Ensaio: Amy Winehouse, por Dora Tognolli

O que a Psicanálise teria para falar sobre Amy Winehouse? Muito provavelmente Amy Winehouse teria sim, a falar, quer dizer, cantar, aos psicanalistas.

Falar de Amy, analisar sua carreira, seus tropeços, sua morte precoce, aos 27 anos, é correr um grande risco: estaremos sujeitos a psicologismos, moralismos, consenso sobre drogas, teorias sobre confusão entre vida pública e privada, falta de limites, conluios familiares, poder nefasto da mídia e outros temas inúmeros. A mídia já se encarregou desta tarefa, e nem assim aplacou o espanto e o interesse que sua figura e que sua poética – ambas partes de um mesmo todo – despertam.

Já falar de sua poética e do que ela evoca, quem sabe é um caminho. Ponto de partida: Amy Winehouse nos desconcerta, nos desarruma, quer gostemos ou não dela. Diferentemente de outros artistas, onde a questão das drogas pesadas surge e invade a vida e a carreira, artistas estes que abandonam os palcos para se tratar ou não tratam do tema, deixando seus fãs curiosos, retornando em silêncio, Amy é diferente: não só não esconde suas preferências, não só recusa se tratar (Rehab, no, no, no…) mas produz dessa resistência uma obra, onde explica e detalha seu percurso dito privado.

Privado para nós, já que para ela parece não existir essa fronteira rígida. No caso de Amy, a mídia nem precisou fazer grandes esforços para flagrá-la na rua, com roupas precárias, cara de louca, sem dentes: ela surgia naturalmente,oferecendo-se ao banquete dos mortais, não poetas.

Confesso que o convite para participar desse Café Cultural é um grande desafio: Adoniran e Psicanálise! E é um desafio por se tratar de Adoniran, uma figura tão singela, em confronto com nossa mania de explicar: um grande problema… Podemos trilhar vários caminhos: avaliar a obra em si e o que ela veicula; avaliar o artista e suas motivações mais profundas; e, uma terceira via: a perspectiva da platéia ou do ouvinte, no sentido de percorrer o que a obra evoca. Optarei pela terceira via: o que Adoniran evoca? Ou o que provoca em nós?

Vou começar por mim, trazendo aqui um depoimento pessoal: quando recebi o convite, imediatamente me transportei à infância. Lembrei de personagens do bairro e de parentes mais velhos, que Adoniran lembrava: operários do Brás, do Belenzinho, do Tatuapé, cortiços com grandes famílias, alegria, barulho na rua, brigas escandalosas, falas erradas, que ficavam entre o caipira da roça e o português macarrônico. Muitos analfabetos, pobres, feios, desmazelados, como se falava nesses bairros da Zona Leste. Também lembrei de certos bares – diversos, aliás, onde havia ovos coloridos, muita pinga (chamada de branquinha) e cerveja. Seguindo no tempo, também lembrei de festas na universidade, nos anos 70, onde Saudosa Maloca, para minha surpresa, era um dos hinos que recitávamos, acompanhada de um violão e muita cerveja. Tudo muito precário, simples e também acolhedor. Se, naquele tempo, os emergentes dos bairros da Zona Leste queriam se afastar de tudo que lembrasse seu passado, incluindo a fala errada de Adoniran, os estudantes da USP celebravam sua poética, como resistência à música estrangeira e ao capitalismo selvagem que se avizinhava.

