haustos, o seio arfante, o beijo roubado, o coração descompassado, a febre intermitente, héctica e o sexo imperativo, imperioso, poderoso, mandatário, imprevisível, perigoso… e, se ainda por cima de tudo vem a Aids, aí fica realmente muito difícil.(Jobim, 1987).

A música de Tom é sofisticada, mas simples. A simplicidade melódica, criada a partir de pequenas variações, extrai de duas notas, meras duas notas, algo incrível. Os críticos e estudiosos localizam uma espécie de mágica na harmonia, que seria o plano vertical da música, influenciado por Chopin, Debussy, Villa-Lobos, Gershwin, Caymmi. Peças como Insensatez, Samba de uma Nota Só, são construídas a partir de uma melodia simples e restrita, com poucas notas que compõem essa melodia que teria tudo para ser monótona e repetitiva, mas causa o efeito oposto: o ritmo e a harmonia sofisticada conferem às canções de Tom um encanto que supera as barreiras dos idiomas.

Bem, e os temas? Num jogo criativo, tons menores falam de tristeza, de felicidade, da natureza, na qual o homem se acha integrado e ativo.

Em Garota de Ipanema, que imortalizou Tom para o mundo todo, é curioso observar que há uma garota que passa, numa paisagem supostamente paradisíaca, mas o tema vai muito além. A garota passa, o artista observa, registra, mas está só, e tudo é tão triste. Não há registro de um Brasil edênico, terra dos prazeres, como bem notou Lévi-Strauss, que escreveu um livro denominado Tristes Trópicos. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, no ritmo de bossa-nova, propõe uma realidade complexa: o ritmo nos distrai enquanto a palavra cantada traz o tema da tristeza, da passagem para o simbólico, onde o homem pode se perceber como finito, passageiro, impotente diante da natureza que se impõe, inclusive da sua própria natureza interna.

Em Garota de Ipanema não temos um final feliz: apenas o registro de uma passagem. Em Águas de Março, não temos o louvor à natureza, mas a constatação da transitoriedade e de elementos que se impõe, observados por um ser no mundo (Dasein). Palavra e música marcam nossa escuta, e nossa memória afetiva é ativada diante da harmonia tão tocante.

O Urubu

O filme A Luz do Tom confere um destaque importante para o urubu, ave que fascinava Tom Jobim, em função de seu vôo majestoso. O diretor do filme, Nelson Pereira dos Santos, conta um aspecto engraçado da personalidade de Tom Jobim; ele desafiava cineastas que queriam filmá-lo: caso não soubessem filmar um urubu em pleno vôo, então não passariam no teste.

O urubu, de aspecto feio em terra, ganharia uma nova dimensão ao voar. Em 1976, com a carreira consolidada, Tom Jobim lança um álbum sofisticado, com canções e músicas orquestrais, que intitula Urubu. Uma espécie de obra para o próprio artista, sem preocupações comerciais.

Mais uma vez, cabe destacar aqui o tema e a ave. Urubu não é uma ave que inspire simpatia: uma ave carnívora, que ronda lixos e animais mortos, com uma carga de maus presságios. Associada a territórios inóspitos, sujos, degradados. Mas o urubu de Tom voa, é galante, observa a terra de cima. Com o olhar do artista, o urubu desliza para algo diferente de seu significado mais banal e corriqueiro. Também é uma ave brasileira, distinta do condor, do gavião, estranhas a nosso País.

O olhar do artista, do músico, dribla de forma lúdica o caráter sombrio e perigoso do urubu. Transforma-o em algo doce, humano, do qual podemos nos aproximar e enxergar o belo.

O caráter doce, lúdico, aberto e curioso de Tom Jobim, revelado em sua poética e presente nos relatos, entrevistas, narrativas, nos remetem à tentativa de Freud (1908) de entender a criatividade dos artistas (Dichter, em alemão, cuja tradução mais próxima seria artistas da linguagem). Freud chega a formular a ideia de que a tarefa do artista guarda muito com o brincar infantil, que produz um mundo próprio, deslocado da realidade factual. Segundo Freud, ao brincar, as crianças levam tudo muito a sério.

