Ensaio: como nasce a psicologia do outro enquanto inimigo – Claudio Tognolli

Por Claudio Tognolli

O ensaísta mexicano Octavio Paz costumava dizer que a primeira forma de corrupção se dá na linguagem (para desespero da Petrobras, que não admite concorrência nesse quesito…)

Pois bem: dê uma passeada nos sites ditos “progressistas”. Ali você encontra o primeiro terreno fértil para esse tipo de corrupção ser colhida. Porque é nesse território em que ocorre a mais sacrossanta distorção do silogismo. Premissa maior: o governo do PT é de esquerda. Premissa menor: quem não é de esquerda é de direita. Conclusão: quem se opõe à esquerda (PT) só pode ser de direita…

Mesmo os que se dizem versados em sociologia e ciências políticas (geralmente pais do auto-desbunde de que são de “esquerda”), indicam que devem voltar para a faculdade fazer DP. São os que mais alimentam a ideia de que o oposto de esquerda é ser de direita.

Os termos “política de direita” e “política de esquerda” foram cunhados na  Revolução Francesa (1789–99). Inicialmente, apenas se referiam ao lugar onde políticos se sentavam no parlamento francês. Aqueles sentados à direita da cadeira do presidente parlamentar eram singularmente favoráveis ao Antigo Regime, (defesa cega da hierarquia,  tradição e clero).

Aqui e agora, interessa aos zeros à esquerda dizer que no Brasil o oposto da esquerda é tão somente a direita furiosa.

Mentira: a maioria oposta à esquerda dita progressista, no Brasil, é composta por conservadores. E eles em sua imensa maioria não são direitistas.

Mesmo os conservadores trazem contradições que chocariam nossas esuqerdas: Edmund Burke, bretão pai do conceito de conservadorismo, era dito conservador porque se opunha à Revolução Francesa (mas defendia com unhas e dentes a Revolução Americana, para o arrepio das nossas esquerdas…)

A corrupção da nossa linguagem, tocada sobretudo pelo PT, ensina que conservadores são em essência direitistas vorazes.

Vendem nossos conservadores como se fossem caudilhos golpistas.  Caudilho é outra coisa: se vende como semi-deus, seja de direita ou de esquerda. E sempre fica no poder num tempo dilatado além da conta, que arrepia as constituições e os pleitos diretos.

Aqui se vende também que, por exemplo,  que Winston Churchill, Ronald Reagan e Margaret Thatcher eram direitistas. Não: eram apenas conservadores.

A política “reaganomics”, nos anos 80, visava taxar mais o salário de quem ganha menos: porque, dizia Reagan, quem usa mais serviços públicos é quem ganha menos: por isso deve pagar mais ao estado (na sua última semana de governo, Reagan disse ao The New York Times que “os mendigos fizeram uma opção ao ter esse tipo de vida”…)

Thatcher implantou em 1989 o Poll Tax, ou imposto comunitário, impondo a mesma taxa, a ser cobrada igualmente fosse do rico, fosse do pobre (ninguém pagava imposto  calculado de acordo com o valor dos imóveis que dispunha, com o é o nosso IPTU).

Isso é ser conservador. Não é ser de direita.

O mundo bipolar, mesmo no século 21, não se rendeu aos ares heteropolares. Basta uma campanha se aproximar, a velha e boa bipolaridade surge, vitaminada – com pitadinhas de um niilismo coquete (velhos continuam satanizadores, mentira que juveniilismo é cousa de jovem black bloc…).

Desde que em 1895 Gustave le Bon escreveu seu Psicologia das Massas, gente que vai de Freud a Ortega y Gasset, passando por Reich, Fromm, Elias Canetti, (desaguando no Barry Glassner de A Cultura do Medo), falou a mesma cousa: esse construto chamado ser humano se reúne em torno do líder que lhe aponta um culpado, um bode expiatório qualquer.

Ao contrário do que se diz, ninguém, sobretudo em ano eleitoral, é capaz de enxergar tons de cinza. O mundo bipolar é isso aí: ou você está do lado do bem, ou você está do lado do mau. É o que em lógica se chama do princípio do terceiro excluído, o tertium non datur. Não há uma terceira opção. Ou temos uma penca de mocinhos, ou uma penca de bandidos.

Tucanos e petistas se esmeraram nos últimos 20 anos em explorar essa bipolaridade. Auto-santificados, ignoram os próprios erros e amplificam os desvios de opositores. Não se vislumbram possibilidades de pactos pela melhoria da democracia. Ambos são frutos ruins da mesma árvore política: insuflam projetos de poder, não projetos de nação.

É óbvio que projeto de poder necessita de um projeto linguístico: e o menos disfuncional deles é apontar um bode expiatório a ser exterminado.

O comercial do PT alerta para o “medo” de que tucanos vençam e a economia murche à irrelevância. Tucanos referem que a vitória de Dilma, porque ela é uma caturra insensível aos demandas do mercado externo, vai levar a economia ao colapso.

Cada época pensa o seu próprio fim de acordo com os instrumentos de que dispõe.

A bandeira que agrega os retalhos dessas pensatas bipolares é o dictum de Sarte em sua peça Hui Clos, de 1935 : o inferno são os outros.

