Richarlyson (foto Rui Mendes)

por POR CLAUDIO JULIO TOGNOLLI, na Rolling Stone

Uma entrevista com o meia são-paulino Richarlyson Barbosa Felisbino, temente ao direito divino, mas canhoto de natureza, 1,76 metro de altura, presumíveis 73 quilos, 28 anos de idade e o craque mais pop do Brasil, é anterior a si mesma. Começa dois meses antes. Afinal os assessores a rodeá-lo, escaldados pela onipresença da mídia, converteram-se em uns retrospectivos vocacionais. Acham que, em um primeiro momento, Ricky poderia falar demais – para depois falar demais, mais uma vez. E, refletem eles, talvez Ricky jamais tenha falado demais: é que o seu destino sempre foi nivelado com uma mídia que não se compraz jamais com a personalidade forte do jogador – que, à guisa de código de comportamento personalíssimo, faz o que lhe der na veneta. É um gatilho fácil quando se trata de vindicar sua própria liberdade.

“Tenho medo porque a mídia pode enforcar Ricky com suas próprias palavras. Eu voto para que ele não fale”, vaticinou, em uma das primeiras conversas, um dos interlocutores a ele próximos. Assessores do São Paulo Futebol Clube celerados, assessor pessoal idem, é necessário, após quase 60 dias de conversa (nem sempre mole), chegar ao famoso ora bolas. E, quando a reportagem arria as orelhas, eis que Ricky resolve falar.

Veja você que a história de vida de Ricky também é anterior a si mesma. Porque seu pai, o craque Lela, hoje aos 48 anos e nascido Reinaldo Filisbino, sempre foi seu grande inspirador. E para quem, a todo final de jogo, Richarlyson telefona, pedindo opiniões, terçando argumentos ou vindicando uma opinião mais forte quando está sem opções outras. Em uma época melhor, em que a vida pessoal de um atleta não rendia tantos sururus, Seu Lela começou a jogar futebol, aos 15 anos de idade. Aos 17, já era craque profissional do Noroeste de Bauru, no interior de São Paulo. Foi costeando a carreira aos poucos, e chegou a jogar em todas as categorias de base da seleção brasileira. Sem outra intenção que não a de se tornar uma referência (e foi), Seu Lela cravou as chuteiras em 12 grandes clubes, como o Coritiba (PR), o Fluminense (RJ), a Inter de Limeira e o Santo André (ambos de São Paulo). Há dez anos, Seu Lela treina a categoria A-3 do Atlético de Araçatuba (SP). Ricky tinha razões, em catadupas, para se inspirar no pai. E o seu futebol obviamente nasceu de trazer tudo o que o pai havia feito para o patamar que quisesse. Seu Lela, nesse ponto, sabe que Richarlyson ter se tornado um craque era questão de favas contadas. E ressalta uma novidade: Ricky era tão bom nas suas assertivas com o esporte que poderia muito bem ter se tornado o que quisesse. “Desde pequeno, ele era bom em tudo”, relembra o pai. “Nunca vi uma pessoa tão decidida. Sempre quis ser o melhor em tudo. Entra de cabeça em tudo, desde moleque. Foi uma criança muito esperta, antes do futebol, no basquete e no vôlei.” E Seu Lela não é homem sujeito a arroubos demolidores, nem a surtos idem de lamber a cria. Fala baixo, contido. Sonha, é óbvio, em ver Richarlyson na seleção brasileira. Mas expressa isso com simplicidade de monge e um quê de paciência de charreteiro. Afinal, Richarlyson sempre consegue o que quer, e o exemplo do pai sempre é calcado em uma cena que ambos guardam no relicário de imagens familiares. “Corria o ano de 1985. Eu jogava no Coritiba, que estava empatando com o Santos, 1 a 1. Lá no Rio de Janeiro, o Fluminense ganhava do Bahia de 3 a 1. Com esse resultado, nós seríamos desclassificados. Mas, aos 42 minutos do segundo tempo, eu marquei, ficamos em 2 a 1, e isso nos classificou para a semifinal. O Richarlyson foi criado nesse espírito de luta, de vitória, de incentivo”, jacta-se Seu Lela, que ao encerrar a carreira contabilizava 100 gols feitos.

