NOVA YORK — O New York Times publicou, no domingo, dados das declarações de imposto de renda do presidente Donald Trump e de suas empresas, cobrindo mais de duas décadas. Há anos, Trump vinha se recusando a divulgar tais informações, sendo o primeiro presidente desde 1976 a ocultar detalhes básicos sobre suas finanças.

Sua resistência fez com que as declarações se transformassem em alguns dos documentos mais almejados da memória recente americana. Entre as descobertas principais do NYT estão:

  • Trump não pagou imposto de renda em 11 dos 18 anos examinados pelo jornal. Em 2017, após se tornar presidente, ele desembolsou apenas US$ 750 (R$ 4.171).

  • Ele reduziu seu imposto de renda com medidas questionáveis, incluindo uma restituição de US$ 72,9 milhões (R$ 405 milhões) que é alvo de uma auditoria da Receita Federal americana.

  • Muitos de seus negócios mais proeminentes, incluindo seus campos de golfe, declararam grandes perdas — o que ajudou a reduzir sua carga tributária.

  • A pressão sobre o presidente está aumentando conforme a cobrança de centenas de milhões de dólares dos quais é pessoalmente fiador se aproxima.

  • Mesmo declarando perdas, ele continuou a desfrutar de um estilo de vida luxuoso ao lançar mão de deduções fiscais em situações que muitos classificariam como despesas pessoais. Entre elas, casas, uma aeronave e US$ 70 mil (R$ 389 mil) em cabeleireiros que o prepararam para aparições televisivas.

  • Ivanka Trump, a filha mais velha do presidente, aparentemente recebeu “taxas de consultoria” enquanto trabalhava como funcionária das organização Trump, algo que também ajudou a reduzir o imposto de renda.

  • Como presidente, Trump recebeu mais dinheiro de fontes estrangeiras e grupos de interesse do que se sabia anteriormente. Os documentos, no entanto, não revelam quaisquer ligações anteriormente desconhecidas entre o chefe de governo e a Rússia.

É importante lembrar que as declarações não equivalem a um olhar cru e imparcial sobre as atividades financeiras do presidente e de suas empresas. São, na realidade, sua visão sobre suas próprias companhias, compiladas para a Receita. Ainda assim, permitem traçar o panorama mais detalhado até o momento. Abaixo, entenda em maiores detalhes os pontos-chave. Para ler a reportagem principal sobre o assunto, clique aqui.

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A fuga da Receita

Trump não pagou imposto de renda em boa parte das últimas duas décadas.

Em 11 dos 18 anos analisados pelo NYT, ele não pagou nem sequer um centavo em imposto de renda. Em 2016 e 2017, ele pagou apenas US$ 750 (R$ 4.171). Mesmo escapando do Fisco, ele continuou a aproveitar o estilo de vida de um bilionário — algo que ele diz ser — enquanto suas empresas cobriam os gastos do que muitos considerariam despesas pessoais.

As manobras fiscais o diferenciam de outros americanos abastados.

Os impostos sobre os americanos mais ricos vêm caindo consideravelmente nas últimas décadas, e muitos usam brechas fiscais para reduzir seus pagamentos. Ainda assim, a maioria das pessoas abastadas paga bastante imposto de renda.

Em 2017, o imposto de renda médio entre os contribuintes mais ricos — 0,001% da população — foi de 24,1%, segundo a Receita Federal. Nas últimas duas décadas, Trump desembolsou cerca de US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões) a menos em seus impostos de renda combinados do que uma pessoa muito rica que pagou anualmente o valor médio para esse grupo.

Ele paga menos impostos que os outros presidentes.

Trump pode ser o presidente mais rico da História americana, mas frequentemente paga menos impostos que outros presidentes recentes. Barack Obama e George W. Bush regularmente pagavam, cada um, mais de US$100 mil (R$ 560 mil) por ano — e, por vezes, muito mais — em imposto de renda enquanto estavam na Casa Branca. Trump, por outro lado, lidera um governo federal para o qual não contribuiu com quase nada em vários anos.

Uma grande restituição teve papel fundamental para isso.

Trump se deparou com grandes impostos devidos após o sucesso inicial da franquia “O Aprendiz”, mas recuperou boa parte do dinheiro por meio de uma restituição. Ao todo, ele pagou inicialmente cerca de US$ 95 milhões (R$ 532 milhões) em imposto de renda ao longo de 18 anos. Mais tarde, conseguiu recuperar boa parte da quantia, com juros, após solicitar e receber uma restituição de US$ 72,9 milhões (R$ 405 milhões), começando em 2010.

A restituição reduziu seu imposto de renda entre 2000 e 2017 para uma média anual de US$ 1,4 milhão (R$ 7,8 milhões). Para fins comparativos, o americano médio entre os 0,001% mais ricos pagou anualmente cerca de US$ 25 milhões (R$ 140 milhões) durante o mesmo período.

A restituição de US$ 72 milhões é alvo de uma disputa nos tribunais.