E Adoniran ficou na memória: suas narrativas são conhecidas, dialogam com vários públicos, assumem vários discursos – desde os mais politizados, com Elis Regina, até os mais populares, com os Demônios da Garoa. No livro A Capital da Solidão, Roberto Pompeu de Toledo introduz Adoniran e seu Trem das Onze. Comenta que numa pesquisa realizada no ano 2000, sobre as músicas que mais representavam São Paulo, venceram Sampa e Trem das Onze. Curiosamente as duas músicas não enaltecem as belezas de São Paulo, nossa cidade: Sampa fala de um cruzamento – Ipiranga com São João, e de alguma coisa que acontece no coração do poeta; Trem das Onze tem como personagem principal o trem – distâncias, velocidade. Adoniran é aí lembrado: podemos dizer como um poeta ou narrador que capta a alma de São Paulo. Em 2000, já estava desaparecido: morrera em 1982, mas sua música tinha e tem um alto recall: ficou nas nossas memórias. Não nos deixa esquecer da nossa cidade: esquecer é morrer. Mnemosyne, deusa da memória, também é fonte de imortalidade. Quando Sherazade, em 1001 Noites, contava suas histórias, era a memória épica vencendo a morte a cada dia.

Nos encontros que realizamos, para preparar esse evento, pude contar com a companhia de Francisco, o historiador, e Passoca, o músico, e mais uma vez foi Adoniran quem serviu de ponte.

Confesso que o livro de Francisco Rocha me ajudou a sair das memórias da infância e foi um convite para pensar o fenômeno Adoniran: um personagem, um narrador, um inventor da cidade que conta para nós, paulistanos, como é nossa cidade: inventa seu idioma.

Provavelmente, muitos de vocês, aqui presentes, nunca viram Adoniran (ele morre em 1982), mas já ouviram suas músicas, interpretadas por ele ou por outros artistas. Como ele se confunde com sua obra, e também é um personagem, gostaria de apresentar Adoniran em 1972, para pensarmos nas tais evocações:

Conselho de Mulher (Progréssio)

Despejo na Favela

Vamos a algumas evocações, que podem fazer sentido, dentro dessa conversa. Curiosamente, o homem que se apresentava como vagabundo, folgado, avesso ao trabalho, nos fez trabalhar e muito.

Vou me referir a um sintoma apontado por Mário de Andrade, muito comum nos brasileiros, e do qual precisamos nos cuidar: o que ele chamava moléstia de Nabuco: Mário de Andrade focaliza uma passagem do livro de Joaquim Nabuco, Minha Formação; dizia Nabuco que “as paisagens todas do Novo Mundo não valem um trecho da via Appia ou do cais do Sena à sombra do velho Louvre”. Numa carta endereçada a Carlos Drummond de Andrade, Mário repreende o mineiro por suas inclinações afrancesadas. Drummond pondera que todos sofremos da mesma tragédia de Nabuco. Mário de Andrade afirma que a “tragédia” é na verdade uma doença: a moléstia de Nabuco”, que consiste em brasileiros sentirem saudade do cais do Sena em plena Quinta da Boa Vista. Para sanar o mal, Mário receita: “estilize a sua fala, sinta a Quinta da Boa Vista pelo que é e foi, e estará curado da moléstia de Nabuco.

Estamos na década de 20. Décadas depois, nos conta Passoca que, como gostava de viola, violão, música brasileira, para participar de um festival e garantir platéia, deu para seu grupo o nome de Flying Banana, e certa vez foi convidado a mudar de nome (Passoca não causava boa impressão…) e trocar seu guarda-roupas. Pelo visto, a moléstia de Nabuco ainda nos rodeia… Estamos em Sampa, no Olympic Tower, tendo como nosso ilustre convidado Adoniran, representante do “túmulo do samba” – pode ser uma tentativa de cura.

Após essa pequena digressão, gostaria de pinçar três idéias interessantes, evocadas pela poética de Adoniran: a narrativaa memória e a resistência.

