Por Claudio Tognolli

Cada época cria a ideologia de que tem necessidade. Em sua biografia, Ozzy Osborne nota: sua banda Black Sabbath ensaiava, nos primórdios, ao lado de um cinema, na periferia de Londres. Que lotava tão somente quando exibiam filmes do mais arrevesado terror. Foi assim que o Black Sabbath passou a adotar a indumentária das trevas. Ozzy começou a ganhar muito dinheiro porque, refere, “as pessoas tem necessidade de sentir medo: e pagam por isso”.

Martin Heidegger, 40 anos antes, ia por um caminho semelhante. Diferenciava o medo da angústia. Para ele, o medo se assenta sobre um objeto. A angústia repousa no nada. As pessoas pagam o que for, os diabos, para saírem do estado de angústia, e irem para o de medo. Tecnicamente, busca-se um bode expiatório sobre o qual purgam-se os males. “Bruxa de Blair” fez tanto sucesso porque explorava a angústia, o nada, talvez pela primeira vez em Hollywood: aquilo a que Freud chamava de objeto fóbico não era mais um tubarão, um Jason: era o nada, o vento, a natureza (de resto, a palavra pânico vem de “pan”, o medo primevo da natureza).

Ditadores erigem seus discursos apontando bodes expiatórios palpáveis. “Não falamos para dizer algo, mas apenas para produzir algum efeito”, notava oi ministro da propaganda de Hitler. Essa cousa chamada ser humano gosta de quem lhe aponta o bode a ser culpado, o que nos dá uma consciência de palpabilidade. Medo sem cara não serve. Le Bon, Freud, Wilhelm Reich, Elias Canetti e Ortrega Y Gasset falaram a mesma cousa com 15 anos de espaço: o povo se reúne e apóia o líder que lhe mostra o objeto sobre o qual purgaremos nossos medos.

A tese de doutorado do jornalista Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, escrita há tantos anos, diz melhor, e mais. Indica que, em épocas de crise, o cinema atrai o populacho purgando-lhe os medos reais com medos imaginários ainda mais terríveis. Foi depois da crise da Primeira Guerra Mundial que a República de Weimar produziu o clima para Nosferatu, para Fritz Lang, e para os terrores e monstruosidades em preto e branco de Murnau. Os monstros clássicos do cinema japonês, Gargula, Monstro da Bomba H, Godzilla, vieram depois de Hiroshima e Nagasaki. A crise do Petróleo de 73 gerou a primeira filmagem do Destino do Poseidon, Tubarão e Inferno na Torre, a partir de 1975. O medo da virada do milênio, de 2000 para 2001, nos trouxe Mar em Fúria e Independence Day. Hollywood também buscou outros panegíricos: quando a autoridade federal entra em crise nos EUA, a partir de 1973, com o caso Watergate, a indústria de cinema gringo convida as minorias a serem, nas telinhas, heróis federais: o tira grego Kojak, o tira negro Shaft, e os tiras italianos Columbo e Serpico.

Há uma forma boa de se ganhar dinheiro com isso: escolha um inimigo, invada seu país, escoe a sua produção encalhada. Satanize o inimigo e gere lucro.Vejamos a obra Le bonheur economique, de Francois-Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos “ciclos”, do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resultam guerras e instabilidades bem localizadas – para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de manufatura. Nessa visão, a Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783, e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, deu empuxo à Revolução de 1848, à Guerra de Secessão nos EUA e ao crack de Viena. A química pesada, no início do século, teria potencializado e gerado a Primeira Guerra Mundial, o crack de 1929 em Nova York e a Revolução de 1930, no Brasil.

Quando invadiu-se o Kossovo, em abril de 1999, para tirar-se da mídia o escândalo Monica Lewinski (a tese e do brilhante jornalista Phillip Knightley, autor de First Casualty), a então secretaria de estado dos EUA, Madeleine Allbrigth, comemorou que a antiga Iugoslavia seria um ótimo mercado para se escoar a produção dos EUA…Hosni Mubarak e Muamar Khadaffi serviram aos EUA dentro daquela ótica pela qual o ex-presidente Roosevelt definia o ditador nicaraguense como “um filho da puta, mas o nosso filho da puta”.

Quem será o novo personagem de quem os EUA tirarão o seu apoio, em troca de escoarem os encalhes, agora os gerados pela crise da bolha imobiliária de dois anos atrás. A bolsa de satanizações está com apostas em alta. E, por falar nisso, assista Invasão do Mundo, a Batalha de Los Angeles, que ele promete um medo mais estilizado do que o vazamento nuclear japonês.

A culpa é do judeu: o novíssimo neonazismo

O eixo é outro: os neonazistas, sempre de plantão, já correm no vácuo da questão palestina para voltar aos ataques de sempre.

Isso porque o  neonazismo só ataca enquanto respira.

De janeiro para cá, este blogueiro contou, nas bancas da cidade de São Paulo, nada menos que 13 novas publicações sobre a vida de Hitler.

Foi  no mês de janeiro de 2014, também, que o site da Time destacou que Mein Kampf,  autobiografia de Adolf Hitler, entrava na lista dos livros mais vendidos eletronicamente:

Why Is Hitler’s <em>Mein Kampf</em> Topping eBook Charts?

