Cuidado com a acídia…. | Claudio Tognolli

Por Claudio Julio Tognolli

 

O que é uma metáfora? A Poética de Aristóteles dá a explicação mais simples: é empregar uma palavra no lugar da outra.

Toda a arte nasce da repressão, notava Freud –de resto, o grande tema do Mal-estar na Cultura e na Civilização. Simples assim: o mar bravio cutuca a ostra, lhe impõe doses e doses de cáustica areia corrosiva: esta, agredida em seu eu mais sensível, devolve a agressão com uma cálida resposta: uma pérola.

Bonitinho, não?

A ditadura machucava a sociedade. Chico Buarque fugia do látego da censura com suas pérolas reativas. E sua obra fez-se o que se fez com o uso daquelas marotas metáforas que encantavam os baianos que gostam de cantar na televisão, como Gil e Caetano. Chico era nossa metáfora mais potente.

Óbvio que disto brotavam aquelas  imagens polaroidemente pesadonas, “a medida do bonfim”, “o cálice” e o escambau a quarto. Tom Jobim era mais pop, por isso tão aceito lá fora: gostava do pau, da pedra, do fim do caminho. Odiava uma metáfora. E a gringada, acostumada que era a cantar “o bladí, o bladá”, “hey hey”, “doo doo doo da da da” abriu-lhe os braços. Tom era elástico, leve. Chico sempre foi pesadão: um octagenário nato, na frase de Nelson Rodrigues sobre Ruy Barbosa..

Preguiça traz ócio criativo. Chico é de uma outra classe de luz: a chamada acídia. Trata-se daquela má qualidade mórbida, a que o filósofo Jean Lauand definiu como “a acidez, a queimadura interior”. Acídia é morbidez.

Chico sempre foi um mórbido vocacional. Só os mórbidos e jeca amaram Chico ao osso.

Tomás de Aquino emprega 233 vezes a palavra acídia, em 134 passagens de sua obra. Não é pouco.

Pois bem: Chico Buarque, o Rei da Acídia, que também era o Rei da Metáfora, viu sua obra cair no buraco quando a ditadura acabou.

Encerrada a ditadura, acabou a censura, para que então as metáforas? O fim da ditadura foi também o fim de Chico Buarque. Freud dançou um mambo de alegria em seu túmulo.

Agora: por que criticar Chico pela suas idas e imóvel em Paris?

Não entenderam ainda a esquerda caviar?

Ganha-se muito dinheiro criticando o capital. O Pink Floyd ficou rico com uma música contra o dinheiro, chamada “Money”.

A esquerda caviar sempre viveu de criticar o capitalismo mas desfrutar dele o que tal sistema pode oferecer de melhor (para eles): o consumo e a luxúria. Não viram quantas hidromassagens o caipira Zé Dirceu comprou com a grana do Petrolão.

Vamos lembrar.

O lobista Milton Pascowitch pagou R$ 1,8 milhão para reformar e decorar uma casa para o ex-ministro José Dirceu em Vinhedos, no interior de São Paulo, em 2013. O valor, declarado pela arquiteta Daniela Facchini em depoimento prestado à Polícia Federal (PF) em agosto passado. Um conjunto de sofás, poltronas, mesas de centro e aparador para a sala de estar custou R$ 140 mil. Para colocar persianas em todas as janelas do imóvel foram gastos R$ 31 mil. A lista de compras inclui, ainda, pufes que custaram R$ 4,3 mil cada.

O jeca anti-capital montou uma mansão com nossa grana bem lá naqueles rincões a que Marx chamava de “a idiotia do campo”.

Viram? A orbe de Dirceu sempre foi o mesmo mundo de Chico Buarque: falar mal da grana e se cevar do capitalismo.

E por que Chico e Dirceu encantaram tanto os incautos? Porque na América Latina em geral, e no Brasil em particular, Marx e Cristo se deram as mãos. O catalisador disso foi a figura do padre de passeata, aquele cantava Chico nas pracinhas –e o recomendava nos seminários.

Sobre o padre de passeata, estabeleceu Nelson Rodrigues:

“O verdadeiro Cristo? É o Cristo verdadeiro. O falso cristo é o cristo dos padres de passeata. Há um cristo de passeata que é mais falso do que Judas. É a igreja dos padres de passeata. Eu sou cristão, mas não me venham falsificar Cristo como uísque nacional”.

As alvíssaras de O Manifesto do Partido Comunista ou A Ideologia Alemã (nesta, em particular, diz-se que com a supressão do capital poderei, enfim, “de manhã caçar, de tarde pescar, de tardinha criar gado, depois da comida criticar, sem me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico, do modo como eu tiver vontade) dão as mãos para o Sermão da Montanha: o homem rico proibido de entra no reinos dos céus é jesuiticamente irmão espiritual do comunismo: Marx e Cristo se dão as mãos no quesito fuzilar o capital. Ambos os sistemas sonham com a supressão da fricção – de resto,  segundo Benedetto Croce o verdadeiro motor da história…

Veja bem: Marx e Jesus se unem sob a túnica do padre de passeata.

Chico Buarque, Mensaleiros e Petroleiros embalavam as cantigas de ninar do populacho com suas alvíssaras contra o capitalismo.

Perdoem Chico Buarque, perdoem Zé Dirceu: eles foram sempre muito coerentes em suas incoerências…

S. Tomás trata a acídia em S. Th, II-II, q. 35, e em De Malo, q. 11. Vamos seguir aqui o que ele diz na Suma Teológica.
O art. 1, afirma que a acídia é um pecado. S. Tomás parte da definição de João Damasceno: “é certa tristeza que causa pesar”. Isso significa que a acídia é uma tristeza que deprime o ânimo do Homem de modo que nada lhe agrada, “assim como se tornam frias as coisas pela ação corrosiva do ácido”. “Acídia” vem, portanto, de “ácido”.
A acídia causa o tédio e uma enorme dificuldade em começar qualquer ação boa. A acídia é o “torpor da mente em começar um acto bom”. Manifesta-se numa falta de iniciativa. Esse tipo de tristeza é sempre mal, porque se dirige ao bem real que é o espiritual. É um mal em si mesmo, por se dirigir ao bem espiritual absoluto; e é um mal também nos seus efeitos, porque afasta o homem de todas as boas obras…

 Detalhe: na Décima Quarta Flip, em Paraty, Jaguar lembrou da cusparada que Chico deu em Millôr. Sabem por quê? Millôr lhe disse: “Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”…

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