Ensaio: Nosso estranho amor, por Dora Tognolli – Claudio Tognolli

Nosso estranho amor
por Dora Tognolli

Nosso estranho amor

Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa , que o amor
não pode esperar!

(Carlos Drummond de Andrade)

Freud e a Cultura

“Viena IX, Berggasse 19, 8.5.1906

Caro Dr. Schnitzler,

Há muitos anos estou ciente da ampla harmonia que existe entre as suas opiniões e a minhas sobre muitos problemas psicológicos e eróticos; e recentemente encontrei até a coragem de acentuar expressamente esta harmonia (Fragmento de uma Análise de um Caso de Histeria, 1905). Sempre me perguntei espantado como o senhor havia chegado a este ou aquele detalhe de conhecimento secreto que eu havia adquirido mediante acurada investigação do tema, e finalmente cheguei ao ponto de invejar o autor que até então admirava.

Agora, o senhor pode imaginar como fiquei satisfeito e eufórico ao ler que o senhor também tem-se inspirado nos meus escritos . Quase lastimo pensar que tive que alcançar os 50 anos para ouvir algo tão lisonjeiro.” 

(Freud, 1982, p.298)

A carta de Freud de 1906, endereçada a Schnitzler, é um dos inúmeros exemplos de diálogo da psicanálise com a cultura. Nessa carta, Freud se refere às questões psicológicas e eróticas, acessíveis aos artistas: seu interlocutor é Schnitzler, um contemporâneo vienense, também médico de formação, que acabou se desviando para a literatura. Schnitzler aborda o mundo dos instintos em diversas obras: ora a compulsão de Eros (Os Playboys), ora os apelos a uma vida dionisíaca, que pode levar à morte (O apelo da vida). De certa forma, Freud considerava que o artista trabalhava sobre o mesmo objeto, com métodos diferentes. Nas palavras endereçadas a Schnitzler, Freud considera o analista um artista? Ou o artista um analista? Chega a revelar certa inveja, diante da percepção de que o artista toca diretamente e com grande eficácia a matéria que surge a duras penas para o psicanalista. No livro Viena fin-de-siècle, Schorske comenta que Freud sentia tal afinidade com Arthur Schnitzler, que conscientemente o evitava como seu duplo.

Na carta aqui transcrita, Freud menciona o caso Dora (Fragmentos de uma análise de um caso de histeria), que acabara de publicar e que, junto com outros textos seus, sinalizava a invenção de um novo método de apreensão do sujeito, afastando-o da medicina e colocando-o numa terceira via – nem arte, nem ciência. De certa forma, Freud substitui a tradição médica pela literatura, antropologia, arqueologia, mitologia. Um caminho inusitado, que talvez pudesse ser trilhado com mais segurança, com o aval de escritores como Schnitzler.

As incursões de Freud em direção à arte e à cultura são inúmeras – algumas delas motivo de polêmica. Cabe citar o estudo sobre o Parricídio, onde Freud tece considerações sobre a vida do pai de Dostoievski, tentando pesquisar a origem do interesse do escritor por certos temas, o que nem sempre se confirma a partir de dados da família de Dostoievski – em especial acerca da morte de seu pai. Seu trabalho sobre Leonardo da Vinci também é bastante criticado, na medida em que Freud assume um papel de decifrador de enigmas, chegando a falar de Leonardo como seu analisando, rastreando sua infância em busca de explicações para sua apatia no que diz respeito ao amor erótico. Mesmo polêmico, seu texto sobre Leonardo trata de temas importantes, como narcisismo, sublimação, pulsões e memórias da infância, que serão retomados em outros escritos posteriores.

De qualquer forma, devemos reconhecer em Freud um incansável inventor, dominado pela paixão e cujos textos literários situam-no na seara dos grandes escritores da humanidade.

