EDITORIAL O Globo:  Bolsonaro tem dever de evitar o pior em 2022
 

Bolsonaro

 

É responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro começar a tomar as medidas necessárias para evitar um desastre econômico em 2022 ainda maior do que o vivido pelo Brasil nos últimos anos. Mantido o histórico de inação, incompetência e cálculo político míope, o país será palco de mais fome, desemprego e falta de dinamismo econômico neste ano e no próximo. Está nas mãos do presidente a chance de impedir o pior.

Dado nosso grau de fragilidade fiscal, foi um erro Bolsonaro ter sancionado o Orçamento de 2022 mantendo R$ 1,7 bilhão reservados para o reajuste de servidores. Trata-se de pura politicagem barata. É uma tentativa de garantir os votos dos eventuais beneficiados pela medida nas eleições deste ano, mesmo que isso prejudique o resto da população. A deterioração na credibilidade do governo de gerir as próprias contas de forma responsável e sustentável é a maior causa da desconfiança crescente dos investidores locais e estrangeiros em relação ao Brasil.

Uma pesquisa debatida no Fórum Econômico Mundial, em Davos, feita com 4.400 executivos em 89 países, mostra que o Brasil atrai menos interesse dos presidentes de empresas globais. Na comparação com o ano anterior, o país recuou duas posições e é o décimo no ranking dos principais mercados estratégicos. Entre 2011 e 2013, ocupávamos a terceira posição, logo atrás de Estados Unidos e China. Hoje, a maior preocupação dos altos executivos estrangeiros no mercado brasileiro é justamente a instabilidade econômica. Não chega a ser uma surpresa.

Com a inflação em dois dígitos, o Banco Central, sob uma direção independente, tem aumentado os juros na tentativa de controlá-la. Mas Bolsonaro só atrapalha. Age como se não houvesse futuro. Com a ajuda do Centrão, manda gastar o que pode e o que não pode para tentar garantir sua reeleição. Negar a gravidade da pandemia é outra de suas estratégias contrárias ao interesse dos brasileiros.

Não é raro ouvir o presidente falar em amor à nação e patriotismo. Pena que tão pouco disso seja percebido nas suas ações. A hora de começar a agir é agora. As estimativas de crescimento para a economia brasileira em 2022 já pioraram. A projeção de mísero 0,42% em dezembro já está em 0,29%, segundo as opiniões captadas pelo Boletim Focus, do BC. Os casos de infecção pela variante Ômicron do coronavírus não param de subir. É incerto o impacto dessa e de outras cepas que porventura surgirem.

No exterior, os ventos estão mudando. O Fed, banco central americano, já avisou que, diante da inflação recorde, encerrará a fase de estímulos à economia e iniciará um ciclo de alta de juros. A primeira alta poderá ocorrer em março. Outras estão previstas. Juros mais altos nos Estados Unidos costumam significar saída de investidores de países emergentes. Com taxas maiores no mercado americano, cai o apetite dos estrangeiros pelo risco de países como o Brasil. Com um populista como Bolsonaro em busca de reeleição, risco é o que não falta por aqui. Mostrar um mínimo de comprometimento com o país ajudaria num ano que tem tudo para ser desafiador. Será pedir muito?

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