Ao solicitar a restituição, Trump citou uma perda financeira maciça que pode ser relacionada com o fracasso de seus cassinos em Atlantic City, em Nova Jersey. Publicamente, ele também afirma ter se desfeito completamente de suas ações nas casas de jogos.

A história real, no entanto, pode ser diferente. Segundo leis federais americanas, investidores podem declarar perda total em um investimento, como Trump fez, apenas se não tiverem recebido nada em retorno. O presidente, no entanto, parece ter recebido 5% das ações em uma nova companhia que foi formada assim que abriu mão de suas ações.

Em 2011, a Receita deu início a uma auditoria para avaliar a legitimidade da restituição. Quase uma década depois, o caso continua sem solução, por razões ainda desconhecidas, e pode acabar em um tribunal federal, onde se tornará público.

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Gastos empresariais e benefícios pessoais

Trump classifica boa parte das despesas com seu estilo de vida como gastos empresariais.

Suas residências são parte do negócio da família, assim como os campos de golfe onde passa tanto tempo. Ele também classificou o custo de sua aeronave, usada para transportá-lo entre suas casas, como gasto empresarial. Cortes de cabelo — incluindo mais de US$ 70 mil (R$ 392 mil) com cabeleireiros durante as gravações de “O Aprendiz” — foram englobados na mesma categoria. O mesmo vale para quase US$ 100 mil (R$ 560 mil) pagos para um dos cabeleireiros e maquiadores favoritos de Ivanka Trump.

Tais despesas ajudam a reduzir ainda mais o imposto de renda do presidente, porque suas companhias podem classificá-las como gastos empresariais.

Terreno no estado de Nova York exemplifica definição de gastos empresariais.

Comprado em 1996, o terreno em Bedford, no estado de Nova York, ocupa mais de 80 hectares — equivalente a 113 campos de futebol. Eric e Donald Jr., filhos do presidente, passavam o verão no local quando eram mais novos. Em uma entrevista à Forbes em 2014, Eric disse que o local “é, de verdade, o nosso retiro”.

Hoje, segundo o site da Organização Trump, a propriedade conhecida como Seven Springs continua a ser usada “como um retiro para a família Trump”.

Ainda assim, o presidente classificou o local como uma propriedade de investimento, diferente de uma residência pessoal. Como resultado, conseguiu se livrar de US$ 2,2 milhões (R$ 12,3 milhões) em IPTU desde 2014 — mesmo enquanto sua própria lei fiscal de 2017  permite a pessoas físicas o abatimento de apenas US$ 10 mil (R$ 56 mil) em impostos sobre propriedades por ano.

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As “taxas de consultoria”

Entre quase todos os seus projetos, as empresas de Trump destinaram cerca de 20% de seu lucro para “taxas de consultoria” sem explicações.

Taxas desse tipo reduzem impostos, porque as companhias podem classificá-las como gastos empresariais, reduzindo o valor líquido que será taxado no final. Trump recebeu US$ 5 milhões (R$  28 milhões) em um acordo hoteleiro no Azerbaijão, por exemplo, declarando US$ 1,1 milhão (R$ 6,1 milhões) em taxas de consultoria. Em Dubai, recebeu US$ 3 milhões (R$ 16,8 milhões), dos quais US$ 630 mil (R$ 3,5 milhões) foram taxas do tipo. Desde 2010, o presidente declarou cerca de US$ 26 milhões (R$ 145,7 milhões) nesta categoria.

Sua filha parece ter recebido algumas destas taxas de consultoria, apesar de ser uma das principais executivas das organização Trump.

A investigação do NYT descobriu algo impressionante: as declarações de Trump mostram que sua companhia pagou US$ 747.622 (R$ 4.189.150) em taxas de consultoria para uma consultora anônima de projetos hoteleiros no Havaí e em Vancouver, no Canadá. Declarações públicas de Ivanka — que foi obrigada a preencher quando foi trabalhar na Casa Branca, em 2017 — mostram que ela recebeu uma quantia idêntica por meio de uma empresa de consultoria da qual era sócia.

Empresas que perdem dinheiro

Muitas das companhias mais proeminentes do presidente perdem muito dinheiro.

Desde 2000, Trump declarou ter perdido mais de US$ 315 milhões (R$ 1,8 bilhão) nos campos de golfe que habitualmente descreve como o coração de seu império. Boa parte das perdas são referentes ao Trump National Doral, resort perto de Miami comprado em 2012. Seu hotel em Washington, aberto em 2016, já perdeu mais de US$ 55 milhões (R$ 308 milhões). A exceção é a Trump Tower, em Nova York, que habitualmente lhe traz lucros anuais superiores a US$ 20 milhões (R$ 112 milhões).

A parte mais bem-sucedida das empresas de Trump é o seu branding pessoal.

O NYT calcula que, entre 2004 e 2018, Trump arrecadou um total de US$ 427,4 milhões (R$ 2,4 bilhão) com a venda de sua imagem. O marketing de sua própria figura tem sido um sucesso imenso, mas o mesmo não pode ser dito da gestão de várias das empresas da Organização Trump.

