Bolsonaro: a desumanização como política pública: por Antonius Block – Claudio Tognolli

Por Antonius Block

Engana-se terrivelmente aquele que pensa não haver um fundamento teórico politico na idéias apresentadas por Bolsonaro no âmbito de sua campanha presidencial. Diminuir e ridicularizar suas frases ou categoriza-ló como alguém vazio de um projeto político apenas reforça e alimenta a execução silenciosa de uma corrente ideológica que vem apresentando densidade crescente em nosso país, a Necropolitica, pensada e assim denominada por Achille Mbembe.

Bolsonaro não é apenas perigoso por acreditar no que fala, não é perigoso por colecionar ideias velhas e rasas, não é perigoso por ser uma caricatura mitológica típica da América Latina, o ditador sanguinário e tosco , nas palavras de García Márquez, Bolsonaro é perigoso por propor a troca da essência de um projeto político como “projeto de autonomia e a realização de acordo em uma coletividade mediante comunicação e reconhecimento” por um projeto de “instrumentalização generalizada da existência humana e destruição de corpos humanos”. Ele propõe a desumanização como política pública, remete sua visão de mundo liberal a um programa feudal ou colonial do país . Seu nacionalismo ou patriotismo de fachada representa um modelo politico Colônia-Metrópole, onde as colônias representam os guetos, as favelas, as quebradas, as zonas de menor renda no pais. Ali devem ser levadas ordem e disciplina.

Nessas colônias, ou guetos para bolsonaro, há fronteiras imaginárias habitadas por selvagens, onde o estado de exceção é justificado, direitos humanos são desconsiderados, garantias judiciais suspensas e a violência do Estado opera a serviço da civilização. O regime bolsonarista é o ab legibus solutus, “a margem da lei onde a paz assume uma guerra sem fim”.

Ele se baseia no estado de exceção como política pública, cuja base normativa é o direito de matar, um momento de emergência contra um inimigo ficcional. Não é apenas assustador incentivar crianças e adulto a atirar mas principalmente contra quem iremos atirar ? Qual inimigo é merecedor de nossa ira ? Os selvagens dos guetos? 

A racionalidade bolsonarista de vida passa pelo direito de eliminação do outro, outro esse que representa um “atentado contra a minha vida, como uma ameaça mortal ou perigo absoluto, cuja eliminação reforça meu potencial de vida e segurança”. Sua política clama falsamente por ordem mas revela o direito soberano de matar que não está sujeito a qualquer regra nas colônias, lugar o soberano pode matar a qualquer momento ou de qualquer maneira, é ausência absoluta de leis, fundamentada na relação de inimizade ou desobediência . Reconhecemos nos desumanizar em nome da humanização.

Não se engane, embora seja loucura, há certo método nela. Bolsonaro concretiza uma cultura feudal que encontra ressonância nos oligopólios econômicos brasileiros, que nada mais são que sua transformação ou mutuação ao longo da história, ele sintetiza as classes que não se sentem responsáveis pela escravidão e seus efeitos contínuos na sociedade, não se sentem responsáveis pela discriminação contra mulheres, negros, gays, que acreditam que esses grupos são resíduos tóxicos que impedem o desenvolvimento da grande metrópole e portanto devem ser devidamente despejados, tratados, reutilizados ou eliminados. Bolsonaro mantém viva e atual a tese foucaultiana que “o nazismo e stalinismo não tenham feito mais do que ampliar uma serie de mecanismos que já existiam nas formações sociais e políticas da Europa Ocidental” e portanto também no Brasil (subjugação do corpo, darwinismo social, teorias medicos-legais sobre hereditariedade, degeneração e raça), ele confessa ser não o idealizador mas o representante concreto, vivido e letal de um grupo conservador de caráter feudal constituído nas raizes do Brasil e defensor de politicas onde seus erros são minimizadas, suas verdades incontestáveis e seus inimigos eliminados, não por menos essa também é a definição de um estado de terror.

Bolsonaro é marxista no momento que comprova que “a violência é a parteira da história, onde todos os crimes e abominações perpetrados são em nome do ideal revolucionário e justificados em nome de benefícios futuros e do advento de uma nova ordem social”. Suas crenças pulam do viço a decrepitude, desconectadas da ordem mundial mas se baseiam no forte e atrasado conservadorismo brasileiro carente de elites e composto por castas. Sua visão jurídica promete criar o inferno de Dante em leis, mostra uma lógica perfeita, confirmando a reflexão de Dante “forse tu non pensavi ch’io löico fosso”, onde o demônio diz de si mesmo : talvez você não soubesse que sou um especialista em lógica”.


Sua proposta de política pública é a plenitude do biopoder, esse domínio da vida sobre o qual o poder estabeleceu o poder de matar.
Não podemos aceitar essa proposta como um projeto de nação, despotismo é uma questão moral e não numérica, é importante dar a Bolsonaro a importância que de fato tem, olhá-lo com a credibilidade de quem realmente representa e principalmente o que devemos extirpar do pais se quisermos podemos nos chamar verdadeiramente de Nação e fugir da Necropolitica de um louco que guia cegos.

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