Richarlyson, pelo relato do pai, teve uma infância tão tranquila quanto a sua ou a minha, sem fabulosos méritos, nem arroubos, nem aquelas crônicas que fazem pedras de crack chorar. “Ele sempre foi tranquilo, mas eu te digo que ele é basicamente um evangélico, sempre vive dizendo que seu futuro e sua vida pertencem a Deus, e o que Deus fizer com sua vida estará muito benfeito”, revela Seu Lela. “Nossas conversas são também sobre o fato de o futebol hoje ter virado futebol-força, em que o atleta tem mais desgaste físico do que nunca. Digo pra ele que isso pesa muito contra o atleta, mas sei que ele, do jeito que é dedicado, vai jogar até os 40 anos e brilhar muito na seleção”, refere o pai.

Vejamos por exemplo os números de Richarlyson no Campeonato Brasileiro, de 2003 a 2009: participou de 137 jogos, 71 vitórias, 38 empates, 28 derrotas e cravou sete gols. Começou a carreira no Ituano, onde ficou de 1998 a 2001. De 2002 a 2005, passou pelo Santo André, com nove gols em 33 atuações. No Fortaleza, entre 2003 e 2005, foram dois gols em 27 partidas. Mais quatro gols no Salzburg, da Áustria, de onde voltou para o São Paulo. Esteve por duas vezes vestindo a camisa da seleção brasileira. Quando completou 100 jogos pelo São Paulo, foi homenageado pelo clube, ganhando uma camisa com o número 100 e atuando a partida com seu apelido ‘Ricky’ na camisa 20. Em 23 de janeiro de 2010, em uma partida do Campeonato Paulista, contra o Rio Claro, Ricky completou 200 jogos com a camisa tricolor, e foi homenageado pela diretoria com uma camisa com o número 200 estampado nas costas.

Mas por que esse Ricky em ascensão chama tanta a atenção da mídia, que se posta às portas de sua vida pessoal como um leão armagedônico e voraz? Talvez a resposta mais simples seja porque Ricky é pop. É óbvio que quem instala cortes de cabelo heterodoxos, adora roupas de grife e ensaie cantar músicas românticas sem medo de pôr-se no YouTube, deixará um cheiro de pólvora no ar. Afinal, onde você já viu torcedor de estádio que não tenha prazer (chame isso de prevenção, se quiser) em apetrechos, além de carrinhos violentos, arrotos de cerveja, porrada e indolência vitaminada (às vezes quimicamente)? Ricky vive em um mundo em que tolerância quase sempre é artigo de luxo.

O pensador marxista alemão Ernst Bloch (1885-1977) gostava de apontar o que chamava de “a contemporaneidade do não-coetâneo (em alemão, “Gleichzeitigkeit der Ungleichzeitigkeit”). Ou seja: você vive no século 21, mas pode estar dividindo o seu espaço, lado a lado, com quem ainda mantenha valores medievais. Ou simplesmente com quem ache que a ida do homem à lua não passa de uma montagem de vídeo. O jogador Richarlyson Barbosa Felisbino está à frente de seu tempo, ou numa dobra temporal. Não se importa que alguns torcedores e jornalistas esportivos, dissipadamente ainda situados entre o Homem de Java e o Cro-Magnon, exponham as suas tripas ao sol, só porque ele faz o que quer, quando quer. E como bem entender.

Trata-se de uma história de dar sova de cinto na cidadania. Nunca, na história do futebol, uma improvável combinação entre um jogador e um juiz de direito havia ido tão longe e é óbvio: e tinha de acontecer com o Ricky. Em abril de 2009 o Tribunal de Justiça Paulista manteve a pena de censura ao juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal Central de São Paulo. Em sentença, o juiz foi acusado de ter ultrapassado os limites da ética, ao fazer alusão à sexualidade de Richarlyson e negando o pedido de reparação feito pelo jogador – ofendido pela infeliz declaração de certo diretor de um clube rival a respeito de sua preferência sexual. A posição defendida na sentença judicial, relatada pelo togado, foi de que futebol “é coisa para macho”, o que deixou o nosso Ricky de joelhos – e não se pode dizer que fosse uma atitude de fé genuflexa.

