Ensaio: o novo xamanismo – Claudio Tognolli

Por Claudio Tognolli, para a Rolling Stone

Rosto em brasa, olhar rutilante, assoprando ao pé do ouvido um muxoxo, ele garantiu que se eu abrisse os olhos enquanto vomitava, veria lagostins mentais: “Você está purificando o seu espírito, não só o seu estômago. Feche os olhos e veja os lagostins psíquicos que saem com a purificação espiritual, abra!”

Por não atender ordens há muito tempo, acabei atendendo aquela. Mas não conseguia fechar os olhos. O espaço da alma estava todo preenchido. Pressentia a força mágica do lodo, em que cairia de fuça minutos à frente. O acaso havia me deparado a gravitação das plantas, que cercavam todo aquele sítio. Ora abria os braços com gesto oriental, ora, em total desacordo ao estado anterior, tentava destecer um arco-íris que não existia. Eram estados de alma escrupulosamente ambíguos. Ele já disparara a frase, o muxoxo, minutos antes. Mas ela voltava, em eco e em outras vastas operações de duplicação, que nosso léxico é incapaz de exprimir. O que não admira, nem provavelmente consternará, é que nessa verossímil fração de segundo eu já caia de cara no lodo, aceitando assim a desinteressada oferta da seita: se caísse, estaria tomando uma “peia”, uma surra. Estaria tratando de um duelo de energias, nem sequer morais, em que render-se ao lodo, ao solo, era queimar etapas de um provável e figurativo carma negativo. O lodo me faria renunciar às surpresas do futuro. Enfim: eu, absorto em meu lúcido sonho, estava antecipando uma peia do destino, ora incerto, logo dominado. Ali, no vômito e no lodo estavam condensadas as vastas operações da Ayahuasca. O vômito veio em jorro poderoso e totalitário. Talvez alguém tenha me dito, não há certeza se isso foi realmente dito, que o vômito era a vindicação de uma filosofia das plantas de poder.

Por dois meses, percorremos a cidade de São Paulo em busca dos novos xamãs. O vômito torpe era a coroação de uma delicada negociação para se penetrar, ao lado do repórter fotográfico João Wainer, numa disputada seita de Ayahuasca. Lá, pudemos saber que São Paulo já, há pelo menos três anos, se converteu na mais poderosa capital latino-americana do xamanismo. Da seita, entramos em contato com os xamãs gringos mais disputados do nosso continente: o matemático e engenheiro PhD alemão Max Sandor, o quiroprático australiano Rowland Barkley, mais uma guru que comanda uma respeitada seita de Ayahuasca do Estado e um carioca que viveu três meses na floresta, tomando diariamente plantas no ritual do Daime Eterno – e mais meia dúzia de personagens que relutam em dar seus nomes e outros nem tanto. Como, por exemplo, a índia Mara, mãe de um menino de três meses e que deu à luz, ela e o marido, sob o efeito da planta.

Em verdade essa busca pessoal começara há quase 11 anos. Soube naquela época que, num bairro da zona oeste, um farmacólogo peruano chamado Don Augustin estava promovendo sessões com a planta Don Pedrito, e que objetivavam libertar drogadictos e alcoólatras de seus vícios. Minhas referências eram as de um trauma. Afinal, na época levei a amiga de um amigo ao ritual.

Meia hora depois de ela ter tomado a planta, passou a gritar: “Demônio! Demônio!”. Tivemos de segurá-la por quase seis horas, tempo em que a “planta de poder” insistiu em permanecer no seu sangue. Essa mulher me telefonou por anos a fio, dos locais mais improváveis possíveis. Ligou num Ano-Novo e referia que estava indo para Machu Pichu buscar respostas para o demônio que ela vira anos antes, em minha companhia, e que eu era o culpado de tudo, ainda. Soube depois, ela teria cogitado mudar seu nome para Brida, porque o dia em que a levamos ao ritual era exatamente aquele em que a personagem de livro homônimo de Paulo Coelho virou bruxa.