Outras companhias, especialmente no mercado imobiliário, pagam pelo direito de usar o nome Trump. A marca possibilitou a realização de “O Aprendiz”, que a elevou para outro patamar. A imagem, é claro, também contribuiu para que Trump se tornasse o primeiro presidente dos EUA a ser eleito sem qualquer experiência prévia no governo.

Mesmo sem lucrar, suas companhias ainda tinham um propósito: reduzir seu imposto de renda.

A Organização Trump — composta por mais de 500 companhias, quase todas propriedades do presidente — tem usado as perdas para balancear os grandes ganhos do licenciamento da marca Trump e de outras partes lucrativas de seus negócios.

As perdas declaradas foram tão altas que apagaram completamente o lucro do licenciamento, dando a entender que a Organização Trump não recebe dinheiro nenhum e, consequentemente, não deve nada à Receita. Esse é um padrão antigo para o presidente: o colapso de boa parte de seus negócios no início dos anos 1990 gerou perdas significativas que, por anos, foram usadas para reduzir suas contribuições fiscais.

Grandes dívidas à vista

Com o lucro de “O Aprendiz”, Trump foi às compras como não fazia desde os anos 1980.

“O Aprendiz”, que estreou no canal NBC em 2004, foi um sucesso enorme. Recebendo mais de 50% do lucro, Trump comprou mais de 10 campos de golfe e diversas outras propriedades. As perdas que elas registraram ajudaram a reduzir seu imposto de renda.

A estratégia, no entanto, apresentou problemas conforme os lucros do programa de televisão começaram a cair. Em 2015, sua condição financeira estava piorando.

A campanha presidencial de 2016 pode ter sido, em parte, uma tentativa de ressuscitar sua marca.

Os documentos não respondem a esta pergunta com clareza. O timing, contudo, é sugestivo: Trump lançou uma campanha que parecia fadada ao fracasso, mas que certamente o poria sob os holofotes no momento em que sua estratégia empresarial precisava de um novo fôlego.

A Presidência ajudou seus negócios.

Desde que se tornou um dos principais candidatos à Presidência, ele recebeu grandes quantias de dinheiro de lobistas, políticos e autoridades estrangeiras que pagam para se hospedar em suas propriedades ou se juntar aos seus clubes. A investigação do NYT dá, pela primeira vez, números precisos sobre esses gastos.

Uma onda de novos membros em Mar-a-Lago, seu clube na Flórida, lhe rendeu por ano US$ 5 milhões (R$ 28 milhões) adicionais desde 2015. Em 2017, a Associação Evangelista Billy Graham pagou ao menos US$ 397,6 mil (R$ 2,2 milhões) para o hotel de Washington, onde realizou ao menos um evento durante sua Cúpula Mundial em Defesa dos Cristãos Perseguidos.

Em seus dois primeiros anos na Casa Branca, Trump recebeu milhões de dólares de projetos em países estrangeiros, incluindo US$ 3 milhões (R$ 16,8 milhões) das Filipinas, US$ 2,3 milhões (R$ 12,9 milhões) da Índia e US$ 1 milhão (R$ 5,6 milhões) da Turquia.

A Presidência, no entanto, não resolveu seu maior problema financeiro: muitos dos seus negócios continuam a perder dinheiro.

Com a queda do lucro de “O Aprendiz”, Trump absorveu as perdas por meio de manobras fiscais das quais possivelmente não poderá lançar mão novamente.

Em 2012, ele hipotecou o espaço comercial da Trump Tower, no valor de US$ 100 milhões (R$ 560,3 milhões). Ele também vendeu centenas de milhões de dólares em ações e títulos. Seus registros financeiros, no entanto, indicam que ele pode ter apenas US$ 873 mil (R$ 4,9 milhões) restantes para vender.

Em breve, ele irá se deparar com grandes dívidas que poderão aumentar ainda mais a pressão sobre suas finanças.

Parece que o presidente ainda não pagou nada da principal hipoteca da Trump Tower, e os US$ 100 milhões (R$ 560,3 milhões) completos serão cobrados em 2022. Se vier a perder a disputa com a Receita sobre a restituição de 2010, ele deverá pagar ao governo mais de US$ 100 milhões em multas (incluindo juros).

Ele é fiador de algumas dessas dívidas.

Nos anos 1990, Trump quase se arruinou sendo o fiador de centenas de milhões de dólares em empréstimos tomados por seus negócios. Posteriormente, disse que se arrependia de ter feito isso. Ainda assim, fez a mesma coisa, segundo suas declarações. Trump parece ser o fiador de empréstimos que somam US$ 421 milhões (R$ 2,4 bilhões), a maioria dos quais vencerá em quatro anos.

Caso seja reeleito, seus credores podem ser postos na posição sem precedentes de ponderar se irão despejar um presidente em exercício. Ganhando ou perdendo, ele provavelmente precisará encontrar novas maneiras de usar sua marca — e sua popularidade entre dezenas de milhões de americanos — para ganhar dinheiro.