Os desembargadores do Órgão Especial decidiram, por 24 votos a 1, seguir o entendimento do relator, desembargador Vianna Santos, para quem “a gravidade é dos autos, independentemente das questões anteriores, é sufi ciente para a aplicação da pena, por atingir a imagem do Judiciário de São Paulo”. O advogado de Richarlyson, Renato Salge, informa que ingressou com Reclamação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pedindo a punição do juiz por homofobia e intolerância. “O que discutimos na queixa-crime era se houve injúria por parte do diretor palmeirense, e não se Richarlyson é homossexual ou não”, disse. “O juiz decidiu com base no pensamento dele, e não na lei.”

A polêmica “richarlyson é gay ou não” começou quando o jornal Agora São Paulo noticiou que certo jogador de futebol estaria negociando com o Fantástico, programa da TV Globo, para revelar no ar a sua homossexualidade. Durante o programa Debate Bola, da TV Record, José Cyrillo Júnior foi questionado se o tal jogador homossexual era do Palmeiras. Cyrillo se saiu com esta: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras”.

Richarlyson foi à Justiça. O juiz Junqueira Filho escreveu: “Se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omiti-lo, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados”. E foi além: “Gramado não é lugar de homossexual. Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”. Ainda anexou troça popular ao arquivamento do pedido de Ricky: “Precisa, a propósito, estrofe popular, que consagra: Cada um na sua área, cada macaco em seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho”.

Em dezembro de 2009, a mídia volta a tomar-lhe satisfações. Vejamos um extrato de jornal: “De férias na cidade de Bauru, no interior de São Paulo, onde moram os seus pais, Richarlyson aproveitou para mudar o visual. O meia do Tricolor fez um aplique no cabelo e adotou madeixas mais longas”, dizia a matéria. “Agora estou de novo visual. Fiz isso para elevar a autoestima e para ajudar os meus companheiros a ganhar os títulos necessários na próxima temporada”, declarara, então, Richarlyson. “Estou me sentindo bem com o novo cabelo. E a minha mãe também gostou.”

Eis outro pedacinho de notícia: “Além da repercussão negativa do aplique colocado no cabelo no início da semana, dirigentes do São Paulo também se intrometeram no assunto. O pedido, em tom de instrução, para que Ricky deixasse as madeixas, tem caráter pre ventivo. Durante a semana, jogador e clube receberam mensagens de protesto da torcida contra o novo cabelo. O empresário do jogador, Júlio Fressato, reforçou o pedido para tirar o aplique”.

Enfim, em janeiro de 2010, Ricky aparece de novo, com estardalhaço, na mídia. E olha que ainda não estamos falando de futebol. Uma das notícias dizia: “Richarlyson aparece em um vídeo postado no YouTube cantando ao lado da cantora Shirley Carvalho, vice- campeã da segunda edição do programa Ídolos. As imagens mostram a participação do jogador no show da cantora. Eles cantam a música ‘Eu Nunca Estive Tão Apaixonado’, de Fábio Jr.”

Mas o que você acha que Richarlyson acha de tudo isso? Com certeza ele não assiste aos filmecos da mídia até o último rolo. E, se a mídia o folclorizou, ele terá, é óbvio, tecido as suas afinidades eletivas. Escolhe a dedo com quem vai falar. Tanto é que para chegar a Ricky levamos dois meses maciços. E, agora, já estamos num espetáculo em que 13 pessoas o rodeiam, entre produtores e iluminadores, no qual o jogador parece fazer apenas uma ponta. Está numa mesinha, recatado. Acabou de deixar sua perua Audi, foi reconhecido por quatro pedestres, incontinenti, em apenas oito metros de caminhada. O gravador é ligado e sabe o que acontece? Nada. Ricky rugiu um “ótemo”, sem engasgos nem sobressaltos.