Uma editora brasileira, a Montecristo, de São Paulo, chegou a vender, em 2014, um exemplar de Mein Kampf a cada 30 minutos ,via I-books. No Brasil custa US$ 3,99. Lá fora, a obra ainda é mais barata:  sai por US$ 0,99, nos EUA, e £ 0,99, no Reino Unido.

Os direitos do livro, que pertenciam a Hitler, foram entregues ao Estado da Baviera por ordem do líder nazista. O Estado da Baviera recusa-se a republicar e permitir republicações do livro: mas tais direitos cairão em domínio público no dia 31 de dezembro de 2015.

Outra obra que vende como água é a cascata chamada Os Protocolos dos Sábios de Sião. A obra foi escrita em russo, em 1897, pela pela Okrana, polícia secreta do Czar Nicolau Segundo.

Foi redigida  pelos mesmos que orquestraram os “pogroms”. Pogrom (em iídiche פּאָגראָם, derivado do russo погром) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Judeus foram as cobaias dos primeiros pogroms.

Pois bem: a cascata dos Protocolos (com o delírio de que há um complô judaico-maçônico para dominar o mundo) tem um passado curioso.

Os Protocolos foram publicados nos EUA no Dearborn Independent, um jornal de Michigan, cujo proprietário era Henry Ford.

Hitler e seu Ministério da Propaganda citaram os Protocolos para justificar a necessidade do extermínio de judeus mais de 10 anos antes da Segunda Guerra Mundial.

Dois líderes egípcios no passado passaram a falar publicamente que os tais Protocolos eram “livros verdadeiros: Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat; na Arábia Saudita a obra era endossada pelo Reio Faissal; na Líbia, pelo coronel  Gaddafi.

No passado recente, Henry Ford imprimiu do seu bolso 500 mil cópias dos  Protocolos.

É nessas épocas de crises que envolvem Israel que os neonazistas dançam seus sabás. É nessas épocas que  empresários neonazistas fazem negócios.

Fazer  negócio  e nome sobre o massacre da figura do judeu não é novidade.

Há 12 anos o jornalista americano Edwin Black lançou seu livro IBM e o Holocausto.

Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam localizar, identificar e assassinar os judeus. Tudo com a ajuda das máquinas de perfurar os holleriths.

Diz o jornalista: “A tecnologia  da IBM consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus”.

A IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para lucrar o dinheiro sujo do nazismo, refere Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados.

A IG-Farbe, antigo principal conglomerado industrial da Alemanha nazista, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg. A empresa se repartiu em nanicas bem grandes, como Basf, Hoescht e Bayer.

Era tudo puro negócio: Hitler citou Henry Ford em Mein Kampf. Assim como  Watson,  da IBM, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. A Ford alemã chegou a receber uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942.

Gente famosa surfou com o nazismo. A estilista Coco Chanel, por exemplo, se apaixonou por um oficial nazista e tenista:

“Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte”, justificou-se depois. Ferdinand Porsche, o gênio dos carros, criou o Volkswagen (“carro do povo”) em 1935, para Hitler, tentando competir com Henry Ford.

O ódio ao judeu tenta reduzir numeros já  pequenos. Atualmente, o número de judeus é de aproximadamente de 13,8 milhões, segundo o demógrafo Sergio della Pergola, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os judeus representam hoje 0,002% da população mundial, número três vezes menor do que o registrado em 1945.

A população judaica no mundo continua a ser muito menor do que em 1938, e só conseguiu crescer em Israel, onde “acaba de superar a simbólica marca de 6 milhões de pessoas”, diz o pesquisasdor.

Papo Cabeça

Na academia brasileira, os neonazistas gostam de citar duas obras de dois gênios: “Sobre a Questão Judaica”, ensaio de 1843, de Karl Marx. E também “O mercador de Veneza”, de Shakespeare.

Marx, judeu, chamava aos negócios judaicos de “dirty jewish”. Concitava o leitor a buscar as raízes dos judeus não na religião, mas no dinheiro. Caiu como azul sobre dourado, aos nazistas, que Marx tratasse disso dessa forma.

Na peça de Shakespeare Shylock é um  agiota judeu, que empresta dinheiro a seu rival cristão, Antônio. Shylock fixa como fiança uma libra da carne do coração de Antonio – que, falido, não consegue pagar o judeu, e este se lhe exige o naco de carne coronária.

Todo esse mosaico de pitadas anti-semitas aparece aqui e acolá, em crises como a atual, como um avestruz dormente, mas atento.

E quando tais crises eclodem, tais avestruzes altissonantemente nazistas se levantam das tumbas: e, com os dedos em riste, recurvos, em seus novos bicos, agora de corvos, berram em vozes tresnoitadas:

–O culpado de tudo é o judeu.

***

No livro Os Sertões, de Euclydes da Cunha, o brasileiro é descrito como o Hércules-Quasímodo: “falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente”.

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nessa pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso Heidegger e Sartre falavam que questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Nesse sábado os policiais franceses foram orientados a retirarem das  redes sociais as suas foros porque “o ataque terrorista pode vir de qualquer canto”. Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Depois do ataque às torres gêmeas, o ex-presidente George W. Bush mostrava as fotos dos 19 terroristas. Depois, proibiu a divulgação: saía de cena o “terrorista” e entrava o “terrorismo” –o que justificava combatê-lo no país que interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

 O cineasta Alfred Hitchcock admitia que “não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele”. O ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, gostava de dizer que “as pessoas reagem ao medo, não ao amor”. E Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que “falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito”.

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar.

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