Nos trabalhos de Freud sobre artistas e escritores, podemos perceber três vias de investigação: a obra em si e a mensagem que ela veicula; o autor e seus mais secretos desejos; e o espectador ou leitor – no sentido de perceber o que a obra evoca. Como um pesquisador obstinado, curioso, sempre pronto para decifrar novos enigmas, Freud trabalhava vigorosamente. Suas contribuições estéticas, em algumas situações, como diante do Moisés de Michelangelo, ganham maior sentido e relevância, na medida em que ele não se limita a provar suas teorias, mas inclui sua própria subjetividade, tocada pela obra. E é nesse exercício que passamos a enxergar Freud como um homem comum, dessacralizado, tocado pelo belo.

No caso de Gradiva, obra da qual falaremos, Freud mostrou-se muito atento e tentou até uma investigação junto a seu autor, Jensen, convencido de que só um desejo secreto ou intenso do escritor teria produzido uma obra como esta. A receptividade de Jensen frustrou-o, na medida em que ele tratou Gradiva como uma obra escrita, furtando-se a fornecer pormenores sobre sua própria vida e revelando desconhecimento das teorias psicanalíticas. Freud inclusive chama atenção para o fato de não termos nenhum dado sobre a infância do arqueólogo, personagem central da obra, esquecendo-se de que o poeta (ou Dichter) pode deixar espaços não preenchidos, sombras, que inclusive sustentam a linguagem poética.

No início do texto de Freud sobre Gradiva, em contraste com todo o trabalho de rastreamento da história, Freud coloca uma questão: os sonhos nunca sonhados, fruto da criatividade dos escritores. Além dos seus sonhos, amplamente trabalhados, Freud se deparava agora com os sonhos de Dora, que o abandonara, e com os sonhos de Hanold, personagem da ficção de Jensen. Até que ponto conseguiria entender tudo? Explicar tudo? De Gradiva, rumamos para Dora, que deixou Freud sozinho, abandonado junto a suas teorias e explicações. Nesse caso, Freud era o personagem, tragado pela trama, e não o analista, o que perceberia num outro tempo. Entendeu a mensagem (os sonhos e as revelações de Dora), seu autor (Dora), mas não pode entender o receptor – ele. Só depois, com a formulação do conceito de transferência, uma das formas de amor e vínculo, pode voltar a Dora, agora menos compulsivo, menos explicativo. Reconhecendo que fora tocado pelo amor: o amor pela psicanálise, o amor de transferência.

Gradiva

O texto Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen (1906) constitui a primeira análise publicada por Freud de uma obra literária. Freud reproduz a obra e detem-se longamente nela: de Jensen, para Freud, até nós, leitores, estamos diante de migrações de sentidos e possibilidades de análise. Os biógrafos de Freud destacam que foi Jung quem chamou sua atenção para Gradiva, considerada uma obra menor de Jensen. A partir do texto de Freud, temos uma noção completa da trama, como se Freud tivesse reescrito a obra, tal a riqueza de detalhes.

Gradiva, que significa a moça que caminha, trata da história de um jovem arqueólogo, Norbert Hanold, que só tinha olhos para sua profissão e vivia isolado do mundo. Até que um dia toma contato com um baixo-relevo que o perturba: a peça desperta nele uma estranha sensação de familiaridade, como se ele conhecesse muito bem aquele jeito de andar da moça retratada: ele apelida-a de Gradiva. A partir dessa experiência, Hanold é transportado em um sonho muito vívido a Pompéia, suposta cidade de Gradiva, no ano 79 d.C e tem um encontro com a jovem, como se fosse seu vizinho e contemporâneo. Pressente a erupção do Vesúvio e tenta avisar a jovem, que ignora seu chamado e caminha até a suposta morte, empalidecendo deitada numa pedra de mármore, diante do arqueólogo. Hanold passa a procurar, em sua cidade, mulheres com o andar de Gradiva, como se ela fosse real, e tal curiosidade acaba despertando-o para a vida e para o movimento da cidade – em busca de um pé ou de um jeito de andar. Hanold viaja para a Itália, e em cidades como Roma e Nápoles fica extremamente irritado ao se deparar com casais felizes. Essa insuportável visão dos casais leva-o a Pompéia, lugar por ele sonhado.