Ricky é uma figura elástica, acrobática, magro ao osso. Tem sorriso perene. Parece um asterisco humano. Canhoto, cada palavra sua vem guindada de um gesto da mão esquerda, como se essa nadasse num rio infestado de tubarões. Fala com uma rapidez nunca em igual medida e, a cada minuto apenas, ele solta um número de vocábulos digno de placar dos craques do basquete Globetrotters. “A primeira imagem que vem na minha cabeça, de futebol, sou eu numa foto, no colo do meu pai, eu com 2 anos de idade, e ele vestindo o uniforme do Coritiba”, ele começa.

“Sabe”, diz ele, “meu tio é casado com a irmã da minha mãe. Meu pai foi então para Natal conhecer minha mãe, Maria de Lourdes Barbosa Felisbino. Minha mãe é de Natal. São dois irmãos casados com duas irmãs: meu tio, Geovaldo, já namorava a irmã da minha mãe e ele levou meu pai lá pra passar as férias. São casados há 29 anos. Apenas nasci em Natal, nasci lá e voltei pra terra do meu pai, Bauru. Em 1981, eles tiveram meu irmão, um ano e dez meses mais velho que eu.”

Seu Lela brigou com o pai, aos 16 anos, pegou o trem fugido de casa e foi pra Campinas – seu sonho era jogar bola. “Ele foi cumprir o seu sonho às cegas”, conta o filho. “Depois, foi para a Inter de Limeira, ser profissional, e em 1985 foi campeão paulista. Eu já tive todas as arestas de um pai que lutava pelo seu sonho. Meu pai sempre me deixou muito à vontade, disse que nunca me obrigaria a jogar futebol. Era a Escola Luiz Zuiane, um colegial, eu tinha noção de vôlei, de futebol, de tudo, mas eu tinha mais amigos no futebol.”

Tudo começou em junho de 1996. “Eu estava em casa sem fazer nada e a mãe de um amigo disse que estava indo pra Novo Horizonte, levar o fi lho para treinar na escola de futebol do padre Nelson. Eu fui. Treinei cinco minutos e um olheiro do Ituano, chamado Cilinho, chegou pro padre e disse ‘Eu quero esse cara’. A partir daí, eu virei profissional. Minha mãe perguntou se era isso o que eu queria e me disse ‘Faça o que você quiser’. Começamos a ter alguma dificuldade porque me pai já jogava em clubes que não pagavam mais. Eu ganhava R$ 150 mensais. Fui gastão com roupa: gostava de roupa. Dava 50 pra mãe, 50 de roupa, em prestações”, ele recorda. Nessa toada, ficou quatro anos no Ituano.

Ricky contrapõe duas imagens que lhe brotam com paixão. Uma é abismal, vem dos 16 anos de idade, quando fez em 1997, contra o Mirassol, o seu primeiro jogo profissional (era lateral). “O presidente Oliveira Junior disse pro treinador Arnaldo Lira: ‘Ele é muito novo para jogar’. Aquilo me amedrontou”. Agora, ele salta para a segunda cena: “Em 2002, saí do Ituano campeão paulista e fui para o Santo André, onde fui campeão paulista de juniores. Me apelidaram de ‘Menino Maluquinho de Santo André’, porque corria muito e tinha o cabelo enroladinho. Já ganhava R$ 3 mil e ainda era muito preocupado com minha mãe e meu pai. Mas em 2003, aos 19 anos, deslumbrei, me vi estrela: só se falava do ‘Menino Maluquinho de Santo André'”, diz.