Foi em 1987 que Paul Kennedy apontou em Ascensão e queda das grandes potências que os EUA e a Inglaterra levariam o mundo ao caos porque haviam chegado ao fim da “hiperexpansão mundial”. Foi em 1993 que o crítico negro Cornel West, em seu Questão de Raça, acusou os EUA de levarem o mundo a uma “depressão silenciosa”, gerada pela diminuição de empregos num “império decadente, com povo dependente e sem raízes”.  Alguma semelhança com o que  PT fala do PSDB e vice-versa é mera coincidência…

Nos EUA viraram moda exemplos da biologia aplicados à comunicação política. O pai espiritual dessa casta é o filósofo Daniel Dennett. Acredita num engessamento na capacidade de pensarmos por um modelo muito próximo do vampirismo. Vejamos: o protozoário Toxoplasma gondii entra no cérebro do rato. Faz com que o pobre animal pare de sentir o cheiro da urina de seu devorador e dele perca o medo. Conclusão: vai para as ruas, todo onipotente, e acaba devorado. E o Toxoplasma gondii foi parar onde queria: no intestino do rato, onde se reproduz. O pobre rato, supondo-se dono de seu arbítrio e sua jornada, morreu sem saber que cumpria o desejo secreto de um protozoário.

Sejam nazistas ou talibãs, as vítimas da ideologias são capazes de marchar ao próprio extermínio em prol de cumprir programas de partido. E todos aqueles cegos pela luz necessitam de um bode expiatório para justificar suas existências.

Isso é apenas luz de fundo, ponta no espetáculo. Mas em ano eleitoral, essas monstruosidades vêm a tona. Sangue nos olhos e faca na bota, petistas e tucanos serão capazes de matar em prol da bipolaridade que lhes dá sentido à vida.

Os melhores termômetros para que você ou eu notemos o quanto esta bipolaridade se faz presente, ou não, são os produtos culturais. Afinal o preço da metáfora é a eterna vigilância, notou o biólogo Richard Lewontin.

Quando a miséria começava a se espalhar por Londres e Paris, no final do século 19, começava-se a busca dos Satãs responsáveis por ela. Eis que Bram Stoker publica Drácula, em 1897. O vampiro era um imigrante do leste europeu. Na obra, a  mocinha que tem seu casamento destruído, por ter sido vampirizada, chama-se Lucy Westerna –um trocadilho com Lux Western. A “luz do ocidente” era sugada por um imigrante, um cigano degenerado…

Não era pra menos que, referia Bram Stoker, o rosto de Drácula foi esculpido no livro copiando as feições de Oscar Wilde. Numa só tacada, a metáfora do vampiro matava duas minorias: o imigrante cigano da Europa oriental e o gay assumido em plena era vitoriana…

O cantor Lobão gosta de dizer que toda a máscara é a representação do falso absoluto, como uma Vênus de Milo com dois braços. A era das máscaras voltará em julho.

Passada a Copa, ganhemos ou não, os satãs a  serem exterminados, as bipolaridades específicas, as máscaras, tudo vai aflorar com violência.

Novos satãs vão ser eleitos, seja pela “esquerda”, seja pela “direita”: e mais um projeto de poder terá chegado à consecução (ok, foi pelo voto direto, dirão). E, mais uma vez, um projeto de nação terá sido engavetado.

Projeto de nação prevê alianças, coalisão, não-satanização. Mas não estamos preparados para isso: o mundo heteropolar tem seu futuro mais negro que asa de graúna…

Advogados referem que, no Brasil, sofremos aquilo que Fernando Rodrigues chama de “desidratação democracia” por uma febrezinha recente: a idolatria cega face as teorias do jurista alemão e neonazista Gunther Jakobs. Nascido em 1937, fez a cabeça de boa parte dos áulicos no poder, via Ministério da Justiça ou Polícia Federal. E bestifica o ministro Joaquim Barbosa, do STF, que nele vê uma referência.

“Direito Penal do Inimigo” (Feindstrafrecht, em alemão) foi o nome dado a teoria enunciada por Günther Jakobs, catedrático emérito de Direito Penal e Filosofia do Direito pela Universidade de Bonn.

Desde 1985 passou a colar trechos de Rousseau, Fichte, Kant e Hobbes. Seu postulado é simples:

a) o inimigo, ao infringir o contrato social, deixa de ser membro do Estado, está em guerra contra ele. Merece a morte (Rousseau)

b) aquele que abandonar o contrato do cidadão perde todos os seus direitos (Fichte);

c) em casos de alta traição contra o Estado, o criminoso não deve ser castigado como súdito, mas como inimigo (Hobbes);

d) quem ameaça constantemente a sociedade e o Estado, quem não aceita o “Estado Comunitário-Legal”, deve ser tratado como inimigo (Kant).

Se você reparar na bipolarização PT-PSDB, nos argumentos brandidos nas campanhas, vai saber, agora, de onde tem vindo tudo isso. Não vivemos um processo de melhoria da democracia: mas na vivificação de uma razão de Estado (na verdade uma razão de partido vendida como de Estado) cuja força vital se extrai do extermínio do “outro”.

O desconhecido, o estrangeiro, o outro, brotam no inconsciente como a imagem de um  demônio a ser combatido. Tudo já estava dito num livrinho de Freud, de 1919, traduzido na Inglaterra como The Uncanny, no Brasil como O Estrangeiro – e  no original em alemão era Das Unheimliche, ou “o oposto do que nos é familiar”.

Você encontra a obra aqui, em PDF.

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