Amazônia em risco: política ambiental do governo ameaça estratégia internacional das empresas | Claudio Tognolli

O Globo

SÃO PAULO – Desmatamento, queimadas, reservas indígenas ameaçadas e a falta de respostas adequadas a esses problemas da controversa política ambiental do governo de Jair Bolsonaro estão deixando exportadoras e multinacionais brasileiras na defensiva em suas estratégias de negócios no exterior.

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Executivos relatam pressão nunca vista no exterior em torno das questões ambientais brasileiras. A nova diplomacia do país, que emprega forte conteúdo ideológico contra parceiros comerciais importantes do país, agrava o quadro. E esta não é uma dor de cabeça apenas para o agronegócio.

Indústrias com reconhecimento global por práticas sustentáveis passaram a ser indagadas por clientes e investidores lá fora, tendo que gastar energia extra para explicar que nem todos no Brasil têm práticas que põem em risco a preservação da Amazônia.

— Nunca fomos tão questionados sobre nossa responsabilidade ambiental, em todos os idiomas, em todos os fóruns. Como temos empresas globais (negócios adquiridos no exterior), nossos porta-vozes nessas companhias em diversos países precisam responder sobre o que está acontecendo na Amazônia — conta João Paulo Ferreira, presidente da Natura&Co América Latina, holding que une Natura, Avon, The Body Shop e Aesop. — O nosso negócio ainda não sofreu, mas a gente não quer perder oportunidades.

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‘Mapinha’ para estrangeiro

A gigante brasileira de cosméticos, que faturou R$ 14,4 bilhões no ano passado, deve parte considerável de seu sucesso a uma estratégia amazônica, que envolveu desenvolver produtos a partir da floresta, com a preservação de dois milhões de hectares.

Há um mês, além de se comprometer a neutralizar as emissões de carbono, prometeu trabalhar para zerar o desmatamento da Amazônia até 2025.

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A Suzano, que se tornou uma das maiores produtoras e exportadoras de celulose do mundo em 96 anos de atuação, também sente o impacto negativo da piora da imagem ambiental do país lá fora. Embora até o momento não veja perda de clientes, a empresa vê esse risco com o tema ambiental podendo ser usado por países protecionistas, interessados em barrar a entrada da celulose brasileira, altamente competitiva. Em 2019, a Suzano faturou R$ 26 bilhões vendendo para 80 países.

— Em todas as nossas apresentações temos um mapinha que mostra onde é a Amazônia e onde atuamos, longe da floresta — diz Marcelo Bacci, diretor executivo de Finanças da Suzano, que afirma que o manejo florestal do setor de celulose no país capta carbono em vez de emitir desmatando.

Área flagrada em processo de desmatamento em Altamira (PA) Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Área flagrada em processo de desmatamento em Altamira (PA) Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

O executivo avalia a atual crise de imagem do país por causa dos problemas ambientais como comparável apenas ao calote da dívida externa na década de 1980. Para ele, o que poderia ser um instrumento positivo de influência internacional está se transformando em um entrave:

— A gente não deveria estar na defensiva. Somos um país com uma legislação ambiental muito boa, as empresas em geral têm práticas muito boas e os problemas são exceções, provocados por criminosos. Em vez de usarmos o meio ambiente como um diferencial a nosso favor, perdemos uma tremenda oportunidade.

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No agronegócio o problema é turbinado. Para a  Marfrig, que envia seus produtos de proteína animal a quase cem países e faturou R$ 50 bilhões no ano passado, a necessidade de provar conformidade de sua carne é diária. Dos 16 mil pequenos fornecedores da Amazônia, a empresa bloqueou 3.500 deles por alguma irregularidade.

Neste ano, começou a usar uma nova tecnologia de mitigação de risco: a sobreposição de mapas de fornecedores e suas pastagens com os de áreas de mata nativa e as de maior risco de desmatamento, para monitorar se podem estar contribuindo para danos ao Cerrado e à Amazônia.

— Com essas coordenadas geográficas, conseguimos fazer a rastreabilidade das fazendas de suprimentos — diz Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade da empresa. — É possível, com novos modelos de crédito, e participação do poder público oferecendo técnicas, melhorar a produtividade desse pequeno produtor, para que produza gado sem derrubar árvores. É possível uma pecuária que não desmate.

Além da atuação internacional e uma posição no topo dos maiores grupos econômicos do país, Natura, Suzano e Marfrig têm outro ponto em comum: seus executivos estão no grupo de 50 líderes de grandes companhias em diferentes setores que enviou uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão, cobrando do governo o combate às queimadas ilegais na Amazônia.

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Eles se reuniram na sexta-feira, quando Mourão prometeu — ainda sem prazos — fixar metas semestrais de redução de desmatamento, queimadas e grilagem. São problemas agravados pela agenda de desregulamentação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, segundo ambientalistas.

Cautela redobrada

A carta tem um tom colaborativo, já que os empresários também sugerem ações, mas serviu de alerta para que o governo seja mais assertivo em sua política ambiental. O consultor Welber Barral, da BMJ Consultores, diz que a preocupação das empresas que atuam no exterior faz sentido:

— Até supermercados no Reino Unido têm se recusado a vender carne brasileira sob o argumento de que a produção está destruindo a Amazônia.

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Embora pequenos exportadores, como os de frutas, vejam novas barreiras lá fora, não há boicotes significativos, por exemplo. Para Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral, empresas têm um papel para evitar danos maiores:

— Não adianta nota de repúdio. O setor produtivo precisa pressionar o governo, que já demonstrou que é sensível à opinião pública. Do contrário ele vai atender apenas sua base mais radical, que não se interessa pelo meio ambiente.

Thomaz Favaro, diretor da consultoria Global Risk Analysis, afirma que os negócios no país estão mudando por causa deste dano de imagem. As investigações prévias de negócios por investidores ficou mais cautelosa, detalhista, mais atenta a riscos ambientais, diz:

— Há um risco reputacional. Nenhuma empresa quer fechar um negócio que pode virar um escândalo ambiental.

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