Eu havia ficado muito amigo de Timothy Leary, guru de John Lennon, desde 1989. Cheguei a telefonar ao guru, pouco antes de sua morte, em 1996. Leary explicava que ela não vira o demônio. Disse que, em verdade, quando se toma uma planta dessas, ocorre a morte psicológica. Na qual o superego se dissolve. “Se o seu superego tem a formação católica, ele vai então tentar ‘sobreviver’ se projetando em quem está ao lado. E ele se projeta como o contrário de sua formação. Ou seja: um superego católico vai tentar viver culpando quem está ao lado, como se fosse o demônio.” Mal sabia eu que, agora, estava prestes a ver os meus próprios demônios num ritual xamânico de Ayahuasca.

Agora, hora do relato, aquele ritual já caducou. Mas prossegue nos meus sonhos. Enfim, ainda se guarda dali as vastas sinestesias: e não custa nada descrever que, volta e meia, algum cheiro daquele lugar ainda me aparece enquanto cor, e alguma cor ainda sobrevive enquanto cheiro. Tudo aqui prefigura um labirinto. Acho que, melhor dizendo, essas coisas são agora como se não tivessem sido. Mas é viva a memória de meu interlocutor, o homem dos lagostins psíquicos, contando como foi parar ali pela primeira vez. “Eu era um alcoólatra potencial. Meu maior pânico era saber que, no dia das eleições, não teria o que beber, por causa da lei seca. Então fazia um estoque de bebida para poder ter as minhas garantias pessoais na hora do voto.”

Era uma manhã de domingo, 10h, quando chegamos no sítio, em uma cidade colada à capital paulista. O porteiro, mulato e rombudo, estava adestrado no hábito de não encarar a buzina à porta de ferro, que teria seus 10 metros de comprimento. Parecia que estávamos chegando a um churrasco dos triviais. Logo à frente está uma casa de madeira, das grandes, ornada com um quê de residência estival. O porteiro rombudo, na sua inocência mais invulnerável, e no seu melhor português, indica que “o lance” era mais para baixo. Divisamos um lago, sem outros traços dignos de nota que a cor de lodo. E bem ao seu lado um coreto, desses de cidade do interior. Parece haver ali um jogo de estranhas ambigüidades: muita gente de branco, muita gente colorida, gente com cara de matuto do norte do país, mulheres com feições da melhor burguesia paulistana; há também atores afetados, e atrizes. Algumas falam comigo com tinturas mal fixadas de carioquês, ciciando letras “s”. Outras são apenas pessoas comuns. Soube depois que ali havia gente que aparece na televisão, em novelas. E que no meio daquilo tudo também poderia haver juízes e promotores (o verbo foi-me dado no futuro do pretérito para que não buscasse, com os olhos e a curiosidade, tentar identificar alguém). Meu guia logo me diz que foi essa presença das atrizes que o convenceu a entrar para a seita. “A primeira vez que tomei ayahuasca, eu não achava o fio da meada. Na segunda vez era dia do meu aniversário. Ali começou a ficar tudo muito claro. A presença de atores e atrizes é uma garantia de que os rituais serão com um enfoque mais criativo e menos religioso.”