Aproximando-se de Pompéia, o personagem se pergunta se “seu descontentamento não era resultado apenas de circunstâncias externas, tendo em parte origem interna”. Ora, será que além dos delírios e dos sonhos de Hanold, Freud também não se encantou com esse tipo de digressão, que aponta para a existência de um mundo interno sombrio e desconhecido, de onde emana mal-estar, melancolia, desalento?

Em Pompéia, parece ir em busca de Gradiva, e realmente aparece para ele uma jovem que lembra em tudo a mulher estampada no relevo. Há encontros, desencontros, delírios, mais sonhos, alucinações, confusão de tempo, até que Gradiva se revela: trata-se de uma amiga de infância e vizinha de Hanold, de nome Zoe, a quem ele havia ignorado durante todos esses anos, sem se dar conta desse fenômeno, embora tivessem sido velhos amigos de brincadeiras. Hanold dirige-se a ela como uma grega, moradora de Pompéia há quase dois mil anos, que ressurgiu do passado e da morte; Zoe se dá conta dessa alucinação, mas não questiona o jovem. Aos poucos, vai se aproximando de Hanold, com muita cautela e humor, lembrando-lhe que ele a havia esquecido e menosprezado.

Numa de suas frases, diante da surpresa de Hanold quando a jovem trata-o pelo nome, Zoe diz: “há muito já me acostumei a estar morta”. O tempo de Zoe é a infância e suas lembranças; o tempo de Hanold é o tempo dos sonhos e da alucinação, e aos poucos eles se aproximam e Hanold entra no tempo presente, beija-a, toma-a em seus braços e sugere a Zoe que se casem e desfrutem de uma lua-de-mel.

Gradiva/Zoe era um ser vivo, de quem Hanold fugiu, indo encontrá-la em Pompéia – outro lugar e outro tempo, como se estivesse sob efeito de uma paixão ou alucinação arrebatadora. O amor despertado em Hanold e a reação de Zoe diante desse amor delirante, cura-o de seu delírio e determina o desfecho feliz da história. O delírio do personagem não se dissipa tão rápido como nos faz crer esse breve resumo, que retira a poética da narrativa e antecipa o final feliz da história. Uma das considerações de Freud, entre inúmeras outras, é a constatação, em Hanold, de uma ânsia de amar e a cura seria o acesso ao amor erótico infantil, soterrado como Pompéia.

Por que Gradiva? Bem, diversas vias despertam nosso interesse e talvez expliquem porque o interesse de Freud foi tão aguçado. Passamos a enumerar alguns pontos para reflexão. Em primeiro lugar, Gradiva trata da inibição do amor: Hanold ficou intocável, fechado para o mundo e para as mulheres, num tempo aquém, aquém de sua infância, e apagou todas as lembranças que envolviam Zoe, que retorna como Gradiva. Esse é um tema caro para Freud: o tema da memória, tão bem trabalhado em seu texto Lembranças Encobridoras, que trata de um amor de sua infância, Gisela.

Gradiva também dá um lugar de destaque para os sonhos do personagem, já que a partir deles Hanold desperta para a vida e começa a se interessar pelas mulheres, pelo seu andar, à procura de um obscuro objeto de desejo, perdido em Pompéia, que ele teima em encontrar. Para Freud, tomar o sonho como fonte de vida, como portador de mensagens e como prova do estatuto do desejo inconsciente, seria a confirmação da estranha ciência que ele acabara de fundar, que provocava inúmeras resistências no meio vienense e europeu.

A profissão de Hanold, arqueologia, é de grande interesse para Freud: em diversos textos seus, desde as cartas a Fliess, até Construções em Análise, de 1937, Freud compara o trabalho do analista ao do arqueólogo: “o trabalho de construção, ou se preferir, de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, feita por um arqueólogo, de alguma morada que foi destruída e soterrada.” (Freud, 1937. p.293).

