Correinha: o homem do Esquadrão da Morte que fez a fama de Hélio Bicudo – Claudio Tognolli

 

 

O advogado Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, faleceu na manhã desta terça-feira 31, aos 96 anos. Bicudo sofria de complicações cardíacas e estava fragilizado desde que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), em 2010. Desiludido com o partido, o jurista foi, ao lado Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment que cassou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Bicudo ficou famoso por ter denunciado o Esquadrão da Morte, a partir dos anos 60, e mandou para a cadeia o maior matador do esquadrão. Conheça quem ele é, a partir de um encontro que este blogueiro teve com Correinha há 8 anos, em sua casa em Interlagos, na zona sul de São Paulo

 

 

 

Correinha: o gatilho fácil

Por Claudio Tognolli

Os olhos são azuis, líquidos e diáfanos. A pele, cor de chocolate. Os gestos, calmos. A fala é erudita, com citações de alta literatura (seu autor predileto é o Nobel colombiano José Maria Vargas Vila). A altura deste senhor, hoje com 70 anos, não passará de um metro e sessenta. Mas seu nome faz qualquer policial se curvar, ainda hoje. Astorige Corrêa, o Correinha, era o líder do Esquadrão da Morte de São Paulo. Nos anos 60 e 70 o grupo fez má fama internacional, sob acusação de cometer justiciamentos, fazer justiça com as próprias mãos e tudo isso na base do chumbo incandescente. Correinha ficou preso 4 anos e passou outros 22 na clandestinidade. Acossado sempre pelo ex-vice-prefeito de São Paulo, Helio Bicudo, que fez nome e fama denunciando o Esquadrão da Morte, Correinha jacta-se ao dizer que “passar todo esse tempo como clandestino e ter ainda criado duas filhas e um filho é coisa somente para quem tem muito intelecto”.

Hoje, aposentado, morou a poucos metros de um distrito policial na zona sul de São Paulo, antes de sair para o Paraná, em endereço incerto e não sabido. Correinha avalia que sua missão sempre foi “eliminar o mal” da terra. “Estuprador, por exemplo, é uma barata: não tem consciência e precisa ser mesmo é eliminado”, proclama Astorige, com o estatuto de quem foi acusado de ter matado 97 pessoas.

Mestre em kung fu, Astorige ainda treme quando lembra do olhar dos que exterminou. “É indizível o que um assassino que mata famílias tem nos olhos. Dizer que esse tipo de lixo é problema social é coisa de comunista. Crueldade não é problema social”, proclama. Apesar de ter trabalhado lado a lado com o temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, Correinha jura que não combateu militantes políticos. “Tomei quatro tiros, em quatro ocasiões diferentes, um disparado por um hoje deputado e que era um comunista que tinha assaltado um banco em São Paulo”. Atribui tamanha sorte à proteção espiritual. “O falecido astrólogo Omar Cardoso me disse que eu era do signo de Peixes, mas um peixe positivo, isto é, tubarão. Logo entendi que, como tubarão, deveria limpar os mares da sociedade do lixo dessa sociedade”.

Correinha vem de uma família de fazendeiros tradicionais da Fazenda do Embaú, no interior do Paraná. Nascido em Londrina, criado e Arapongas, veio a São Paulo estudar direito. Encantou-se pela polícia. Aos 27 anos de idade, já era manchete dos maiores jornais e revistas do Brasil. Foi ele que prendeu, por exemplo, João Acácio Pereira, o lendário Bandido da Luz Vermelha. No final dos anos 60, São Paulo chegou a ficar sem um único crime “por 38 dias porque eu não saía da rua”, lembra Correinha. “Uma vez fiquei direto 50 dias nas ruas, e derrubei os 11 bandidos da quadrilha do assassino cruel chamado Saponga”, jacta-se.

Correinha guarda de memória cenas impagáveis. Como por exemplo quando ficou preso na Penitenciária do Estado de São Paulo, ao lado dos homens que ele havia prendido. “Eu estava com a perna engessada e um dia vi na porta da minha cela uns 80 vagabundos rezando pra eu me recuperar, como pode?” Também ali pôde conversar com o médium Chico Xavier. “Ele me beijou no rosto, soltou lágrimas, depois mandou duas emissárias, Vovó Mafalda, uma socióloga, e dona Hermides, jornalista, virem de Belo Horizonte a São Paulo, especialmente para me dar conselhos espirituais”.

Homem de gatilho fácil, amante das pistolas Brownning 9 milímetros e das Colts calibre 45, Correinha acredita em reencarnação. “Sei que tenho uma missão nessa vida e a cumpri sempre com determinação”.

 

Astorige Corrêa lançou o primeiro volume de suas memórias. Com 240 páginas, a obra se chama “Correinha, o Caçador de Bandidos, Líder do Verdadeiro Esquadrão da Morte”. Na contracapa, há uma foto de Astorige em seus vinte e poucos anos, calça de veludo, revólver calibre 38 na cintura, e um colete de couro que ele usava para pegar bandidos. O prefácio é de ninguém menos que o deputado Afanásio Jazadji. “Com sua têmpera de homem de sangue quente, nunca deixando de falar o que lhe vêm à cabeça, e sempre se colocando como policial em favor do bem, não fazendo acordo com delinquente, endinheirado ou não, agindo às vezes com extrema valentia, Correinha ajudou a promover s carreira de inúmeros delegados”.

Já em sua obra “Meu depoimento sobre o esquadrão da morte”, o ex-prefeito Helio Bicudo chama Astorige de “assassino” e prosélito da ditadura militar. Para Bicudo, Astorige era acobertado pelas autoridades militares para fazer a limpeza social do regime dos anos de chumbo.

Veja on line o livro de Correinha

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/correinha.html

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