Entramos na fila. Pagamos R$ 90 e recebemos uma senha com uma folha seca plastificada dentro dela. Tivemos breve palestra sobre a importância de se respirar durante o transe. Somos acomodados no coreto. Seriam umas 100 pessoas. Os vinte, que ali estavam pela primeira vez, ficam em separado. Recebemos a dose da planta. Mais ou menos uns quatro dedos em um copo médio. O gosto é de corrimão de escada de pensão. Tanto que te dão um pequeno pedaço de maçã para suportá-lo. Sinto uma sensação ominosa, daquele que abre mão de tudo para não renunciar às surpresas vindouras. É a sensação de se estar pela primeira vez numa fila de roda-gigante ou trem fantasma. Na minha frente, dentro do coreto, havia umas 15 pessoas. Estão todos de branco. As mulheres têm o rosto goiano, brasileiro. Pode-se dizer que são lindas. Entoam modinhas repletas de chamamentos até que bonitinhos: falam de luz, de Cristo, de amor, de paz. Toca-se flauta, violão e bumbos. Mas algo de estranho começa a acontecer: aceito o repto de ver aquelas peles lindas se transformando em peles de múmia. Entro numa situação em que a ilusória força daqueles axiomas de paz, contidos nas letras das modinhas, não mais me socorrem. Quero gritar: aqueles rostos estão com pele de defunto. Vejo meu pai morto no caixão lacrado. Ele que já se foi há 26 anos empresta sua pele hipotônica de cadáver àquelas pessoas. A alegre sensação juvenil que eu estava tendo ali, de que tudo parecia o bar do Guerra nas Estrelas, com suas figuras estranhas e biodiversas, de que eu estava vivendo num alegre, sonoro e encantado baile de máscaras, tudo desaba. Quero gritar. Estou rodeado de mortos. Um dos guardiães se aproxima de mim. Pede para que respire fundo. A verdade surge, poderosa: eu beirava à morte psicológica. Foi nesse momento que veio o jorro totalitário de um vômito torpe.

Limpo a boca. A música que se canta me enleva. Minha cabeça traz alguns trechos que guardo decorados há anos. Veio primeiro um Borges: “A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão prestes a dizer algo; essa iminência de uma revelação, que não se produz, é talvez o fato estético”. Eu discordava em partes: minha estética não admitia a baba do vômito e tampouco a salivação intensa. E concordava em partes: as visões eram revelações que não se produziam de todo.

Depois me surgiu outro extrato. Que eu decorara ainda adolescente, tirado do capítulo “O Delírio”, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Por anos esse trecho foi toda a explicação para o delírio que ali, de fato, vivia em carne e osso: “Talvez, a espaços, me aparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas… caiu do ar? Destacou-se da terra? Não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade do delírio”.

O Doutor Leary falava que nessas horas você tem de se agarrar a algo: me agarrei a Borges e a Machado de Assis. Logo os repeli: lembrei que estavam mortos, como meu pai. E que certamente teriam também aquelas peles de defunto das pessoas do coreto. Olho para o lado: João Wainer não pode me ajudar. Está descalço e em outro planeta. Nesse momento começo a me acalmar; uma resposta brotava.

Ela vinha em forma de perspectivas. Algo como se você se perguntar alguma coisa naquele transe, a você mesmo, as formidáveis energias que se agitam dentro de ti conectam várias cenas da tua vida como resposta. Você troca uma resposta trivial por várias imagens. A memória, essa cúmplice por vezes traiçoeira de nós mesmos, vira uma torrente. Nesse momento abro os olhos: estou naquele coreto, que parece um invernáculo. A xamã que comanda a coisa toda toca um bumbo.Uma mulata linda está se curvando em semi-arco: está sob a posse de um caboclo. Um DJ que eu conhecia de vista é tomado por uma entidade árabe, falando a língua. É violento. Tem de ser afastado do invernáculo, pelos “seguranças”, que são os mais velhos freqüentadores da seita. Minha salivação continua intensa. O amigo que me levou ali chega perto de mim e dispara: “Você pode agora estar sujeito à telepatia”. Foi a única coisa que duvidei daquele ritual.

Vamos colocar em perspectiva: o cérebro humano contém aproximadamente dez bilhões de neurônios, cada um fazendo milhares de conexões. Cada neurônio age como o sistema binário de um computador, ligando e desligando. E dessa forma nossos pensamentos, emoções e decisões são transmitidos à vasta rede que somos nós. Neurônios são ligados por aqueles rabinhos, os axônios, que não se tocam. Os sinais passam de axônio para neurônio numa vala de sinapses, no espaço de um milésimo de segundo. Esse impulso tem carga elétrica de 120 milivolts. Se há telepatia, como passar uma informação à outra sem que haja esse complexo de toques, voltagens, axônios?