E temos ainda Pompéia, uma cidade que também acompanha Freud em vários de seus escritos. Só para ilustrar, reproduzimos trechos de uma carta para seu amigo/analista Fliess:

“Viena, 28 de Abril de 1897

Querido Wilhelm,

Ontem à noite tive um sonho a seu respeito. Era uma mensagem telegráfica sobre seu paradeiro:

                              Via

        Veneza                     Casa Secerno

                             Villa

Relatório sobre os motivos: …Essa conversa mobilizou a tristeza que tenho sentido ultimamente por não saber onde você está hospedado e por não receber notícias suas.(…)Portanto, se você me mandasse seu endereço por telegrama, isso seria a realização de um desejo. (…) Portanto, o sonho reúne toda minha irritação com você, que está inconscientemente presente em mim. A propósito, o enunciado tem ainda outros sentidos:

Via (as ruas de Pompéia, que ando estudando)”   

(Masson,1986, pp 237-238)

Nesse pequeno trecho da correspondência entre Freud e Fliess, encontramos ingredientes que nos lembram Gradiva: a presença de um sonho, que Freud associa a um desejo; uma relação de amor com a ciência que ele estava inventando; uma relação de amor com Fliess, com quem Freud tratava de vários assuntos, em especial o assunto Freud; e Pompéia, um modelo que intrigava Freud e que muito inspirou as metáforas sobre o funcionamento do método psicanalítico e da própria psique. O ano era 1897. Ora, Freud estava empenhado em desvendar uma nova via – a via de acesso ao inconsciente, a que os sonhos conduziam. Será que é possível apontarmos o isolamento de Freud, que trabalhava muito solitariamente suas idéias, o que fica claro na necessidade de contato que expressa em suas cartas, como um ponto de empatia diante desse texto? Fliess era seu fiel escudeiro, sua escuta, seu duplo, até certo momento. E de certa forma confirmava o que Freud já havia expressado na Interpretação dos Sonhos: “um amigo íntimo e um inimigo odiado sempre foram requisitos necessários de minha vida emocional”. Talvez Fliess tenha corporificado essas duas imagens…

Vamos nos deter no tempo: segundo Schur, médico e biógrafo de Freud, por volta de 1906, ano de publicação da Gradiva de Freud, ele enfrentava os ataques de Fliess, após o rompimento traumático da amizade entre os dois, o que deve tê-lo desapontado extremamente. Freud também estava próximo de seus 50 anos, idade que retratava o envelhecimento que ele percebia, vivia e expressava. Abrigava um lado supersticioso, e uma de suas crenças era a de que estaria destinado a morrer aos 51 anos: a idade fatídica estava se aproximando. Em diversas cartas, Freud confessa seu temor em perder o vigor e a saúde. Nesse clima, podemos perscrutar certa melancolia, que o conto Gradiva carrega, já que toca, de certa forma, na questão da mortalidade/imortalidade, da reversão do tempo, das profundezas, dos lados sombrios e soterrados da mente.

Há referências nas biografias que foi Jung quem apresentou Jensen de Gradiva a Freud, o que o fascinou, na medida em que encontrava, nesse tipo de literatura, uma confirmação de suas idéias tão rechaçadas na época. Ora, Jung surge logo após o rompimento com Fliess. Se por um lado Freud mostrava-se orgulhoso de seu isolamento permeado de árduo trabalho, que estava resultando na criação de uma nova ciência, por outro, a aproximação de jovens inteligentes como Jung, que legitimavam todo seu esforço, e pelos quais nutria admiração, era um alento. Em maio de 1907, Freud escreve a seguinte carta a Jung, a respeito de Gradiva:

“Prezado colega,

Os meus maiores agradecimentos pelos seus elogios à ‘Gradiva’! Você não acreditará como poucas pessoas são capazes de fazer exatamente o que você fez; é, efetivamente, a primeira vez que ouço uma palavra amiga a respeito da obra… Desta vez, sabia que a minha pequena obra merecia elogios; foi escrita durante dias ensolarados e retirei deste trabalho grande prazer.”        

(Schur, 1981.p.306)

Após a ruptura com Fliess, mesmo inclinado a ver em Jung um seguidor e um grande amigo, Freud mostrou-se cauteloso, e mais uma vez estava certo: os caminhos de ambos mostraram-se divergentes, e a via mística adotada por Jung afastou-o de Freud. A carta amorosa endereçada a Jung nos revela o grau de ambivalência presente em Freud: será que Jung seria outro amigo/inimigo, como o fora Fliess? Coisas da paixão e da transitoriedade.

