A vida na "zona vermelha" em quarentena na Itália | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

“Não damos mais apertos de mão ou beijos na bochecha”, conta Marco. “Para os italianos, isso é bastante rude”, brinca. Sua risada soa um pouco abafada pela máscara de proteção que ele usa desde domingo, em meio ao surto de coronavírus no país. “Eles cobram dez euros na farmácia por isso. É escandaloso”, reclama o jovem de Vittadone, um pequeno vilarejo na região da Lombardia.

Máscaras protetoras e desinfetantes para as mãos estão quase esgotados em toda a região, aumentando os preços. Poucos moradores usam máscara como Marco. Muitos acham um exagero; afinal, eles ainda não moram na “zona vermelha” que começa logo atrás do vilarejo.

A zona vermelha na Lombardia, no norte da Itália, engloba dez cidades colocadas em quarentena por causa das infecções confirmadas de Covid-19, deixando dezenas de milhares de pessoas isoladas.

Autoridades estabeleceram que ninguém deve entrar ou sair dessa zona. Isso é assegurado por dois Carabinieri – agentes da polícia militar italiana –, que vigiam a rua do vilarejo a partir de seu Alfa Romeo preto. Mas agricultores em tratores, ciclistas e moradores indo ao supermercado ou à farmácia da cidadezinha próxima têm permissão para entrar e sair.

“É preciso uma boa explicação, e então funciona. Não podem confinar as pessoas completamente”, afirma Enzo, que também vive em Vittadone e já esteve na zona vermelha para fazer compras. Para ele, são muito drásticas as medidas tomadas pelas autoridades locais e pelo governo italiano. “Por que as fronteiras da França ou da Áustria devem ser bloqueadas? O coronavírus já está aqui”, diz o morador.

Guiseppe e Enzo, moradores de Vittadone, no norte da Itália“Não podem confinar as pessoas completamente”, afirma Enzo (à esq.), ao lado de Giuseppe

Enzo também não entende por que a catedral e a ópera em Milão tiveram que ser fechadas. Afinal, a grande maioria das mais de 320 infecções registradas no país europeu ocorreu ali no interior da Lombardia e na região vizinha do Vêneto.

Surpreso com o rápido crescimento das taxas de infecção na Itália, o primeiro-ministro Guiseppe Conte busca ser particularmente cuidadoso, mas sem criar pânico, como enfatizou várias vezes publicamente.

“Sim, mas cancelar o Carnaval e o futebol na Itália é realmente muito ruim”, comenta Enzo, sob o calor dos raios solares que anunciam a primavera nas ruas de Vittadone.

A escola de Vittadone está fechada, assim como as lojas e também o bar Renzo, o único onde se pode tomar um café ao meio-dia. As pessoas permanecem em casa e aguardam. O aposentado Giuseppe diz que encara o vírus com respeito, não com medo. Ele diz ter ficado chocado que, no domingo, até a igreja de seu vilarejo foi fechada, e a missa, cancelada.

“Tivemos um funeral. As pessoas não puderam assistir a nenhuma cerimônia fúnebre, tendo que levar o caixão direto para o cemitério. Isso é ruim”, diz Giuseppe. “Agora, Vittadone está mais silenciosa que o normal, e ninguém sabe quanto tempo isso vai durar.”

Busca pelo foco de infecção

Na distante Roma, o governo tenta desvendar a origem das infecções. Autoridades de saúde estão bastante certas de que encontraram o “paciente zero” em Codogno, uma pequena cidade não distante de Vittadone. Consta que um homem de 38 anos contraiu o vírus e foi internado num hospital desse vilarejo, onde supostamente infectou muitas outras pessoas.

Medição de temperatura no aeroporto de MilãoMedição de temperatura no aeroporto de Milão

Segundo a imprensa, quase todos os casos na Lombardia podem ser rastreados a partir dele. O governo tenta agora localizar todas as pessoas que tiveram contato com o “paciente zero”, a fim de conter a cadeia de infecções.

Um funcionário do hospital de Codogno, que só pode falar por telefone devido à quarentena, reclamou de condições caóticas. “Por aqui reina o pânico, porque ninguém sabe como proceder e como devemos lidar com nossas emergências”, criticou o funcionário.

Ainda não está claro como o “paciente zero” se infectou. Ele não esteve na China, e recebeu apenas a visita de um amigo que retornou do país asiático e cujo exame para o Covid-19 resultou negativo.

Na falta de máscara, óculos de mergulho

Por volta do meio-dia, Enzo olha pensativo para Vittadone. Seu restaurante de costume fica na “zona vermelha”. É por isso que ele quer experimentar uma trattoria num vilarejo mais “limpo” mais ao norte.

Um adolescente usando óculos de mergulho se junta ao grupo de moradores que conversa na rua com a DW. Questionado sobre a utilidade do equipamento, ele diz não ter dinheiro para uma máscara adequada e que os óculos de mergulho devem dar a proteção suficiente. Além disso, a máscara de snorkel, que cobre todo o rosto, parece “descolada”, afirma o jovem.

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