Ricky tem claro na cabeça o futebol de que gosta: “Aquele de jeito brincalhão, que joga com responsabilidade, mas que quer o futebol moleque arteiro, dar caneta, dar chapéu. O que me dá mais prazer é a jogada, muito antes do gol. É ver a torcida se levantar, preparada para ver o gol. Sou considerado um jogador moderno, jogo como lateral-esquerdo, volante, meia e zagueiro”

Foi desse jeito que sua carreira empinou: saiu do Santo André como lateral-esquerdo e foi para o Fortaleza igual, mas faturando R$ 9 mil ao mês. “Em 2003, quando fui para o Fortaleza, o treinador me disse que eu tinha defi ciência atlética. Voltei a treinar vôlei, fi cava das 13h às 2h jogando vôlei à beira mar.” Até que Marcio Araújo assume o cargo de técnico do Fortaleza e o reintegra como meia-esquerda. “Comecei arrebentar, com oito gols no Campeonato Brasileiro em 2003”, ele conta. Em 2004 as manchetes dos jornais austríacos ribombam “Samba em Salzburg”, onde Ricky faria sete gols em um ano jogando na Europa. Voltou em 2005 para o Santo André e, em seguida, para o São Paulo.

Quando chegou ao time, em 2005, o São Paulo havia acabado de ganhar a Copa Libertadores da América. “O [técnico Paulo] Autuori me disse: ‘Você chegou pra ser o cara’. Fiquei assustado! Mas em 2007, bicampeão brasileiro, fui considerado o melhor jogador da posição”, descreve Ricky. “Então começaram os comerciais, as premiações. Numa delas estive lado a lado com Hebe Camargo, Ana Hickmann, Adriane Galisteu, só fera. Fiquei louco, pensava: ‘Será que é pra mim?’ Aí, percebi que as crianças poderiam se espelhar em mim e eu deveria passar a tomar cuidado com tudo o que fazia. Tenho a sensação sempre de que o mundo me olha.”

Boa parte do tempo livre do atleta é gasto com leituras. Os livros de cabeceira são os do jornalista Caco Barcellos, como Rota 66 e Abusado,, e os do jornalista Carlos Amorim, como Comando Vermelho. Ricky refere seu gosto sobre assuntos “de narcotráfico. Isso me excita, ainda mais ler como a polícia lida com isso, admiro a audácia do Caco, isso me deixa fissurado”. Ele jura jamais perder o gume da vida, simplesmente porque o que o deixa afiado é a fé em Deus, da qual jamais abjurou. “Minha mãe e meu pai são evangélicos, vou muito à igreja, acredito muito em Deus. Nada me abala. Quando o caminho não vai bem, eu dobro meu joelho e falo com deus, lá no meu cantinho. Não prego igrejas: prego o nome de Deus. Não posso esquecer Deus em momentos bons”, prega.

Richarlyson espeta na conta da mídia aquela opinião gotejante a imperar a partir de quando ele voltou do período jogando pela seleção, em 2008, após ter brilhado em partidas contra a Irlanda e a Suécia. Estava no Brasil, jogando no São Paulo, mas conduzido ao banco de reservas. “Diziam que fui afastado porque a fama subiu à minha cabeça, e eu te digo que não. Fiquei chateado com a mídia esportiva porque eles diziam que estava na reserva porque estava de ‘salto alto’. A mídia esportiva então passou a ser indiferente pra mim”, decreta.

Chegou a hora de perguntar a Ricky sobre seus gostos. Diz que ama MPB romântica, e aponta o cantor Emílio Santiago como o seu ídolo. Ricky parece nesse momento fazer, com o corpo, uma mesura inatual a um sonho – talvez porque, de fato, em seguida ele vai falar sobre um dos seus. “Meu sonho é entrar no conservatório e queria aprender a tocar saxofone. Se eu pudesse, gravaria um CD de música romântica. Sabe, eu vou sempre cantar num videokê lá na avenida Henrique Schaumman.” Foi lá que ele conheceu a cantora Shirley Carvalho, aquela do vídeo no YouTube. “Ela me propôs fazer o dueto. Eu disse: ‘Você está louca?’ Me bateu o medo. Marcamos um dia para começarmos a ensaiar. Acham na mídia que fui de cara limpa. Mas eu ensaiei, me preparei, ensaiamos exaustivamente com a banda cinco vezes antes de aparecer em público. Eu vi que ficou legal e autorizei que o vídeo fosse divulgado na net.”

