Ensaio: o fim das ideologias – Claudio Tognolli

Por Claudio Tognolli

Fim de ideologia não é novidade. O termo, originalmente, foi criado por Albert Camus. Gerou “n” obras, dos anos 1950 para cá: “O Deus que Falhou”, de R. H. Crossman (com textos de Koestler, Silone, Gide, entre outros); um punhado de ensaios de Arthur Koestler e Ignazio Silone, o famoso “ O Ópio dos Intelectuais” , de Raymond Aaron e, last but not least, “The End of Ideology on the exhaustion of Political Ideas in the Fifties” , de Daniel Bell, lançado em 1960 em primeira edição e agora relançado pela Harvard University Press.

Na falta de ideologia, que venham as antigas. E estão chegando.

Muita gente acha que teremos uma entropia, ou aquilo que Rosa Luxemburgo chamava de “revolução estrutural do capitalismo”, que se autodestruiria, pela própria concentração de renda. Não é para menos que o novo herói dos desbundados é Thomas Piketty, autor de “O Capital no século 21”—cuja falência que aponta no capitalismo fez dele o inimigo número um do matutino britânico “Financial Times”.

Muita gente também tenta entender o  Brasil de agora com a velha teoria do bruxo da abertura, Golbery do Couto e Silva, com o seu “paper” intitulado “Sístoles e Diástoles da Política Brasileira”.

Para Golbery, o Brasil tem um condão único: quando o poder fica mais conservador que o povo, este opta por aberturas. Quando o  poder abre demais à esquerda, é fechado por golpes paterocinados pela sociedade civil mas não tão civilizada:  o tenentismo de Vargas era uma abertura face à política consaervadora do café com leite, retirada à forceps; Getúlio, por sua vez,  encastelou demais e teve de meter um balaço;  Jango abriu demais, foi fechado pelo Movimento de 1964; e este, por sua vez, fechou demais e teve de instalar a abertura lenta e gradual.

A pergunta que ninguém sabe responder é o que e quem representa o eleitorado de 30%  que votou em branco, que não se vê um cidadão de verdade e que não se compraz com o gasto de RS$ 9 bilhões em estádios de futebol. Vão quebrar tudo? Vão sair às ruas, de novo, por um aumento de 30 centavos na passagem, como foi em 2013?

Uma penca de intelectuais tentou dar respostas ao que era o Brasil, nos últimos 80 anos. A turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, como Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier e Cândido Mendes de Almeida, nos anos 50, criticava a eternal vocação agrária do Brasil. Diziam que nosso mundo agrário-mercantil se aliava aos gringos para que o Brasil não desenvolvesse seu parque industrial e fosse um eterno exportador de grãos.

Foi no Movimento de 1964 que os “intelectuais” da Escola Superior de Guerra derrotaram o vies levemente marxista do ISEB e acentuadamente comuna, de gente como Fernando Henrique Cardoso e Serra de então, com um planejamento tocado por tecnocratas cegamente aliados aos EUA.

A escola posterior a isso teve ícones como Paul Singer ( “A crise do Milagre, de 1976)”, Carlos Lessa (1979), Guido Mantega e Marisa Moraes (1980). Procuravam um pacto nacionalista.

É esse modelo basicamente o que incomoda os gringos hoje: esse arranjo nacionalista, com alianças de classe bem claras para o proletariado ( os 40 milhões de recebem o bolsa-família deveriam ser proibidos de votar…), com uma  armagedônica falta de clareza com a nova classe média, hoje instável ao osso, –e com o investimento externo estagnado, porque sem noção das regras do jogo sob Temer…

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