O Narrador –Walter Benjamim

O narrador, segundo Walter Benjamin, é o sujeito que conta o que extrai da experiência: sua experiência ou a experiência contada por outro, tanto faz. E, de volta, ele a transforma em experiência para aqueles que ouvem sua história. Há uma clara distinção entre informação e experiência, dentro desse conceito. A narrativa não é uma mera informação, mas um tecido vivo, reativado toda vez que há troca, entre um narrador e um ouvinte. Nem todo relato é narrativa, no sentido de Benjamim, bem como nem todo contador de histórias é esse narrador. Para que ocorra uma narrativa, é necessário que ocorra uma experiência de troca, de transmissão. A narrativa também não é algo que se explique: simplesmente é. Não trata de sentimentos como fim e seu contexto psicológico pouco importa, mas é viva, encarnada, humana e tem a força da transmissão. Nesse sentido, mais se aproxima do mito e dos contos de fadas.

Walter Benjamin, quando formula esse conceito, mostra-se pessimista e nostálgico, prenunciando a morte do narrador e da narrativa. Não podemos esquecer que seu tempo era o entre – guerras e o começo da segunda grande guerra. Observa que soldados que retornavam do front, traumatizados, não tinham nada para contar, retornavam silentes.

Benjamin destaca também a empatia e proximidade do narrador com o homem comum, sem graça, banal, malandro, o não-herói. Segundo Paul Valéry, o narrador é um artesão que torna visível a arte que está dentro das coisas. Essa descrição nos aproxima muito de Adoniran.

Seria Adoniran um tipo de narrador? Parece que sim. Do que fala Adoniran? Fala do banal, muito banal, mas de um banal que perdura. Fala de despejo, marmita, maloca, Joca, Matogrosso, Iracema, Arnesto, Brás. Sua narrativa não é genérica nem tampouco numérica: enquanto São Paulo cresce vertiginosamente, Adoniran olha para o lado, para o desvio, narra a cidade através dos excluídos, que habitam espaços em processo de exclusão e desaparecimento. Provavelmente as cenas e personagens que Adoniran imortalizou hoje não mais existem, existem apenas na nossa memória e a partir de suas composições. Ouvindo Adoniran, fica muito claro que ele dá palavra a espaços e vozes que foram silenciadas, e os nomeia: Malvina, Joca, Jaçanã, Vila Esperança, Brás, Bexiga, Arnesto.

Afinal, qual é o tema de Adoniran? Podemos afirmar que é a cidade, mas não a cidade do progresso, da evolução ímpar, a “São Paulo não pode parar”, a São Paulo que acorda com o bordão “Tá na hora, vam’bora, vam’bora”. É a São Paulo invisível, das bordas, das margens, sombria, sofrida, mas não rancorosa. É a São Paulo que não gostamos de ver.

A música de Adoniran contém as palavras que “andam de boca em boca”, restos e vestígios de vozes que circulam nos lugares mais ermos e estranhos da cidade.

E como Adoniran conta seu tema? Com uma linguagem nova, diferente, que não é o falar errado, embora assim se pareça. Para Adoniran, que representava um personagem, “Para falar errado, precisa falar certo” ou “Para falar errado, precisa aprender a falar errado”. Para narrar/cantar Adoniran, temos que falar como ele: através de novas palavras: tauba, Arnesto, nóis fumo, reiva… Há uma métrica nesse falar, que precisa ser respeitada e repetida, caso contrário não entramos no seu clima. Ele também fala de situações muito trágicas, mas de forma nada trágica: sem moral, sem juízo de valor. O texto, que trata de despejo, morte, perda da moradia, marmita de peão de obra, muitas vezes em tom menor, é apoiado no samba, no samba de breque, que transforma os sentimentos: não ficamos tristes, nem melancólicos, nem sequer nostálgicos, mas curiosos, interessados e até entramos num clima maroto e infantil. Adoniran é chistoso, engraçado, leve, paradoxalmente, já que sua voz é cavernosa e rouca, mas doce e carinhosa; seus temas são tristes, mas o breque do samba não deixa que a tristeza domine; seus temas são trágicos, mas o conjunto não é trágico: será tragicômico? À beira da tragédia ou da comédia? Tanto faz… E cantamos – queremos cantar com ele. E com sotaque, já que o personagem Adoniran é um ótimo professor, que nos ensina a declamar de seu jeito.