O artista estaria muito próximo do devaneio, da outra cena, instigado pelo desejo. Como o sonhador, que visita toda noite outros territórios, o artista se transporta alimentado pelo presente e pelo passado, pela realidade externa e interna. Ao contrário do homem que sonha e que satisfaz desejos num plano individual, o artista supera essa dimensão e é capaz de seduzir outros homens, superando suas resistências e vergonha, convidando sedutoramente outros homens a sonhar.

Em Totem e Tabu (1912) Freud localiza três fases no desenvolvimento dos grupos humanos, que corresponderiam a modalidades de nossa vida psíquica: à fase animista, corresponderia o narcisismo; à fase religiosa, o estágio da eleição de objeto; à fase científica, uma espécie de renúncia ao princípio do prazer e a busca do objeto do mundo exterior, com incorporação da realidade externa.

Freud faz uma ressalva: em nossa cultura, apenas no âmbito da arte foi conservada certa onipotência de pensamentos, equiparando o artista ao feiticeiro.

Tom Jobim, feiticeiro, transforma o urubu, originalmente a ave da morte, das trevas, do lixo, de um país menor, em uma ave altaneira, que voa alto, enxerga a natureza e é motivo de celebração.

Nós, psicanalistas, ouvimos muita dor, vemos muitos urubus intratáveis. A luz de Tom, seu som, suas narrativas e canções, talvez possam favorecer livres associações, devaneios, em tons maiores e menores, movimento. Tom Jobim fazia uma exigência: que o urubu fosse registrado em movimento, um pássaro livre, como a música, que propõe o ritmo e o tempo, categorias que devem ser iluminadas e incentivadas.


Referências Bibliográficas

Bigliani, Carlos G; Moguillansky, R.; Sluzki, Carlos E. Humilhação e Vergonha: um diálogo entre enfoques sistêmicos e psicanalíticos. São Paulo: Zagodoni, 2011

Delumeau, Jean. História do Medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Freud, S. (1989). Escritores Criativos e Devaneio. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 9, pp. 149-158). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1908).

Freud. S. Totem e Tabu [1912-1913]. Obras Completas, volume 11. trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras. 2012.

Freud, S. (1989). Sobre o narcisismo: uma Introdução. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 14, pp. 85-119). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914).

Freud, S. (1989). Inibições, Sintoma e Ansiedade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 20, pp. 95-201). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1926).

Gay, P. Freud. Uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Goethe, J.W. Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1998.

Jobim, A. L, Jobim, A. L. Ensaio Poético Tom e Ana Jobim. Passaredo: Rio de Janeiro, 1987.

www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj1007200805.htm‎. Tom, o aquiteto do mínimo. Arthur Nestrovski. (10/07/2008)

Resumo

A partir do filme A Luz do Tom, baseado na vida e na poética de Tom Jobim, o texto propõe uma reflexão sobre experiências de medo, vergonha e humilhação, que surgem na clínica e faz um contraponto com a trajetória do artista. A ave eleita por ele, o urubu, é tomada como uma metáfora interessante das transformações que a arte opera nos mais diversos objetos cotidianos.

Palavras- chave: Tom Jobim, medo, vergonha, urubu.

Summary

From the movie A Luz do Tom, based on the life and poetry of Tom Jobim, the text proposes a reflection on the experiences of fear, shame and humiliation, which arise in the clinic and is a counterpoint to the artist’s career. The bird chosen by him, the vulture, is taken as an interesting metaphor of transformation that art operates in various everyday objects.

Keywords: Tom Jobim, fear, shame, vulture.

Resumen

De la película A Luz do Tom, basado en la vida y la poesía de Tom Jobim, el texto propone una reflexión sobre las experiencias de miedo, la vergüenza y la humillación, que surgen en la clínica y hace un contrapunto delante de la carrera del artista. El pájaro elegido por él, el buitre, se toma como una interesante metáfora de la transformación que el arte opera en varios objetos de uso cotidiano.

Palabras clave: Tom Jobim, miedo, vergüenza, buitre.

error:
0