Dora – aquela que não pode mostrar seu nome

“Pobre gente, nem mesmo o próprio nome eles podem conservar!”

(Freud, 1901, p.209)

Quando Freud resolve publicar o caso clínico de uma jovem que atendera durante três meses, em meados de 1900, cuidando para que ela não fosse identificada e sua narrativa não se transformasse num roman à clef, só um nome lhe ocorrera: Dora. Intrigado diante desse nome, Freud lembra que conhecia uma pessoa que se chamava Dora: a babá de sua irmã. Não satisfeito, inicia uma pesquisa sobre o caminho que o levou a essa escolha, no sentido de reforçar que não existem coincidências. Recorda-se de um incidente ocorrido um dia anterior à escolha, na casa de sua irmã Rosa: ao visitá-la, encontra sobre a mesa da sala de jantar uma carta endereçada à Srta. Rosa W. Freud pergunta quem era Rosa, e sua irmã explica que esse era o verdadeiro nome da babá, que ao aceitar o emprego em sua casa, troca de nome para não ser confundida com a patroa: a jovem Dora chama-se então Rosa, diante do que Freud comenta: “pobre gente, nem mesmo o próprio nome eles podem conservar!”

Por que Dora? Freud já havia se deparado com várias histerias, durante seu percurso. E de certa forma, já percebera que as histéricas adoecem de amor, por amor, por pudor. Que a histeria era a doença do desejo reprimido, paixão alienada de sua erotização. Nos estudos da histeria, Freud dá voz às mais secretas paixões. No caso de Dora, seu envolvimento foi mais perturbado. Até hoje, nós analistas tentamos elucidar os enigmas que Dora propunha a Freud, e ele, cego de amor, tentando provar cientificamente seus novos achados, não conseguia decifrá-los.

Se, antes de Dora, Freud já falava em transferência, como sintoma e obstáculo para a cura, a partir de Dora, ela passa a ser considerada motor do trabalho analítico, já que coloca em cena a relação amorosa paciente-analista. Em 1912, Freud fala em “Dinâmica da Transferência”; poucos anos depois, surge outro trabalho, incorporando a palavra ‘amor’ em seu título: “Observações sobre o amor transferencial.”, e traz à tona algumas questões recolocadas diariamente na prática analítica:

“Mas como deve o analista se comportar, a fim de não fracassar nessa situação, se estiver persuadido de que o tratamento deve ser levado avante, apesar da transferência erótica, e que deve enfrentá-la com calma?”(…) “Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, sem uma única pergunta. Ter-se-ia trazido o reprimido à consciência, apenas para reprimi-lo mais uma vez, num susto.”[..]) “O psicanalista sabe que está trabalhando com forças altamente explosivas e que precisa avançar com tanta cautela e escrúpulo quanto um químico.” 

(Freud, 1914, pp.213,221)

 Dora brinda Freud com uma profusão de ilustrações psicanalíticas: Édipo, bissexualidade, sonhos, fantasias, sedução. E Freud, como Ulisses, corre sérios riscos, não deixa de ouvir o canto das sereias, como seus marinheiros que, com os ouvidos tapados, desconhecem os perigos mas também ficam alheios à beleza do canto.

O relato da análise de Dora propõe inúmeras questões – um texto aberto, com fendas, que o próprio Freud retomou diversas vezes. Não é gratuito o nome que ele dá ao texto – Fragmentos, substituindo o título original, “Sonhos e Histeria”, nome que não permaneceu após a espera de quase cinco anos para sua publicação.

Tomemos um dos fragmentos: a abertura do primeiro sonho de Dora relatado por Freud – “Uma casa ardendo em chamas”. Freud trabalha sobre esse prelúdio, que prefiguraria um desfecho da análise de Dora, e um novo desdobramento em sua teoria; ele também fazia parte do enigma e do mistério. “Imagens que adquirem todo seu potencial representacional de um estado de emergência.” (Giovanetti, 2011)

Outro fragmento, que salta do texto de Freud sobre Dora, é a estagnação da jovem diante de um quadro de Madona Sistina, e seu silêncio diante da pergunta de Freud sobre sua reação. Dora sempre tinha respostas, mas dessa vez se cala. O que a paralisa? O amor por uma mãe? A sede de mãe? Não podemos esquecer que Freud também teve uma reação marcante diante do Moisés de Michelangelo, indo diversas vezes contemplá-lo na Igreja romana que o abrigava.