O cérebro produz ondas, medidas em ciclos por segundo, ou hertz (Hz). Cérebro relaxado ou em descanso produz um ritmo alfa, entre 8 e 14 hertz. Ritmos beta, que predominam durante o trabalho ou o caminhar, por exemplo, se dão entre 13 e 30 hertz. Durante o sono, produzimos ondas delta, que oscilam entre 1 e 4 hertz. Os ritmos chamados theta, produzidos no transe ou sono profundo, estão entre 4 e 7 hertz. Mestres zen e iogues dizem que podem mudar voluntariamente as ondas de seus cérebros. E a ayahuasca te bota em alfa.

Minha única explicação racional remonta a um livro que li no doutorado, A New Science of Life, escrito em 1981 pelo biólogo britânico Rupert Sheldrake, em que defendia o conceito de “ressonância mórfica”. Vai por aqui: ele pediu a um poeta japonês que lhe mandasse três versos similares. Um era uma cadeia de palavras sem sentido. O segundo era um verso coerente, mas recém-composto. O terceiro era um verso conhecido, muito conhecido entre crianças do curso primário no Japão. O doutor Sheldrake então leu os versos para três ocidentais, que não falavam uma palavra de japonês. Sabe qual eles mais gostaram? O verso popular. Ou seja: haveria em nós uma estética inata, baseada na afinidade. O que senti sob o efeito da planta de poder não foi definitivamente telepatia. Foram afinidades de estado alfa.

João Wainer não vomitou. Ficou sereno o tempo todo, e descalço. Diz ele que, “à medida que o chá fazia efeito, o atabaque ia se destacando entre os instrumentos dando cara de umbanda para o ritual. A essa altura meu cérebro dava loopings de montanha-russa pelo sistema solar e eu já não entendia mais absolutamente nada. Pra complicar ainda mais, um homem jovem, de barba e sem bigode, chapéu e túnica, incorporou uma entidade que gritava de forma agressiva palavras em árabe na roda.” Ele lembra que “pessoas dançavam curvadas, em ritmo alucinante enquanto eu enfiava cada vez mais meu pé na areia e me segurava na cadeira como se apertasse o cinto da poltrona do avião. Percebi a entrada dos guardiões para retirar o árabe dali. Ele relutou, mas de saída parou na minha frente. Olhei de perto para o rosto dele, e minha loucura passou na hora. O tranca-rua era praticamente um sósia do Ricardo Cruz, editor-chefe da Rolling Stone, e aquilo me fez lembrar da minha obrigação que era fazer uma foto do ritual, enquanto eu estava ali, bem louco e sem imagem nenhuma. Aquilo foi demais e pedi outro gole de ayahuasca. Desta vez um pouco menos, num copinho de café. Bastaram cinco minutos e eu fiquei louco de novo”. O que Wainer teria visto em seu transe? “Quando eu fechava os olhos, via formas geométricas que voavam no céu e quando eu abria via um cara cabeludo com um cajado e as costas totalmente curvadas andando de um lado para outro soltando palavras em esperanto ou em qualquer outra língua morta. O sósia do editor vira e mexe voltava para a roda fazendo com que relances da minha sanidade mental voltassem. Quando eu esquecia da minha pauta, me sentia muito bem. A música parou por alguns instantes, e algumas pessoas correram para fora. Eu estou bem, mas vejo o Tognolli correr junto. Escuto barulho de vômitos sincronizados como uma sinfonia bizarra. Olho pra trás e tudo que vejo é uma enorme quantidade de material orgânico amarelado saindo em linha reta da boca do Tognolli com cerca de um metro na horizontal. Fiz de conta que nada acontecia, fechei os olhos e me concentrei de volta na canção”.