Digamos que mais de uma terça parte de Richarlyson esteja devotada aos sonhos e ao futuro, apesar de ele se considerar alguém a viver, basicamente, em um presente contínuo. Seus sonhos não são muitos, nem inalcançáveis. Tampouco seus ídolos. “Gosto muito de roupa. Não quero ter uma marca minha, mas ser dono de lojas multimarcas. Quero trilhar esse caminho”, ele confessa. “Não tenho mais ídolos, mas admiro o Kaká: ele falou que casou virgem, vive pacato, mais na dele, se impõe e todos o respeitam. Ele nos passa o espelho de quem junta o esporte com o lado humanitário.”

Apesar de polêmico aos olhos da mídia – e talvez por isso mesmo -, Ricky faz questão de ressaltar, com indisfarçado orgulho, que seu futebol tem a mesma matiz de sua ética e, consequentemente, do seu jeito de ser no mundo. “Falo o que penso. Mesmo que magoe ou não, falo na frente. A verdade é bonita. Mesmo que doa, eu prefiro a verdade que dói. O ser humano tem de ter personalidade, independentemente do que pensem”, avisa.

“Minha personalidade é muito forte, eu sou muito eu”, ele agora relata a respeito das diversas mudanças no visual. “Quando jogava no Fortaleza, eu tinha esse cabelo grande. Quando cheguei no São Paulo também. Achei sempre legal os italianos dos anos 70, que tinham cabelo grande, com aqueles penteadões para trás, ou mesmo soltos. Isso chama a atenção”, Ricky explica. “Meu cabelo está para cair. Nas férias, pus aplique pra reviver meus velhos momentos de cabelo grande. E, muito inocente como sempre, deu aquela repercussão, me assustei, teve ameaças, pessoas no Orkut diziam que não ficariam preocupados em passar 20 anos na cadeia, mas me matariam por aquele cabelo. Não reagi juridicamente. Toda manifestação escrita é passiva, não me importa, porque não representa a agressão em si.”

Pergunto a ele sobre o que sente quando a mídia e os torcedores o mimoseiam com golpes baixos quando tocam no ponto de sua sexualidade. “É uma coisa que me entristece, o julgamento”, Ricky começa. “A maioria dos que falam sobre mim me denigrem, perturbam meu ambiente familiar, deixam meu pai, minha mãe e meu irmão preocupados. Minha família teme alguma represália grotesca. Minha mãe acha que um cara sem noção pode me agredir a qualquer momento. Ela me manda tomar cuidado diariamente. Quando isso está no meu calcanhar, eu sei lidar, tudo bem. Mas a maior preocupação é quando sinto mudar o tom de voz dos meus pais. Eu sei que o meio onde vivo é machista. Eu sei que após essa minha aparição aqui, por exemplo, vai ter prós e contras. Alguns vão achar que eu estar na Rolling Stone será prova de minha atitude, outros não. Mas nem Jesus agradou a todos”, dispara, em alta velocidade, para então enfatizar: “Gosto de quem fala na frente, não nas minhas costas”.

Inspirado, ele quer falar mais sobre a mídia. “Me desgosta como eles atropelam o lado profissional para dar atenção a meu pessoal. Destoam uma partida boa que faço e levam o foco pra minha vida pessoal. Nunca meti processo em jornalista. Prefiro falar na cara do jornalista que não gostei do que ele fez. Intimo e digo: ‘O que você tem de pessoal contra a minha pessoa?”

Ricky jamais se preocupou sobre o que o tornaria mais potável à mídia esportiva e aos torcedores. Acha (e ele retorna a esse tema recorrentemente durante a conversa) que nada nesta vida compensaria a ausência, mesmo que relativa, da personalidade forte que ele gosta de suster. O monólogo que vem a seguir explicita esse ponto de vista: “Não é o meu conceito pop que deixa eles enfurecidos. A questão deles é que, se outro jogador tivesse cantado, não teria dado repercussão. Quantos jogadores têm cabelo grande? Bastou eu colocar o cabelo grande e veio o que veio. Não é porque as outras torcidas chamam a todo são-paulino de bambi. Eu me pergunto: ‘E se eu mudar de time e isso continuar?’ Não é isso, eu tenho certeza. Eu não sei o que é. Talvez porque eu faço o que quero”.