Em Gradiva, Freud leitor destaca o papel de Zoe, que acolhe o apaixonado Hanold, acompanha pacientemente seu delírio e aos poucos ajuda-o a descongelar o amor infantil, trama da qual faz parte.

Em Dora, a pressa de Freud, agora psicanalista, a entrada na sexualidade edípica apressada, as interpretações imediatas e muito luminosas, talvez tenham antecipado e favorecido a fuga de Dora. E se Freud tivesse sido mais paciente? E se tivesse se colocado na cena da transferência? E se pudesse escutar o clamor por uma Madona originária? E se tivesse acompanhado Dora na casa em chamas? Ou se entendesse que ele também estava sempre atrasado ou adiantado, naquela estação de trem?

Após a saída de Dora, Freud escreve:

“Quem, como eu, invoca os mais maléficos e maldomados demônios que habitam o peito humano, com eles travando combate, deve estar preparado para não sair ileso dessa luta. Será que eu poderia ter conservado a jovem em tratamento, se tivesse eu mesmo representado um papel, se exagerasse o valor de sua permanência para mim e lhe mostrasse um interesse caloroso que, mesmo atenuado por minha posição de médico, teria equivalido a um substituto da ternura por que ela ansiava? Não sei…”

(Freud, 1905, p.105)

 No pósfacio, Freud afirma que a sexualidade – Eros – não é simplesmente um deus ex machina – fornece a força propulsora para os sintomas. E alerta: “quem a desprezar, nunca será capaz de abrir essa porta.” (Freud, 1905, p 109).

Freud, acompanhado de Dora, estava sem paciência. Dora segue sozinha, confessando que os homens são detestáveis e prefere não se casar, não concordando com o poeta, que abre nosso texto. Mas Freud, que aparentemente ficara sozinho, carrega Dora até seus últimos textos: como Eros, vítima do próprio amor, segue em frente e perpetua as histórias de amores impossíveis, amores da infância, de tempos e lugares sombrios e atraentes.

Somos herdeiros desse amor, que não pode dizer o nome, mas que sempre atiça e lança seus dardos. Eros errante, nem eu, nem outro; nem dentro, nem fora – morada do amor e da linguagem, que os poetas tão bem sabem evocar.


Referências

 Freud, E. Correspondências de Amor e Outras Cartas, 1873-1939. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

Freud, S. (1989). Psicopatologia da vida cotidiana. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 6 pp. 11-271). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1901).

Freud, S. (1989). Fragmento da análise de um caso de histeria. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 7 pp. 12-115). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1905).

Freud, S. (1989). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 9 pp. 17-98). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907).

Freud, S. (1989). Observações sobre o amor transferencial (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise III). In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 12 pp. 207-221). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1915).

Freud, S. (1989). Construções em análise. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 23 pp. 289-304). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1937).

Gay, P. Freud: uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Giovanetti, M. Sobre migrações e transferências. Texto apresentado em março de 2011, na SBPSP.

Masson, J. M. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess – 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

Schorske, C. E. Viena fin-de-siècle : política e cultura. São Paulo : Companhia das Letras, 1988.

Schur, M. Freud: vida e agonia. Rio de Janeiro: Imago, 1981.

Nosso estranho amor
Our strange love

Resumo

O ensaio discute o tema do amor a partir da temática abordada por Freud em Gradiva, até chegar em Dora, quando formula o conceito de amor de transferência, motor do trabalho analítico.

Summary

This essay approaches love as its subject-matter, having the theme discussed in Freud’s Gradiva as its starting point, and eventually approaching Dora, when he formulated the concept of transference-love, which is the engine of the analytical work.

Palavras-chave

Amor. Gradiva. Eros. Dora. Transferência.

Key-words

Love. Gradiva. Eros. Dora. Transference

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