Mma das figuras mais etéreas daquele ritual era a índia Mara Cruais, 23 anos de idade. Ela passou as quase seis horas do transe de cocar, sorriso perene, ao lado do marido. “Eu estava numa fase difícil. Nada dava certo. Eu usava drogas. Tentei suicídio. A ayahuasca me deu respostas que nenhuma igreja me deu. Hoje sei que vivemos em apenas um universo, aqui na Terra, mas que há outros. Me livrei da cocaína. Sou feliz.” A felicidade de Mara, cuja família vem da tribo araribá, nas cercanias de Bauru, interior de São Paulo, mereceu uma coroação que ela mesma escolheu. Seu filho Taipan Yagé Antunes, que neste janeiro completa cinco meses, nasceu sob a planta: Mara e seu marido tomaram ayahuasca, enquanto as mãos diligentes da parteira trabalhavam. “A planta me ajudou a suportar as contrações e eu vi o espírito entrar no corpo de meu bebê quando ele nascia”, lembra. O segundo nome de Taipan, Yagé, vem da obra de William Burroughs, Cartas de Yage, que ele escreveu nos anos 50 quando visitou o Peru e tomou a ayahuasca de lá, que se chama, justamente, yagé.

Já passado meu transe, vou ao lado de uma fogueira, deixo Mara e vou conversar com alguém muito difícil de dar entrevistas. Trata-se de Sandro de Forton Visintin, carioca de 41 anos de idade. Ele é tido como um dos sacerdotes da seita do Daime Eterno. Passou seis meses no interior do Acre, em Mapiá, comendo e dormindo na selva e tomando a planta todo o santo dia. Ele é daqueles que buscam as plantas em seu estado natural, no meio do mato bravo. “Tomar isso é se livrar do coletivo e encontrar a sua própria natureza. Para mim o catolicismo passou a ser enganação.” Nesse momento uma das mulheres que tocava violão vem conversar também ao lado do fogo. “Estou indignada porque na Rolling Stone número 1 vocês colocaram aquele Daniel Pinchbeck. Ele está fazendo fama com nossas plantas”. Visintin faz coro com ela. “Esses gringos não vejo com bons olhos, eles estão cumprindo uma ciranda de expropriação de 500 anos levando nossas plantas e fazendo fama com elas.”

Um banquete fenomenal é servido. Tudo de bom e do melhor: queijos, caldinhos, pães, sucos variados, frutas frescas. Começo a perguntar como definem a planta. Ficam de me mandar (e mandam) por e-mail um verbete: “Ayahuasca, nome de origem inca, refere-se a uma bebida sacramental produzida a partir da decocção de duas plantas nativas da Floresta Amazônica: um cipó Banisteriopsis caapi e folhas de um arbusto Psychotria viridis. É também conhecida por yagé, caapi, nixi honi xuma, oasca, vegetal, Santo Daime, kahi, natema, pindé, dápa, mihi, ‘O Vinho da Alma’ ou ‘Pequena Morte’, entre outros. Ayahuasca é de origem quechua, significa ‘liana (cipó) dos espíritos'”. A bebida foi utilizada por povos pré-colombianos, incas, e hoje faz parte da cultura de pelo menos setenta e duas tribos indígenas diferentes da Amazônia. “É empregada extensamente no Peru, Equador, Colômbia, Bolívia e Brasil. Foi usada provavelmente na Amazônia por milênios, e está expandindo-se rapidamente na América do Sul e outras partes do mundo com o crescimento de movimentos religiosos organizados tais como Santo Daime, União do Vegetal, Barquinha ou Natureza Divina, que a consagram como sacramento de seus rituais”. Alguns usuários dizem que a ayahuasca não seria um alucinógeno, apesar de produzir o que clinicamente é caracterizado como alucinação (“percepção não registrada pelos sentidos físicos, em especial as de conteúdo metafórico individual”). A definem como “um enteógeno, uma vez que seu uso se dá em contextos litúrgicos específicos.”

Quimicamente, “a propriedade psicoativa da ayahuasca se deve à presença nas folhas da chacrona, de uma substância enteógena (alucinogênea) denominada N,N-dimetiltriptamina (DMT), produzido naturalmente (em doses menores) no organismo humano. O DMT é destruído pelo organismo por meio da enzima monoaminaoxidase (MAO). No entanto, uma substância, a harmalina, atua como um potente antidepressivo inibidor da MAO. Assim, o DMT tem sua ação alucinógena intensificada e prolongada.”