Ele prossegue, quase sem respirar: “Quando cheguei ao São Paulo, sabia que o clube iria olhar a parte pessoal do atleta: se vai em balada, se é casado. Mesmo sendo conservador, o clube tem o mesmo pensamento que o meu, sobretudo na gestão [do presidente] Juvenal: ele tem muita personalidade e não vai privar uma pessoa como eu de viver e gozar a vida, sendo que não estou fazendo nenhuma aberração. No episódio do aplique, ele disse: ‘Não é por mim, mas porque quero proteger sua imagem’. Ele disse que eu estava de férias e fazia o que queria. Só tenho de dar satisfações para o clube. Em todo o meio social, se preocupam mais com a vida dos outros – isso é [típico] do brasileiro, um povo que gosta de cuidar da vida dos outros. Nunca apareci numa balada. Nesse lado, não vão me pegar nunca. Então como pegam Richarlyson? Cutucando o lado pessoal”.

Richarlyson passa em seguida a citar o processo que moveu contra o diretor do Palmeiras: “Ele denegriu a minha imagem. Eu já o perdoei, porque ele teve instinto de querer aparecer e falou sem pensar”. “Conflituosa, mais da parte deles”, é como o jogador define sua atual relação com a imprensa brasileira. “Talvez porque tenham receio de chegar em mim, porque sabem que, se eu não gostar do repórter, não vou fazer mesmo a entrevista. Eu já cheguei a pedir para um editor-chefe que me mandasse outro repórter.”

O salário de Rcharlyson é uma coleção de zeros, o segundo mais alto entre os jogadores do São Paulo (o primeiro é o do goleiro Rogério Ceni). O atleta diz investir nos produtos que o banco oferece e em alguns poucos imóveis. O único pecadilho de consumo é um carro, modelo Audi Q7. “É um luxo gostoso de usufruir”, diz. Ressalta que, quando faz um gol, sofre uma espécie de sequestro psíquico de uma plasticidade poderosa. “Faço o gol e surge na minha frente a imagem de minha família, uma foto deles no ar. A felicidade é a imagem deles vibrando 100 vezes mais que eu”, descreve. Ricky contabiliza 207 jogos e 12 gols marcados pelo Tricolor. Refere que “a menina dos meus olhos de imediato é a Copa do Mundo”. Teve de trancar a faculdade de educação física. E queria tornar-se jornalista diplomado, mas a queda da exigência do diploma o demoveu da tarefa. “Em longo prazo, quero ter minhas lojinhas de roupa e minha casinha de praia”, insiste. Considera-se um expert que aprendeu a respirar bem os aromas da mídia (“A direção das emissoras pedem para um ser mais bonzinho e outro malzinho, é o marketing, mas a gente vai vivendo”, ele ensina) e tem, na ponta da língua, uma explicação sobre o brilhareco que é o futebol na vida do brasileiro básico: “O futebol no Brasil é uma paixão: você se depara com algumas coisas preocupantes, como pais de família que deixam de comprar leite pra ir ao estádio, mas o futebol abrange o lado de sonho, social, a recuperação e o futuro de quem não tem base econômica na família”. Nesse momento, Richarlyson suspende os gestos enfáticos. A mão repousa na mesa. Ele fi ta o repórter como quem vai bater uma falta. Ricky parece estar decalcando no rosto uma cena bíblica. Qualquer um esperaria que de sua boca saísse um messiânico “atentai”. Mas ele, imprevisível, chuta o seguinte: “Jogo a minha vida nas mãos de Deus. Eu já te disse que nem Cristo agradou a todos, e nem eu irei agradar. Posso machucar as pessoas: mas sou direto, luto pela beleza da verdade, do olho no olho, que são purezas que só as crianças têm. Eu me preocupo muito em agradar as crianças, são os fãs que estão mais no meu foco: porque elas falam o que pensam, doa a quem doer”. E conclui, triunfante: “Afinal, eu sou muito assim”.

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