Se Adoniran fosse um argentino, Iracema seria um tango, uma milonga, trágica e exagerada. Mas ele é paulistano (será?) e brasileiro, e seu tom é o samba, o samba de breque, que não deixa a tristeza dominar. Porém aqui há um paradoxo: os temas de Adoniran são alegres só na aparência, já que as lembranças evocadas são muito tristes e dolorosas.

Acho que podemos chamar sim, Adoniran de poeta da cidade, como o chama Francisco em seu livro, ou narrador da cidade.

Memória – Ecléia Bosi – memória-trabalho

Esquecer é morrer

Se a narrativa encontra ressonância, ela revive e sempre é lembrada: portanto, estamos falando de memória. Ao falarmos de memória, na sociedade contemporânea, fica uma pergunta no ar: será que estamos perdendo a capacidade de contar histórias? De narrar? De trocar experiências? Será que o progresso, a rapidez, a funcionalidade estão silenciando lembranças que poderiam ser transmitidas, compartilhadas, refeitas?

Ecléia Bosi, em seu livro Memória e Sociedade, nos lembra um conceito útil para essa conversa: memória-trabalho. Memória é muito diferente de percepção: depende de um mergulho e um retorno, de fora para dentro, de dentro para fora, eu-outro, troca. É um trabalho e dá trabalho. Nesse sentido, não tem nada de passivo: é algo muito ativo e até transformador. Ecléia nos faz ver que lembrar não é apenas reviver – mas é re-fazer. De um perfil aparentemente vagabundo, malandro, avesso ao trabalho, representado por Adoniran, chegamos a algo muito ativo e potente, tão potente que resiste, resiste ao tempo e ao desaparecimento da cidade e dos espaços narrados. Além de narrador, Adoniran também surge aqui como o poeta da memória.

Resistência

Um último conceito: o conceito de resistência, que curiosamente é muito caro aos psicanalistas. Tomo aqui resistência como força, potência, recusa ao silêncio e ao apagamento das lembranças.

O tempo da memória só se atualiza quando encontra a resistência de um espaço que foi habitado com a existência sofrida de cada um de nós – talvez por isso narrar e lembrar é também sofrer. Por exemplo, o que foi recalcado em Saudosa Maloca que precisa retornar? E no atropelamento de Iracema na Avenida São João?

Psicanalisando um pouco a conversa, sabemos que o recalcado retorna, resiste e também silencia. Adoniran de certa forma trabalha na resistência, para que o recalcado ou o esquecido retorne, sem revolta, “na boa”, “com paciência”, mas não que não se cale: se propague. Adoniran trabalha muito: sempre trabalhou – paradoxo. Mas resiste à forma de trabalho que se oferece a ele. Transgride, desvia: sua poética é transgressora, até na semântica: Progréssio é um bom exemplo.

Embora Roger Bastide, em sua estada em São Paulo, tenha afirmado que “em São Paulo não é possível flanar”, Adoniran com sua resistência, desafia esse destino funesto da cidade, que já nasceu distante.

Se a memória é trabalho, diferente de percepção, e se a realidade (em especial numa cidade como São Paulo) dificulta essa operação, através do apagamento de bairros, espaços, tipos humanos que se foram, da informação massiva da mídia, resta o trabalho da memória, que cada um de nós executa e que apresenta como resistência ao esquecimento.

Voltemos à nossa profissão: o que faz um psicanalista? Ele não seria um incentivador da narrativa? Da narrativa que contagia e transforma, que mais do que reviver, refaz histórias recalcadas, soterradas, indigestas? Não existe mais o Bexiga de Adoniran, nem o Joca, nem o Matogrosso, nem o Arnesto, nem a Iracema, que já foi atropelada na música, mas sua poética que perdura e insiste, tem o papel de nos lembrar quem somos, de onde viemos, o que recalcamos , mas que podemos resistir.

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