Todos estão felizes e sorridentes. O ritual acabou. Mara diz: “Escreve aí que completei minhas revelações falando com o Max Sandor e com o Rowland Barkley”. Chegava a hora de ir atrás dos dois xamãs. Max e Rowland escolheram São Paulo para viver. Estamos agora no centro de São Paulo. É lá que mora Rowland Barkley. Formado em quiropraxia, fez sua iniciação na Nigéria e com aborígenes australianos. Seu site, www.tranceform.org, está escrito em seis idiomas e anuncia seu método: “Antos: terapia de liberação energética”. Viaja o mundo com freqüência. Seu folder, bem cuidado, refere que, pelo atalho do método Antos, você pode “desfazer nós energéticos, liberar-se de egos de pessoas mortas, inclusive das pessoas vivas com as quais seu relacionamento já morreu…”.

O apartamento de Rowland causaria inveja a Pierre Verger, Levis-Strauss e Caribé, ou quaisquer gringos dispostos a estudar imagens autóctones, brasucas e africanas. Um de seus quartos deve ter umas 30 imagens de orixás entalhados: um autêntico exército africano. “Não bebo plantas e não recebo entidades. Se eu receber uma e ficar inconsciente, deixo de receber outras nove”, alerta em seu melhor inglês. O apartamento de Barkley é forrado de tambores e entidades negras esculpidas em madeira. Ele pede para que eu me sente. Sua companheira, que é uma médica, ocupa aquilo que Rowland chama de trono. A sala tem seus 50 metros quadrados. Barkley tem um corpo antes cheio que magro. Usa camisa tie-dye. Parece um surfista. Está de chinelos, que logo são abandonados. Acende-se uma vela, ao lado de umas 10 entidades de ébano. O casal parece entrar em transe. Rowland me pergunta o que quero saber. Sua voz está tresnoitada agora. A mão direita faz sinais como se estivesse remando. Ele deposita no chão três sacos de pano. Tira uma guia de contas, um colar africano, que manipula eventualmente. “O que você quer?”, dispara o xamã. Digo que quero saber porque vi pessoas mortas na sessão da ayahuasca. Ele me pergunta: “Quem você quer que responda isso para você?”. Digo que a resposta que eu mais gostaria de ouvir teria de vir de dois finados amados: meu pai e Timothy Leary. Barkley dá as respostas que quero ouvir. Diz que está convocando Exu. Que me mostraria outras facetas, outros ângulos, do que vejo na vida. O que ele falou vai como está: nem mais desbastado nem mais estreito. “Você terá aberto um vulcão de possibilidades.”

Sua fala é fluente, vívida, com citações culturais impressionantes. Rowland joga com o sobrenatural, mas de modo lícito: insinua-o para maior mistério na proposição do problema, esquece-o ou desmente-o na solução. Fala por parábolas. É animadíssimo. Dá gargalhadas. Ele não quer em verdade dizer nada: enquanto fala, suas entidades estão operando. “Você concordou com isso e agora estamos despertando um vulcão de possibilidades em você”, alerta. O xamã dá aviso de que nos dias subseqüentes à consulta eu sentiria “velhos sentimentos aflorarem”, e que não deveria combatê-los, mas agradecer que eles estavam sendo limpos e fluindo. Na noite da consulta, três da manhã, acordo com uma arqueologia de sensações que julgava enterradas desde a adolescência. As respostas surgem, caoticamente, ainda mesmo passados dias da consulta. Será auto-sugestão? Não creio em bruxas, mas que las hay…

Mas o que mais me chocou foi que, após eu ter pago a consulta de R$ 300 e ter recebido um sonoro “tudo de bom”, Rowland me disse que o santo a me guiar era Oxóssi. Fiquei enregelado, tremi dentro dos sapatos. Uma semana antes eu havia encontrado o xamã Max Sandor que me entregara um livro em italiano, páginas marcadas para mim, bem no capítulo de Oxóssi – Sandor já me “lera” como filho de Oxóssi. Esses xamãs parecem saber o que dizem.

