As novas contas do fraticídio da ditadura militar: por Hugo Studart | Claudio Tognolli

POR HUGO STUDART

1964-1985: O SALDO DO FRATRICÍDIO
Em três décadas, ocorram três esforços concentrados de inventariar os mortos e desaparecidos da ditadura militar. A cada nova contagem apresentada pelos partidos e grupos de esquerda, os militares reagiram apresentando novas listagens das vítimas do “terrorismo”, ao qual tratarei abaixo por “vítimas das esquerdas”:

1º INVENTÁRIO
Projeto Brasil: Nunca Mais (1985)
301 vítimas da repressão militar
99 vítimas das esquerdas

2º INVENTÁRIO
Direito à Memória e à Verdade (2007)
357 vítimas da repressão militar
117 vítimas das esquerdas

3º INVENTÁRIO
Comissão Nacional da Verdade (2014)
434 vítimas da repressão militar
127 vítimas da esquerda

OBSERVAÇÕES

1) Avalio que tanto a contagem das esquerdas quanto a dos militares contenham imprecisões e demandem atualizações.

2) Há exageros gritantes nas contas da Comissão Nacional da Verdade, CNV. Me parece que o inventário de 2007, promovido pelo Secretário de Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi, seja o mais próximo da realidade, ainda assim com algumas ausências e outros exageros, como a inclusão do Frei Chico, que suicidou-se em 1981, em Paris, quase três anos depois da Anistia e da volta dos exilados; ou de uma menina de 17 anos que se entregou em paixão a um militante de esquerda, ele caiu na clandestinidade logo depois e ela entrou em depressão profunda até falecer no hospital.

3) Lembro que o livro “Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia”, de minha autoria, fundamentado na pesquisa de cerca de 15 mil páginas de documentos, desvela novas mort es (ou sobrevivências) de guerrilheiros, de militares e de camponeses que altera essas contas. Assim, a pesquisa aponta que, dos 59 guerrilheiros desaparecidos na guerrilha rural, 29 tombaram em confronto na mata, 22 foram executados, um foi “justiçado” pelos próprios companheiros e sete fizeram delação premiada e sobreviveram com novas identidades. São os chamados “mortos vivos”. Também informa sobre pelo menos 10 moradores da região mortos pelos militares e cinco pelos guerrilheiros. Por fim, 10 soldados mortos pelos guerrilheiros.

4) Dessa forma, deve-se tirar oito guerrilheiros da conta dos militares e acrescentar 10 camponeses. Igualmente, deve-se acrescentar um companheiro, cinco camponeses e 10 militares na conta das esquerdas.

5) Em síntese, o saldo fratricídio mais próximo à realidade seria:
358 vítimas dos militares
143 vítimas das organizações da esquerda
Total: cerca de 500 vítimas dois dois lados da luta
2,5 vítimas dos militares para casa 1,0 das esquerdas

6) Se o Exército abrir os chamados “mortos-vivos” da guerrilha urbana, ou seja, cerca de 30 “desaparecidos” que teriam feito delação premiada e trocado de identidade (um segredo de Polichinelo que não interessa a nenhum dos lados mexer), essa conta pode chegar a cerca de 320 x 145 (em números arredondados), um saldo de 465 vítimas (de ambos os lados), ou ou 22 vítimas por ano daquela loucura ideológica ocorrida entre 1964 e 1985.

 

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