Balanço RSF 2020: 50 jornalistas mortos, mais de dois terços assassinados em países em situação de paz | Claudio Tognolli
A Repórteres sem Fronteiras (RSF) publica a segunda parte do seu Balanço Anual de abusos cometidos contra jornalistas em todo o mundo. Em 2020, 50 jornalistas foram mortos. Enquanto o número de mortos em zonas de guerra continua diminuindo, cada vez mais assassinatos ocorrem em países em situação de paz. 

Entre 1o de janeiro e 15 de dezembro de 2020, a RSF registrou 50 jornalistas mortos no desempenho de suas funções. Número semelhante ao de 2019 (quando 53 jornalistas foram mortos), embora menos equipes tenham ido a campo por causa da pandemia de Covid-19.

Além disso, cresceu o número de jornalistas mortos nos chamados países “em situação de paz”. Em 2016, 58% das mortes se deram em zonas de conflito. Hoje, a proporção de jornalistas mortos em áreas dilaceradas pela guerra, como a Síria e o Iêmen, ou em países afetados por conflitos de baixa ou média intensidade, como Afeganistão e  Iraque, é de 32%.  Em outras palavras, 68% (mais de dois terços) dos jornalistas mortos estão em países em situação de paz, sobretudo no México (8 mortos), na Índia (4), no Paquistão (4), nas Filipinas (3) e em Honduras (3).

De todos os jornalistas mortos em 2020, 84% foram deliberadamente visados e eliminados, comparado a 63% em 2019. Alguns foram assassinados em condições particularmente bárbaras.

No México, o jornalista do diário El Mundo Julio Valdivia Rodríguez foi encontrado decapitado no estado de Veracruz. Seu colega Víctor Fernando Álvarez Chávez, editor-chefe do site de notícias local Punto x Punto Noticias, foi esquartejado na cidade de Acapulco, estado de Guerrero.

Na Índia, o jornalista do diário Rashtriya Swaroop, Rakesh Singh “Nirbhik”, foi queimado vivo depois de ser encharcado com um desinfetante para mãos altamente inflamável, à base de álcool, enquanto o jornalista Isravel Moses, correspondente de um canal de televisão de Tamil Nadu, foi morto a golpes de facão.

Já no Irã, o papel de carrasco coube ao Estado: o administrador do canal de Telegram Amadnews, Rouhollah Zam, condenado à morte após um julgamento injusto, foi executado por enforcamento. Mesmo nesse país, onde ainda se aplica a pena capital, há 30 anos nenhum jornalista era vítima deste castigo arcaico e bárbaro.

A violência mundial continua a golpear os jornalistas, lamenta o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire. Há quem pense que são vítimas dos riscos próprios da profissão, no entanto, cada vez mais jornalistas viram alvo de agressões quando investigam ou fazem reportagens sobre temas delicados. O que está sendo atacado é o direito à informação, que é um direito de todos

“.

Como nos anos anteriores, as coberturas mais perigosas são as investigações sobre casos de corrupção local e desvio de verbas públicas (10 mortos em 2020), e sobre a máfia e o crime organizado (4 mortos). A novidade de 2020 foram os 7 jornalistas mortos enquanto cobriam manifestações.

No Iraque, o modus operandi foi sempre o mesmo: homens armados não identificados atiram na cabeça de jornalistas durante manifestações. Assim morreram três repórteres, enquanto um quarto morreu no Curdistão, ao tentar escapar de confrontos entre polícia e manifestantes.

Na Nigéria, 2 jornalistas também foram vítimas do clima de violência no qual ocorrem os protestos que denunciam, em particular, a brutalidade de uma unidade policial encarregada da luta contra o crime. Na Colômbia, 1 jornalista de um veículo de comunicação comunitário foi morto a tiros enquanto cobria uma manifestação de comunidades indígenas contra a privatização de terras em sua região. Também nesse caso, a manifestação foi violentamente dispersada pela polícia, pelo exército e pelo batalhão de choque.

No Balanço Anual de 2020 de jornalistas presos, reféns e desaparecidos, publicado em 14 de dezembro, a RSF listou 387 jornalistas detidos por cumprir com a missão de informar, um número historicamente elevado. O ano de 2020 também foi caracterizado por aumentos de 35% no número de mulheres detidas arbitrariamente e de quatro vezes no número de prisões no início da propagação do coronavírus ao redor do mundo. Até hoje, ainda estão atrás das grades 14 jornalistas presos em conexão com sua cobertura da pandemia de Covid-19.

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