Barkley encerra dizendo que, como filho de Oxóssi, eu era um caçador. E que aquela sessão me ajudaria no seguinte: “Se você viver em tensão, com o arco puxado, não consegue disparar a flecha na hora certa e portanto não vai pegar a caça; se ficar todo relaxado, também não dispara a flecha; também não pode dispará-la no momento errado, senão perde a caça”.

Barkley e sandor dispõem de uma vasta cultura sobre a teoria do caos. Basicamente o seguinte: as coisas podem ser elas e seu contrário, ao mesmo tempo. Isso vem do começo do século 20, exatamente 1927, quando o físico alemão Werner Heisenberg, com 26 anos de idade, postulou o “princípio da incerteza”. Resumindo: se você analisa um elétron, ele pode ser afetado pelo feixe de luz que o analisa. Ou seja: o fato de você analisar algo altera esse algo. Até porque, se você analisar sob outro ângulo, com outro estado de espírito, pode ver outra coisa. A física já provou que a luz é ao mesmo tempo onda e partícula. O pessoal que estuda esse papo quântico costuma adorar uma frase do filósofo Protágoras, do século 5 a.C.: “Só o homem é a medida de todas as coisas, das que são o que são e das que são o que não são”.

Mas o mestre nisso é o xamã Max Sandor, 54 anos. Parece um cantor de rock. Está de calça de couro, bota de couro, cinto de cobra. Mora em São Roque. Conhece o mundo todo. Mas nasceu em Berlim. É PhD em engenharia eletrônica. Morou 20 anos em Los Angeles. Atendeu estrelas de Hollywood, mas pede que não se publiquem seus nomes. É especialista em inteligência artificial. Estuda o Ifá, um misterioso sistema divinatório da África, sobretudo Nigéria. Também fala seis idiomas. Inclusive sânscrito. Foi apresentado ao Ifá em 1998, em Los Angeles. Hoje é um babalaô. “Liguei a matemática aos arquétipos dos orixás, para poder entender o mecanismo do universo. O Ifá é a verdade além do verdadeiro e do falso.” Rowland e sua esposa, Helena, fazem a divinação usando o opelê, uma cadeia de nós de palma. Ele trabalha ligando códigos binários da matemática aos dos orixás. Sandor tem toda uma teoria sobre os bytes cósmicos e suas 256 energias. Sua ciência se chama “Skywork”. “Se você descobre essas chaves, pode melhorar a vida das pessoas. Entrando em contato com as entidades, os ebós, você pode alterar sua vida com pequenas ofertas a eles, como jogar mel num rio”, explica.

Max diz que isso abre os seus pontos vitais, que os hindus chamam de chacras. “O Ifá te repõe no caminho que você escolheu quando veio a mundo. Determinando o arquétipo dessa escolha, podemos fazer com que a pessoa pare de entrar em conflito na vida. Não quero fazer a pessoa crer em nada. Quero fazê-la encontrar sua verdadeira energia.” Sandor muita coisa acertou da vida do repórter simplesmente lendo atributos de Oxóssi. Muita gente que vai na ayahuasca completa seu périplo xamânico indo a Max e a Rowland. O que nivela seus caminhos, arbítrios e jornadas parece ser uma petição de princípios básica: nossa civilização nos tornou robôs, zumbis, e perdemos contato com as nossas vontades e desejos mais íntimos. Com certeza muita gente vive a vida que jamais desejou e pode mudar isso. Para eles, nossa felicidade está enterrada em nós como um sapo de macumba, esperando ser escavada e desperta. Agora, terminando estas mal-traçadas, as viagens da ayahuasca e os conselhos de Max e Rowland parecem uma abstração, dissipam-se e se misturam num cafarnaum de idéias. Mas um eixo mental sobrou de tudo isso: as religiões oficiais andam dando respostas que não admitem perguntas; as filosofias tradicionais andam fazendo perguntas que ainda não podem ser respondidas. Talvez São Paulo esteja virando a capital xamâmica da América Latina justamente por causa disso: no xamanismo, quem decide, pergunta e responde é você.

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